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Capítulo 244: Dona Zilda

last update publish date: 2026-10-16 20:11:38

Elisa Duarte pensava devagar.

Não era que ela não pensasse. Era que as coisas chegavam com atraso, como trovão depois do relâmpago, e no começo dos nove anos ela nem sabia que estava atrasada. Agora sabia.

Isso era o pior e o melhor dos comprimidos.

O médico tinha explicado com um desenho. Uma glândula do tamanho de um grão de feijão, embaixo do cérebro. O sangue tinha ido embora demais
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  • TARDE DEMAIS PARA IMPLORAR, SENHOR CEO   Capítulo 244: Dona Zilda

    Elisa Duarte pensava devagar.Não era que ela não pensasse. Era que as coisas chegavam com atraso, como trovão depois do relâmpago, e no começo dos nove anos ela nem sabia que estava atrasada. Agora sabia.Isso era o pior e o melhor dos comprimidos.O médico tinha explicado com um desenho. Uma glândula do tamanho de um grão de feijão, embaixo do cérebro. O sangue tinha ido embora demais no parto e a glândula tinha morrido de fome. A glândula mandava recado no corpo inteiro e parou de mandar. E o corpo, sem recado, foi devagar desligando as luzes de dentro de uma casa grande, uma por uma, sem apagar nenhuma de todo.Ela achou bonito o desenho.Achou também, e não disse a ninguém, que era a primeira vez em nove anos que alguém explicava alguma coisa para ela olhando na cara dela.---Ela lembrava

  • TARDE DEMAIS PARA IMPLORAR, SENHOR CEO   Capítulo 243: A Curva de Baixo

    A ambulância levou vinte e dois minutos, o que, na Rua Serra do Japi, é considerado rápido.Levaram dona Zilda para a UPA da Vila Ré, e na UPA ela ficou catorze horas num corredor, numa maca encostada na parede entre um rapaz com a mão enfaixada e uma senhora que gemia baixinho, com uma máscara de oxigênio no rosto e uma pulseira de papel no punho, e Vera Duarte ficou aquelas catorze horas de pé ao lado da maca porque não havia cadeira.Na maca da frente havia uma senhora de uns oitenta anos, sozinha, com uma pulseira igual e uma bolsa de crochê em cima da barriga.Chamava-se Aparecida. Vera soube porque a enfermeira chamava alto de duas em duas horas para conferir a pressão, e porque, por volta das quatro da manhã, a velha esticou a mão e puxou a manga dela.— Filha.— Oi, senhora.— Que horas s&atild

  • TARDE DEMAIS PARA IMPLORAR, SENHOR CEO   Capítulo 242: Os Dois Velhos

    Vera acordou às cinco da manhã de segunda-feira e limpou a casa inteira, e passou o dia seguinte com raiva de si mesma por causa disso.Lavou o piso da sala. Tirou o pó do móvel da televisão. Trocou a fronha da mãe. Passou pano no vidro da porta da cozinha, que não era limpo desde a mudança, e no meio disso parou com o pano na mão e disse em voz alta, sozinha:— Que é isso, Vera.Terminou de limpar o vidro assim mesmo.Às oito e meia pôs a mãe sentada na cadeira da sala, a boa, a que tinha braço, com o lenço novo e a manta nas pernas, e a mãe deixou fazer tudo sem reclamar, o que era o sinal de que ela também estava querendo estar apresentável e nenhuma das duas ia admitir.Às nove em ponto tocou a campainha.---&nb

  • TARDE DEMAIS PARA IMPLORAR, SENHOR CEO   Capítulo 241: O Inventário de Dona Zilda

    No sábado a dona Zilda amanheceu boa.Vera desconfiou na mesma hora.Ela tinha lido sobre isso num folheto da própria clínica, num daqueles corredores em que a gente lê qualquer coisa para não pensar: que às vezes, perto do fim, o doente melhora. Come. Conversa. Quer levantar. Os médicos chamam de uma coisa e as enfermeiras chamam de outra, e as enfermeiras têm razão.Às sete e meia a mãe dela pediu café com leite e bebeu a xícara inteira.Às oito perguntou pelo jogo do Corinthians.Às nove e vinte disse:— Vera, pega a caixa que está em cima do guarda-roupa.— Que caixa, mãe?— Você sabe qual.Vera sabia qual.---Er

  • TARDE DEMAIS PARA IMPLORAR, SENHOR CEO   Capítulo 240: A Palavra

    No dia quarenta e sete, Davi acordou às seis e quarenta e sentiu cheiro de café.Ficou parado na cama.Havia uma ordem no mundo e a ordem era essa: ele acordava às seis e quarenta, ia ao banheiro, escovava os dentes, ia à cozinha, punha a água no fogo, separava os comprimidos da avó no pires branco de borda azul — o azul de manhã, o liso de noite, para não confundir —, punha os da mãe no pires liso, esquentava o leite, e às sete em ponto acordava as duas.Ele fazia isso desde os seis anos.Não havia manhã no mundo em que a cozinha cheirasse a café antes de ele entrar nela.Levantou-se devagar, com aquele cuidado de quem acha que ouviu barulho de ladrão, e foi até a porta da cozinha.A mãe dele estava de pé na frente do fogã

  • TARDE DEMAIS PARA IMPLORAR, SENHOR CEO   Capítulo 239: Prescrição

    Carlos Henri de Valois acordou às cinco e dez, como acordava havia sessenta anos, e ficou deitado no escuro escutando a casa.Sabia que eles vinham.Ninguém tinha dito. O filho tinha ligado na noite de segunda-feira e perguntado se podia subir na quarta com o doutor Fontes, e tinha perguntado daquele jeito leve que os filhos usam quando estão evitando alarmar o pai, e que, exatamente por ser leve, alarma.Quarenta anos presidindo uma companhia ensinam um homem a ler agenda.Ele levantou-se às cinco e vinte, tomou os quatro comprimidos da manhã com meio copo d'água — o do coração, o da pressão, o anticoagulante e o outro, do qual ele nunca lembrava o nome — e foi para a varanda dos fundos com o café, no escuro, ver o dia chegar em cima das araucárias.Setembro em Roseiras é o mês mais bonito e ele nunca tinha conseguido explicar

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