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Uma ilusão quebrada

Autor: Angel Summer
last update Data de publicação: 2026-08-07 12:38:09

O trajeto até o apartamento foi acompanhado por uma tranquilidade que Lia não experimentava havia muito tempo. A pintura descansava cuidadosamente protegida no veículo que a seguia, enquanto ela dirigia sorrindo de vez em quando ao imaginar a expressão de Elian quando descobrisse o presente que ela havia conseguido para ele.

Aquela obra não era apenas uma peça valiosa; representava os cinco anos que haviam construído juntos, os sacrifícios compartilhados, as guerras travadas ombro a ombro e o sonho que, enfim, se tornaria realidade no dia seguinte, quando pronunciasse o “sim” diante do altar.

Ao parar em frente ao edifício, cumprimentou a equipe de segurança com a naturalidade de quem passava anos entrando e saindo daquele lugar. Os guardas retribuíram o cumprimento com respeito enquanto um deles sorria.

—Senhorita Lia, parabéns pelo casamento. Amanhã será um grande dia.

Ela respondeu com um sorriso caloroso.

—Obrigada. Também espero que sim.

Subiu no elevador segurando a pequena caixa onde descansavam as alianças que o joalheiro havia ajustado naquela mesma tarde. Ela insistira em buscá-las pessoalmente porque desejava prová-las em Elian antes da cerimônia. Queria vê-lo rir, abraçá-lo e convencê-lo a descansar cedo para que no dia seguinte tudo saísse perfeito.

As portas do elevador se abriram lentamente e Lia caminhou pelo corredor com uma tranquilidade que contrastava com o turbilhão de emoções que levava no peito.

Quando introduziu a chave na fechadura, descobriu que a porta não estava completamente fechada. Franziu ligeiramente o cenho. Elian sempre era extremamente cuidadoso com a segurança de sua casa, por isso encontrar a porta apenas encostada lhe pareceu estranho.

—Eli? —perguntou enquanto empurrava suavemente a porta.

Ninguém respondeu.

Entrou devagar, deixando a bolsa sobre uma consola do hall de entrada. O apartamento permanecia tenuemente iluminado e, sobre a mesa da sala de jantar, havia uma garrafa de vinho aberta junto a duas taças servidas pela metade. Lia sorriu, divertida, ao pensar que talvez ele também tivesse preparado uma surpresa para celebrar a última noite antes do casamento.

Então ouviu um som.

Primeiro foi um suspiro abafado, depois um gemido feminino, sua sonrisa desapareceu lentamente.

Permaneceu imóvel durante alguns segundos tentando se convencer de que havia entendido mal, mas outro gemido, muito mais intenso, atravessou o silêncio do apartamento. Desta vez veio acompanhado por uma voz masculina que ela conhecia melhor do que a sua própria.

Era Elian.

O coração começou a bater com força enquanto ela avançava pelo corredor. Cada passo parecia mais pesado que o anterior e uma sensação desconhecida lhe oprimia o peito. Não queria abrir aquela porta. Não queria descobrir o que acontecia atrás dela, porque uma parte de seu coração ainda se agarrava à esperança de que tudo tivesse uma explicação.

Quando chegou diante do quarto principal, a porta permanecia entreaberta.

Lia a empurrou lentamente e, naquele momento, seu mundo deixou de girar.

Sobre a cama, completamente nua, uma mulher permanecia apoiada sobre as mãos e os joelhos enquanto Elian a segurava com firmeza pela cintura. Seus corpos se moviam no mesmo ritmo e nenhum dos dois pareceu notar sua presença até que o pequeno estojo com as alianças caiu das mãos de Lia e atingiu o chão com um som seco.

Elian levantou a cabeça.

Durante alguns segundos, ambos ficaram se olhando em silêncio, as lágrimas começaram a encher os olhos de Lia sem que ela pudesse impedir.

—...Eli?

Sua voz foi apenas um sussurro.

—O que... o que significa isso?

A mulher virou apenas o rosto e, longe de se envergonhar, observou Lia com um sorriso carregado de arrogância antes de gemer com mais força, movendo-se para que Elian continuasse.

Elian exalou lentamente e terminou o que estava fazendo com uma tranquilidade que destruiu o último pedaço de esperança que ainda restava no coração de Lia. Suas investidas se tornaram mais brutais até que ele se descarregou dentro daquela mulher com um gemido baixo. Só depois se afastou dela, deixando-a cair na cama, pegou um roupão negro que descansava sobre uma poltrona e o vestiu enquanto acendia um cigarro.

—Bem... acho que já estava na hora de você saber.

Lia negou com a cabeça, incapaz de compreender o que estava vendo.

—Diga que isso não é real.

Ele soltou uma pequena risada.

—Claro que é real.

—Amanhã nós nos casamos...

—Precisamente por isso.

Ela deu um passo em direção a ele.

—Por quê?

Elian apoiou uma mão sobre o balcão do bar e a observou com uma serenidade que parecia muito mais cruel do que qualquer grito.

—Porque sou um chefe da máfia, Lia. Nenhum Don importante vive para uma única mulher. Durante cinco anos fui somente seu e cumpri minha palavra, mas há alguns meses compreendi que não fazia sentido continuar me limitando, sobretudo agora que tenho tanto poder.

As lágrimas começaram a rolar pelas bochechas de Lia.

—Você me prometeu que sempre seríamos apenas nós.

—E continuaremos sendo.

Ela ergueu o olhar, confusa.

—Você será minha esposa. Levará meu sobrenome, administrará a organização comigo e continuará sendo a única Donna. Isso não muda porque, de vez em quando, eu transe com outras mulheres.

Lia sentiu o estômago se revirar.

—Você está falando sério?

—Completamente.

Ele deu uma tragada no cigarro antes de continuar com absoluta naturalidade.

—Na verdade, o casamento de amanhã terá que ser adiado alguns dias.

Ela abriu os olhos sem conseguir acreditar no que ouvia.

—O que você acabou de dizer?

—Quero aproveitar uma verdadeira despedida de solteiro. Passarei os próximos cinco dias com ela e depois voltarei para nos casarmos. Você só precisa ligar para o sacerdote e mudar a data. Não deveria representar um problema para alguém tão eficiente como você.

O silêncio que se seguiu foi insuportável.

Lia observou a mulher que continuava recostada sobre a cama, sorrindo com descarada superioridade, e sentiu como algo dentro dela, uma raiva envolta em dor, subia sem que pudesse detê-la.

O tapa ressoou com força por todo o quarto.

O rosto de Elian virou com o impacto, mas ele só levou um segundo para voltar a olhá-la. Sem perder a calma, segurou o pulso de Lia com firmeza.

—Não volte a fazer isso.

Ela tentou se soltar.

—Me solte, seu bastardo nojento.

—Já mandei cortar cabeças por muito menos. Hoje eu perdoo porque você é a mulher que amo, mas não volte a cruzar esse limite ou não respondo por mim.

Lia sentiu que aquela frase lhe causava mais nojo do que a própria infidelidade.

—Você chama isso de amor?

—Claro que sim, eu te amo.

—Não... você ama o poder. A mim você só quer onde sempre estive: resolvendo seus problemas enquanto você faz o que bem entende.

Elian suspirou com evidente impaciência.

—Você está exagerando. Todas as grandes famílias funcionam assim. Vai entender quando for minha esposa e se acostumar com esta nova vida.

Lia o observou durante vários segundos. Diante dela já não estava o homem por quem havia se apaixonado cinco anos atrás, mas um desconhecido vestido com o mesmo rosto.

Uma lágrima desceu lentamente por sua bochecha, Elian a limpou com o polegar em um gesto que antes teria parecido terno e que agora só lhe provocou repulsa.

—Não chore. Quando eu voltar, vou compensar todo esse momento ruim.

Ela afastou bruscamente sua mão.

—Lembre-se bem deste momento, Elian Santana.

Ele arqueou uma sobrancelha.

—Por quê?

Lia tirou lentamente o telefone da bolsa. Sem dizer uma palavra, tirou uma fotografia da mulher nua sobre a cama, outra de Elian com o roupão aberto e finalmente guardou o celular.

—Porque você acaba de tomar a pior decisão da sua vida.

Elian deixou escapar uma gargalhada.

—Vamos, querida. Você jamais poderia viver sem mim, aceite, você me ama demais, será minha única Donna, ninguém jamais tirará esse lugar de você, só precisa fechar os olhos quando eu transar com uma ou outra mulher, sempre voltarei para você.

Ela sorriu pela primeira vez desde que havia entrado no apartamento, mas aquele sorriso estava completamente vazio.

—Você não faz a menor ideia de quem eu sou quando deixo de amar, Elian.

Sem esperar uma resposta, recolheu do chão o estojo com as alianças e saiu do apartamento sem olhar para trás. Quando as portas do elevador se fecharam diante dela, as lágrimas deixaram de cair e foram substituídas por um olhar tão frio que nem ela mesma se lembrava de ter tido alguma vez.

Cinco minutos depois, o automóvel negro abandonou o edifício em alta velocidade.

Lia já não se dirigia para casa. Havia tomado uma decisão e essa decisão levava um único nome.

Giorgio Bellamonte.

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