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Autor: Ray B.
last update Data de publicação: 2026-08-11 19:27:02

Capítulo 3

Manuela levou vinte minutos para decidir o que colocar na mala.

Depois percebeu que não se importava.

Jogou vestidos, duas calças, roupas íntimas, maquiagem e um livro que provavelmente não leria.

Isabela assistia da porta.

— Você vai mesmo dirigir assim?

— Assim como?

— Com cara de quem quer atropelar alguém.

— Então é melhor todo mundo sair da frente.

— Posso dirigir.

— Isa.

— Certo. Entendi. Independência feminina, colapso emocional, viagem solo.

Manuela fechou a mala.

— Exatamente.

— Pelo menos me manda mensagem quando chegar.

— Mando.

Isabela olhou para a mão dela.

A aliança ainda estava ali, apertada entre seus dedos.

— O que vai fazer com isso?

Manuela encarou a joia.

Tinha escolhido aquele modelo com Henrique dois anos antes.

Diamante pequeno.

Elegante.

Nada exagerado.

Ela já imaginara entregar para uma filha algum dia.

A ideia quase a fez chorar novamente.

Em vez disso, abriu uma gaveta da cômoda.

Colocou a aliança dentro.

Fechou.

— Nada.

A estrada ajudou.

Não porque diminuísse a dor.

Mas porque obrigava Manuela a prestar atenção em outra coisa.

Placas.

Velocidade.

Faixas.

Quando o celular começou a tocar pela quarta vez, ela colocou no silencioso.

Mãe.

Depois:

Henrique.

Depois:

Mãe.

Ela virou o aparelho com a tela para baixo.

O hotel surgiu depois de uma curva, cercado por árvores e afastado o suficiente da cidade para parecer outro mundo.

Exatamente o que queria.

Um funcionário recebeu as chaves do carro.

— Boa tarde, senhora Ferraz.

Ela quase corrigiu.

Quase disse:

Só Manuela.

Mas sorriu.

— Boa tarde.

O lobby tinha pé-direito alto, iluminação baixa e um perfume discreto de madeira e alguma coisa cítrica.

Não havia flores de casamento.

Não havia parentes.

Não havia ninguém perguntando se ela estava animada para sábado.

Manuela respirou.

Talvez tivesse escolhido certo.

— Reserva em nome de Manuela Ferraz.

A recepcionista digitou.

— Cinco noites?

— Isso.

— Viagem a trabalho ou lazer?

Manuela pensou.

— Sobrevivência.

A mulher ergueu os olhos.

Por um instante, Manuela temeu ter sido grosseira.

Mas a recepcionista sorriu.

— Vou marcar lazer.

— Melhor.

Recebeu o cartão do quarto.

Sétimo andar.

Quando entrou no elevador, estava sozinha.

As portas se fecharam.

Manuela finalmente olhou para o reflexo no espelho.

Parecia cansada.

Olhos inchados.

Cabelo preso de qualquer jeito.

Vestia jeans, camiseta branca e um casaco.

Não parecia uma mulher que se casaria dali a sete dias.

Talvez porque não fosse mais.

Quando chegou ao quarto, largou a mala e abriu as cortinas.

A vista era bonita.

Montanhas ao longe.

Piscina abaixo.

O mundo continuava indecentemente normal.

Seu celular vibrou.

Henrique.

Desta vez era uma mensagem.

Só me diz onde você está. Preciso saber que está bem.

Ela digitou:

Estou bem.

Apagou.

Digitou:

Não me procure.

Apagou também.

Bloqueou a tela.

Ainda não queria conversar.

Foi até o banheiro.

Ligou o chuveiro.

Quando tirou a roupa, viu a marca clara no dedo anelar esquerdo.

Mesmo sem a joia, ela continuava ali.

Manuela esfregou o dedo.

Uma vez.

Duas.

A marca não desapareceu.

— Ridículo — murmurou.

Como se a pele também precisasse de tempo para entender que algo tinha acabado.

Depois do banho, vestiu o roupão e pediu vinho no quarto.

Bebeu uma taça.

Depois outra.

Às nove da noite, estava deitada encarando o teto.

Não conseguia dormir.

Não conseguia assistir televisão.

Não conseguia responder ninguém.

Foi até a janela.

Lá embaixo, através do vidro, conseguia ver parte do bar.

Pessoas conversavam.

Riam.

Viviam.

Manuela olhou para o roupão.

Depois para a mala.

Talvez pudesse ficar trancada ali durante cinco dias.

Ou talvez isso fosse exatamente o contrário do que tinha vindo fazer.

Abriu a mala.

Encontrou um vestido preto.

Simples.

Alças finas.

Comprimento abaixo dos joelhos.

Não era roupa de noiva.

Não era roupa de trabalho.

Não tinha história.

Vestiu.

Soltou o cabelo.

Passou batom.

Antes de sair, deixou o celular sobre a mesa.

Pensou melhor.

Desligou completamente.

Pela primeira vez em anos, ninguém conseguiria encontrá-la.

Quando as portas do elevador se abriram no térreo, Manuela decidiu uma coisa:

Durante aquela noite, não explicaria sua vida para ninguém.

Ela só não sabia ainda que, no bar, havia um homem capaz de reconhecer seu passado sem que ela precisasse dizer uma única palavra.

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Último capítulo

  • Suíte 804   O Primeiro Evento

    Capítulo 54 Manuela descobriu que havia uma diferença enorme entre dizer “estou namorando” para uma colega de trabalho e chegar a uma festa segurando a mão do namorado. Principalmente quando o namorado em questão era Vicente Albuquerque. — Para de apertar minha mão. Eles estavam parados diante da entrada de um restaurante. — Não estou apertando. — Está sim. Vicente olhou para as mãos entrelaçadas. — Talvez seja você. — Claro. A culpa é minha. — Cento e nove. Manuela virou o rosto lentamente. — Você não vai fazer essa contagem durante a festa. — Por quê? — Porque sua irmã vai perguntar. — Helena conhece a contagem. Manuela parou.

  • Suíte 804   Sem Esconder

    Capítulo 53 Na segunda-feira, Manuela descobriu que namorar alguém do mesmo escritório tinha um problema bastante específico. Vicente Albuquerque não sabia ser discreto quando estava feliz. Ele não a beijou no corredor. Não apareceu com flores. Não a chamou de namorada diante da equipe. Na verdade, comportou-se perfeitamente durante toda a manhã. O problema era o olhar. Toda vez que os olhos dos dois se encontravam durante a reunião, havia alguma coisa ali. Um sorriso quase invisível. Uma lembrança. Uma intimidade que não existia antes. E Camila percebeu. Claro que percebeu. — Vocês são péssimos nisso — murmurou quando ficaram sozinhas. Manuela continuou digitando. — Nisso o quê? — Fingir normalidade. — Não estamos fingindo nada. — Exatamente. Esse é o problema. Manuela finalmente olhou para ela. — Não quero esconder. — Então pronto. — Mas também não quero que minha vida pessoal vire entretenimento da empresa. Camila assentiu. — Justo.

  • Suíte 804   Minha Namorada

    Capítulo 52 Manuela descobriu às oito e doze da manhã que tinha cometido um erro. Não ao aceitar namorar Vicente. Isso, surpreendentemente, continuava parecendo uma boa decisão. O erro tinha sido permitir que ele usasse a palavra. Namorada. O celular vibrou enquanto ela terminava o café. Vicente 804 Bom dia, namorada. Manuela sorriu antes mesmo de conseguir evitar. Bom dia. A resposta veio imediatamente. Só isso? O que você esperava? Bom dia, namorado lindo, inteligente e extremamente atraente. Você quer que eu termine antes das 9h? 91. Ela arregalou os olhos. Ontem você estava no 90! Exatamente. Essa contagem é uma fraude. 92. Manuela largou o celular sobre a mesa. Faltavam oito. Aquilo não podia acabar bem. Na empresa, Vicente levou exatamente vinte e três minutos para aparecer na mesa dela. Camila estava ao lado, analisando um relatório. — Bom dia — ele disse. Manuela levantou os olhos. — Bom dia. — Dormiu bem? — Sim. — Que bom. Profissional. Educa

  • Suíte 804   A pergunta

    Capítulo 51Vicente acordou primeiro.Manuela descobriu porque, quando abriu os olhos, ele estava sentado na ponta da cama olhando para o celular.— Você está trabalhando?Ele virou.— Bom dia para você também.— Responde.— Não.— Então o que está fazendo?Vicente bloqueou a tela.— Nada.Manuela estreitou os olhos.— Suspeito.— Você acabou de acordar e já está desconfiando de mim.— Experiência.Ele se inclinou e beijou sua testa.— Café?— Muito.— Onde fica?Manuela apontou para a porta.— Cozinha.— Informação extremamente útil.— Você é inteligente. Descobre.Vicente levantou.Usava apenas a calça de moletom que trouxera na mochila.Manuela acompanhou com os olhos.Ele parou na porta.— Está olhando.Ela puxou o lençol.— Estou avaliando.— Gostou?— Vai fazer café.O sorriso dele apareceu.— Oitenta e dois.Quinze minutos depois, Manuela entrou na cozinha.Vicente estava diante da cafeteira.— Você comprou essa máquina para humilhar pessoas?— É uma cafeteira.— Tem dezessete

  • Suíte 804   A minha casa também

    Capítulo 50Manuela acordou com o despertador de Vicente.Não com o dela.Esse detalhe a incomodou por exatamente quatro segundos.Depois sentiu o braço dele em volta de sua cintura, lembrou da noite anterior e decidiu que podia se incomodar mais tarde.— Desliga — murmurou.— É seu lado.— O celular é seu.— Mas está do seu lado.Manuela abriu um olho.— Você está acordado.— Há uns três minutos.— Então desliga.— Gosto de ver você irritada pela manhã.Ela pegou o travesseiro e acertou o rosto dele.Vicente começou a rir.— Setenta e um.— São seis e meia!— Setenta e dois.— Eu odeio essa contagem.— Setenta e três.Manuela sentou na cama.— Isso é fraude.Vicente segurou sua cintura e tentou puxá-la de volta.— Fica.— Trabalho.— Dez minutos.Ela olhou para ele.— Da última vez, cinco viraram vinte e sete.— Estou propondo dez porque sou otimista.Manuela riu.— Levanta, Albuquerque.— Setenta e quatro.Na cozinha, enquanto Vicente preparava café, Manuela abriu a gaveta.Pegou um

  • Suíte 804   Havia apenas Vicente.

    Capítulo 49 A porta do quarto fechou. Dante ficou do lado de fora. Dessa vez, Vicente tinha aprendido. Manuela riu ao ouvir a fungada indignada do outro lado. — Ele vai odiar você. — Nesse momento, estou disposto a correr o risco. Vicente voltou a beijá-la. Devagar. Quase provocando. As mãos deslizaram pela cintura dela enquanto a boca abandonava seus lábios e encontrava seu pescoço. Manuela fechou os olhos. — Vicente... Ele não respondeu. Continuou. Beijou a curva de seu pescoço, o ombro, descendo sem pressa. Manuela sentiu a respiração falhar quando os beijos alcançaram seu colo. As mãos dela foram automaticamente para os cabelos dele.

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