LOGINAura Keller
Terminei de digitar a última linha e fiquei olhando para a tela por alguns segundos. O documento estava pronto. Coloquei uma cláusula bem clara, bem direta:
"A partir da assinatura do presente divórcio, as empresas e ações pertencentes ao Grupo Keller serão separadas go Grupo Starling. Aura Keller reassumirá total e completo poder sobre suas ações e sobre a diretoria executiva do Grupo Keller, sem qualquer interferência de Miguel Starling ou de qualquer membro da família Starling."
Eu deixei que ele e o irmão cuidassem do que era meu por tempo demais. Deixei que decidissem por mim, que me tratassem como uma criança. Agora eu precisava assumir de volta o meu lugar. Se Miguel não me via como eu era, agora ele ia descobrir do que eu era capaz.
Imprimi duas vias. Coloquei dentro de uma pasta preta. Meu coração batia forte, mas minhas mãos estavam firmes.
Foi quando ouvi o carro parar na entrada. Miguel tinha voltado com ela.
Desci as escadas segurando a pasta contra o peito. Cada degrau parecia pesar mais que o anterior. Quando cheguei na sala, vi Beatriz entrando de muletas, com o braço direito enfaixado e uma expressão de dor no rosto. Miguel estava ao lado dela, ajudando-a.
Ele me viu e seus olhos escureceram de ódio.
"Satisfeita?" cuspiu ele. "A Beatriz torceu o pé e se cortou por causa da sua crise de ciúmes. Por causa disso, você vai ser a empregada dela até que ela se cure completamente."
Olhei para Beatriz. Ela me encarava com um sorrisinho debochado que só eu conseguia ver.
"Miguel... eu tenho medo que ela me machuque de novo." disse ela, com a voz trêmula. "Não acha que isso é demais? Ela só está com ciúmes da nossa amizade..."
"Não!" ele respondeu sem hesitar. "Ela vai fazer isso. Para aprender. Não pode sair agredindo as pessoas assim por mero capricho. Ela vai cuidar de tudo que diz respeito a você, até que você se cure. Não precisa se preocupar com mais nada, Bia."
Eu ri. Um riso seco, sem alegria. Senti o peito apertar tanto que doeu.
"E se eu me recusar?" Perguntei, olhando direto nos olhos dele.
Miguel me encarou com tanto ódio que eu quase dei um passo para trás.
"Então você vai receber meu completo desprezo. Tenho certeza de que não é isso que você quer."
Eu ri de novo, dessa vez com nojo. Mas meu tolo coração ainda estava emotivo, sem acreditar que Miguel estava mesmo fazendo isso comigo. Segurei as lágrimas antes que elas caíssem na frente deles.
"Isso eu já tenho todos os dias, Miguel. Você esqueceu que isso aqui é um casamento há muito tempo. Tanto que já está trazendo sua amante pra morar conosco."
Ele riu, debochado.
"Para de viajar, Aura. Ela é só minha amiga. Nossa amiga. Crescemos juntos, esqueceu? E tudo que ela está passando é por culpa sua. Não tente se isentar da responsabilidade."
Eu levantei a pasta.
"Assine isso."
Ele franziu a testa.
"O que é isso?"
Quando eu abri a boca para responder, Beatriz soltou um gemido de dor.
"Ai, Miguel... está doendo muito... você poderia me levar pro quarto?"
Ele deu um passo na direção dela. Eu segurei o braço dele com força.
"É um segundo. Assine isso agora."
Ele me olhou com raiva.
" Ela está com dor, Aura. Isso pode esperar."
"Não pode. Se não assinar, eu não te solto. E ainda bato nela de novo. É isso que você quer?" erguia sobrancelha, esperando a resposta dele.
Ele puxou a pasta da minha mão e foi até a mesa, já abrindo a última página. Miguel olhou para Beatriz, que fingia chorar de dor, e depois olhou para mim. Com raiva, pegou a caneta e assinou as duas vias rápido, sem nem ler.
"Aqui está seu maldito papel, agora me deixe cuidar da Bia."
Eu peguei as cópias com as mãos trêmulas.
Ele me olhou uma última vez.
"Agora vai pra cozinha e faz alguma coisa pra ela comer. E não me faça ficar com mais raiva ainda de você, ou eu te coloco pra fora dessa casa."
Ele se abaixou, pegou Beatriz no colo como se ela fosse um tesouro, e começou a subir as escadas. Ela passou o braço pelos ombros dele e me olhou por cima do ombro de Miguel. O olhar dela era vitorioso. Ela sorria.
Eu fiquei parada no meio da sala, segurando o papel que eu tinha acabado de conseguir.
Eu tinha conseguido. Ele tinha assinado.
Mas eu sentia como se tivesse perdido uma parte do meu coração para sempre.
Meu peito doía de um jeito que eu nunca tinha sentido antes. Não era só raiva. Era luto. Luto pelo homem que eu amei desde criança. Luto pela vida que eu tentei construir com tanto esforço. Luto por todas as vezes que eu me anulei, que eu engoli minha voz, que eu tentei ser a mulher que ele precisava.
E agora eu via com clareza: o amor dele nunca tinha sido realmente meu. Ele sempre pertenceu mais a Beatriz do que a mim.
Subi as escadas devagar, entrei no quarto de hóspedes e fechei a porta. Apoiei as costas na madeira e deslizei até o chão, ainda segurando o papel do divórcio contra o peito.
As lágrimas finalmente vieram. Não eram lágrimas de fraqueza. Eram lágrimas de alguém que finalmente entendia que tinha se perdido tentando salvar algo que nunca existiu de verdade.
Ele tinha assinado o divórcio.
E naquele momento, eu estava me divorciando da mulher que aceitava apenas migalhas.
ArthurDuas semanas na prisão foram suficientes para me fazer entender que minha situação era muito pior do que eu imaginava.No começo, tentei acreditar que tudo se resolveria. Rafael tinha dinheiro, influência e contatos suficientes para me tirar daquela situação. Bastava esperar que ele organizasse alguma coisa, contratasse um advogado decente e me ajudasse a sair dali antes que as acusações se tornassem definitivas.Mas Rafael estava morto.E eu estava sozinho.A cada dia, minha situação parecia piorar. Assédio sexual, tentativa de sequestro, invasão de privacidade, participação em um esquema de desvio financeiro e, agora, homicídio doloso. Eu havia atirado em Rafael, e o ferimento que deveria ter me dado tempo para escapar acabou tirando a vida dele. Não importava que eu não tivesse planejado matá-lo. Eu havia puxado o gatilho, e ele estava morto.A gravação feita por Clara era uma prova difícil de contestar, e o vídeo em que eu tentava arrastá-la para o carro tornava minha situa
Lucas HendrickEu estava sentado no sofá da sala quando recebi a ligação de John. Aura estava ao meu lado, com as pernas esticadas sobre uma almofada e uma das mãos apoiada na barriga. Desde que eu começara a caminhar com o andador, ela tinha desenvolvido o hábito de me observar sempre que eu me levantava, tentando disfarçar a preocupação. Eu fingia não perceber, embora soubesse que cada passo meu ainda fosse motivo de tensão para ela.Atendi à ligação e coloquei o celular no viva-voz."Lucas, tenho notícias."Pelo tom de John, percebi que alguma coisa havia acontecido. Endireitei o corpo no sofá, e Aura imediatamente retirou a mão da barriga para segurar a minha."Pode falar.""Arthur foi preso. A polícia já está com ele, e as provas que reunimos foram entregues às autoridades. Ele não vai mais circular livremente por aí, ele tem vários agravantes na ficha criminal."Soltei o ar devagar. Era uma notícia que eu esperava havia muito tempo, mas ouvir aquilo tornou tudo mais real. Arthur
Miguel StalingHendrick tinha nos tirado a Keller, nos encurralado financeiramente e impedido que Rafael se recuperasse. Cada tentativa de recomeçar terminava em outro problema, outra derrota, outra humilhação. Agora, meu irmão estava morto, e eu não conseguia deixar de pensar que tudo aquilo havia começado por causa dele.Eu não queria considerar a possibilidade de Rafael ter cometido um erro. Não queria pensar que meu irmão poderia ter tomado uma decisão que o colocara naquela situação.Era muito mais fácil culpar Lucas.Muito mais fácil acreditar que tudo poderia ter sido diferente se ele não tivesse cruzado nosso caminho.Bati as mãos no volante."Você acabou com tudo!"Minha voz ecoou dentro do carro, e eu precisei respirar fundo para não continuar gritando. Não havia ninguém ali para me ouvir, ninguém para me responder ou me dizer que eu estava errado.Rafael estava morto.E Lucas continuava vivo.A ideia era insuportável.Imaginei-o em sua casa, ao lado de Aura, cercado por seg
MiguelEu já estava escondido do lado de fora do hospital havia quase duas horas, e minha paciência começava a se esgotar.Eu tinha visto Rafael ser levado de ambulância, mas só descobri que ele havia sido baleado quando a notícia apareceu na televisão. Desde então, não conseguia pensar em outra coisa. Precisava saber como ele estava, mas não podia simplesmente entrar no hospital e perguntar pelo meu irmão. Se alguém me reconhecesse, eu corria o risco de ser preso antes mesmo de descobrir se ele ainda estava vivo.Por isso, permaneci afastado da entrada principal, observando cada pessoa que entrava e saía, na esperança de encontrar alguém que pudesse me dar alguma informação. Eu precisava de uma resposta. Qualquer uma. Porque, enquanto continuasse sem notícias, minha cabeça insistiria em imaginar o pior. Eu precisava acreditar que ele estava bem.Meu irmão já havia enfrentado situações difíceis antes. Mesmo quando tudo parecia estar desmoronando, ele encontrava uma maneira de continu
JohnNa delegacia, Arthur continuava tentando transformar a própria prisão em uma injustiça.Quando cheguei à sala onde ele prestaria depoimento, encontrei-o sentado à mesa, com as mãos algemadas e uma expressão que misturava indignação e falsa tranquilidade. Ele havia parado de gritar, mas isso não significava que tivesse desistido de tentar controlar a situação.Pelo contrário.Agora parecia ter decidido que seria mais inteligente fingir que estava disposto a colaborar."Finalmente", disse ele ao me ver entrar. "Estava esperando por você."Puxei uma cadeira e me sentei diante dele."Que coincidência. Eu não estava esperando por você."Arthur sorriu."Você sempre foi engraçado, não é? Deve ser fácil fazer piadas quando está acostumado a mandar nos outros."Não respondi.Ele se inclinou para a frente, estudando meu rosto como se procurasse alguma reação que pudesse usar contra mim."Quero fazer um acordo.""Você não está em posição de exigir nada.""Não estou exigindo. Estou oferecend
JohnArthur continuava falando quando o colocaram dentro da viatura.Insultos, ameaças, acusações. Ele parecia incapaz de compreender que a situação havia saído completamente do seu controle. Mesmo algemado, cercado por policiais e sem qualquer possibilidade de escapar, ainda se comportava como se pudesse intimidar alguém até conseguir o que queria.Eu observava tudo a poucos metros de distância, com a arma dele já recolhida e entregue às autoridades. Precisava garantir que a prisão fosse conduzida corretamente, que as provas fossem preservadas e que nenhum detalhe daquele confronto desaparecesse no meio da confusão.Principalmente porque Arthur não era o único problema.Rafael havia sido levado ao hospital em estado grave, e eu ainda não sabia se sobreviveria. Miguel continuava desaparecido, e, enquanto não o encontrássemos, Clara, Aura e Júlia ainda poderiam estar em perigo."Você vai se arrepender disso, John!", Arthur gritou quando um dos policiais o empurrou para dentro da viatur







