Se connecterIsabella
Minha mãe já estava na cozinha de Ricardo quando chegamos para o almoço de domingo. Tinha insistido em preparar o frango com alecrim que costumava fazer nas ocasiões especiais e, desde a manhã, falava da sobremesa, da roupa, do trânsito, de qualquer coisa que a impedisse de perguntar outra vez se eu estava mesmo feliz por ela.
Eu estava. Só não sabia como explicar que minha dificuldade com aquela nova família tinha nome, sobrenome e uma habilidade irritante de me fazer perder a paciência.
Lorenzo chegou ao meio-dia em ponto. Usava uma camisa branca com as mangas dobradas e parecia à vontade naquela casa de um jeito que eu ainda não conseguia ficar. Cumprimentou minha mãe com um beijo no rosto, conversou brevemente com o pai e, quando olhou para mim, fez um pequeno movimento de cabeça.
— Isabella.
— Lorenzo.
Helena sorriu, satisfeita com o que provavelmente considerou uma evolução. Eu aceitei a taça que ela me ofereceu e resolvi colaborar. Não mencionaria as cartas, não faria perguntas incômodas e, sobretudo, não permitiria que ele percebesse o quanto sua presença me afetava.
A última parte foi mais difícil.
Durante o almoço, descobri que ele tinha o hábito de dobrar a manga outra vez quando o tecido escorregava pelo antebraço. Também descobri que observava quem falava com uma atenção que podia ser bastante desconfortável quando dirigida a mim. Respondi às perguntas de Ricardo sobre a faculdade, expliquei que estava organizando meu portfólio e comentei um trabalho que entregaria naquela semana.
Lorenzo escutou tudo sem interromper.
Em algum momento, meus olhos pararam na boca dele. Foi breve, mas, quando ergui o olhar, encontrei o seu. Levei a taça aos lábios e torci para que minha mãe não tivesse percebido a demora desnecessária antes da próxima resposta.
Depois do café, Ricardo pousou a xícara no pires.
— Lorenzo tem uma proposta para você, Isabella. Por que não conversam na biblioteca? Lá fica mais tranquilo.
Olhei primeiro para ele, depois para o filho.
— Uma proposta?
— Sobre a agência — Lorenzo respondeu, levantando-se.
Minha mãe tentou disfarçar a expectativa e falhou. Os dois claramente sabiam do que se tratava. Eu era a única pessoa naquela mesa que ainda precisava ser informada.
Segui Lorenzo pelo corredor. Na biblioteca, ele fechou a porta sem encostá-la por completo e indicou uma das poltronas.
— Pode sentar.
Sentei porque queria ouvir o que tinha a dizer, embora o modo como ele permanecia de pé, junto à escrivaninha, me desse a impressão de que eu estava prestes a receber uma advertência.
— Meu pai sugeriu que eu verificasse uma oportunidade para você na Valle — começou. — Conversei com Caio, nosso diretor de criação. Há uma vaga de estágio na equipe dele.
Ajeitei-me na poltrona.
— Seu pai sugeriu?
— Ele comentou que você está terminando a faculdade e procurando experiência em agência.
— Eu disse que estava organizando meu portfólio. Não que precisava de alguém organizando minha vida.
Lorenzo apoiou uma das mãos na escrivaninha.
— Você pode ouvir a proposta antes de decidir que ela é uma ofensa?
O tom me irritou, mas fechei a boca. Ele tinha razão naquela parte, e eu não gostava de ajudá-lo a demonstrar isso.
— É um estágio remunerado, inicialmente por três meses, das nove às três. Você trabalharia no estúdio, acompanhando a equipe de criação. Caio precisa conversar com você e avaliar os projetos antes de formalizarmos qualquer coisa.
— E qual é a sua função nisso?
— Apresentar a oportunidade. E deixar claro o que esperamos de quem trabalha lá.
— Que seria?
— Pontualidade, compromisso com as entregas e disposição para ouvir quando um trabalho precisar ser refeito. Você vai receber a mesma cobrança que qualquer outra pessoa.
Até ali, tudo parecia razoável. Quase relaxei.
— Também precisa entender que algumas coisas passam a exigir mais cuidado — ele acrescentou. — A Valle trabalha com clientes que acompanham a imagem da agência. O que você publica, onde aparece…
— Espere. Você está me oferecendo um estágio ou regras para usar meu I*******m?
Ele ficou em silêncio por um instante.
— Estou dizendo que exposição tem consequências.
Lembrei da expressão ansiosa da minha mãe, do modo como Ricardo encaminhara a conversa, e comecei a entender a parte que ninguém mencionara à mesa.
— Isso tem a ver com aquela foto da festa?
Minha mãe tinha comentado, no sábado, que uma prima lhe enviara uma imagem antiga acompanhada de perguntas sobre quem estava comigo. Eu achara a conversa inconveniente e curta o suficiente para ser esquecida.
Lorenzo desviou os olhos por um segundo.
— Meu pai está preocupado com comentários antes do casamento.
Soltei uma risada sem humor.
— Eu estava num bar, Lorenzo. Com amigos. Não sendo procurada pela polícia.
— Eu sei.
— Sabe? Porque parece que vocês fizeram uma reunião e decidiram que um crachá resolveria meu comportamento.
— Não houve reunião nenhuma.
— Só conversas às quais eu não fui convidada.
Ele se afastou da escrivaninha.
— A vaga existe. Você pode aproveitar ou recusar.
— E, se eu recusar, você vai dizer que tentou me ajudar e que eu prefiro passar a vida em festa?
— Não.
A resposta veio firme, sem hesitação. Esperei que acrescentasse alguma coisa, mas ele apenas me encarou.
Levantei da poltrona.
— Você não me vê há oito anos. Não sabe como eu estudo, quanto trabalho pego para pagar minhas coisas ou quantas vezes deixo de sair porque tenho entrega. Não pode olhar uma foto e decidir que me falta disciplina.
A expressão dele mudou. Foi pouco, mas o suficiente para eu perceber que tinha me ouvido.
— Eu não disse que você não trabalha.
— Você estava prestes a me explicar como deveria viver. Achei justo adiantar algumas informações.
Passei por ele e parei junto à estante, ainda sem saber se queria encerrar a conversa. A oportunidade era boa. Eu conhecia a Valle, acompanhava campanhas da agência e tinha usado um dos projetos deles como referência num trabalho da faculdade. Era justamente isso que tornava a situação tão desagradável: uma coisa que eu gostaria de conquistar estava sendo colocada diante de mim como uma forma de tranquilizar nossos pais.
— Isabella.
Olhei por cima do ombro.
— Seu portfólio é bom.
Virei-me devagar.
— Você viu meu portfólio?
— Vi ontem.
— Por quê?
— Porque, antes de conversar com Caio, eu precisava saber o que estava propondo.
Eu não esperava aquela resposta. Muito menos a seguinte.
— Ele já conhecia um dos seus projetos. A campanha que entrou na seleção do prêmio universitário.
— A campanha da biblioteca comunitária?
Lorenzo assentiu.
— Ele gostou da solução visual. Eu também. Você conseguiu manter a mesma ideia nas peças digitais e no material impresso sem fazer tudo parecer uma repetição.
Fiquei olhando para ele. O elogio era específico demais para ter sido inventado durante aquela conversa. Ele realmente tinha visto o trabalho.
Isso não apagava o resto, mas tornava mais difícil ir embora.
— Por que não começou falando disso?
Ele passou a mão pela mandíbula antes de responder.
— Talvez devesse ter começado.
Não era um pedido de desculpas. Ainda assim, era a primeira vez que o via admitir que podia ter conduzido alguma coisa de outro modo.
Descruzei os braços.
— Se eu entrar, quero saber que estou lá pelo meu trabalho.
— É para isso que Caio vai avaliar você.
— E você vai deixar?
Uma das sobrancelhas dele se ergueu.
— Vou deixar o quê?
— Que ele decida. Mesmo que a resposta não seja a que seu pai quer ouvir.
— Caio não costuma se preocupar com o que meu pai quer ouvir.
Quase sorri. Contive a vontade porque ainda estava irritada.
Lorenzo percebeu mesmo assim, e a tensão em seu rosto diminuiu por um instante.
— Sua mesa ficaria no estúdio, com a equipe — continuou. — Você responderia diretamente a ele. Nós vamos nos encontrar em reuniões e em alguns projetos, mas não precisa passar pela minha sala para resolver cada coisa.
— Ótimo.
Ele me olhou como se meu alívio tivesse sido um pouco excessivo.
— E, na agência, prefiro que me chame de Lorenzo.
— Você prefere isso em qualquer lugar.
— No trabalho, estou pedindo que leve a sério.
Dei um passo na direção dele.
— Eu sei separar as coisas.
Só depois de falar percebi o problema daquela afirmação. Estávamos perto o bastante para eu sentir seu perfume e notar que ele baixara os olhos por um segundo antes de voltar ao meu rosto.
Lorenzo permaneceu imóvel.
— Então não teremos dificuldade — respondeu.
A voz saíra mais baixa. Meu estômago reagiu antes que eu pudesse lembrar a ele, ou a mim, que estávamos discutindo uma vaga de estágio.
Recuei até a poltrona e peguei minha bolsa. Precisava de alguma coisa concreta para fazer com as mãos.
Marina diria que eu era louca se recusasse uma entrevista na Valle por causa de uma conversa mal conduzida. Provavelmente me mandaria respirar, abrir o portfólio e lembrar que não podia pagar contas com orgulho.
Ela teria razão.
O que eu não contaria a Marina era que uma parte de mim também queria descobrir se Lorenzo continuaria tão seguro depois de me ver todos os dias.
— Tenho três condições — falei.
Ele inclinou ligeiramente a cabeça, esperando.
— Primeiro: as regras sobre crédito e uso dos projetos no meu portfólio precisam estar claras. Não quero descobrir depois que tudo o que fiz foi tratado como uma ajuda à família.
— Isso é definido no contrato. Podemos explicar antes de você assinar.
— Segundo: minha mãe não recebe relatório sobre mim. Se houver algum problema com meu trabalho, quem precisa saber sou eu.
— De acordo.
— E terceiro: nada de usar o casamento deles para decidir o que posso fazer fora da agência. Você pode ser meu chefe em um projeto. Não vira meu responsável por causa disso.
Lorenzo sustentou meu olhar.
— Eu não pretendo ser seu responsável.
— Então não fale comigo como se pretendesse.
O silêncio se prolongou. Achei que ele fosse discutir, mas Lorenzo apenas assentiu.
— Justo.
Eu deveria ter me sentido satisfeita. Em vez disso, fiquei observando o rosto dele, à procura de alguma ironia escondida. Não encontrei.
— E nada de me chamar de irmã para encerrar uma conversa — acrescentei.
Ele baixou os olhos para minha mão sobre a alça da bolsa.
— Isso era uma quarta condição?
— Uma observação importante.
Dessa vez, a mudança em sua boca foi quase um sorriso.
Quase.
— Segunda-feira, oito e quarenta — disse. — Você conversa com Caio antes de a equipe começar. Depois, se os dois quiserem seguir, o pessoal apresenta os próximos passos.
— Meu portfólio está on-line.
— Eu sei. Leve também os projetos que ficaram de fora. Caio gosta de entender como a pessoa chega à solução, inclusive o que descarta pelo caminho.
A orientação me fez esquecer por um momento que eu estava falando com ele. Pensei nos arquivos, nos estudos de composição, nas versões que não tinha colocado na apresentação final.
Eu podia fazer aquilo. E podia fazer bem.
Estendi a mão antes que outra discussão surgisse.
— Então eu vou.
Lorenzo olhou para minha palma e a segurou. O aperto deveria ter encerrado o acordo, mas nenhum de nós soltou de imediato. Senti seu polegar junto ao meu pulso e ergui os olhos.
Ele já estava olhando para mim.
Soltei primeiro.
— Oito e quarenta — repeti. — E, se eu chegar às oito e quarenta e um?
— Vai encontrar Caio esperando.
— Achei que você fosse começar a contar.
O sorriso apareceu, pequeno, antes que ele conseguisse impedir.
— Você nunca facilitou as coisas.
A frase tinha o tom certo. Não o tom do homem que me corrigia desde o jantar, mas um que eu reconhecia. Minha vontade foi perguntar se ele também se lembrava de como eu facilitava muita coisa quando deixava que ele ganhasse nossas disputas.
Não perguntei. Ainda não.
Abri a porta e encontrei minha mãe no corredor, tentando parecer ocupada com um vaso que certamente não precisava de sua atenção.
— E então?
— Tenho uma entrevista na agência amanhã.
Os olhos dela se iluminaram.
— Que maravilha, filha!
Ela me abraçou antes que eu pudesse explicar os detalhes. Retribuí, sentindo uma mistura de carinho e incômodo ao perceber o quanto aquele resultado a tranquilizava.
— É uma entrevista, mãe. Ainda vão avaliar meu trabalho.
— E vão adorar.
Por cima do ombro dela, vi Lorenzo parar na porta da biblioteca. Sua expressão voltara a ficar séria, mas já não consegui olhar para ele sem lembrar do sorriso.
Helena me soltou e começou a perguntar o que eu levaria, se precisava passar a roupa, a que horas sairíamos de casa. Respondi que cuidaria de tudo. Enquanto ela falava, encontrei os olhos de Lorenzo e toquei de leve o relógio no meu pulso.
Oito e quarenta.
Ele assentiu.
Na manhã seguinte, eu estaria na Valle. Faria questão de chegar no horário, apresentar meu trabalho e deixar claro por que merecia aquela oportunidade.
Se Lorenzo queria me manter à distância, teria de encontrar uma forma de fazer isso enquanto me via chegar todos os dias.
IsabellaMarina segurou o vestido contra a luz do meu quarto e ergueu as sobrancelhas.— Sua mãe vetou esse por um motivo.— Minha mãe não foi convidada.— Mas Lorenzo foi. Pelo visto, o vestido também sabe disso.Tomei a peça das mãos dela e me virei para o espelho.— É uma confraternização num hotel, Marina. Não vou de camisa social.— Você tem outros vestidos. Escolheu justamente o que passou vinte minutos experimentando quando soube que ele estaria lá.Não respondi porque seria difícil discordar sem mentir.O vestido era preto, de alças finas, ajustado à cintura e curto o suficiente para exigir alguma atenção ao sentar. Deixei o cabelo solto e coloquei brincos pequenos. Quando terminei, Marina me observou pelo espelho.— Você está linda. Só tenta se divertir também.Peguei a bolsa.— Essa é a intenção.Ela fez uma expressão de quem não acreditava, mas teve a gentileza de não insistir.A Leme alugara o terraço de um hotel na Paulista. Havia música baixa, garçons circulando entre os
LorenzoEu tinha dezoito reuniões naquela semana e um elevador prestes a me lembrar que nem tudo obedecia à minha vontade.Isabella entrou quando as portas começavam a fechar, o crachá torto e um bloco apertado contra o peito. Prendera o cabelo com uma caneta, deixando algumas mechas soltas junto ao rosto. Eram quase oito, e o estúdio já estava vazio. Eu ficara para revisar o manifesto da Leme. Ela, pelo que Caio me dissera, resolvera procurar referências no arquivo antigo da agência depois de descartar as que encontrara na internet.— Desce? — perguntou, recuperando o fôlego.— Desce.Ela apertou o botão do térreo, embora já estivesse aceso, e se acomodou ao meu lado. No espelho, vi a mancha de café no punho da blusa branca e a marca que a alça da bolsa deixara em seu ombro. Não havia nada de especial naquela roupa. Mesmo assim, precisei me obrigar a olhar para o painel.O elevador desceu dois andares antes de parar.A luz piscou, e um aviso sonoro interrompeu o silêncio. Isabella ol
IsabellaA Valle ocupava os três últimos andares de um prédio na Faria Lima onde até o calor parecia ter sido barrado na recepção. Cheguei às oito e trinta e sete, porque dar a Lorenzo o prazer de apontar um atraso no primeiro dia estava fora de questão. A recepcionista encontrou meu nome na lista e me entregou um crachá provisório.Isabella Duarte.Passei o polegar sobre o sobrenome antes de prender o cartão à blusa. Ali, pelo menos, eu ainda não era apresentada como parte da família dele.Caio Mendes me esperava na saída do elevador. Tinha trinta e poucos anos, a camisa aberta no colarinho e um sorriso de quem conseguia deixar qualquer pessoa à vontade.— Então você é Isabella. O chefe comentou que chegaria cedo.— Espero não ter decepcionado.— Três minutos de vantagem. Excelente começo. — Ele indicou o corredor. — Vi seu cartaz do prêmio estudantil. Melhor que muita coisa que passou por aqui no último trimestre. Não conta que eu disse isso.— Só se eu quiser ser demitida na primeir
IsabellaMinha mãe já estava na cozinha de Ricardo quando chegamos para o almoço de domingo. Tinha insistido em preparar o frango com alecrim que costumava fazer nas ocasiões especiais e, desde a manhã, falava da sobremesa, da roupa, do trânsito, de qualquer coisa que a impedisse de perguntar outra vez se eu estava mesmo feliz por ela.Eu estava. Só não sabia como explicar que minha dificuldade com aquela nova família tinha nome, sobrenome e uma habilidade irritante de me fazer perder a paciência.Lorenzo chegou ao meio-dia em ponto. Usava uma camisa branca com as mangas dobradas e parecia à vontade naquela casa de um jeito que eu ainda não conseguia ficar. Cumprimentou minha mãe com um beijo no rosto, conversou brevemente com o pai e, quando olhou para mim, fez um pequeno movimento de cabeça.— Isabella.— Lorenzo.Helena sorriu, satisfeita com o que provavelmente considerou uma evolução. Eu aceitei a taça que ela me ofereceu e resolvi colaborar. Não mencionaria as cartas, não faria
LorenzoAs cartas de Isabella estavam no fundo do cofre do meu escritório, junto da aliança da minha mãe e de um relógio que eu não usava havia anos. Eu poderia ter guardado os envelopes em qualquer gaveta. Poderia ter jogado fora. Escolhera um lugar que ninguém abria além de mim e, durante muito tempo, evitei pensar no que isso significava.Na agência, eu sabia o que fazer com qualquer coisa que chegasse às minhas mãos. Havia um responsável, um prazo, uma decisão a tomar. Com aquelas cartas, nunca tinha conseguido passar da leitura.Eram sete. Algumas folhas tinham marcas das dobras, outras ainda conservavam a pressão da caneta no papel. Isabella escrevia como falava: começava num assunto, se lembrava de outro no meio e acrescentava alguma observação que provavelmente me faria rir se ela estivesse por perto. A letra ficara mais firme com o passar dos anos, mas o modo de escrever meu nome no alto da página continuara igual.Enzo.No jantar, bastara ouvir aquele nome na voz dela para d
Capítulo 1IsabellaEu tinha ensaiado aquele reencontro umas quarenta vezes no banco de trás do carro da minha mãe. Em algumas versões, Lorenzo Valle sorria assim que me via; em outras, fingia surpresa e fazia algum comentário sobre como eu continuava baixinha. Mas, em todas, ele dizia meu nome daquele jeito antigo, arrastando o “s” de Isabella, antes de me chamar de Bella pelo resto da noite. Era uma lembrança tão nítida que, por alguns minutos, consegui acreditar que oito anos não fariam tanta diferença.Nenhuma das versões incluía um terno preto. Muito menos um jantar na casa do pai dele, com talheres demais ao redor do prato e uma sala tão impecável que eu me sentia inconveniente só por estar ali.— Para de puxar o vestido — minha mãe murmurou, inclinando-se discretamente na minha direção. — Está ótimo.Soltei o tecido, embora continuasse achando que a barra tinha subido durante o caminho.— Você disse que seria um jantar de família.— E é.Olhei para a mesa posta, depois para o h







