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POV: Clara Martins
“A verdade não se esconde nas sombras. Ela se esconde em quem controla a luz.”
A chuva caía fina sobre Ravenhold, desenhando reflexos dourados e tremidos no asfalto molhado. Lá do vigésimo andar da sede do jornal Ravenhold Herald, a cidade parecia bonita demais para esconder tanta coisa podre. Eu segurava uma caneca de café frio entre os dedos enquanto observava os carros cruzando lentamente as avenidas abaixo. O relógio na parede marcava quase duas da manhã, e eu ainda estava presa naquele maldito escritório.
Três pessoas desapareceram em menos de dois meses. Sem ligação aparente, sem suspeitos e sem corpos. A polícia chamava de coincidência, mas eu chamava de mentira. Suspirei profundamente, afastando algumas mechas rebeldes do cabelo do rosto antes de voltar a encarar o mural improvisado de cortiça preso na parede principal. Fotos, recortes de jornal, nomes escritos e linhas vermelhas de barbante ligavam os rostos daqueles perfeitos desconhecidos. Tudo levava exatamente para o mesmo lugar: o Baile de Inverno da Fundação Belmont.
Luxuoso, exclusivo e intocável. A elite de Ravenhold adorava fingir que aquele evento anual era apenas uma noite beneficente cheia de vestidos caros e discursos hipócritas sobre solidariedade. Eu não acreditava nisso nem por um único segundo. Dinheiro demais sempre escondia sujeira demais. Peguei a foto de Miguel Azevedo, de trinta e quatro anos. Ele trabalhava como segurança terceirizado e acabou desaparecido três dias depois do baile do ano anterior. A polícia logo alegou fuga voluntária, mas a família insistia que não. E eu acreditava de verdade neles.
Ao lado da foto de Miguel estava fixada a ficha de Beatriz Mello, uma garçonete temporária de vinte e dois anos desaparecida há duas semanas. Sua última localização conhecida foi a Fundação Belmont.
— Isso não pode ser coincidência — murmurei para as paredes vazias, falando comigo mesma em meio ao silêncio sepulcral da sala.
Meu celular vibrou sobre a mesa, quebrando o transe do meu raciocínio lógico.
"Você ainda tá no jornal?"
A mensagem de texto de Camila apareceu na tela e eu sorri de leve, pois ela me conhecia bem demais após tantos anos de convivência.
"Tô terminando."
Eu respondi de forma rápida, mas a tréplica da minha amiga chegou de forma praticamente instantânea na tela iluminada.
"Mentira. Vai dormir."
Soltei uma pequena risada cansada e apoiei a cabeça no encosto da cadeira por alguns segundos. Dormir parecia uma ideia maravilhosa, mas totalmente impossível no momento. Não enquanto aquilo continuasse incompleto.
Olhei novamente pela janela. Ravenhold brilhava lá fora como uma cidade perfeita, elegante, rica e viva. Mas eu sentia o cheiro da podridão escondida sob aquela beleza. Talvez fosse por isso que eu me tornei jornalista. Enquanto as outras pessoas aceitavam respostas fáceis, eu precisava cavar mais fundo. Precisava entender, mesmo quando a verdade machucava, e, principalmente, quando machucava.
Voltei para o notebook e comecei a revisar a lista de convidados confirmados para o baile daquele ano. Políticos, empresários e famílias tradicionais. Então, um nome me chamou a atenção: Ethan Vance. Franzi a testa imediatamente. Os Vance eram conhecidos em Ravenhold justamente porque ninguém sabia quase nada sobre eles. Ricos, extremamente discretos e estranhamente ausentes da vida pública.
Cliquei no perfil dele na busca. Pouquíssimas informações: empresário, investidor, solteiro. Nenhuma rede social, nenhuma entrevista, nenhum escândalo. Nada. O que era estranho demais para alguém tão rico na era digital.
— Você é misterioso demais para o meu gosto, Ethan Vance — sussurrei para mim mesma, estreitando os olhos diante do monitor.
Algo naquele nome me causou um desconforto estranho, como uma sensação persistente no fundo da mente. Peguei meu caderno e anotei a caneta: “Observar Ethan Vance durante o baile.” Meu celular vibrou novamente, mas dessa vez era uma ligação. Eu atendi.
— Clara? Você ainda tá aí? — questionou minha amiga do outro lado da linha, com a voz carregada de preocupação.
— Eu já tô indo embora, Cami, relaxa — menti descaradamente, ajeitando os papéis na mesa.
— São quase duas da manhã, garota! — repreendeu Camila, em um tom de censura carinhosa que eu conhecia bem.
— O jornalismo investigativo não dorme com hora marcada — argumentei com um tom determinado, defendendo minha obsessão pelas pistas.
— Pelo visto você também não, aparentemente — rebateu Camila com um suspiro repreensivo antes de continuar. — Falando sério, Clara, você precisa descansar.
— Mas eu tô muito perto de descobrir alguma coisa grande, Cami — insisti, encostando o aparelho na orelha enquanto analisava o mural de cortiça.
— Você sempre fala exatamente isso antes de se meter em alguma encrenca federal — lembrou ela, conhecendo meu histórico de riscos.
— Mas encrenca faz parte da minha profissão, você sabe muito bem — justifiquei com um sorriso de lado.
Camila suspirou profundamente do outro lado da linha, e quando voltou a falar, adotou um tom consideravelmente mais sério do que o habitual, o que me fez endireitar a postura na cadeira.
— Só toma cuidado de verdade com essa fundação, Clara. Gente poderosa demais costuma esconder coisas piores ainda.
Olhei novamente para o mural na parede, focando nas fotos, nos desaparecidos e nas perguntas que continuavam sem nenhuma resposta oficial.
— E isso por acaso deveria me deixar mais tranquila, Cami? — indaguei, sentindo um arrepio sutil na espinha.
Camila soltou uma risada baixa e totalmente desprovida de humor antes de me dar o veredito.
— Não. Deveria fazer você pensar duas vezes antes de entrar naquele baile sozinha e sem proteção.
Mas eu já tinha me decidido e não voltaria atrás na minha investigação. Entraria naquele salão de festas da elite nem que precisasse mentir para metade da cidade ou falsificar credenciais para conseguir um convite.
— Eu vou ficar bem, relaxa — garanti de forma firme.
— Essa frase nunca termina bem em filmes de suspense, Clara — alertou ela com um tom sombrio.
— Ainda bem que isso aqui não é um filme. Até amanhã, Cami — finalizei, desligando a chamada.
Depois de desligar, fiquei alguns segundos olhando meu reflexo no vidro da janela. Eu parecia destruída pelo cansaço: olheiras leves, cabelo preso de qualquer jeito e uma expressão tensa. O glamour do jornalismo investigativo definitivamente era propaganda enganosa.
A redação inteira estava silenciosa agora. Só restavam o som distante da chuva forte e o zumbido baixo das luzes do prédio. Então, ouvi um estalo no corredor. Meu corpo inteiro ficou rígido e tenso. Virei imediatamente na direção do corredor escuro do lado de fora da sala.
— Tem alguém aí? É o segurança? — gritei para o corredor escuro, mas nenhuma resposta veio da recepção vazia.
Nenhuma resposta veio da recepção. Provavelmente era algum guarda noturno, ou pelo menos era isso que eu queria forçar a minha mente a acreditar. Levantei devagar da cadeira e caminhei até a porta aberta. As luzes automáticas do corredor haviam apagado fazia alguns minutos, deixando tudo mergulhado numa escuridão estranha e silenciosa demais.
Foi então que eu vi. Uma sombra atravessou o final do corredor principal. Era rápida, alta e impossivelmente silenciosa para o tamanho dela. Meu estômago gelou instantaneamente.
— Ei! Para aí! — gritei para a sombra, correndo na direção do vão da porta.
Nada de resposta. Dei mais alguns passos rápidos para fora da sala, mas o corredor já estava completamente vazio. Mas o ar pareceu totalmente diferente agora: mais pesado, mais frio. Uma sensação desconfortável de arrepio percorreu minha nuca, exatamente como se alguém estivesse me observando na penumbra. Respirei fundo e tentei afastar a paranoia da cabeça. Eu estava exausta, só isso. Precisava dormir. Precisava ir para casa urgentemente.
Voltei rapidamente para a sala, recolhi minha bolsa, guardei o notebook e peguei a câmera profissional. Então, percebi algo estranho que me chamou a atenção no mural. Uma das fotografias havia caído no chão: a foto de Miguel Azevedo. Me abaixo lentamente para pegá-la do carpete e congelei no mesmo instante. No verso da fotografia, havia uma frase escrita à mão com uma tinta preta fresca. Uma frase ameaçadora que definitivamente não estava ali antes.
“Pare de procurar.”
Meu coração disparou violentamente contra as costelas. Virei imediatamente em direção ao corredor escuro e vazio, com a respiração curta e os dedos gelados de pavor. Porque, naquele instante, eu tive absoluta certeza de uma coisa: alguém esteve dentro daquela sala enquanto eu estava distraída ao telefone. E talvez essa pessoa ainda estivesse na escuridão, me observando.
POV: Ethan Vance“Algumas portas foram seladas para impedir a entrada. Outras, para garantir que aquilo que existe do outro lado jamais consiga sair.”As sete colunas negras atravessavam o céu como feridas abertas. Por alguns segundos, ninguém se moveu, nem mesmo Kaos. O primeiro selo da Cripta Lunar acabou de ser quebrado. As palavras de Aedan continuavam ecoando na minha cabeça enquanto eu observava a fumaça escura se espalhar acima da Fortaleza da Lua.— Quantos selos existem? — perguntei.Aedan não desviou os olhos da montanha.— Sete.Claro. Sempre sete.— E o que acontece quando todos forem quebrados?Ele finalmente me encarou.— Nós descobrimos aquilo que os Guardiões morreram tentando manter preso.Kaos rosnou dentro da minha mente."Resposta ruim."Concordei em silêncio.— Damien! — chamei.Meu Delta apareceu imediatamente.— Alfa.— Situação.— Cinco feridos. Nenhuma baixa entre os nossos. A Lua Escarlate perdeu dois guerreiros e tem quatro feridos. Os animais corrompidos re
POV: Clara Martins“Algumas respostas estão enterradas tão fundo que é preciso cavar através do próprio sangue para alcançá-las.”Meu coração disparou. Imagens atravessaram minha mente. Uma escadaria, Pedras brancas, sangue. Uma porta gigantesca marcada por sete luas. E minhas mãos. Não. Não eram minhas mãos. Eram as mãos daquela mulher. A mesma mulher que havia morrido dentro da fortaleza. Ela segurava a coroa negra. Sangue escorria pelos seus dedos."Abra a cripta."— NÃO!A energia explodiu do meu corpo. Dessa vez não foi uma barreira. Foi uma onda. Luz prateada atravessou a estrada em todas as direções. Os monstros foram arremessados para trás como se uma força invisível tivesse atingido cada um deles simultaneamente. Guerreiros protegeram os rostos. Árvores estremeceram. Vidros dos utilitários racharam.E então veio o silêncio. Caí de joelhos.— Clara!Ethan voltou à forma humana antes mesmo de chegar até mim. Ele me segurou pelos braços.— Olhe para mim.Tentei respirar.— Eu es
POV: Clara Martins“Existem monstros que caçam pelo cheiro do sangue. Os piores reconhecem aquilo que você ainda não sabe que é.”— Guardiã.A palavra saiu da boca daquela criatura e atravessou meu corpo como gelo. Por alguns segundos, esqueci completamente da floresta, dos guerreiros, da Fortaleza da Lua queimando atrás das montanhas e até mesmo das dezenas de uivos que haviam cercado a estrada. Só conseguia olhar para aquele animal parado diante de nós.Aquilo não era um lobo. Eu já tinha visto lobos verdadeiros naquela noite. Tinha visto Luke se transformar, tinha convivido com os guerreiros da Lua Prateada e assistido aos integrantes da Lua Escarlate assumirem suas formas animais. Mesmo quando enormes, assustadores e sobrenaturais, ainda havia alguma coisa viva neles. Na criatura diante de mim não havia nada. Nenhum brilho nos olhos porque, para começar, ela sequer possuía olhos. A pele estava rasgada em diversos pontos, revelando ossos escurecidos e uma substância negra que se mo
POV: Ethan Vance“Existem lembranças que não despertam para contar o passado, mas para impedir que ele se repita.”O brilho prateado desapareceu dos olhos de Clara, mas a sensação provocada por ele permaneceu presa dentro do meu peito. Kaos se movimentava inquieto nas profundezas da minha mente. Suas garras invisíveis arranhavam as barreiras que eu mantinha erguidas para não perder o controle diante de todos."Ela está despertando."A certeza na voz dele me incomodava."Despertando o quê?"Meu Lycan não respondeu.Clara continuava apoiada contra mim, respirando com dificuldade, enquanto minha tia, Selene se aproximava com uma cautela que eu nunca havia visto nela. Minha tia não observava apenas o rosto da minha companheira. Seus olhos prateados percorriam cada detalhe: a respiração descompassada, os dedos trêmulos, a mão pressionada sobre o coração.— Clara, preciso que você olhe para mim — pediu Selene.Ela demorou alguns segundos para obedecer.— Eu estou olhando.— Não tente lutar
POV: Ethan Vance“Há verdades que não chegam como respostas. Chegam como sentenças.”Por alguns segundos, eu não consegui respirar. A frase ainda ecoava dentro da minha cabeça, pesada demais para ser apenas uma voz. A Filha da Lua finalmente retornou do abismo para reivindicar a Coroa de Ártemis no mundo mortal.Olhei para Clara. Ela permanecia ao meu lado, com os olhos verdes esmeralda arregalados e os dedos presos na parte rasgada da minha camisa. Seu rosto havia perdido a cor. O medo que atravessou nosso vínculo veio tão forte que senti como se fosse meu. Não era apenas medo dos espíritos. Era medo de si mesma.Avancei meio passo e me coloquei entre ela e aquelas centenas de guerreiros ajoelhados, mesmo sabendo que nenhum deles havia demonstrado intenção de atacá-la. Kaos continuava imóvel dentro da minha consciência. Silencioso. Aquilo me inquietava mais do que qualquer rosnado."Fale comigo."Meu Lycan demorou a responder."Eles a reconheceram.""Eu também percebi.""Não, Ethan."
O silêncio voltou a dominar o nosso grupo. Clara aproximou-se lentamente de onde eu estava, olhando de um rosto para o outro de braços cruzados sobre o vestido preto.— Espíritos Guardiões? O que são essas coisas? — perguntou a jornalista, mostrando-se confusa.Maya respirou profundamente antes de despejar a resposta na pista, buscando estabilizar as feições.— Quando uma Guardiã Lunar adormece por eras, ela nunca fica completamente sozinha ou desamparada, Clara — explicou a bruxa. — Existem sentinelas místicas que cuidam do perímetro.— São almas penadas de pessoas mortas? — quis saber a repórter, atenta aos detalhes.— Não exatamente, garota — interveio Julian, cruzando os braços sobre o peito com aquela elegância irritante. — Estamos falando de fragmentos espirituais de antigos guerreiros de elite que juraram fidelidade à deusa no passado.Todos no círculo direcionaram os olhares na direção do vampiro de forma síncrona, surpresos com o conhecimento dele. O príncipe apenas deu de om







