FAZER LOGINDulce Maite — Sevilha, Espanha
Não consigo respirar. Por mais que eu tente com todas as minhas forças, parece que estou fazendo um esforço gigantesco em vão. O ar simplesmente se recusa a entrar nos meus pulmões. — Zia... — tento chamá-lo, mas minha voz quase não passa de um sussurro. — Eu... não... consigo... respirar... O pânico que está subindo dentro de mim é irreal. A última vez que me encontrei em uma crise de asma devastadora como essa eu tinha apenas oito anos. Foi logo após receber a pior notícia da minha vida: a de que meus pais haviam morrido em um acidente de carro que capotou na estrada. Nada havia sobrado daquele dia. Nem mesmo o bolo de aniversário que eles tinham ido buscar de manhã cedinho. Era para ser o meu dia de festa, mas o meu verdadeiro presente de aniversário tinham sido as cinzas dos meus pais. Reviver aquela sensação de sufocamento agora, tantos anos depois, é como ser engolida novamente por aquele luto antigo. — O estado dela está piorando. Temos que levá-la para a emergência. Se agravar mais, ela pode chegar a ir para a UTI — a moça que se chamava Sônia diz, a voz carregada de urgência médica. Os olhos de Zian se fixam em mim. Ele parece incerto por alguns segundos, as engrenagens de sua mente trabalhando rápido. Consigo ver o conflito em seu rosto: Pelo olhar dele, parecia travar uma batalha silenciosa. Se eu fosse para um hospital, poderia contar tudo. Se permanecesse ali, talvez não sobrevivesse. — Faça o possível para salvá-la. Se precisar levá-la para o hospital, então nós vamos levar. Chame uma ambulância — a voz dele ecoa pelo quarto, firme e decidida, por fim. Sônia se levanta já com o celular em mãos para discar o número da emergência, mas, exatamente nesse momento, Félix ressurge na porta, correndo e segurando um pequeno objeto de plástico. — Achei! — diz ele, completamente ofegante pelo esforço. — Dá aqui — Zian toma a bombinha da mão dele com agilidade. Ele se aproxima rapidamente da cama. Percebendo a movimentação, tento me ajeitar como posso, forçando meu corpo a ficar em uma posição mais ereta, apoiando as costas na cabeceira para ajudar meus pulmões a buscarem o ar. — Calma. Tente inspirar devagar. — Zian diz, a voz estranhamente calma enquanto posiciona o medicamento e me ajuda a usar a bombinha. Ele pressiona o spray. Sinto o jato gelado atingir a minha garganta, mas o alívio que eu esperava simplesmente não vem. Continuo sentindo uma falta de ar desesperadora, o peito subindo e descendo com força, emitindo aquele chiado agudo. Parece que a bombinha não está fazendo efeito. Meus brônquios continuam tão fechados que cada tentativa de respirar é um esforço desesperador. Olho para Zian com os olhos arregalados de pânico, e vejo a testa dele franzir ao perceber que eu ainda estou sufocando. — Sônia, dê uma olhada nela! Acho que a bombinha não funcionou. O que fazemos agora? — Zian pergunta, a voz firme vacilando pela primeira vez, revelando uma pitada de puro nervosismo. O som do meu peito tentando sugar o oxigênio parece um assobio distante. Minha vista começa a falhar de verdade, as bordas do quarto sendo engolidas por manchas escuras e trêmulas. Minhas mãos perdem completamente o calor, ficando geladas como gelo, e sinto uma dormência estranha começar na ponta dos meus dedos e subir rapidamente pelos meus lábios. Eu estava perdendo os sentidos outra vez. — Precisamos levá-la ao hospital agora! — Sônia dita a ordem enquanto fecha a maleta com um estalo abrupto. A urgência na sua voz é palpável, desfazendo qualquer pingo de dúvida. Meu Deus, por favor... Eu não quero morrer! Não aqui, não assim! — o pensamento grita na minha mente, mas nenhum som ganha vida na minha garganta travada. — Então vamos! — Zian ruge. Sem hesitar nem por um segundo, ele avança na minha direção e me pega no colo de uma só vez, me tirando do colchão. Sinto o calor da pele dele contra a minha, o contraste brutal com o frio que congelava o meu corpo. Ele não parecia se importar com o fato de estar apenas de toalha; a prioridade dele, naquele segundo, era me manter viva. A movimentação é rápida e barulhenta. Zian caminha a passos largos em direção à saída do quarto, mas, bem na porta, Liam finalmente reaparece, congelando no lugar ao ver o chefe carregando meu corpo sem forças. — Para onde vocês estão indo?! — Liam pergunta, os olhos arregalados, alternando o olhar entre o Zian de toalha e o meu rosto pálido. — Dulce?! Dulce! A voz de Liam começa a ecoar, distorcida, como se ele estivesse gritando debaixo d'água. Tento focar no teto do corredor, nas luzes que passam rápido, mas o esforço é grande demais. Minha cabeça pende para o lado, o chiado no meu peito cessa de repente quando meus pulmões desistem de lutar, e tudo escurece por completo. Eu apago nos braços de Zian.Dulce Maite — Sevilha, EspanhaO silêncio no interior do carro volta a se instalar, denso e desconfortável. Fico completamente sem graça com a provocação absurda de Zian sobre a terapia. Alguns minutos depois, os grandes portões de ferro fundido se abrem e o veículo avança pela alameda principal, estacionando em frente à imponência gélida da mansão.Olho pela janela, e um aperto estranho surge no meu peito. Será que a Zuria e o Math estão bem? Será que notaram a minha ausência?Só se passou um dia desde que saí daqui, mas a verdade eufórica e assustadora é que eu já estava sentindo a falta deles.Dulce, o que você tem na cabeça?!, minha consciência me dá um estalo imediato, me repreendendo sem piedade. Isso é uma loucura completa! Como você pode sentir falta do ambiente do seu próprio cativeiro? Ao invés do Zian precisar de um psiquiatra, quem precisa de internação é você, sua boba!Minha mente travava uma batalha. De fato, não dava para negar: era uma insensatez absoluta o que eu est
Dulce Maite — Sevilha, EspanhaSem outra opção viável, Érika e eu fomos forçadas a seguir Zian, perdendo a primeira aula da manhã na faculdade.No carro, permanecemos em um silêncio tenso, esperando por alguma explicação sobre para onde estávamos indo. Mas Zian parecia absolutamente determinado a nos manter no escuro. Por alguns minutos longos e sufocantes, apenas o som abafado do motor preenchia o interior do veículo.Até que perco totalmente a paciência.— Então você não vai falar nada mesmo? — pergunto diretamente, olhando para a nuca dele. — Por que me trouxe junto se o seu negócio é com a Érika?Érika dá um tapinha leve no meu braço, me encarando.— Ei! Você não disse ainda há pouco que estaria sempre ao meu lado? Como é que agora quer pular do barco assim, na primeira oportunidade? — questiona ela, em tom de brincadeira.Decido acompanhar o drama.— Olha para a cara do seu ex-carrasco pelo retrovisor e me diz: você acha mesmo que eu vou arriscar a minha preciosa vida por você? A
Dulce Maite — Sevilha, EspanhaNo dia seguinte, eu já estava tentando me forçar a voltar à rotina.Caminho apressada pelo corredor da faculdade quando, de repente, encontro Érika vindo na direção oposta. Assim que ela me vê, sua expressão muda instantaneamente e ela fica pálida como um papel. Era quase como se ela esperasse que eu nunca mais voltasse a pisar ali.Aproximo-me para falar com ela, mas, para minha surpresa, ela simplesmente dá meia-volta e começa a andar rápido na direção contrária.— Ei, Érika! Não reconhece mais a sua melhor amiga?! — grito no meio do corredor.Ela para abruptamente.Eu sei que o meu sequestro tinha alguma relação direta com ela. Afinal, as ordens do Félix eram para que a Érika fosse a sequestrada naquela noite na garagem. Mas eu não conseguia culpá-la por isso. Eu não sabia o que estava acontecendo de errado na vida dela, muito menos por que aquela situação terrível tinha chegado àquele ponto extremo.— Eu... — ela tenta falar, mas as palavras morrem n
Zian Matias — Sevilha, EspanhaDou um soco violento contra o volante, tomado por uma raiva cega que há muito tempo eu não sentia.Dulce havia me expulsado de sua casa.E o pior de tudo: ela tinha total razão ao fazer isso.Nós não éramos mais sequestrador e prisioneira. Eu não tinha absolutamente nenhum argumento plausível para continuar mantendo-a sob o meu controle ou ao alcance dos meus olhos.Isso deveria ser simples. Eu deveria apenas fechar essa página e focar nos meus negócios.Então por que diabos eu não conseguia simplesmente deixá-la ir?Liam me encara, genuinamente assustado no banco ao lado. Em doze anos — todo o tempo em que nos conhecíamos e trabalhávamos juntos —, ele nunca havia me visto perder o controle daquela maneira por motivo algum.— Que bicho te mordeu? Ou será que foi a docinho? — pergunta, obviamente aproveitando a primeira oportunidade para me provocar.Lanço um olhar mortal na direção dele.— Cala a boca e dirige. Estou estressado e quero chegar em casa o m
Dulce Maite — Sevilha, Espanha— Bom, então vou embora — diz Jonas, levantando-se do sofá.Eu o acompanho até a entrada do apartamento. Paramos ali por alguns segundos, encarando um ao outro.— Até amanhã na igreja — digo, quebrando o silêncio que havia ficado entre nós.Jonas me puxa para um abraço apertado e protetor.— É tão bom ter você de volta, minha pequena — ele sussurra perto da minha orelha.Retribuo o abraço com força. Realmente era maravilhoso estar de volta. Principalmente por estar em seus braços de novo.— Eu sou realmente inesquecível, né? Confessa, você estava morrendo de saudades de mim! — brinco, afastando o rosto para olhar para ele.Jonas ri, balançando a cabeça.— Boba... — ele me dá um peteleco carinhoso na ponta do nariz. — Agora eu tenho que ir mesmo.Ele acena com a mão e se vira para caminhar pelo corredor.— Tchau, bebê! — grito, acenando da porta.Bebê era um apelido carinhoso que eu costumava usar para provocar e me referir a ele nos momentos em que estáv
Dulce Maite — Sevilha, EspanhaMinha curiosidade estava a mil. Queria desesperadamente saber qual seria o próximo passo de Zian depois daquela mensagem misteriosa que fez sua expressão mudar tão drasticamente.— Dulce, você ainda não me respondeu! — Jonas faz questão de me lembrar, chamando minha atenção de volta para ele.Engulo a ansiedade e abro um sorriso o mais natural possível.— Estou bem, Jonas! Veja bem, não há absolutamente nada de errado comigo — falo, levantando-me do sofá e dando uma voltinha rápida para ele ver. — Então pare de se preocupar tanto. Se o Zian não for o cara certo, você será a primeira pessoa para quem eu irei correndo e chorando — brinco, tentando suavizar o clima denso da sala.Eu não podia permitir que o Jonas se aprofundasse nessa situação com o Zian. Ele não sabia com quem estava lidando. O único caminho seguro para proteger a vida dele era entrar temporariamente no jogo de mentiras do meu sequestrador.— Você é a mulher da minha vida, Dulce. A única.







