LOGINExistem poucas certezas na vida. Uma delas é: se um homem te chama para “ver o jogo” no sofá, existe uma chance real de ele não estar interessado no placar.
Mas Caio, aparentemente, era mesmo fissurado em futebol. E naquele sábado à noite, ele invadiu a sala com dois baldes de pipoca, uma cerveja na mão e a camisa do time preferido amassada, como se tivesse acabado de tirar do cesto de roupas sujas. — Vai assistir comigo ou vai ficar trancada no quarto fingindo que não me acha irresistível? — ele gritou, já jogando o controle da TV no sofá. Revirei os olhos do quarto. — Eu não finjo nada. Só ignoro sua existência mesmo. — Tem pipoca com manteiga e pipoca doce. Só pra te lembrar que eu sou um ótimo colega de quarto. — Ah, então tá bom. Vou só colocar uma armadura antes de sentar ao seu lado. Mesmo com a defesa em alerta, me rendi. Porque eu precisava rir. Precisava esquecer a semana péssima, a entrevista que não deu em nada, a mensagem do ex pedindo “amizade” (que significa “posso continuar te usando emocionalmente?”). E, apesar de tudo... Caio fazia rir. Sentei no canto oposto do sofá, como quem delimita território. Ele esticou as pernas, espaçoso como sempre, com aquele ar de “sou dono do mundo e do controle remoto”. O jogo começou. Os primeiros minutos passaram em silêncio, interrompidos apenas pelos comentários dele — alguns engraçados, outros completamente sem sentido. — Se eu jogasse profissionalmente, seria goleiro. Já percebeu como eles são os únicos que podem usar as mãos? É tipo ter superpoder. — Você gosta de se sentir especial, né? — Não sou culpado por ser único — ele deu um sorriso torto. — Você devia experimentar. — Eu sou única. Só prefiro não esfregar isso na cara dos outros. Ele virou a cabeça devagar, me encarando com aquele olhar penetrante que parecia ler além das palavras. — Você é única mesmo. Fiquei quieta. Por um segundo, o jogo sumiu do fundo. Eu me perdi naquele olhar. Era só uma frase boba, mas dita de um jeito que me desmontou por dentro. Mas claro, Caio não seria Caio se não estragasse o momento dois segundos depois. — Quer dizer, única no nível “ninguém conseguiria me ignorar tanto quanto você”. — Ah, agora sim — resmunguei, pegando um punhado de pipoca. — Voltamos à programação normal. No segundo tempo do jogo, comecei a relaxar. Não sei se foi a cerveja. Ou o jeito como ele ria. Ou o fato de que, quando o time dele fez um gol, ele deu um grito tão alto que me assustou — e eu acabei jogando pipoca nele. — Você vai pagar por isso, Lara. — Vai me expulsar da sala? — Não. Vou fazer pior. — Tipo o quê? Antes que eu pudesse reagir, ele enfiou a mão no balde de pipoca doce e esfregou no meu cabelo. — CAIO! — gritei, pulando do sofá. — VOCÊ TÁ MALUCO? — Doce combina com você — ele deu de ombros, rindo da minha cara. Corri até ele e tentei pegar o balde, mas Caio segurou firme. A gente começou a disputar, empurrando um ao outro, rindo e resmungando. Foi quando o impulso me fez tropeçar — e caí em cima dele de novo. De novo. Em cima dele. No sofá. — Você tem uma obsessão por cair em mim, sabia? — ele sussurrou, a respiração quente no meu rosto. — Talvez o universo esteja tentando me punir. — Ou te recompensar. Houve silêncio. Nossos rostos estavam tão próximos que eu podia sentir o cheiro da pipoca misturado ao dele — aquele perfume amadeirado e limpo, familiar agora. O sorriso dele sumiu aos poucos, e o olhar escureceu. Meu corpo reagiu antes do meu cérebro. Um arrepio. Um nó no estômago. Aquela sensação quente, incômoda, viciante. — Caio... — murmurei, sentindo meu peito subir e descer. — Você me odeia tanto assim? — ele perguntou, baixo, os olhos presos nos meus. — Não é ódio — falei, quase sem pensar. — É... outra coisa. Ele ergueu uma sobrancelha. — Tipo? Eu ia responder. Juro que ia. Mas meu coração acelerou tanto que a resposta morreu na garganta. Ele não disse mais nada. Só deslizou uma mecha do meu cabelo da testa, devagar. O toque suave fez meu corpo inteiro despertar. E então... Ele se afastou. Afastou mesmo. Me empurrou de leve, pegou o balde de pipoca e voltou a olhar para a TV, como se nada tivesse acontecido. — Acho que ainda dá tempo do time adversário empatar — disse, como se aquela quase aproximação não tivesse feito o mundo parar por um instante. Eu voltei pro meu canto, mas não consegui assistir mais nada. Porque, pela primeira vez desde que me mudei, percebi o quanto aquele jogo era perigoso. E o quanto Caio sabia exatamente o que estava fazendo.Deixar o loft não foi fácil para nenhum dos dois. Aquele espaço pequeno, com paredes que haviam sido testemunhas de tantos momentos intensos, era muito mais do que um apartamento — era o lugar onde, após anos se desencontrando na faculdade e resistindo às provocações, Lara e Caio finalmente se encontraram de verdade. Entre farpas, discussões e desafios, eles descobriram ali o que ninguém podia tirar: o amor que crescia mesmo em meio à tensão. Cada canto daquele loft guardava um pouco da história deles — risadas apertadas, conversas até tarde da noite, até mesmo brigas que só os fizeram entender que não dava para viver um sem o outro. A mudança para a casa grande veio alguns meses depois do casamento, como um passo natural para a vida que queriam construir. A nova casa tinha espaço para tudo: para os sonhos que eles sonhavam juntos e para os planos que ainda nem haviam imaginado. O quintal amplo com árvores frondosas, os quartos iluminados, a cozinha onde Caio adorava inventar no
A cerimônia tinha terminado há pouco mais de uma hora, e o céu já escurecia com delicadeza, tingindo o lago com tons de azul e dourado refletidos pelas luzes que pendiam entre as árvores. O quintal da casa estava agora transformado em um pequeno paraíso iluminado por luzes âmbar, arranjos florais e a alegria dos convidados. Depois do beijo, da troca de alianças e do primeiro “sim” dito diante de todos, Lara e Caio passaram por um corredor humano de palmas e pétalas jogadas com alegria, rindo como duas crianças que haviam descoberto um segredo bonito demais para guardar. Agora, sob uma tenda decorada com cortinas brancas e luzes suspensas, o som suave de uma valsa começou a tocar. — Pronta? — Caio perguntou, estendendo a mão. — Sempre. — respondeu Lara, sorrindo. Eles entraram na pista sob os olhares encantados dos convidados. Começaram com uma valsa clássica, os passos elegantes e sincronizados, rodando
O quintal da casa estava mágico. O gramado parecia mais verde do que em qualquer outro dia, e o lago ao fundo refletia um céu limpo, sem uma única nuvem. Os bancos estavam cheios de gente querida, mas era como se o tempo estivesse preso entre o som suave da música e o coração acelerado de quem esperava por algo eterno. A cerimônia começou. A trilha instrumental ecoava pelo espaço com delicadeza, anunciando os primeiros passos: os padrinhos e madrinhas começaram a entrar em duplas, andando lentamente pelo caminho coberto de pétalas claras. Cada um deles carregava algo mais do que flores ou sorrisos — havia história entre aquelas mãos entrelaçadas, memórias entre aqueles olhares cúmplices. Amigos de infância, irmãos de alma, confidentes. Testemunhas não só de um amor, mas de toda a jornada até ali. A última dupla saiu, e os convidados se ajeitaram nos bancos. O som mudou. O início suave da versão instrumental de “Logo Eu”
LARA Acordei com o som de risos abafados na cozinha e o cheiro de café se espalhando pelo apartamento de Lana. A primeira coisa que senti foi o coração bater diferente — apertado e eufórico. A segunda, foi uma espécie de vazio cheio: hoje meus pais não estariam comigo. E ainda assim, era o dia mais importante da minha vida. Hoje eu casaria com Caio. Levantei devagar, tentando manter a respiração sob controle. Era como se o corpo já soubesse que tudo estava prestes a mudar. E ele não sabia se corria ou congelava. Na cozinha, Lana já estava à frente do caos organizado. Uma das minhas tias-avós derrubava açúcar na toalha, a outra colocava flores demais na mesa do café e dizia que “era pra dar sorte”. — Dormiu? — perguntou Lana, me olhando com aquele olhar de irmã postiça preocupada. — Tentei. Dormi um pouco. Acordei suando. Pensei em fugir. Mas aí lembrei que ele ia estar me esperando. E então... eu quis correr até ele. Ela sorriu como se fosse chorar. Mas se segurou
O carro dela nem tinha virado a esquina e eu já estava no sofá, com cara de cão abandonado e o celular na mão. Escrevi a primeira mensagem com o coração apertado e uma pontinha de drama, claro. Afinal, era minha especialidade.> [10:14] Caio: Já se arrependeu de ir? Ainda dá tempo de descer e fingir que esqueceu alguma coisa. Tipo... eu.Nada.Dois minutos. Três. O famoso “visualizou e não respondeu”. O que isso quer dizer? Que ela está rindo. Tenho certeza.> [10:17] Caio: Só pra avisar que o sofá está mais frio sem você. E meu coração também.> [10:18] Caio: Aliás, se eu chorar, a culpa é sua.> [10:19] Caio: Tá, talvez eu esteja um pouco sensível. Mas você também estaria se tivesse perdido o cheiro da pessoa que ama no travesseiro.Cinco minutos depois, vibra o celular.
Dois dias antes do casamento, eu já tinha aceitado que os próximos momentos seriam uma mistura de ansiedade, detalhes de última hora e uma certa saudade controlada. O plano era simples: minha irmã, Lana, viria me buscar para eu passar esses dois dias com ela, longe do Caio, como manda a tradição maluca que ela mesma inventou.— É pra manter o encanto, a tensão, o mistério — ela dizia, como se fosse especialista em casamentos.A campainha tocou pontualmente às dez da manhã.— Pronta, futura senhora do drama? — Lana entrou como um furacão, com uma sacola na mão e um sorriso cúmplice no rosto. — Separei tudo: lencinho pra quando você chorar, roupa confortável, playlist de pré-casamento, e... chocolate.Antes que eu pudesse responder, Caio apareceu na porta do corredor, com a cara mais indignada do mundo.— Você não vai levá-la. Eu proíbo.— Ah, pronto — murmurei, já cruzand







