Mag-log inRafael Ventura O corredor estéril do hospital parecia encolher a cada segundo, esmagando a minha paciência e a minha sanidade contra aquelas paredes de tom branco-gelo. Eu andava de um lado para o outro de forma mecânica e impaciente, as botas pesadas batendo rítmicamente contra o piso de vinil a cada volta que eu dava. O maxilar estava travado com tanta força que os dentes doessem, e a respiração saía curta, quente e desregulada pelo meu nariz. — Que inferno... que inferno que esses idiotas não conseguem descobrir o que a minha filha tem! — esbravejei para o nada, desferindo um chute frustrado contra a lixeira de metal da recepção, que tilintou e tombou de lado. — Droga! A Lorena, que estava sentada numa das cadeiras plásticas de espera com o rosto pálido e os olhos vermelhos de tanto chorar, levantou-se num salto ao ver o meu estado de nervos à flor da pele. Ela deu dois passos rápidos na minha direção, tocou o meu braço com uma delicadeza infinita e, com a voz embargada, ten
Lorena Azevedo A luz fraca da madrugada ainda banhava os campos da Fazenda Ventura quando terminei de fechar o zíper da minha blusa de lã em frente ao espelho do quarto. Encaixei os brincos nas orelhas, passei os dedos pelos cabelos e suspirei fundo, encarando o meu próprio reflexo. Por mais que o Rafael tentasse manter a compostura, disfarçar os olhares perdidos pela janela e fingir que as coisas na região estavam sob controle, eu não era cega. Eu sabia, com a precisão de quem conhecia cada batida do coração do meu homem, que ele estava me escondendo alguma coisa pesada. A tensão nos ombros dele, o maxilar travado quando o telefone tocava em horários impróprios e as saídas repentinas deixavam claro que havia uma tempestade se formando nos bastidores. Apesar da curiosidade e da angústia natural, decidi não pressioná-lo. Se ele não havia me contado tudo até aquele momento, tinha os seus motivos para me poupar. O meu medo maior, no entanto, não era sobre negócios ou cercas de
Eduardo Soares O motor utilitário de tração integral cortou as últimas curvas da serra mineira, vencendo a neblina densa que cobria o asfalto esburacado da rodovia secundária. Quando avistei a placa enferrujada indicando os limites daquela comarca esquecida por Deus, o meu estômago deu um nó de repulsa pura. Era a mesma cidade da qual eu havia jurado não voltar nunca mais assim que saísse daquela casa de campo com as escrituras das terras e as contas bancárias do velho Ernesto sob o meu controle absoluto. Eu havia trocado aquele buraco poeirento pelo luxo estéril de Belo Horizonte, pelos jantares de gravata borboleta e pelo poder corporativo do agronegócio de grande porte. Tinha jurado para mim mesmo que o passado estaria sepultado para sempre sob toneladas de dinheiro e silêncio. No entanto, ali estava eu, dirigindo pelas ruas desertas de paralelepípedos irregulares sob a luz opaca dos lampiões amarelados da praça central, trazido de volta à força pelo pior motivo possível: um
Eduardo Soares O voo de retorno de São Paulo para Belo Horizonte foi o trajeto mais longo e sufocante de toda a minha vida. Sentado na poltrona do jato particular, com o maxilar travado e os punhos fechados a ponto de os nós dos dedos ficarem completamente brancos, eu sentia o sangue ferver nas minhas veias como lava vulcânica. Cada segundo que passava sem que eu tivesse o controle absoluto da situação fazia a minha sanidade escorrer por entre os dedos. Assim que a aeronave tocou a pista do aeroporto da capital mineira, mal esperei o comissário abrir a porta da cabine. Desci as escotilhas a passos largos, com o paletó jogado por cima do braço e a gravata afrouxada no pescoço. O meu motorista particular já aguardava na área de embarque restrita com o sedã executivo blindado preto. — Para a delegacia regional. Agora! — ordenei com uma rispidez animalesca assim que abri a porta e me joguei no banco traseiro, fazendo o motorista engatar a marcha às pressas e arrancar cantando pneu
Eduardo SoaresO ronco abafado dos motores da aeronave particular que me transportava de Belo Horizonte para o aeroporto de Congonhas, em São Paulo, parecia o som de uma engrenagem pesada moendo os meus pensamentos. Eu estava sentado na poltrona de couro reclinável do jato, com um exemplar de um boletim de agronegócio aberto no colo, mas os meus olhos não conseguiam fixar nenhuma letra daquelas estatísticas de mercado.A viagem havia sido marcada às pressas, motivada por uma oportunidade de ouro nos negócios da pecuária leiteira de alta performance que eu mantinha no complexo da Fazenda Santa Soares. Um dos maiores criadores e melhoristas genéticos de gado da raça Holandesa pura de origem, situado na região de Pirassununga, no interior paulista, estava liquidando parte do seu plantel de elite devido a uma reestruturação de sociedade. Eram matrizes jovens, com lactação comprovada acima de quarenta litros diários, portadoras de campeonatos em feiras agropecuárias do Sudeste. Para que
Rafael Ventura— Rápido... — o sussurro frágil de dona Beatriz ecoou pelo quarto escuro, carregado de um pavor antigo, mas misturado agora com uma centelha de esperança que ela havia perdido havia anos.— O tempo esgotou, Rafael. Os capangas lá fora não vão ficar desacordados por muito tempo, e se mais alguém aparecer, nós estamos mortos — alertou o Bruno, mantendo a lanterna apontada para a porta, com a arma firmemente em punho.Não hesitei nem por um segundo. Aproximei-me da cabeceira da cama hospitalar e comecei a tatear as fivelas de couro pesado que prendiam os pulsos esquerdos e direitos da senhora. As travas eram antigas, duras, emperradas pelo tempo e pela umidade do quarto, mas a urgência que queimava no meu peito me deu uma força bruta descomunal.— Calma, dona Beatriz. A senhora vai sair daqui agora mesmo. Eu tô tirando isso — falei, puxando com toda a força até ouvir o estalo mecânico da fivela cedendo.Libertei o pulso direito, depois o esquerdo. Os braços da velha







