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Capítulo X - Hebreus 1.14

Autor: Érika Gomes
last update Data de publicação: 2021-07-05 09:56:42

Diego cumpriu a sua promessa, pois rapidamente retornou com uma farta bandeja com frutas, pães e suco, Agares se alimentou com dificuldade, não sabia o porquê, mas estava demorando demais para se curar, os lábios ainda inchados e cortados, por causa da surra que Miguel lhe deu, doía muito ao abrir a boca para comer. Seu corpo ainda tremia de ódio, todas as vezes em que lembrava da cena, Miguel era um covarde, que fez quatro anjos segurarem Agares para então poder saborear a dor que os socos e chutes lhe traziam, Agares conseguia ouvir os ossos se quebrando e sentir a pele rasgando, mas não emitiu um único som e muitas vezes sorriu com desprezo, o que deixou Miguel ainda mais enfurecido. O resultado de tudo aquilo, foi um corpo quase todo enfaixado, olhos inchados e roxos e cortes profundos. Mas estava grato de estar se alimentando, mesmo com dificuldade.

Sua cabeça estava em ebulição, a imagem de Gabriel tocando Naiara daquela forma e o desespero nos olhos da menina, assombrava a cada minuto. Ver que o bonzinho estava tão mudado, despertava curiosidade em Agares, que chegou a questionar Diego, sobre acreditar que todos os anjos fossem bons e que Gabriel estava pior que um demônio de Azazyel naquele momento, o que obteve em resposta, foi somente um olhar triste e desolado do anjo que parecia ter uma noção de caráter sem comparativo. Ele estava deitado na cama, que agora estava parecendo um lugar para se dormir, Diego fez aparecer diante de seus olhos, um bom colchão, com lençol limpo e travesseiros e coberta, Agares entendia a posição de Diego e se lembraria de agradece-lo por sua compaixão. Mesmo tendo o corpo limpo, as roupas trocadas e agora bem alimentado, ainda assim não conseguia descansar a mente, sentia falta de casa, os dias eram infinitos naquele lugar e não ter o toque de Naiara, estava sugando todas as forças dele. Seus olhos se fecharam por alguns segundos e sentiu a presença de alguém dentro da cela, demorou um pouco a entender de quem se tratava, mas ele a viu, linda como se lembrava, talvez um pouco mais magra e abatida, mas ainda assim, perfeita. Os cabelos que ele amava, estava preso em um alto rabo de cavalo, coisa que ela só fazia quando estava em treinamento ou em guerra, a devastação de não estar ao lado dela a protegendo o atingiu com força, ele queria se levantar, queria correr e toma-la em seus braços, mas não conseguia se mover, o corpo não obedecia. Naiara movia os lábios e palavras em desespero, mas sem som algum saiam, ela chorava. Quando finalmente ele conseguiu dizer a única palavra que servia como o bote salva vidas para ele naquele lugar, ela sumiu.

Como se o corpo tivesse sido liberado no mesmo instante, ele sentou-se na cama e não conteve o desespero, as lagrimas despencaram de seus olhos e a dor que sentiu em seu peito o sufocava, naquele momento Agares desejou que a morte o alcançasse, não queria viver em um mundo onde não poderia ter o corpo de Naiara ao lado do seu e ali, no céu, entre os anjos, ele descobriu que estava no inferno.  Os dias se arrastavam e seguiam um padrão torturante, entre piadas sem graças e carregadas de ódio de um Gabriel que ele não reconhecia, Diego tentando suprir as necessidades de Agares e Miguel testando até onde o corpo dele aguentaria a dor. E Agares não sabia quanto mais seria capaz de suportar.

— O que quer Diego? – Gabriel gritou enquanto se afastava do anjo.

— Que pare com essa maldade toda, não foi para isso que o trouxemos e não vejo o porquê precisam continuar agindo dessa forma, vão mata-lo! – Então Diego entendeu, naquele exato momento, viu a troca de olhares entre Gabriel e Miguel, que desde a invasão, estavam inseparáveis – Não, não podem fazer isso, não vou permitir que tirem a vida de alguém... não...

— Quem pensa que é meu irmão, para permitir ou não uma decisão minha? – A voz de Miguel ecoava com tanta autoridade que fazia até mesmo um anjo alto e forte como Diego se encolher diante dela.

— Levarei esse caso ao nosso Pai, se tocar em mais um fio de cabelo de Agares.

— Acaso está me ameaçando?

Miguel parou e se virou para encontrar Diego, de frente um para o outro a diferença de tamanho e poder era nítida, Diego parecia um menino frágil, enquanto Miguel parecia crescer sobre ele, mas ainda assim Diego não se intimidou, encontrou o olhar do irmão e sustentou.

— Não é uma ameaça irmão, estou lhe informando uma verdade. Machuque aquela criança novamente e levarei essa situação ao nosso Pai! – Miguel explodiu em riso.

— Criança? Está mesmo se referindo aquele demônio como criança? Neste momento Diego, meu desejo é de m****r prender você, pois algo me diz que se encantou com a visita que fizemos ao Sheol. – Sua voz vivia carregada de ironia e Gabriel ao lado dele, arqueava a sobrancelha e olhava para Diego, como se esperando também por uma resposta.

— Cuidado irmãos, pior não é se encantar com o inferno, mas permitir que ele faça morada em seu coração e você acabe se tornando pior do que aqueles que ali habitam.

Sem dizer mais nada Diego virou-se e andou o mais rápido que conseguiu se afastando deles, de alguma forma, estar perto dos dois o fazia muito mal. Vendo o olhar de seus irmãos Diego teve então uma certeza, precisava descobrir um jeito de tirar Agares dali, antes que fosse morto por eles.

— Não vou voltar Yekun, chegamos até aqui e irei até o fim. Consegui me comunicar com minha mãe e ela diz não ter conhecimento de uma de suas irmãs aqui, mas não podemos confiar nessa informação, já que minha mãe se afastou de todas há tantas décadas.

— Não sei se é seguro, estamos sozinhos, não sabemos contra quem lutamos e se este ser está ao lado de Azazyel ou não. – O tom de voz deixava claro sua preocupação, mas ela estava decidida, não voltaria.

Yekun se revelava visivelmente cansado, voava carregando Naiara em seus braços há horas com medo de colocarem o pé no chão e serem atacados, mas não conseguia mais, precisaram descer e abrigar-se o mais longe possível de qualquer resquício de vida verde.

— Você está acabado. – Naiara disse enquanto levava a mão ao rosto dele e deslizava os dedos sobre as olheiras profundas.

— Sempre desejei ouvir isso da mulher da minha vida. – Disse ele sorrindo para ela, que de imediato revirou os olhos e deu um leve tapa no peito de Yekun, afastando-se em seguida.

— Para um caído, você anda muito bem humorado.

Disse sobre o ombro já retirando a mochila que carregava com o que conseguiu resgatar do último acampamento. Não havia sobrado muita coisa, mas o pouco, seria necessário, Yekun se aproximou pegando a mochila e apoiando em uma pedra larga, próximo a eles, segurou Naiara pelos ombros a virando, fazendo a menina o olhar.

— Eu não sou mal humorado – Disse com tanta intensidade, que Naiara acreditou que havia magoado ele com aquele comentário.

— Eu sei... – A menina começou a falar, mas ele a interrompeu.

— Mas você consegue despertar o melhor que há em mim.

Falou tão baixo que mais pareceu um sussurro. Yekun segurava-se há muito tempo, ter Naiara em seus braços, tão próxima, levava o caído ao limite da loucura. Aproximou-se um pouco mais e ela não se afastou, presa no poder que o olhar dele exercia sobre ela, com cuidado, como se avisando a sua amada que a tocaria, levantou o braço e sua mão alcançou a pele delicada do rosto de Naiara, acariciando levemente. Deslizou os dedos até a nuca da menina e a puxou para ele, que se curvou sobre ela e aproximou seu rosto, seus lábios estavam tão próximos que conseguiam sentir a respiração um do outro, quente e gelado se misturando, dando o equilíbrio perfeito a temperatura. Naiara fechou os olhos e em algum lugar, perdido em um canto escondido de sua mente, ela sabia que não deveria, mas todo o seu corpo ansiava por sentir o gosto dos lábios dele, ela se colocou na ponta dos pés, vencendo a mínima distancia que os separavam, fazendo Yekun sorrir quando viu a reação dela.

E sem conseguir mais conter o desejo que rodeava os dois, eles se beijaram. A princípio, algo tímido, devagar, como se as bocas estivessem se conhecendo, se descobrindo, mas não demorou muito para que a tão conhecida sensação de pertencer um ao outro os invadisse. Yekun, entrelaçou os dedos nos longos fios negros de Naiara e reivindicou sua boca, sua língua pediu passagem, encontrando com a dela e sentindo a explosão em seu corpo, quando o gosto daqueles lábios lhe tomou todos os sentidos. Naiara colou seu corpo ao dele e sem pensar em nada, levou os dois braços ao redor do pescoço de Yekun, seus dedos procurando e enterrando-se nos cabelos dele, puxando levemente enquanto o beijo se intensificava. A mão livre de Yekun, deslizava pela lateral do corpo da menina, tomando posse do que deveria ser o seu destino. Não havia nada de errado, não poderia ser considerado uma traição, Naiara lhe pertencia da mesma forma como ele pertencia a ela, foram desenhados para ser um do outro, projetados para suprir as necessidades mais intimas, os desejos mais insano. A mão grande e gelada do caído, espalmou no final da coluna dela e com urgência, puxou o corpo para si, tirando um gemido dos lábios da menina. Ele a queria, desejava tomar posse de cada pedaço dela, marcar sua pele branca e deixar claro a quem pertencia, era seu dono, seu destino. Sem o menor pudor ou constrangimento, Naiara deixou suas mãos percorrerem a barra da fina camisa que ele usava, levantando o tecido e encontrando a pele gelada, seu corpo tremeu levemente, mas o tremor não foi despertado pela temperatura fria, como se tivesse reconhecido o toque, como se seus dedos soubessem a exata sensação que aquele movimento traria, ela passeou pelo peitoral de Yekun, brincou com as unhas na lateral de seu corpo, o arranhando, marcando. Com Agares ela tinha fogo, paixão, ele conseguia saciar seu desejo, mas jamais havia experimentado algo assim, Yekun a enlouquecia e tudo o que ela queria naquele momento, era arrancar todo o tecido que separava seus corpos. Ela se afastou o suficiente para conseguir respirar e ele fez o mesmo, colando sua testa na dela e respirando com certa dificuldade.

— O que foi isso? – Ela perguntou, ainda atordoada com o que sentiu.

— Você é minha. – Declarou, olhando diretamente nos olhos dela. Naiara sentiu o peso daquela afirmação.

— Eu sei. – Ela realmente sabia, sentia, entendeu no exato momento em que seus corpos se encontraram. Mas para ela existia uma diferença, ela ainda poderia escolher.

— Já disse que não quero comer nada.

Agares rosnou de dentro de sua cela que graças a Diego, agora estava um pouco mais “humanizada”.

— Além de demônio ainda é louco? Quer me deixar surda?

Ele se virou rapidamente para a direção de onde ouviu a voz feminina e se surpreendeu com a imagem. A porta estava totalmente aberta e no centro da visão que parecia ser sua liberdade, estava a mulher mais linda que ele já viu, usava uma calça branca tão justa que parecia fazer parte de sua pele, uma camisa de mangas compridas e gola V em um decote profundo, marcava seu corpo e exaltava os seios fartos, os cabelos caiam sobre seus ombros até a altura da cintura em grandes cachos loiros e seus olhos carregavam todo o azul do céu.

— Linda. – Ele sussurrou sem nem ao menos notar.

— Ok, demônio, escandaloso e galanteador. Agora por favor, coma isso.

Sem se preocupar com a porta ainda aberta, ela atravessou o espaço entre eles e parou em pé na frente de um Agares abobado a olhando.

— O que foi? Perdeu completamente o poder de se mover?

Ele continuou imóvel, somente a olhando.

— Hum, ok. Me disseram que os meninos bateram pesado em você, devem ter usado mais força que o necessário pelo visto. – Ela se abaixou um pouco e pronunciou as palavras como se estivesse conversando com uma criança pequena – Oi, me chamo Gabriela... eu Gabriela e você é....? – Alguns segundos se passaram – Ok, vai ser mais difícil do que parece. – Disse para ela mesma. – A comida está aqui, coma.

Gabriela se virou para sair, mas Agares levantou-se rapidamente e segurou-a pelo braço, fazendo o anjo parar e se voltar para ele.

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