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Capítulo 2

Author: Cocojam
A porta da mansão se fechou suavemente atrás de mim.

Na sala, o enorme quadro a óleo ainda pendia no centro da parede.

Nele, estávamos nos abraçando com força. Rhydian esfregava o nariz na minha testa, os olhos cheios de devoção.

Era quando éramos mais apaixonados um pelo outro.

Fiquei parada diante do quadro, sentindo como se estivesse olhando para a história de dois estranhos.

Eu tinha dezoito anos. Os anciãos do meu clã me empurraram na frente de algum Alfa velho que fedia a uísque barato.

— Este casamento nos trará os recursos de que precisamos urgentemente, Calista — disse um ancião, a voz fria. — É o seu dever.

O Alfa velho estendeu uma mão áspera para tocar meu rosto. Recuei.

— Me recuso.

— Você não tem escolha — disse o ancião com escárnio. — Para a filha de um clã menor, casar com um Alfa é uma bênção.

Na festa de noivado, me aprisionaram num vestido branco e apertado.

Todo mundo estava comemorando. Menos eu.

— Corre.

Uma voz sussurrou no meu ouvido. Era Rhydian.

Ele agarrou minha mão, os olhos ardendo com a fúria de um Alfa jovem.

— Vem comigo.

O ancião rugiu atrás de nós:

— Rhydian! Se você a levar, é melhor que a proteja pelo resto da vida!

Ele olhou para trás, os olhos cinza-azulados flamejando com a possessividade absoluta de um Alfa.

— Então vou protegê-la pelo resto da vida!

Fugimos da festa. Fugimos da família que me tratava como mercadoria.

Ele usou todo o dinheiro de prêmios que já havia ganho para alugar o apartamento mais barato da cidade.

Um quartinho minúsculo, com menos de dez metros quadrados, onde a água quente era racionada.

Entrou para a força de segurança do clã, pegando os serviços mais perigosos, voltando tarde da noite coberto de sangue.

Tudo para acumular mérito suficiente para me ter oficialmente ao seu lado.

Nos nossos piores momentos, mal tínhamos dinheiro para o básico.

Na virada do ano, dividimos uma pizza barata.

— Quando eu me tornar Alfa — sussurrou ele, me abraçando —, vou te dar o mundo.

Naquela época, ele só tinha olhos pra mim.

E ele conseguiu.

Tornou-se o Alfa, líder do clã.

E minha habilidade com números transformou o tesouro do clã num império.

Nos mudamos para a propriedade do Alfa. Eu estava grávida do nosso primeiro filhote.

Mas foi aí que tudo desmoronou.

Numa cúpula da Aliança dos Alfas, um rival o drogou. Ele foi parar na cama com uma Ômega desconhecida. Isla.

Empurrei a porta da suíte dele… e vi o impensável.

Quando ele voltou a si, caiu de joelhos na minha frente. Os olhos transtornados por um pânico e um arrependimento que eu nunca havia visto nele.

Apertou minhas mãos, insistindo que havia sido armação. Jurou que me amava. Que amava nosso filhote por vir.

— Calista, por favor. Só mais uma chance. — Ele pressionou a testa no dorso da minha mão, a voz um sussurro em frangalhos. — Juro que nunca mais vou vê-la. Vou consertar isso. Vou consertar tudo.

Vi a agonia dele. Senti o arrependimento cru pulsar pelo nosso vínculo de companheiros. Então escolhi acreditar nele.

Íamos ter um filhote.

Mas justamente quando eu estava mais vulnerável, Isla se enfiou de volta em nossas vidas através de um ato de automutilação.

Uma noite, já tarde, uma dor aguda me rasgou o abdômen. Rhydian atendeu um telefonema e desapareceu.

Um nó de angústia se formou no meu estômago. Estendi a consciência pelo nosso vínculo, procurando por ele.

E o encontrei. Numa clínica particular na periferia da cidade.

Quando cheguei lá, o encontrei ao lado da cama dela. Isla, com os pulsos envoltos em gazes grossas, chorava baixinho nos seus braços.

— Rhydian, me desculpa, não queria te incomodar — soluçava ela. — Mas eu estava sozinha… Estava com tanto medo… Não consegui me controlar…

E o meu Alfa, o meu companheiro, sussurrou de volta:

— Shh, não fica com medo. Estou aqui.

Naquele instante, uma cãibra violenta me torceu o estômago e minha visão escureceu com manchas negras. Me agarrei à moldura da porta em busca de apoio, os olhos presos nele, incrédula.

— Rhydian — minha voz tremeu. — E a sua promessa?

A cor sumiu do rosto dele quando me viu. Deu um passo em minha direção, mas Isla se agarrou à camisa dele, recusando-se a soltar.

O mundo girou. A dor, a traição… foi demais. Tudo ficou preto enquanto eu desabava.

Sangue manchou meu vestido.

Perdi o nosso filhote.

E naquele momento, me despedacei.

Em casa, arrastei o que sobrou de mim até o nosso quarto e tranquei a porta. Depois peguei a adaga ritual de prata.

Meu alvo não era uma artéria, mas a marca de companheiros na nuca — o símbolo do nosso vínculo eterno.

Queria destruí-la, arrancar à força o elo entre nós da maneira mais dolorosa possível.

O veneno da prata inundou minhas veias. Uma agonia ardente me consumiu, e eu sentia o nosso vínculo sendo corrompido, dilacerado.

Através da consciência que esmaecia, ouvi a porta ser arrombada.

— Calista!

A voz de Rhydian era um grito cru, partido.

Ele tremia, o rosto pálido pelo reflexo da dor que percorreu nosso vínculo.

Me levou correndo para o hospital particular do clã.

— Você enlouqueceu?! — ele vociferou do lado de fora da sala de emergência. — Ela ameaça se matar pra chamar atenção, e você faz a mesma palhaçada patética? Calista, você ficou louca?! Para de fazer cena! Isso não é você! Meu Deus, estou tão decepcionado com você!

Agarrou meus ombros, os olhos vermelhos de tanto chorar, e fez uma promessa.

— A gente vai resolver isso. Juro que a partir de agora vai ser só você!

Foi nesse dia que tudo mudou. O mesmo dia em que o Conselho dos Alfas me encontrou e me entregou um dossiê empoeirado.

— Calista, o Conselho reexaminou a lista de baixas da "Guerra da Lua de Sangue" de trinta anos atrás… Dois dos heróis lendários dessa lista parecem ter sido seus pais biológicos.

Segurei o dossiê com os dedos gelados.

Depois de desligar o telefone com Jaxon, me vi atraída para a janela.

Lá no jardim, Rhydian segurava a mão de Isla. Lágrimas escorriam pelo rosto dela enquanto ela lhe implorava alguma coisa.

Eu não ouvia as palavras, mas via tudo: o lampejo de impaciência nos olhos dele, rapidamente dissimulado quando suavizou o tom, afagando-a como se ela fosse um filhote mal-humorado.

A voz era baixa, mas li os lábios dele com tanta clareza quanto se estivesse gritando para mim:

"A Calista não está bem. Preciso ficar com ela. Isla, fica quietinha pra mim. Vai pra casa. Vou até você assim que puder."

Ele lhe deu um tapinha reconfortante nas costas, e ela finalmente foi embora, com os soluços se dissipando ao longe.

Sem beijo. Sem abraço. Mas aquele gesto gentil e paciente me gelou mais do que qualquer demonstração aberta de paixão.

Naquele momento, finalmente entendi.

Cuidar de mim — sua companheira em luto, destroçada — era uma obrigação.

Consolar Isla era um desejo.

Deitada naquela cama de hospital, no sétimo dia, ficou claro.

Eu precisava ir embora de Rhydian. Precisava romper esse vínculo com minhas próprias mãos.
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