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Capítulo 1 - Ogro, Rabugento e Deliciosamente Indesejável

Autor: Aldinha B.
last update Fecha de publicación: 2026-02-05 09:05:38

Rafael Ventura

—Esse cavalo tá manco de novo, porra! — gritei, arrancando o chapéu da cabeça e passando a mão pelo cabelo suado. - Já falei mil vezes que esse pasto novo não tá pronto. É surdo, seu imbecil?

O peão gaguejou alguma coisa que não me importei em ouvir. Me afastei bufando, chutei a cerca mal feita no caminho e continuei andando pelo terreiro da fazenda, com a camisa grudando nas costas de tanto calor.

Sol a pino.

Terra vermelha no couro.

Mosca no rabo.

E noiva enchendo o saco no W******P.

Melissa.

A princesinha da cidade.

Maquiada até pra vir ver bezerro nascer.

Só reclamava.

Do calor, do cheiro, da comida, da cama, dos bichos, de mim.

"Você vai lembrar que temos um jantar hoje, né? Com o prefeito. Vista algo decente, Rafael."

Essa foi a última mensagem dela.

"Vista algo decente."

Se eu tivesse um real pra cada vez que ela tenta me transformar em boneco da Barbie, já tinha comprado outra fazenda.

Mas aí, talvez, eu tivesse que dividir com ela.

E isso nunca vai acontecer.

— Rafael! —chamou Jorge, o capataz. —A tal arquiteta do galpão novo mandou o projeto.

— Que se foda a arquiteta. Manda ela vir medir o chão com o salto agulha que ela gosta — resmunguei.

Jorge riu, acostumado com meu mau humor.

Todo mundo aqui já sabe que eu sou ogro.

E sinceramente? Que bom. Evita que se aproximem.

Porque quanto mais perto alguém chega... mais fácil é de ser traído.

Já tentei confiar uma vez.

Me ferrei bonito.

Agora? Agora eu cuido do que é meu.

Sozinho.

Na força.

Na marra.

Parei na varanda da sede da fazenda, arranquei a camisa e a joguei sobre a cadeira de madeira.

Peguei uma garrafa d'água gelada no freezer, virei na boca, o suor escorrendo pelo peito e a cabeça fervendo.

E como se não bastasse a vida já ser um inferno, ainda tem um maldito jantar de gala em Belo Horizonte amanhã à noite.

Evento de negócios, presença obrigatória, terno, gravata e... Melissa.

— Rafael - ouvi a voz da minha mãe no rádio comunicador da fazenda. — Tua noiva ligou. Disse que se você não for amanhã, vai terminar o noivado.

Peguei o rádio.

Suspirei.

— Que comece a festa, então.

Desliguei.

Ela quer terminar? Que termine.

Eu não corro atrás de mulher.

Eu mando.

E quem quiser ficar... que aguente o tranco.

Agora, tudo que eu queria era uma cerveja gelada, um banho e uma desculpa pra sumir por uns dias.

(***)

A paz durou exatos dez minutos.

Mal tinha dado o primeiro gole na cerveja quando a voz do Jorge veio estourando no rádio:

— Doutor Rafael! A vaca da manga tá parindo e tá dando trabalho, tá virada, não consegue levantar, o bezerro tá entalado!

Puta que pariu.

Soltei um palavrão, larguei a cerveja na varanda e saí com o rádio na mão.

— Ninguém consegue resolver isso, não? — perguntei, já descendo os degraus com raiva.

— A gente tentou, mas ela tá agitada demais! Vai acabar perdendo o bezerro!

Corri até o celeiro, peguei as luvas de couro e entrei no jipe sujo que mais parecia um enterro sobre rodas. No caminho, um galo cruzou na minha frente. Quase atropelei. Maldito bicho.

Chegando no curral da manga, vi a vaca caída de lado, suando, urrando de dor.

— Me tragam corda, água e óleo, agora! - gritei.

Os peões correram. Um deles quase tropeçou no próprio pé.

Me ajoelhei na lama, afastei os homens que mais atrapalhavam do que ajudavam, e enfiei as mãos.

Literalmente.

— Calma, menina... calma... - murmurei, puxando com cuidado. — Vai dar certo, segura firme...

Ela berrou, se contorceu. Eu puxei. Mais uma vez. E então...

CHUAAAP!

— Aí, caralho! - gritei quando o bezerro escorregou pra fora, ensanguentado e molhado.

A vaca deitou exausta. O bezerro respirava.

— Tá vivo! - gritou um dos peões, emocionado.

— Claro que tá, porra. Aqui não tem amador, não - resmunguei, tirando as luvas.

Mas mal tinha tempo de comemorar. Jorge se aproximou correndo:

— Patrão... tem mais merda vindo.

— O que foi agora, Jorge?

— A cerca do pasto dos potros caiu. E sumiram duas carroças, aquelas novinhas.

Meus olhos saltaram.

— COMO ASSIM, SUMIRAM?!

— A gente acha que alguém entrou de madrugada e levou...

— MAS ESSA FAZENDA VIROU CASA DA MÃE JOANA AGORA, É?! - gritei, chutando um balde. - Tô cercado de incompetente, porra!

Subi no jipe de novo, batendo a porta com força.

Não bastava o calor dos infernos, a noiva enchendo o saco, o evento estúpido de amanhã... agora tinha ladrão fazendo feira na minha terra.

Fui direto pro local da cerca caída. Os fios estavam arrebentados, marcas de pneu no chão, pegadas na lama.

Tinha sido gente da região. Alguém que conhecia os horários da fazenda.

Peguei o rádio.

— Jorge, liga pra polícia. E manda dobrar a ronda hoje à noite. Quero dois homens armados circulando a propriedade. Se entrar outro filho da puta aqui, é bala no lombo.

E outra coisa:

— Liga pra Melissa. Diz que não vou ao jantar.

— Mas patrão, ela vai surtar...

— Melhor surtar agora do que depois. Tô cheio de problema pra perder tempo com mulher mimada.

Desliguei o rádio.

Respirei fundo.

E pela primeira vez naquele dia, desejei estar longe dali.

Bem longe.

(***)

Voltei pra sede da fazenda já de noite, fedendo a merda, suor e raiva.

Tirei as botas na porta, joguei o chapéu em cima da mesa e fui direto pro banheiro.

A água gelada caiu como pedra no meu corpo cansado.

Mas nem isso aliviava a tensão.

Lavei o rosto, os braços, o cheiro do curral.

Mas a raiva... essa parecia enraizada.

Como mato ruim.

Melissa continuava mandando mensagem.

Corações, carinhas bravas, áudios com voz de choro. Ignorei todos.

Não era amor. Era posse.

E eu já fui possuído uma vez.

Nunca mais.

Vesti uma calça de moletom velha, fui até a cozinha e esquentei o que Dona Dalva tinha deixado no fogão: arroz, carne de panela e mandioca frita.

Comi no silêncio. Só os grilos e os sapos fazendo serenata do lado de fora.

Depois lavei o prato, tomei um gole de cachaça e subi pro quarto.

O relógio marcava quase meia-noite.

Joguei o corpo na cama como se fosse um saco de pedra.

O colchão afundou, os lençóis estavam limpos... mas o pensamento sujo.

A fazenda tá um caos.

A cerca precisa ser consertada.

O ladrão precisa ser identificado.

E essa porra de jantar... que se foda.

Olhei pro teto.

Suspirei.

— Só queria uma noite de paz... ou pelo menos uma que acabasse com um gemido.

De preferência, dentro de alguma boate, com uma mulher que não soubesse meu nome, nem onde me encontrar depois.

Só uma noite.

Só pra esvaziar o copo... e o corpo.

Mas o universo é filho da puta.

E ouve esse tipo de pensamento com atenção demais.

Mal sabia eu que esse desejo ia aparecer...

Com salto alto, olhos tristes, corpo de pecado...

E a língua mais afiada que faca de vaqueiro.

E ia me foder por completo.

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Comentarios (2)
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Daiana Silveira
Estou adorando a história.
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Ariel Nayara
Coitado tá lascado, kkkk
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