INICIAR SESIÓNAmanda
Eu sabia que aquele dia chegaria, só não imaginei que aconteceria tão cedo. Nem que fosse acontecer daquela forma. Nem que eu fosse estar tão despreparada.
A porta da sala de fisioterapia se fechou atrás de Caio e eu continuei parada no mesmo lugar.
Imóvel.
Sem conseguir respirar direito.
Minha mão ainda apertava a prancheta contra o peito, como se aquilo pudesse impedir meu coração de sair pela boca.
Meu Deus.
Ele estava aqui depois de todos aqueles meses. Depois de todas as vezes que eu repeti para mim mesma que nunca mais o veria. Depois de todas as noites em que tentei me convencer de que tinha tomado a decisão certa.
Fechei os olhos por alguns segundos, mas não adiantou. Porque a imagem dele continuava ali.
Aqueles malditos olhos escuros.
A barba por fazer.
A expressão irritada.
E a forma como me encarou quando percebeu minha barriga.
Eu conhecia aquele olhar. Era o mesmo olhar de um atacante segundos antes de marcar um gol. Quando ele enxergava uma oportunidade. Quando percebia algo importante. Quando sabia que estava perto da resposta.
Caio estava desconfiado. Muito desconfiado.
E aquilo era um problema enorme. Um problema que tinha nome e sobrenome. E um coração batendo dentro de mim.
Instintivamente levei a mão à barriga.
Ainda parecia surreal.
Mesmo depois de meses. Mesmo depois dos exames. Mesmo depois de ouvir os batimentos pela primeira vez.
Às vezes eu ainda acordava sem acreditar. Porque nada daquilo fazia parte dos meus planos.
Absolutamente nada.
— Amanda?
Abri os olhos.
Bianca, a secretária do clube, apareceu na porta.
— Você está bem?
Forcei um sorriso antes de responder:
— Claro.
Mentira.
Fazia pouco tempo que tínhamos nos conhecido, mas percebi que Bianca claramente não acreditou em mim.
— Tem certeza?
— Sim, eu só estou cansada.
Ela observou meu rosto por alguns segundos.
— Se precisar de alguma coisa, me avisa.
Assenti.
— Obrigada.
Assim que ela saiu, afundei na cadeira. Cansada. Exausta. Mas não fisicamente, era emocionalmente. Porque eu tinha passado meses construindo uma muralha e Caio tinha começado a derrubá-la em menos de meia hora.
A primeira vez que vi o teste positivo fiquei sentada no chão do banheiro durante quase uma hora. Sem me mexer. Sem falar. Sem pensar. Porque meu cérebro simplesmente se recusava a processar.
Grávida.
Eu estava grávida.
E não era de qualquer homem.
Era de Caio Ferraz. O jogador mais famoso do país.
O homem que eu tinha conhecido por acaso.
Lembro de olhar para o celular dezenas de vezes naquele dia.
Pensando.
Repensando.
Pensando de novo.
Eu tinha o número dele, mas não poderia ligar muito menos mandar uma mensagem para contar.
Contar para ele. Seria o certo. Não seria? Mas toda vez que pegava o aparelho, alguma coisa me fazia desistir da ideia.
Medo ou seria o bom senso?
Porque eu conhecia aquele mundo. Não pessoalmente, mas o suficiente para querer evitar escândalos, jornalistas e fofoqueiros. Além de querer evitar ser chamada de maria-chuteira interesseira e que estava querendo apenas dar o golpe em Caio.
Tudo viraria notícia e eu não queria aquilo. Não para mim, muito menos para um bebê que nem tinha culpa de nada. Então tomei a decisão mais difícil da minha vida.
Eu seguiria sozinha.
Pelo menos foi isso que tentei dizer a mim mesma. Até descobrir que algumas decisões têm consequências e que algumas pessoas são impossíveis de esquecer.
As semanas que se seguiram foram um caos. Vieram os enjoos, as consultas, exames, mudanças de humor e o medo constante de estar fazendo tudo errado. Eu nunca fui o tipo de mulher que sonhou com maternidade. Nunca imaginei nomes de filhos. Nunca montei quartos imaginários.
Minha vida sempre teve outros planos.
Faculdade. Especialização. Carreira. Independência.
Eu tinha trabalhado duro demais para construir tudo sozinha. Gostava de não depender de ninguém. Mas gravidez não ligava para planejamento. Ela simplesmente aconteceu e isso mudava tudo.
Lembro do primeiro ultrassom. Da médica sorrindo. Eu nervosa. A sala escura. O aparelho deslizando sobre minha barriga. Até que aquele som apareceu.
Tum.
Tum.
Tum.
Um coração pequeno, mas absurdamente forte.
Naquele momento, tudo mudou. O medo continuou existindo, mas algo nasceu junto.
Era amor.
Um amor tão grande que chegou a assustar porque eu ainda nem conhecia aquele bebê e já seria capaz de qualquer coisa por ele.
Inclusive esconder segredos.
Inclusive enfrentar o pai dele.
— Você está olhando para o nada faz cinco minutos.
Quase pulei da cadeira quando ouvi alguém falar. Ao me virar, vi que era Lucas, o médico do clube, ele estava parado ao meu lado.
— Que susto.
— Foi mal.
Ele puxou uma cadeira e se sentou ao meu lado.
— Então?
— Então o quê?
— O que aconteceu com você e o Caio?
Meu coração quase parou.
— O quê?
— Relaxa.
Ele riu.
— Não sou cego.
Merda.
— Não aconteceu nada.
— Claro.
— Eu estou falando sério.
— E eu também.
Lucas cruzou os braços na frente do corpo.
— O cara entrou aqui normal e saiu parecendo que viu um fantasma.
Não respondi porque qualquer resposta seria uma péssima ideia.
— Amanda...
— Não.
— Não o quê?
— Nem começa.
Lucas levantou as mãos em rendição.
— Certo, mas... Por acaso vocês se conheciam antes?
Fechei os olhos.
— Lucas.
— Tá bom.
— Obrigada.
— Só não vem reclamar depois que tudo isso acabar virando fofoca.
Senti meu coração acelerar.
— Não vai virar.
— Espero que não.
Eu também. Mais do que qualquer pessoa.
Durante o resto do dia tentei me concentrar no trabalho. Tentei, mas foi impossível. Porque toda vez que fechava os olhos, eu me lembrava dele.
Daquela noite.
Daquela maldita noite.
O pior era que eu nunca tinha me arrependido de ter conhecido Caio.
Arrependimento seria mais fácil, mais simples. Eu poderia culpá-lo. Poderia dizer que foi um erro ou poderia fingir que não tinha significado nada, mas eu estaria mentindo. A verdade era que tinha sido uma das melhores noites da minha vida.
E talvez fosse exatamente esse o problema.
Caio tinha sido gentil, engraçado, atencioso. Muito diferente da imagem arrogante que eu tinha criado do pouco que tinha lido sobre ele na internet. Lembro de nós dois sentados no chão do quarto do hotel comendo batata frita porque eu me recusava a pedir comida sofisticada. Lembro dele rindo quando descobriu que eu odiava sushi. Lembro de falar demais. De confiar demais. De me sentir confortável demais.
E isso era raro.
Talvez tenha sido ali que tudo começou a dar errado.
Porque eu deveria ter mantido distância, mas não consegui.
Quando o expediente do meu primeiro dia finalmente terminou, peguei minha bolsa e me apressei em ir embora. Ou pelo menos tentei. O estacionamento do CT estava quase vazio. O céu já começava a ganhar tons alaranjados e pela primeira vez naquele dia achei que conseguiria respirar.
Até ouvir uma voz atrás de mim.
— Amanda.
Meu corpo inteiro congelou.
Não.
Não.
Não.
Fechei os olhos por um segundo antes de me virar e ver Caio parado a poucos metros. Estava vestindo moletom exatamente como naquele dia. As mãos nos bolsos e aquela expressão determinada que eu já começava a odiar.
— O que você ainda está fazendo aqui?
— Esperando por você.
Que ótimo. Era exatamente o que eu precisava. Só que não.
— Por quê?
— Porque você fugiu da conversa.
Soltei uma risada incrédula.
— Você realmente não sabe desistir.
— Não quando quero respostas.
Meu coração acelerou.
— Eu já respondi tudo.
— Você não me respondeu nada.
Droga.
Ele estava certo e nós dois sabíamos disso.
O problema era que ele nunca saberia da verdade porque aquilo mudaria tudo.
— Vai para casa, Caio.
— Depois. Amanda...
— Eu não tenho mais nada para falar com você.
Ele deu um passo à frente e eu dei um para trás. Instintivamente. E vi exatamente o momento em que ele percebeu.
Os olhos dele baixaram para minha barriga. Dessa vez eu não tinha o jaleco para esconder. Caio estava juntando as peças e eu estava ficando sem tempo.
— Esse bebê...
Meu coração parou. Literalmente parou.
— Não.
A palavra saiu antes mesmo que ele terminasse a frase.
— Amanda.
— Já falei que não.
— Não faz isso. Eu preciso saber.
— Você não tem nada para saber.
— Preciso. — A voz dele saiu mais baixa dessa vez. Mais intensa e sincera.
Durante meses eu me preparei para enfrentar a raiva dele. A indignação. As acusações. Mas não para enfrentar aquele olhar.
Meu Deus.
Eu, realmente, não estava preparada para isso. Nem um pouco.
— Você acha que eu sou idiota?
A pergunta dele me pegou desprevenida.
— O quê?
— Porque eu sei fazer as contas.
Meu coração despencou.
— Caio...
— As datas batem.
Fechei os olhos.
— As datas batem perfeitamente.
— Para.
— Você desaparece.
— Para.
— Depois reaparece grávida.
— Chega.
Minha voz saiu mais alta do que pretendia, o que chamou a atenção de algumas pessoas que atravessavam o estacionamento ao longe.
Não queria aquela conversa ali.
Não queria aquela conversa em lugar nenhum.
— Me responde uma coisa.
— Não! Já estou farta dessa conversa.
— Amanda.
— Não.
— O bebê é meu?
O mundo inteiro pareceu parar.
Porque aquela era a pergunta que eu tinha evitado por meses.
A pergunta que mudaria tudo.
A pergunta que eu sabia que acabaria chegando.
E agora ela estava ali. Impossível de ignorar.
Levantei os olhos lentamente e peguei Caio me observando. E, pela primeira vez desde que o conheci, completamente vulnerável, como se uma única palavra minha pudesse destruir ou reconstruir o mundo dele. Meu peito apertou porque eu nunca quis machucá-lo, mas também nunca soube como contar a verdade.
— Amanda... — A voz dele saiu quase num sussurro.
E eu estava ficando sem respostas para esconder a verdade.
— O mundo não gira ao seu redor, Caio.
CAIOEu tinha convidado Amanda para tomar um café.Um café.Duas pessoas sentadas em uma mesa, provavelmente bebendo alguma coisa e conversando.Simples.Então por que eu estava no vestiário, depois do treino, trocando de camiseta pela terceira vez?— Essa também está ruim.Parei.Olhei para Murilo, sentado no banco do outro lado do vestiário.— Ninguém pediu sua opinião.— Mas você precisa dela.— Não preciso.Ele analisou minha camiseta preta como se fosse um especialista em moda.— Essa aí parece que você está se esforçando para parecer que não se esforçou.Franzi a testa.— Isso não faz sentido nenhum.— Faz, sim.— É uma camiseta preta.— Exatamente.Peguei a toalha e joguei na direção dele.Murilo desviou, gargalhando.— Você está nervoso!— Não estou.— Caio, eu já vi você entrar em campo numa final com cinquenta mil pessoas gritando seu nome e você estava mais tranquilo do que agora.Abri o armário.— É só um café.— Claro.Ele se levantou.— E eu só jogo futebol nos fins de s
AMANDANão consegui dormir.Mesmo depois de chegar ao apartamento da minha mãe, tomar um banho quente e garantir três vezes que ela realmente estava bem, o sono simplesmente não veio.Meu corpo estava exausto.Minha mente, não.Enquanto minha mãe dormia no quarto ao lado, fiquei sentada na varanda com uma caneca de chá já frio entre as mãos.A cidade estava silenciosa.Pela primeira vez em meses, eu me permiti pensar no futuro.E foi exatamente esse o problema.Porque, até então, eu vivia um dia de cada vez.Escondia a gravidez.Trabalhava.Voltava para casa.Ia às consultas.Repetia tudo outra vez.Agora...Caio fazia parte da minha rotina.E isso mudava completamente as regras.Levei a mão à barriga.O bebê deu um movimento tão leve que, por um instante, achei que fosse apenas impressão.Sorri automaticamente.— Você escolheu uma hora curiosa para aparecer...Murmurei.As lágrimas vieram sem que eu percebesse.— Seu pai é um idiota...Ri baixinho.— Um idiota bonito.Gentil.Engraça
CAIOFiquei parado no corredor enquanto Amanda entrava no quarto da mãe.A porta permaneceu entreaberta.Não o suficiente para ouvir a conversa.Só o bastante para enxergar, de vez em quando, o sorriso aliviado das duas.Respirei fundo.Pela primeira vez desde que ela entrou correndo no meu carro, senti meu peito aliviar.A mãe dela estava bem.Era isso que importava.Uma enfermeira passou ao meu lado empurrando uma maca, e aproveitei para me afastar um pouco da porta. Não queria que Amanda pensasse que eu estava tentando escutar alguma coisa.Encostei na parede do corredor e tirei o celular do bolso.Havia mais de vinte mensagens.O treinador perguntando como tinha sido a ação beneficente.Murilo enviando uma foto minha cercado pelas crianças com a legenda:"Papai do ano."Revirei os olhos e ri sozinho.Digitei uma única resposta."Idiota."A resposta chegou quase instantaneamente."Leva a fisioterapeuta para jantar logo e para de enrolar."Balancei a cabeça.Aquele cara realmente nã
AMANDAMeu coração parecia querer escapar pela garganta.Eu mal conseguia prender o cinto de segurança.As mãos tremiam tanto que precisei tentar duas vezes.Caio percebeu.Sem dizer nada, inclinou-se na minha direção.— Posso?Assenti.Ele puxou o cinto com cuidado e o encaixou no fecho antes de fechar a porta do carro.Um gesto simples.Mas feito com tanta delicadeza que meus olhos arderam.Ele deu a volta pelo capô, entrou no banco do motorista e ligou o carro.— Para onde?Respirei fundo.— Hospital Santa Helena.Assim que saímos do estacionamento, peguei o celular e liguei para minha mãe.Chamou.Chamou de novo.Nada.Minha ansiedade aumentou.— Atende...Murmurei.Caio olhou rapidamente para mim antes de voltar a atenção para a rua.— Ela mora sozinha?Assenti.— Desde que meu pai morreu.— O que aconteceu?Balancei a cabeça.— Não sei direito.Ela só disse que estava passando mal.A ligação caiu.Meu peito apertou.— Ela parecia assustada.Caio aumentou um pouco a velocidade, s
CAIOA volta para o centro de treinamento foi muito mais silenciosa do que a ida.A maioria dos jogadores dormia no ônibus, exausta depois de passar horas correndo atrás de crianças que pareciam ter energia infinita.Murilo ocupava duas poltronas mais à frente, completamente apagado, com a cabeça encostada na janela.Lucas respondia mensagens no celular.E Amanda...Amanda estava sentada na fileira ao meu lado, do outro lado do corredor.O rosto apoiado na janela.Os olhos perdidos na paisagem que passava.Ela parecia cansada.Muito mais do que deveria.Durante o evento, vi várias vezes ela levar discretamente a mão às costas, como se tentasse aliviar algum incômodo.Também percebi que quase não almoçou.Enquanto todo mundo repetia o prato, ela mal terminou metade da refeição.Aquilo voltou a me preocupar.Quando o ônibus parou em um semáforo, tomei coragem.— Amanda.Ela virou lentamente a cabeça.— Oi?— Posso fazer uma pergunta?Ela sorriu de canto.— Você pergunta isso antes de to
AMANDA— Doutora Amanda!Mal tive tempo de me virar antes de um grupo de crianças vir correndo na minha direção carregando folhas de papel, lápis de cor e uma energia que parecia inesgotável.Sorri imediatamente.— O que aconteceu?Uma menininha de cabelos cacheados levantou um desenho.— A professora falou que a gente pode pedir autógrafo para vocês.Peguei a folha com cuidado.Era um desenho simples de um campo de futebol. No centro, um bonequinho vestindo a camisa do clube chutava uma bola, enquanto outra personagem segurava uma maleta com um grande coração desenhado na frente.Na parte de cima, escrito com letras tortas, lia-se:"O jogador e a médica."Meu coração deu um pequeno salto.— Eu não sou médica.Expliquei sorrindo.— Sou fisioterapeuta.A menina inclinou a cabeça.— É quase a mesma coisa.Ri.— Prometo que os médicos discordariam.Ela fez um biquinho pensativo.— Mas você cuida das pessoas, não é?A simplicidade daquela resposta me fez ficar sem palavras.— Cuido.Respo







