LOGINDulce Maite — Sevilha, Espanha
Acordo um pouco confusa, com a mente enevoada e uma dor de cabeça incômoda. Minha primeira reação é achar que tudo não passou de um pesadelo ruim: sonhei que estava no meio da rua e que homens vestidos de preto haviam me sequestrado. — Que bobagem... Por que eu seria sequestrada? — rio de mim mesma, tentando espantar o mal-estar. Tento me levantar da cama, mas meu corpo parece não responder. Quando olho para baixo, sinto meu coração parar por um segundo e arregalo os olhos, o pânico subindo pela garganta. Eu estava firmemente amarrada por uma corda grossa. Fico completamente apavorada, principalmente ao olhar ao redor e perceber que aquele lugar não é o meu quarto e, obviamente, não é o meu apartamento. As paredes são frias, o ambiente é estranho. — Eu fui mesmo sequestrada? — murmuro, a ficha finalmente caindo. — Socorro! Socorro, alguém... — grito, me desesperando por completo enquanto tento puxar as amarras. Antes que eu possa clamar uma terceira vez, a porta do quarto se abre abruptamente. Por ela passa um rapaz loiro, vestindo roupas escuras, que ostenta um sorriso estranhamente calmo no rosto. — Oi amiga, fica de boa aí. O chefe já está chegando para bater um papo com você — diz ele, parando bem na minha frente com as mãos nos bolsos. Jura que ele disse isso? Tipo, eu fui sequestrada, estou presa a uma cadeira e ele quer que eu fique calma diante de uma situação como essa? — Eu não fiz nada, por que me sequestraram? Por favor, menino, eu não tenho dinheiro e ninguém para pagar o meu resgate, me deixe ir, por favor! — imploro, e as lágrimas começam a rolar pelo meu rosto. Ele pisca os olhos, parecendo genuinamente surpreso com o meu choro. — Não chora não. A gente cometeu um erro, na verdade não era para você estar aqui, confundimos a pessoa... Mas a culpa também é sua, quem mandou ser parecida com a moça lá? — argumenta, tentando passar a responsabilidade para mim com a maior naturalidade do mundo. Inacreditável. Eles cometem o crime, erram o alvo, e a culpada sou eu por causa dos meus traços? Seria uma piada engraçada, se não fosse absolutamente trágica. — Já que o erro foi de vocês, por que não me solta e me deixa ir? Prometo que não conto para ninguém sobre o que aconteceu — peço, balançando a cabeça para afastar os fios de cabelo que caíam sobre os meus olhos. Os olhos dele se estreitam em uma expressão divertida. — O que aconteceu? Você estava dopada, amiga, não viu nada não, só o meu rostinho bonito — comenta, rindo da minha tentativa de barganha. Solto uma pequena risada involuntária. Parecia que, para ele, aquilo era a coisa mais comum do mundo, como se acontecesse todos os dias. — Hum... Então o que vai acontecer comigo? Vocês vão me matar ou vender para o tráfico humano? — pergunto, tentando conter o tremor na voz. Ele ri alto do meu questionamento, caminhando até a parte de trás da cadeira. Suas mãos seguram a corda grossa que envolve meu corpo. — Você é engraçada, nós não trabalhamos com esse tipo de coisa — fala, desatando os nós com agilidade. — Vou te soltar! Ele afasta as cordas e eu finalmente posso mexer os braços, massageando os pulsos que começavam a marcar. — Se você tentar fugir, iremos atrás de você e trazê-la de volta pelos cabelos — avisa ele. Seu tom, de repente, carrega uma ameaça real. Engulo em seco, abandonando qualquer ideia impulsiva. — Não vou. Pode me dar um copo d'água e também me deixar ir ao banheiro? — peço, olhando ao redor. Ele aponta com o queixo para uma porta de madeira no lado esquerdo do quarto. — Vai lá, de boa. Vou descer rapidinho e pegar sua água. Prefere com gás ou sem? Quer comer também? Temos uns lanchinhos — ele simplesmente não para de falar. A situação era totalmente surreal. Eu estava presa por uma organização criminosa e o meu sequestrador agia como um anfitrião de hotel. — Qual é o seu nome? — a curiosidade fala mais alto. — Kiliam, mas te deixo me chamar de Liam — ele pisca para mim de forma descontraída antes de passar pela porta e me deixar sozinha no cômodo. Aproveito o momento para explorar o quarto. O espaço é enorme, bem decorado e fica no segundo andar. Caminho até a janela e olho discretamente para fora: a vista dá de frente para um lindo e bem cuidado jardim. O lugar é, provavelmente, uma mansão isolada. Os muros da propriedade são extremamente altos, vigiados e sem qualquer chance de fuga. — Melhor esperar o tal do chefe mesmo — suspiro frustrada, cruzando os braços e me afastando do vidro. Depois de ir ao banheiro, volto para o quarto e me sento na beirada da cama, aguardando o retorno de Liam. Estou distraída, roendo as unhas de puro nervosismo, quando passos pesados e firmes começam a ecoar pelo corredor. Fico apreensiva imediatamente; aquele ritmo de caminhar definitivamente não parecia ser o de Liam. Era algo muito mais imponente. Olho fixamente para a porta. Um homem alto, vestido com roupas pretas impecáveis, passa pelo batente e para, me encarando. Longos segundos se passam em um silêncio sufocante, onde sinto o peso do seu olhar analítico me escanear por inteira. — Oi, você é o tal do chefe que o Liam falou? Por favor, não me mate! — disparo as palavras rapidamente, a voz trêmula. A testa dele se franze em uma linha dura. Ele ignora o meu apelo e caminha calmamente até mim, parando a poucos passos de distância. — Você não é a Érika! — afirma, a voz fria e cortante. O encaro, completamente confusa. Como assim? A Érika conhecia aquele tipo de gente? O que ela tinha feito? — Não sou, me chamo Dulce Maite. Mas o que vocês querem com essa moça? — pergunto, ficando na defensiva. Eu nunca entregaria a minha melhor amiga para criminosos. O olhar dele é cirúrgico, calculista. — Não a conhece? — questiona ele. Nego com a cabeça, tentando sustentar a mentira. — Engraçado, você me parece muito com a mulher nesta foto ao lado dela. Zian vira a tela do tablet que segurava em minha direção. No visor, brilha uma foto nítida minha ao lado de Érika, tirada no campus da faculdade. Sinto meu rosto esquentar e abro um sorriso amarelo, sem saber onde enfiar a cara. — Hum... Bom, você também não especificou qual Érika. Tipo, no mundo existem mil mulheres com esse nome — dou a minha melhor desculpa de atriz, embora saiba que não colou. O homem solta um leve sopro de ar, quase divertido com a minha audácia, e ergue uma sobrancelha. — Certo, senhorita Dulce Maite, então me diga: o que eu faço com você agora? — Me deixe ir para casa, juro que não vou contar a ninguém sobre você — peço, levantando-me da cama em um impulso e fazendo o sinal de juramento com os dedos. — Mesmo? E o que você sabe sobre mim? — ele rebate, cruzando os braços. Caramba, outra vez. Esses homens realmente são difíceis de convencer. O que eu saberia sobre ele se nem o nome dele eu tinha? — Então apenas me deixe ir — peço novamente, quase em um sussurro implorante. Ele nega com a cabeça, os olhos escuros fixos nos meus, irredutíveis. — Negativo. Você é uma peça no meu xadrez que eu não sei onde jogar, descartá-la agora é inviável — comenta, ditando o meu destino com a frieza de quem move um peão no tabuleiro.Dulce Maite — Sevilha, EspanhaAquilo era realmente sério? Jonas e Zian estavam mesmo sentados à mesa da minha cozinha, tomando café da manhã juntos como se fossem velhos conhecidos?— Ok... Alguém me explica o que diabos está acontecendo aqui? — pergunto, cruzando os braços na entrada do cômodo. — Não é possível que vocês tenham se tornado melhores amigos da noite para o dia.Eu já havia me trocado — no caso, colocado uma roupa de verdade —, já que minutos atrás eu estava apenas enrolada em uma toalha na frente dos dois. Optei por um vestido leve e confortável para ir à faculdade.— Eu não sou amigo dele nem em outra vida, Dulce — Jonas responde de imediato, dando um gole na xícara de café. — Mas eu o encontrei lá embaixo na portaria, parado feito um tonto sem saber se subia ou não. Resolvi dar uma forcinha para o coitado. Afinal de contas, ele é o seu namorado... Todo errado e torto, mas ainda assim seu namorado. — Jonas não perde a oportunidade de dar uma alfinetada direta no Zian.
Dulce Maite — Sevilha, EspanhaNa manhã seguinte, acordo sentindo um peso incomum afundando o colchão ao meu lado.— Bom dia, Zian... — murmuro, a voz ainda rouca de sono, virando-me devagar.Sento-me na cama, esfregando os olhos com as costas das mãos.Paciência... Peraí! O quê?!— Zian?! O que você está fazendo na minha cama, homem?! — exclamo, arregalando os olhos de choque e me encolhendo contra a cabeceira. — E como diabos você conseguiu entrar no meu apartamento?!Ele apenas sorri de canto, tranquilo, com os braços cruzados sobre o peito. Será que eu ainda estou dormindo e isso é algum tipo de pesadelo bizarro? Dou um belisco forte no meu próprio braço para testar a teoria.— Ai! É... Parece que eu não estou sonhando mesmo — murmuro, acariciando o local dolorido.Zian se aproxima com a maior naturalidade do mundo e se senta mais perto, passando um dos seus braços fortes pela minha cintura para me puxar contra ele. Olhando de fora, parecíamos até um casal de namorados extremament
Dulce Maite — Sevilha, Espanha Uso toda a minha força para me afastar do peito de Zian. O jeito incoerente e impulsivo como ele agia comigo deixava a minha cabeça numa completa bagunça. — Eu não sou sua e nem quero ser! — digo, respirando fundo e ajeitando a alça do meu vestido florido. — Lembre-se muito bem: você é apenas o cara que me sequestrou. Um relacionamento de verdade entre nós dois? Isso é totalmente impossível, Zian! Você mesmo fez questão de me dizer que eu sou uma peça no seu tabuleiro de xadrez que você não consegue decifrar... — tento continuar, mas sou interrompida. As mãos grandes e quentes dele seguram o meu rosto com firmeza, impedindo-me de virar a cara. — Eu sei muito bem o que eu disse, Dulce. E, de fato, nada mudou desde então — ele responde, a voz soando rouca e grave a poucos centímetros da minha boca. — Eu ainda não sei exatamente o que você representa para mim... A única certeza que eu tenho é de que eu não quero e não vou permitir que você se afaste de
Dulce Maite — Sevilha, Espanha Uma, duas, três, quatro, cinco, seis... E a lista não parava de subir. Eram várias as ligações perdidas registradas na tela. Pela insistência doentia, parecia até que o mundo estava prestes a acabar; o cara me ligava feito um absoluto louco. O meu celular estava no modo silencioso — o único motivo real pelo qual não atendi de imediato —, mas isso de forma alguma significava que eu atenderia se visse a tela piscar. Aliás, eu nem sequer sabia como diabos ele tinha conseguido o meu número de telefone. — Para você... É o seu querido — Liam diz, a voz carregada de pânico retido. Ele segura o próprio aparelho celular bem afastado do ouvido, como se o telefone estivesse prestes a explodir, e o empurra na minha direção. Eu nem precisava perguntar quem era, não é? Óbvio que era o Zian. — Diga para ele que eu estou ocupada agora e que depois eu retorno a ligação — respondo com ar de desdém, dando uma colherada no meu sorvete. Obviamente, esse "depois"
Dulce Maite — Sevilha, Espanha O ambiente da sorveteria no centro de Sevilha estava calmo e agradável. O vento morno da tarde entrava pelas janelas, e por alguns minutos eu quase consegui esquecer toda a confusão da mansão enquanto saboreava meu sorvete. Eu estava sentada à mesa com o Liam, rindo de alguma palhaçada dele, quando uma garota jovem se aproxima de nós, hesitante. — Oi! Desculpa atrapalhar... Eu posso pegar o seu número? — ela pergunta, com um sorriso simpático. Continuo calada, limpando o canto da boca com o guardanapo. Presumi imediatamente que ela estivesse falando com o Liam, já que ele tinha aquele porte físico e a postura de quem atrai olhares por onde passa. — Eu não fico com crianças, garota — Liam responde de imediato, inclinando-se para trás com um ar desinteressado. A menina solta uma risada curta e balança a cabeça. — Não é o seu número que eu quero... É o dela, moça! — ela diz, virando o rosto diretamente para mim. Pisco os olhos, paralisada com
Dulce Maite — Sevilha, Espanha Burra! Burra! Burra! A palavra ecoava sem trégua pela minha cabeça, fazendo minhas bochechas queimarem de pura vergonha. Eu havia ultrapassado todos os limites do bom senso. Aquela definitivamente não era eu. Eu não sou assim: audaciosa, vulgar e sem vergonha. — Dulce, o que você está fazendo com a sua vida?! — pergunto para o meu próprio reflexo no espelho do banheiro. Minha aparência estava um caos completo. Os cabelos bagunçados, as bochechas coradas e os lábios ainda inchados pelo beijo dele. Talvez a ideia estúpida de seduzir o Zian para fazê-lo me enjoar não tenha sido tão brilhante assim. E talvez o que eu realmente devesse fazer, em vez de bancar a mulher fatal, era simplesmente fugir na primeira oportunidade que surgisse. — Sim... A minha melhor opção ainda é fugir dessa loucura! — digo para mim mesma, tentando resgatar um resto de sensatez. Solto um suspiro pesado, sentindo o cansaço mental esmagar meus ombros. Eu só queria ir para







