INICIAR SESIÓNFausto Aragão acordava às cinco e quarenta e nunca precisou de despertador.Barbeava-se com lâmina, de frente para o espelho, com espuma de pincel, porque aparelho elétrico é para quem tem pressa. Vestia a camisa antes da calça. Passava o café no coador de pano porque a máquina italiana que a filha deu de presente em 2018 fazia um café bom e não fazia aquele.Às seis e vinte já estava sentado à mesa da copa com o jornal impresso, que ele mantinha por assinatura mesmo tendo o aplicativo, e lia na ordem: primeiro o caderno de economia, depois o de política, e por último a primeira página, porque a primeira página é escrita para quem só lê a primeira página.Não era manias de velho. Ele fazia isso desde os vinte e nove anos.Havia, na cabeça de Fausto Aragão, uma convicç&a
A mãe dela ligou às sete e dez da manhã.Renata estava de pé na cozinha do apartamento, de tailleur cinza, com a bolsa já no ombro e a chave do carro na mão, e o nome apareceu na tela — SÔNIA — e ela olhou aquele nome durante quatro toques antes de atender.— Bom dia, mãe.— Você vai hoje.Não era pergunta.— Vou.Houve um silêncio na linha e depois o barulho de uma cadeira arrastando, e Renata soube exatamente onde a mãe estava: na copa, na cadeira do canto, com o telefone sem fio que ela se recusava a substituir desde 2011.— Renata, eu não vou te pedir para não ir.— Ótimo.— Eu vou te pedir uma coisa diferente e você vai me escutar até o fim porque eu sou a tua mãe.Renata pôs a bolsa no balc&atild
— A gente vai — disse Clara.— Clara...— A gente vai e a gente não leva nada. — Ela estava no quarto, escolhendo uma roupa, e escolher uma roupa era a parte difícil e ela sabia. — Nada, Gabriel. Nem flor, nem coroa, nem carro grande, nem envelope, nem oferecimento de nada. A gente entra, cumprimenta, senta atrás e vai embora quando for hora.— E se a dona Vera não quiser?— Aí a gente vai embora antes.Ela tirou do cabide um vestido preto que tinha usado três vezes na vida e devolveu ao cabide.Pegou uma saia cinza e uma blusa preta lisa, dessas de qualquer loja, e pôs em cima da cama.— Não é para você parecer pobre — disse Gabriel, atrás dela, com uma delicadeza que doeu. — Isso também é uma coisa.Clara parou com a mão na blusa.
Elisa Duarte pensava devagar.Não era que ela não pensasse. Era que as coisas chegavam com atraso, como trovão depois do relâmpago, e no começo dos nove anos ela nem sabia que estava atrasada. Agora sabia.Isso era o pior e o melhor dos comprimidos.O médico tinha explicado com um desenho. Uma glândula do tamanho de um grão de feijão, embaixo do cérebro. O sangue tinha ido embora demais no parto e a glândula tinha morrido de fome. A glândula mandava recado no corpo inteiro e parou de mandar. E o corpo, sem recado, foi devagar desligando as luzes de dentro de uma casa grande, uma por uma, sem apagar nenhuma de todo.Ela achou bonito o desenho.Achou também, e não disse a ninguém, que era a primeira vez em nove anos que alguém explicava alguma coisa para ela olhando na cara dela.---Ela lembrava
A ambulância levou vinte e dois minutos, o que, na Rua Serra do Japi, é considerado rápido.Levaram dona Zilda para a UPA da Vila Ré, e na UPA ela ficou catorze horas num corredor, numa maca encostada na parede entre um rapaz com a mão enfaixada e uma senhora que gemia baixinho, com uma máscara de oxigênio no rosto e uma pulseira de papel no punho, e Vera Duarte ficou aquelas catorze horas de pé ao lado da maca porque não havia cadeira.Na maca da frente havia uma senhora de uns oitenta anos, sozinha, com uma pulseira igual e uma bolsa de crochê em cima da barriga.Chamava-se Aparecida. Vera soube porque a enfermeira chamava alto de duas em duas horas para conferir a pressão, e porque, por volta das quatro da manhã, a velha esticou a mão e puxou a manga dela.— Filha.— Oi, senhora.— Que horas s&atild
Vera acordou às cinco da manhã de segunda-feira e limpou a casa inteira, e passou o dia seguinte com raiva de si mesma por causa disso.Lavou o piso da sala. Tirou o pó do móvel da televisão. Trocou a fronha da mãe. Passou pano no vidro da porta da cozinha, que não era limpo desde a mudança, e no meio disso parou com o pano na mão e disse em voz alta, sozinha:— Que é isso, Vera.Terminou de limpar o vidro assim mesmo.Às oito e meia pôs a mãe sentada na cadeira da sala, a boa, a que tinha braço, com o lenço novo e a manta nas pernas, e a mãe deixou fazer tudo sem reclamar, o que era o sinal de que ela também estava querendo estar apresentável e nenhuma das duas ia admitir.Às nove em ponto tocou a campainha.---&nb







