Home / Romance / Suíte 804 / Sete dias

Share

Suíte 804
Suíte 804
Author: Ray B.

Sete dias

Author: Ray B.
last update publish date: 2026-08-11 19:26:50

Capítulo 1

Faltavam sete dias para o casamento quando Manuela Ferraz descobriu que oito anos de relacionamento podiam caber dentro de uma tela de celular.

Ela estava descalça no apartamento que dividia com Henrique, cercada por caixas de lembrancinhas, sacolas com presentes e uma lista de coisas que ainda precisavam ser resolvidas antes do sábado.

Na mesa de jantar, cento e vinte pequenos cartões aguardavam para serem colocados junto aos bem-casados.

Manuela e Henrique.

Os nomes impressos em dourado pareciam zombar dela.

— Manu, você viu meu carregador?

A voz de Henrique veio do quarto.

— Na bancada da cozinha.

— Não está.

Ela soltou um suspiro.

— Então olha na sua mochila.

Manuela voltou para o notebook. Ainda precisava confirmar o horário em que o carro buscaria seus pais no hotel.

Seu próprio celular vibrou.

Isabela.

Você está viva?

Manuela sorriu.

Por enquanto. Se mais uma pessoa perguntar se estou nervosa, talvez deixe de estar.

A amiga respondeu imediatamente.

Noiva simpática. Adoro.

Manuela estava digitando quando ouviu outro celular vibrar.

O de Henrique.

Estava sobre o aparador.

Ela nem teria olhado.

Em oito anos, nunca precisara olhar.

Henrique sabia sua senha. Ela sabia a dele. Não porque fiscalizassem um ao outro, mas porque nunca existira motivo para esconder.

O aparelho vibrou novamente.

Uma prévia apareceu na tela bloqueada.

Manuela viu apenas algumas palavras.

E parou.

...não devia ter acontecido.

Ela franziu a testa.

Talvez fosse trabalho.

Talvez algum problema com a despedida de solteiro.

Talvez qualquer coisa.

O celular vibrou pela terceira vez.

Eu prometi que nunca contaria para ela.

O corpo de Manuela ficou imóvel.

— Achou? — perguntou, sem reconhecer a própria voz.

— Achei! Estava dentro da mochila mesmo.

Henrique continuou falando alguma coisa do quarto.

Ela não ouviu.

Seus olhos permaneciam sobre o telefone.

A pessoa que enviara as mensagens não estava salva pelo nome.

Apenas um número.

Manuela pegou o aparelho.

Não sentiu culpa.

Sentiu medo.

Digitou a senha.

A mesma de sempre.

A conversa estava aberta.

As primeiras mensagens eram recentes.

Depois havia meses de silêncio.

Manuela subiu a tela.

Uma fotografia apareceu.

Não havia nada obsceno nela.

Talvez tivesse sido menos doloroso se houvesse.

Henrique estava sentado em uma cama de hotel.

Sem camisa.

Sorrindo.

E ao lado dele havia uma mulher que Manuela nunca tinha visto.

A data estava no alto da conversa.

Oito meses atrás.

Manuela sentiu o estômago afundar.

Continuou lendo.

Não muitas mensagens.

Não havia declarações de amor.

Planos.

Encontros secretos semana após semana.

Havia apenas fragmentos suficientes para destruir alguma coisa.

Foi um erro.

Concordamos que ninguém precisa saber.

Você vai casar com ela?

A resposta de Henrique estava ali.

Vou.

Manuela soltou o celular como se tivesse queimado sua mão.

O aparelho bateu no aparador.

— Manu?

Henrique apareceu no corredor ajeitando o relógio no pulso.

Ela levantou os olhos.

Durante oito anos, conhecera cada expressão daquele homem.

Sabia quando estava irritado.

Quando estava preocupado.

Quando mentia dizendo que gostara de um presente.

Quando tentava esconder uma surpresa.

Naquele momento, porém, Manuela olhou para ele e teve a estranha sensação de estar diante de um desconhecido.

Henrique parou.

O olhar dele foi da expressão dela para o celular sobre o aparador.

E mudou.

Foi uma alteração mínima.

Mas ela viu.

A cor desapareceu de seu rosto.

— Manu...

Ela não chorou.

Aquilo surpreendeu até a ela.

— Quem é ela?

Henrique fechou os olhos por um segundo.

Um.

Foi o suficiente.

Manuela sentiu alguma coisa quebrar.

— Quem é ela, Henrique?

— Eu posso explicar.

Um riso sem humor escapou dos lábios dela.

— Então existe alguma coisa para explicar.

— Não foi...

Ele parou.

Manuela ficou de pé.

— Não foi o quê?

Henrique passou a mão pelo cabelo.

— Não foi um caso.

— Ah.

Ela assentiu lentamente.

— Que alívio.

— Manuela...

— Faltam sete dias para o nosso casamento.

— Eu sei.

— Não. — A voz dela finalmente tremeu. — Acho que você não sabe.

Ele deu um passo.

Manuela recuou.

Foi instintivo.

E o movimento pareceu machucá-lo.

Ela não se importou.

— Quando?

Henrique olhou para o chão.

— Isso importa?

Manuela ficou alguns segundos em silêncio.

— Acabou de se tornar a coisa que mais importa no mundo.

Ele respirou fundo.

— Foi uma vez.

— Quando?

Henrique levantou os olhos.

Manuela já sabia.

Tinha visto a data.

Mas precisava ouvi-lo dizer.

Precisava saber se, pelo menos agora, ele escolheria a verdade.

— Oito meses atrás.

O ar desapareceu dos pulmões dela.

Oito meses.

Não sete dias.

Não ontem.

Não uma decisão estúpida tomada antes do casamento.

Oito meses em que ele acordara ao lado dela.

Oito meses em que escolheram flores.

Provaram doces.

Visitaram salões.

Escolheram músicas.

Oito meses em que ele poderia ter contado.

E não contou.

Manuela olhou para os cartões sobre a mesa.

Manuela e Henrique.

Cento e vinte pequenas mentiras impressas em dourado.

Então tirou lentamente a aliança de noivado do dedo.

Henrique arregalou os olhos.

— Manu, não.

Ela colocou a joia sobre um dos cartões.

— O casamento está cancelado.

E, pela primeira vez naquela tarde, Henrique pareceu realmente entender o que tinha feito.

Continue to read this book for free
Scan code to download App

Latest chapter

  • Suíte 804   Bônus: Depois do "Sim"

    CAPÍTULO 123: Uma Noite Fora da RotinaManuelaNa terceira quinta-feira depois da lua de mel, cheguei em casa com os pés doloridos, a cabeça cheia de números e uma vontade quase desesperada de tirar os sapatos.A semana havia sido interminável. Dois projetos atrasados, reuniões que poderiam ter sido resolvidas por e-mail e um cliente que parecia acreditar que mudar de opinião a cada quarenta minutos era uma estratégia de gestão.Vicente não estava na sala.Dante, entretanto, veio me receber com uma animação incompatível com meu estado físico.— Oi, meu amor. Pelo menos alguém nesta casa está feliz em me ver.— Eu ouvi isso.A voz de Vicente surgiu da cozinha.Encontrei meu marido usando calça escura e uma camisa preta com as mangas dobradas. Ele estava terminando de guardar alguma coisa em uma sacola.— Você chegou cedo — observei.— Organizei minha agenda.— Milagre.

  • Suíte 804   Bônus: Depois do "Sim"

    CAPÍTULO 124: Senhor e Senhora Albuquerque A primeira semana depois da lua de mel passou entre reuniões, mensagens acumuladas e uma quantidade absurda de roupas para lavar. Na sexta-feira, eu estava terminando uma apresentação quando Vicente ligou. — Boa tarde, senhora Albuquerque. Sorri ao reconhecer sua voz. — Boa tarde, marido. Aconteceu alguma coisa? — Temos um compromisso amanhã à noite. Afastei os olhos do computador. — Temos? — Um jantar beneficente organizado por um grupo de empresários. Recebi o convite antes do casamento e confirmei nossa presença. — Você esqueceu de me avisar? Houve uma pausa. — Considerei que avisar com vinte e oito horas de antecedência ainda seria socialmente aceitável. — Vicente! Ele riu. — O evento começa às oito. Traje form

  • Suíte 804   Bônus:Depois do "Sim"

    CAPÍTULO 123: De Volta à Nossa CasaManuelaA mala estava aberta sobre a cama havia quase quarenta minutos, e eu continuava tentando descobrir como tínhamos conseguido trazer mais coisas das Maldivas do que havíamos levado.— Vicente, essa camisa é sua?Meu marido apareceu à porta do banheiro, enxugando os cabelos com uma toalha.— Considerando que está segurando uma camisa masculina, as chances são grandes.— Você comprou três camisas durante a viagem?— Quatro.Olhei para ele.— Quatro?— A última estava com desconto.Soltei uma gargalhada.— Vicente Albuquerque comprando roupa por causa de promoção? Preciso registrar esse momento.Ele pegou a camisa das minhas mãos e a dobrou.— Casei com uma mulher que compara preços até de água mineral. Alguma coisa precisava aprender.Sorri, observando-o acomodar a peça na mala.Nossa lua de mel havia

  • Suíte 804   Bônus: Depois do "Sim"

    CAPÍTULO 122: O Imprevisto Perfeito Manuela tinha uma relação curiosa com imprevistos. Conseguia administrar uma crise profissional sem alterar a voz, mas bastava um restaurante perder nossa reserva para ela considerar a possibilidade de reorganizar o estabelecimento inteiro. Por isso, quando anunciou que havia planejado nossa tarde, fiquei interessado. — Reservei um passeio de barco para vermos o pôr do sol — explicou, enquanto passava protetor solar diante do espelho. — Com jantar a bordo. Eu estava sentado na cama, abotoando uma camisa de linho. — Parece excelente. Ela me observou pelo reflexo. — Nenhuma pergunta? — Devo fazer alguma? — Você costuma querer saber todos os detalhes. — Confio na organizadora. Manuela estreitou os olhos

  • Suíte 804   Bônus: Depois do "Sim"

    CAPÍTULO 121: Entre Lençóis e Confissões A primeira coisa que senti ao despertar foi uma mão deslizando lentamente pela minha cintura. A segunda foi a boca de Vicente depositando um beijo demorado no meu ombro. — Bom dia, senhora Albuquerque. Sorri antes mesmo de abrir os olhos. — Você está gostando demais de me chamar assim. — Esperei bastante para ter esse privilégio. Virei-me entre os lençóis, encontrando meu marido apoiado sobre um cotovelo, com os cabelos desalinhados e aquele sorriso que sempre anunciava problemas deliciosos. — Que horas são? — Quase dez. Arregalei os olhos. — Dez? Perdemos o café! — Pedi para trazerem à vila. Observei a bandeja sobre a mesa próxima à varanda. Havia frutas, croissants, café e suco

  • Suíte 804   Bônus: Depois do "Sim"

    CAPÍTULO 120: Uma Aposta Perigosa Descobri duas coisas naquela manhã. A primeira era que Vicente Albuquerque tinha uma capacidade impressionante de acordar disposto, independentemente de quantas horas tivéssemos dormido. A segunda era que meu marido estava escondendo alguma coisa. Quando saí do banheiro, encontrei-o sentado na cama, usando uma bermuda azul-marinho e examinando uma pequena bolsa impermeável. — Você está aprontando — anunciei. Vicente ergueu os olhos. — Bom dia, esposa. — Não tente me distrair com esse sorriso. — Costuma funcionar. — Hoje não. Ele se levantou e caminhou na minha direção, colocando as mãos na minha cintura. — Então talvez eu precise melhorar minha abordagem. Seu beijo começou delicado

More Chapters
Explore and read good novels for free
Free access to a vast number of good novels on GoodNovel app. Download the books you like and read anywhere & anytime.
Read books for free on the app
SCAN CODE TO READ ON APP
DMCA.com Protection Status