LOGINA casa ficava numa rua sem calçada em Itaquaquecetuba, com um portão de chapa pintado de verde e uma laje por acabar, e às oito e meia da manhã do dia quatro havia cinco carros estacionados um atrás do outro naquela rua, o que naquela rua nunca tinha acontecido.Vera Duarte chegou de ônibus.Ficou do outro lado, encostada no muro de uma casa com um cachorro que latiu quinze minutos seguidos, e viu descerem: uma juíza de uns cinquenta anos com uma pasta e um blazer amassado de viagem; um promotor jovem que ficou dez minutos ao telefone antes de entrar; uma escrivã com um notebook; um oficial de justiça; e dois advogados de terno, um deles muito bom e muito caro, que Vera reconheceu de foto — o Dr. Ivan, o criminalista do Fausto Aragão.Havia também um médico, que era exigência da juíza, e uma técnica de enfermagem que já esta
A representação chegou à Vara da Infância e Juventude no dia oito de outubro, protocolada por um escritório de primeira linha, com quatorze páginas, tom respeitoso e nenhuma acusação.Não pedia a guarda para ninguém.Pedia "avaliação das condições de exercício da guarda de fato, à luz do melhor interesse do menor", e anexava: a certidão de óbito de Zilda Duarte, o registro do vínculo empregatício de Vera Lúcia Duarte em dois estabelecimentos, o extrato de sete faltas no trimestre, e o relatório médico público — obtido licitamente, ninguém sabia como — que descrevia Elisa Duarte como portadora de doença endócrina crônica em tratamento inicial.No dia quinze, uma assistente social do Fórum ligou para o telefone de Vera e agendou vi
Fausto Aragão acordava às cinco e quarenta e nunca precisou de despertador.Barbeava-se com lâmina, de frente para o espelho, com espuma de pincel, porque aparelho elétrico é para quem tem pressa. Vestia a camisa antes da calça. Passava o café no coador de pano porque a máquina italiana que a filha deu de presente em 2018 fazia um café bom e não fazia aquele.Às seis e vinte já estava sentado à mesa da copa com o jornal impresso, que ele mantinha por assinatura mesmo tendo o aplicativo, e lia na ordem: primeiro o caderno de economia, depois o de política, e por último a primeira página, porque a primeira página é escrita para quem só lê a primeira página.Não era manias de velho. Ele fazia isso desde os vinte e nove anos.Havia, na cabeça de Fausto Aragão, uma convicç&a
A mãe dela ligou às sete e dez da manhã.Renata estava de pé na cozinha do apartamento, de tailleur cinza, com a bolsa já no ombro e a chave do carro na mão, e o nome apareceu na tela — SÔNIA — e ela olhou aquele nome durante quatro toques antes de atender.— Bom dia, mãe.— Você vai hoje.Não era pergunta.— Vou.Houve um silêncio na linha e depois o barulho de uma cadeira arrastando, e Renata soube exatamente onde a mãe estava: na copa, na cadeira do canto, com o telefone sem fio que ela se recusava a substituir desde 2011.— Renata, eu não vou te pedir para não ir.— Ótimo.— Eu vou te pedir uma coisa diferente e você vai me escutar até o fim porque eu sou a tua mãe.Renata pôs a bolsa no balc&atild
— A gente vai — disse Clara.— Clara...— A gente vai e a gente não leva nada. — Ela estava no quarto, escolhendo uma roupa, e escolher uma roupa era a parte difícil e ela sabia. — Nada, Gabriel. Nem flor, nem coroa, nem carro grande, nem envelope, nem oferecimento de nada. A gente entra, cumprimenta, senta atrás e vai embora quando for hora.— E se a dona Vera não quiser?— Aí a gente vai embora antes.Ela tirou do cabide um vestido preto que tinha usado três vezes na vida e devolveu ao cabide.Pegou uma saia cinza e uma blusa preta lisa, dessas de qualquer loja, e pôs em cima da cama.— Não é para você parecer pobre — disse Gabriel, atrás dela, com uma delicadeza que doeu. — Isso também é uma coisa.Clara parou com a mão na blusa.
Elisa Duarte pensava devagar.Não era que ela não pensasse. Era que as coisas chegavam com atraso, como trovão depois do relâmpago, e no começo dos nove anos ela nem sabia que estava atrasada. Agora sabia.Isso era o pior e o melhor dos comprimidos.O médico tinha explicado com um desenho. Uma glândula do tamanho de um grão de feijão, embaixo do cérebro. O sangue tinha ido embora demais no parto e a glândula tinha morrido de fome. A glândula mandava recado no corpo inteiro e parou de mandar. E o corpo, sem recado, foi devagar desligando as luzes de dentro de uma casa grande, uma por uma, sem apagar nenhuma de todo.Ela achou bonito o desenho.Achou também, e não disse a ninguém, que era a primeira vez em nove anos que alguém explicava alguma coisa para ela olhando na cara dela.---Ela lembrava







