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Capítulo IX - Josué 1.9

Autor: Érika Gomes
last update Data de publicação: 2021-07-05 09:53:51

Não acho isso

Todos ficaram apreensivos, esperando a bolha de fúria de Naiara explodir por descobrir que não poderia salvar Agares, mas ao contrário do que todos imaginaram a menina sorrio. O sorriso amplo tomou o seus lábios de uma forma linda, endireitou-se no sofá e olhou para os pais com a esperança borbulhando em seus olhos, não entendendo o porquê de seus pais olharem de volta para ela como se estivesse enlouquecendo.

— Mas se precisamos de um convite dEle, está tudo resolvido então.

— Não entendo. – A voz suave, mas firme de Amarantha preencheu o lugar. Élida que estava sentada no braço de uma poltrona, bufou se jogando contra o assento, pior do que uma criança, quando seu tempo no brinquedo se acaba.

— Só eu acho que essa menina endoidou? – Ela perguntou em meio ao bico, realmente brava. – Até quando vão ficar segurando Naiara como se fosse um cristal preste a se quebrar? – Sentou-se e olhou diretamente nos olhos de Naiara, que agora a encarava – Florzinha, volta para terra meu amor, para de ser louca. Não há como entrar lá e resgatar seu demônio loiro, ele só volta quando Miguel resolver negociar de alguma forma, se ele ainda estiver vivo. Precisamos de Azazyel, porque quando formos atacados novamente eles irão aniquilar com todos, pois não temos “homens” o suficiente para essa luta. – Levantou as pequenas mãos, fazendo aspas na palavra. – Entendeu agora?

— Sim e não. – Respondeu com sinceridade, fazendo Élida desmoronar, ainda mais mau humorada na poltrona.

— Desisto. – Declarou.

— Não estou entendendo vocês. – Todos pareciam cansados e incrédulos demais para debater com Naiara, que se arrumava no sofá e procurava o olhar de cada um enquanto falava.

— E eu vos digo a vós: Pedi, e dar-se-vos-á; buscai, e achareis; batei, e abrir-se-vos-á. – Disse claramente.

— Sério mesmo que ela está citando a bíblia? – A pequena bruxa estava inconformada – Deixou ela cair de cabeça na batalha? – Perguntou diretamente para Yekun que deu de ombros sem entender nada também.

— Ah por Deus! – Naiara explodiu levantando-se, falava alto o suficiente para qualquer um no raio de quilômetros conseguisse ouvir – Ele mesmo deixou claro, que quando precisássemos, era somente buscar por Ele, pedir e Ele atenderia. – Ela se virou para o pai com o olhar acusador – Você mais do que todos aqui deveria saber disso pai.

Os ombros de Heylel caíram e Amarantha fazia carinhos na lateral de seu braço, subindo e descendo devagar, dizendo palavras de carinho e apoio, somente para ele ouvir. Naiara se ajoelhou na frente de seu pai e segurou o rosto dele entre suas mãos, fazendo ele olhar para ela, buscando por sua total atenção.

— Pai, Ele é seu criador, chame, converse, faz aquelas coisas que o Robert dizia, Ele vai te ouvir.

Havia tanta convicção nas palavras dela.

— Minha pequena guerreira... – Não queria frustrar a filha, muito mais do que isso, não queria que ela se decepcionasse com seu Criador – Claro que Ele ouvira, acredito que até mesmo viria ao meu encontro, mas não há como intervir, acredita mesmo que Ele não saiba de tudo o que o Miguel está fazendo? – Ninguém parecia se surpreender com o que Heylel dizia, somente Naiara – Claro que sabe, Ele sabe de todas as coisas, assim como sabia que eu tentaria tirar o seu trono. – Terminou a frase baixinho.

— Então... eu realmente... não entendo mais nada.

Ela sentou-se aos pés de seus pais e não estava mais fazendo questão de entender, sentia como se o chão fosse se abrir e engolir seu corpo, queria mesmo que isso acontecesse.

— Naiara – Élida sentou-se de frente a menina e decidiu dizer tudo sem rodeios novamente – pare de agir como uma adolescente boba e apaixonada, você não perdeu seu primeiro amor para uma líder de torcida. Agares foi levado pela guarda celestial após um confronto violento, onde muitos dos nossos e muitos dos deles morreram. – A raiva começava a ferver nos olhos de Naiara, não somente pelo o ocorrido, mas pela forma que Élida lhe tratava – Não há como Ele nos ajudar, pois todos, até mesmo Seus anjos tem o livre arbítrio em suas decisões, está ai o seu pai que não nos deixa mentir – Apontou para Heylel lembrando a todos de sua queda – Então saia desse chão, levante-se como a Herdeira do Sheol que você foi destinada a ser e vá em busca Azazyel e implore se preciso for por sua ajuda.

Naiara simplesmente desapareceu na frente de todos.

— Estou começando a me cansar dessa mania dela de sumir sempre que é confrontada. – Élida se levantou e começou a sair da sala falando sobre os ombros para Amarantha – Precisa impor limites a essa menina minha irmã, assim ela não conseguirá ser o que precisa ser.

E Amarantha sabia que Élida estava com razão. Yekun se levantou e antes mesmo que pudesse ser impedido por alguém, desapareceu porta a fora, deixando a tão conhecida rajada de vento para trás, ele sabia onde ela estaria, aquele lugar não poderia ser encontrado por qualquer um. Não demorou muito para o sol aquecer suas asas e o cheiro salgado do mar lhe tomasse as narinas, ele viveria mil vidas e não seria capaz de se cansar da sensação de liberdade que aquele lugar lhe trazia. Lá estava ela, sentada na areia, tão próxima ao mar que sua roupa já estava quase toda molhada, ela ficaria doente, Yekun se projetou para frente indo o mais rápido que conseguia naquele momento e sem dizer uma palavra, voou sobre ela a pegando no colo, como uma criança e a afastando do mar.

— Ah... – ela protestou fazendo um bico. Élida tinha razão, parecia mesmo uma adolescente mimada sendo contrariada, mas ainda assim, para ele, era o bico mais lindo que já tinha visto. Conteve o impulso de beija-la.

— Vai acabar ficando doente com essa roupa toda molhada e morrer de gripe não trará ele de volta.

— É sério? – Antes mesmo que ele pudesse responder Naiara já estava completamente seca olhando-o. Ela era tão normal, tão fisicamente humana, que Yekun se esquecia do que era capaz de fazer, não sabia ao certo se realmente era por sua aparência ou por desejar que no fundo, Naiara precisa mesmo ser cuidada e protegida.  – Terra chamando Yekun. – Ela disse estalando os dedos na frente do rosto dele, ele sorrio levemente a olhando.

— Desculpa, estava perdido em pensamentos. Você fica melhor assim, seca. Agora me diz, porque sumiu dessa vez?

O tom de voz de Yekun deixava claro o que pensava sobre os sumiços de Naiara e no fundo ela entendia a reação dele e acreditava que todos os outros também deveriam pensar o mesmo, mas sentia-se sufocada, enlouquecida, por acreditar que poderia fazer tanto e mesmo assim, não conseguia fazer nada. Essa sensação de impotência diante das circunstancias a deixava desesperadamente frustrada. A menina gritou com todas as forças que havia em seus pulmões, gritou tão alto que poderia acordar um morto, o ruído saiu de sua garganta arranhando e machucando suas cordas vocais e só parou quando não havia mais ar algum dentro de si para continuar. Ela levou as mãos aos joelhos e respirava com dificuldade quando ouviu a voz forte de Yekun em seu ouvido.

— Sabia que você não batia bem da cabeça, namorar Agares e me rejeitar é um claro sinal desse seu estado.

Naiara o olhou por alguns segundos e sorrio, o sorriso se transformou em riso e em pouco tempo estavam gargalhando até caírem sentados na areia fofa.

— Desculpa, tenho sido uma cretina mimada mesmo.

E lá estava ela novamente, a asa negra a envolvendo, trazendo seu corpo para perto, transmitindo a sensação de paz que Naiara tanto precisava. Ela encostou mais na lateral do corpo dele e deixou sua cabeça tombar sobre o braço de Yekun, ele respirou profundamente, sentindo o aroma da mulher que havia sido destinada a ser dele e por uma ironia do destino, estava perdidamente apaixonada por um outro alguém. Ele queria somente toma-la em seus braços e a levar para o mais longe possível, afasta-la de todos que pudessem machuca-la, proteger Naiara com a sua própria vida e passar a eternidade se dedicando a faze-la feliz. Por um momento Yekun baixou a guarda e esqueceu do elo de ligação entre os dois e como Naiara estava mais atenta e conectada a ele nos últimos dias, a menina ajeitou-se, virando o corpo levemente para ele e o encarou, perdendo-se na sua escuridão, dois olhos negros, como noite se fazendo liquida, como o céu sem nenhuma estrela. Tudo o que ele desejava era que aqueles olhos brilhassem por ele como brilhavam por Agares, suspirou em frustração e sua asa se fechou, deixando o ar frio que vinha do mar atingir Naiara. O encanto se quebrou no mesmo momento e ela se ajeitou, afastando-se dele um pouco constrangida.

— Desculpa. – Yekun disse baixo.

— Não precisa se desculpar, não tem culpa por nada disso – Naiara respondeu ainda mais baixo, mal passando de um sussurro – Alias, ninguém tem culpa dessa confusão toda, seria muito mais fácil se não houvesse escolha, se não tivesse o livre arbítrio, assim teríamos que simplesmente ser, sem nos preocuparmos em sofrer ou com as decisões de nossas escolhas.

Aquele havia sido o discurso mais longo dela desde o dia em que acordou, estava falando somente algumas frases e quase sempre sem muita convicção. Ele gostaria mesmo que fosse daquela forma, sem escolhas, sabia que a vida se encarregaria de trazer Naiara para ele em algum momento, mas seria como abrir mão de um tesouro, de algo precioso, o direito de ir e vir, de pensar e decidir o que quisesse e não ser escravo de situações pré determinadas. Mas ainda assim, abriria mão de tudo para tê-la.

— Sim, realmente seria bem melhor... -  Não conseguiu continuar, as palavras morreram antes mesmo de se formar em seus lábios. Yekun se colocou em pé e estendeu a mão para Naiara que automaticamente segurou e deixou ser puxada para cima, ficando em pé de frente para ele.

— Mas temos o direito de escolha e sua escolha é salvar Agares, então vamos, precisa parar com essa mania de desaparecer toda vez que é confrontada. Precisa ser a adulta que todos esperam que seja e se posicionar como a Herdeira que sabe que é, tem um legado em suas mãos, Vida e não pode fugir dele como foge das pessoas. 

As palavras eram carinhosas e ditas com cuidado para não magoar, mas ainda assim eram verdadeiras e atingiram Naiara como uma faca afiada, ela estava se transformando em tudo o que sempre condenou, uma menina fraca e mimada. Dessa vez não esperou Yekun a envolver em suas asas, não esperou que a sensação de paz que gostava tanto, cercasse seu corpo, somente entrelaçou os dedos aos dele e sorrio, concordando em silencio com tudo o que ele havia dito e no segundo seguinte, estavam em casa novamente.

— Então precisamos da ajuda de Azazyel não para conseguir ir até Agares, já que isso é impossível, segundo vocês, mas precisamos de força aliada em caso de um outro ataque – Disse rapidamente, surpreendendo a todos que estavam na sala – partiremos daqui duas horas. – Naiara se virou para Abigor que estava parado como um guarda costas na entrada – Por favor convoque os soldados que achar necessário para ir conosco, peça que nos encontre daqui duas horas no portão principal – Antes mesmo que tivesse acabado a frase, Abigor estava se virando para sair – Abigor, lembre-se somente que não há necessidade de uma grande quantidade, se Azazyel é o que todos dizem, nós matara em um piscar de olhos, não vamos impor a morte a ninguém sem necessidade extrema.

Abigor assentiu e saiu.

— Pai, mãe, preciso que fiquem e defendam nosso lar, não sabemos o que Miguel está planejando e não haverá necessidade da ajuda de vocês, não agora.

— De forma alguma – Amarantha estava em pé e usava seu tom de voz autoritário – Não vamos ficar aqui sentados enquanto você se lança em um caminho desconhecido para falar com aquele monstro.

— Caminho desconhecido? – Questionou confusa.

— Ah minha filha, acreditou mesmo que poderia simplesmente surgir em frente ao terceiro reino como fez com Belial? Não há como isso acontecer, nem mesmo minha magia é capaz de quebrar a barreira do terceiro reino, terá que andar por terras desconhecidas, cheia de armadilhas e perigos.

Ela realmente acreditou que aquele seria o meio para chegar até Azazyel, mas nada havia sido fácil para Naiara, desde que descobriu sua verdadeira linhagem, sabia que agora não seria diferente. Ela suspirou profundamente e sorrio encarando os pais.

— Então, irei me lançar no desconhecido.

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