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Capítulo 4: As Regras do Jogo

last update publish date: 2026-07-10 23:50:47

O som insistente de batidas na porta de entrada da cobertura fez Clara despertar sobressaltada. A luz pálida da manhã seguinte filtrava-se pelas imensas vidraças, iluminando a sala minimalista. O seu corpo inteiro doía pelo esforço de ter passado a noite encolhida naquele sofá de couro gélido.

— Senhora Clara? Sou a Marta. A dona Sophia, sua sogra, me contratou para cuidar da governança da casa — anunciou a voz firme de uma senhora de meia-idade assim que Clara abriu a porta. O olhar de Marta foi direto para o vestido de noiva amassado e para as olheiras profundas da jovem, mas sua expressão permaneceu estritamente profissional, desprovida de qualquer vestígio de simpatia.

Clara apenas assentiu e subiu os degraus de mármore em direção ao segundo andar do triplex. Ela caminhou direto para o quarto de hóspedes, o local onde havia planejado se instalar para manter uma distância segura de Arthur. No entanto, ao abrir a porta, deparou-se com o cômodo completamente vazio. Nenhum de seus pertences estava ali.

Confusa, ela seguiu pelo corredor até a suíte master. Ao empurrar a porta dupla, encontrou todas as suas malas e caixas de mudança devidamente desfeitas e organizadas no imenso closet integrado. A mensagem implícita era clara: para o mundo exterior e para os funcionários contratados pela sogra, eles precisavam manter a fachada perfeita de um casal tradicional que compartilhava o mesmo teto e a mesma cama.

Sozinha no closet, Clara respirou fundo. Com movimentos lentos e deliberados, ela começou a abrir os ganchos do pesado vestido de alta costura que a sufocara na noite anterior. Ela o despiu com cuidado e o pendurou dentro do saco protetor de linho, acomodando-o no fundo escuro do armário. Olhando para a peça de seda agora sem vida, Clara não pôde deixar de sorrir de forma melancólica. Se Alice estivesse ali naquele momento, com certeza teria pegado uma tesoura e picotado o vestido em mil pedaços num ataque de fúria legítima contra a humilhação sofrida. Mas Clara não tinha o luxo da fúria de Alice; ela precisava de cada gota de sua calma para não desabar.

Em seguida, ela retirou a tiara Cartier e o colar de diamantes. Olhou para as pedras preciosas que haviam sido compradas sob medida para a amante e as devolveu para os seus respectivos estojos de veludo, fechando-os com um clique seco.

Clara pegou um conjunto simples de calça e blusa de linho cru em seu armário e seguiu para o banheiro. Sob a água morna do chuveiro, ela fechou os olhos e deixou que o vapor levasse embora o cansaço físico, a maquiagem da véspera e, acima de tudo, a humilhação da noite passada. Ela limpou sua mente e sua alma, blindando-se para a realidade que teria de enfrentar dali em diante.

O restante do dia passou de forma arrastada. Clara vagou pela imensa cobertura como um fantasma decorativo. Ela tentou ler, tentou esboçar algo em seu caderno de desenhos, mas a sua mente parecia paralisada pelo silêncio sepulcral daquela casa que mais parecia um museu moderno.

Já passava das dez da noite quando Clara, cansada de vagar, sentou-se no sofá da sala de estar, perdida em seus próprios pensamentos sob a luz difusa das luminárias embutidas. Ela se preparava para subir e tentar dormir quando o som do bipe da fechadura eletrônica cortou o silêncio.

Arthur cruzou a porta.

Ele ainda vestia o terno elegante do trabalho, embora a gravata estivesse ligeiramente afrouxada e o paletó pendurado em um dos braços. O seu olhar cor de tempestade cruzou o espaço e encontrou Clara no sofá. Sem dizer uma única palavra de cumprimento ou desculpa pela ausência na noite de núpcias, ele caminhou até a poltrona de couro preta disposta exatamente em frente ao sofá e sentou-se, cruzando as pernas longas. A sua postura exalava a frieza cirúrgica de um executivo prestes a iniciar uma reunião de conselho.

— É bom que você esteja acordada. Precisamos alinhar as regras do nosso convívio — começou Arthur, a voz grave e perfeitamente controlada ecoando pela sala. — Vamos deixar algo bem claro desde o início, Clara. O anúncio da fusão já foi feito e o mercado reagiu exatamente como prevíamos, com as ações de ambas as empresas atingindo marcas históricas. Esse casamento é um negócio altamente lucrativo para os Mendes e para os Albuquerque. Nada mais do que isso.

Clara manteve o olhar fixo nele, a fisionomia neutra, recusando-se a demonstrar a dor que aquelas palavras causavam em seu peito.

— Eu sei disso, Arthur — respondeu ela, o tom de voz calmo e baixo.

— Ótimo. Sendo assim, não há necessidade de simularmos uma intimidade que não existe entre nós quatro paredes — continuou ele, de forma implacável. — Eu não pretendo morar aqui com você. Manterei a minha rotina em meu apartamento particular e só virei a este triplex quando a presença de funcionários, assessores de imprensa ou jantares familiares tornarem a minha estadia obrigatória para manter as aparências diante do mercado.

Arthur fez uma breve pausa, observando a reação dela, antes de dar o golpe final.

— Inclusive, já solicitei à Marta que mude todos os seus pertences de volta para o quarto de hóspedes a partir de amanhã cedo. O quarto principal permanecerá trancado. Minha equipe jurídica estipulou que o tempo necessário para consolidar a transição das ações da fusão e blindar o grupo contra qualquer questionamento legal é de três anos. Pretendo finalizar tudo e assinar o divórcio exatamente ao fim desse prazo. Até lá, espero que você cumpra o seu papel social com a devida discrição.

Cada palavra dele era um bloco de gelo que selava as paredes daquela prisão perpétua. Clara respirou fundo, absorvendo os termos da negociação. Não havia espaço para o romance da juventude ali; o homem à sua frente havia desenhado o seu destino com a ponta de uma caneta corporativa.

— Três anos — repetiu Clara, a voz firme, embora o coração estivesse em pedaços. — Eu entendi, Arthur. Serei a esposa discreta que o seu negócio exige.

Arthur assentiu levemente, satisfeito com a submissão pragmática da esposa, e levantou-se da poltrona, pegando o seu paletó para se recolher pela primeira e última vez naquele quarto principal antes que o isolamento total começasse. Ele não olhou para trás, deixando Clara mais uma vez sozinha na penumbra da sala, consciente de que os próximos três anos seriam o teste mais doloroso e solitário de toda a sua vida.

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