LOGINCAIO
Sempre achei que confiar na intuição era coisa de gente supersticiosa.
No futebol, você aprende cedo que decisões precisam ser tomadas com base no que está diante dos seus olhos.
Você estuda o adversário.
Analisa vídeos.
Decora padrões.
Treina exaustivamente até o corpo responder antes mesmo que o cérebro precise pensar.
Não existe espaço para achismos quando um jogo pode ser decidido em um segundo.
Foi assim que construí minha carreira.
Confiando no que era concreto.
No que podia ser visto.
Provado.
Explicado.
Mas, desde que Amanda reapareceu na minha vida, nada parecia seguir essa lógica.
Ela tinha respondido todas as minhas perguntas.
Dissera que o bebê não era meu.
Que o pai sabia da gravidez.
Que estava presente.
Qualquer pessoa sensata aceitaria aquilo e seguiria em frente.
Então por que eu não conseguia?
Por que, toda vez que fechava os olhos, lembrava da maneira como ela desviou o olhar antes de responder?
Da pausa quase imperceptível entre uma pergunta e outra.
Da forma como apertou a bolsa contra o corpo quando falei do bebê.
Aquilo não saía da minha cabeça.
Respirei fundo enquanto terminava de amarrar o cadarço do tênis.
Já passava das seis da manhã quando saí de casa.
Dormir tinha sido praticamente impossível.
Passei metade da madrugada encarando o teto do apartamento, revivendo a conversa no estacionamento como se meu cérebro estivesse procurando um detalhe que tivesse deixado escapar.
Ridículo.
Era exatamente isso que eu repetia para mim mesmo.
Você está inventando problema onde não existe.
Amanda já tinha seguido a vida.
Existia outro homem.
Outro pai.
Outra história.
Fim.
Era simples.
Pelo menos deveria ser.
Assim que entrei no estacionamento do CT, reconheci a caminhonete de Murilo parada ao lado da minha vaga.
Nem precisei desligar o motor para vê-lo surgir com dois copos de café nas mãos.
— Sabia que você ia precisar disso.
Desci do carro rindo.
— Você virou barista agora?
— Não.
Entregou um dos copos para mim.
— Só estou evitando que você ataque alguém antes das oito da manhã.
Peguei o café.
— Muito generoso da sua parte.
— Eu sei.
Começamos a caminhar em direção ao prédio principal.
O centro de treinamento ainda estava silencioso.
Alguns funcionários organizavam os materiais no campo.
Os jardineiros terminavam de molhar o gramado.
O cheiro de café recém-passado misturado ao da grama úmida sempre fazia aquele lugar parecer uma segunda casa.
Murilo tomou um gole antes de falar:
— Dormiu?
Fiz uma careta.
— O suficiente para continuar vivo.
— Então dormiu mal.
Ele me conhecia havia tempo demais.
Desde as categorias de base.
Passamos pela primeira convocação juntos.
Pela primeira derrota importante.
Pelos primeiros contratos.
Era praticamente impossível esconder qualquer coisa dele.
— Está pensando naquela fisioterapeuta.
Não foi uma pergunta.
Foi uma afirmação.
Revirei os olhos.
— Você não desiste desse assunto?
— Não enquanto você continuar fazendo essa cara.
— Que cara?
Murilo parou de andar e me encarou.
— A cara de quem levou um pé na bunda.
Quase engasguei com o café.
— Vai para o inferno.
Ele gargalhou.
— Acertei.
Empurrei o ombro dele.
— Você fala demais.
— E você está estranho demais.
Continuamos caminhando.
Por alguns segundos, nenhum dos dois disse nada.
Achei que o assunto tinha morrido.
Até ele voltar à carga.
— Vocês tiveram alguma coisa?
Suspirei.
— Não exatamente.
— Como assim "não exatamente"?
— Foi uma noite.
Murilo arqueou as sobrancelhas.
— Uma noite?
Assenti.
— Meses atrás.
Em São Paulo.
Ele ficou me encarando.
Esperando que eu continuasse.
— E depois?
— Depois ela foi embora antes de eu acordar.
— Sem deixar telefone?
— Sem deixar nada.
Murilo assobiou baixo.
— Agora entendi essa sua cara de cachorro abandonado.
— Você e essa comparação de merda...
— Estou errado?
Pensei por alguns segundos.
— Não sei.
Era a resposta mais sincera que eu podia dar.
Porque realmente não sabia.
Até reencontrar Amanda, eu nunca tinha parado para pensar naquela noite.
Ou melhor...
Nunca tinha admitido o quanto ela tinha ficado na minha cabeça.
Sempre que lembrava dela, dizia para mim mesmo que era apenas curiosidade.
O ego ferido porque uma mulher tinha ido embora sem pedir meu número.
Mas agora...
Agora eu não tinha mais tanta certeza.
A manhã passou devagar.
Enquanto o restante do elenco treinava no campo principal, fiquei na academia seguindo o cronograma de recuperação.
Fortalecimento.
Mobilidade.
Equilíbrio.
Exercícios repetitivos que qualquer jogador lesionado aprende a odiar.
— Mais cinco repetições.
Lucas observava atentamente meus movimentos.
Obedeci sem reclamar.
A dor havia diminuído bastante.
Ainda existia um leve incômodo quando colocava peso sobre o tornozelo, mas nada comparado aos primeiros dias.
— Excelente.
Ele anotou alguma coisa na prancheta.
— Se continuar assim, na próxima semana você já começa a correr no gramado.
Sorri.
Finalmente uma boa notícia.
— Achei que demoraria mais.
— Sua recuperação está acima da média.
Levantei da plataforma de equilíbrio.
— Mérito meu.
— Mérito da fisioterapeuta.
Olhei para Lucas.
— Ela comentou isso?
— Comentou.
Disse que você segue exatamente tudo o que ela manda.
Sorri de canto.
— Nunca imaginei que receber elogio por obedecer fosse me deixar feliz.
Lucas riu.
— Aproveita enquanto dura.
Ela não costuma elogiar ninguém.
A informação ficou ecoando na minha cabeça.
Não fazia sentido me importar.
Mas me importei.
Muito mais do que deveria.
Pouco antes das dez horas caminhei até o departamento médico.
Conhecia aquele corredor de cor.
Infelizmente, lesões fazem parte da profissão.
Mesmo assim, naquela manhã, parecia diferente.
Porque eu sabia exatamente quem encontraria atrás daquela porta.
Respirei fundo antes de bater.
— Entra.
Empurrei a porta devagar.
Amanda estava organizando alguns elásticos terapêuticos sobre uma bancada.
Usava o uniforme azul-marinho do clube.
O cabelo preso num coque alto.
Alguns fios insistiam em escapar perto da nuca.
Ela levantou a cabeça.
Nossos olhares se encontraram por um breve instante.
Vi quando ela respirou discretamente antes de falar.
— Bom dia.
A voz saiu calma.
Profissional.
Como se a conversa no estacionamento nunca tivesse acontecido.
— Bom dia.
Fechei a porta atrás de mim.
Por alguns segundos, apenas o barulho do ar-condicionado preenchia a sala.
Amanda pegou minha ficha.
Folheou rapidamente.
Depois apontou para a maca.
— Pode sentar.
Obedeci em silêncio.
Ela aproximou um banco com rodinhas e se posicionou à minha frente.
Quando ajoelhou para retirar a tornozeleira, senti um perfume conhecido.
O mesmo perfume daquela noite em São Paulo.
Leve.
Discreto.
Mas suficiente para despertar lembranças que eu vinha tentando enterrar.
Ela percebeu que eu a observava.
Levantou os olhos.
— Algum problema?
Sorri de lado.
— Nenhum.
Era mentira.
O problema era justamente perceber que bastava ela estar perto para meu coração esquecer completamente que deveria seguir em frente.
CAIOEu sempre achei que, quando algo realmente importante acontecesse na minha vida, eu saberia exatamente o que fazer. Dentro de campo, estava acostumado a tomar decisões em segundos, a encontrar soluções sob pressão e a seguir em frente mesmo quando tudo parecia dar errado. Fora dele, porém, eu estava descobrindo que não existia treinamento capaz de me preparar para a notícia que Amanda havia me dado.Eu seria pai.Desde que deixei a cafeteria, aquela frase não saía da minha cabeça. Eu havia passado meses pensando na mulher que tinha ido embora do meu quarto em São Paulo sem me dar a chance de entender o que aquela noite tinha significado para ela, e agora eu tinha acabado de descobrir que, enquanto eu tentava encontrar uma explicação para sua partida, Amanda enfrentava sozinha uma mudança que transformaria nossas vidas para sempre.Não sabia o que me incomodava mais: imaginar tudo o que ela havia vivido sem mim ou perceber que, durante meses, eu estivera perto dela sem desconfiar
AMANDADurante meses, imaginei inúmeras maneiras de contar a Caio que ele seria pai. Em algumas, ele ficava furioso, em outras, simplesmente ia embora e em todas elas, eu terminava sozinha. Nenhuma delas se parecia com o homem que estava sentado diante de mim naquele momento.Caio me observava em silêncio enquanto eu segurava a xícara de chá entre as mãos.— Você não precisa ter medo de me contar.Senti meu peito apertar.— Eu sei.— Seja o que for, você pode falar comigo.Uma lágrima escapou antes que eu pudesse impedir.— E se for uma coisa que mude tudo?Caio não hesitou.— Então a gente lida com isso.Quase ri porque ele não fazia ideia do quanto aquelas palavras significavam. Porque o que eu contaria mudaria tudo. Mudaria a vida dele e a minha também.— Você fala como se fosse simples.— Não acho que seja simples se não já teria falado. — Ele estendeu a mão sobre a mesa. — Só... acho que você não deveria enfrentar sozinha.Olhei para a mão dele e depois para o rosto que eu havia
CAIOEu tinha convidado Amanda para tomar um café.Um café.Duas pessoas sentadas em uma mesa, provavelmente bebendo alguma coisa e conversando.Simples.Então por que eu estava no vestiário, depois do treino, trocando de camiseta pela terceira vez?— Essa também está ruim.Parei.Olhei para Murilo, sentado no banco do outro lado do vestiário.— Ninguém pediu sua opinião.— Mas você precisa dela.— Não preciso.Ele analisou minha camiseta preta como se fosse um especialista em moda.— Essa aí parece que você está se esforçando para parecer que não se esforçou.Franzi a testa.— Isso não faz sentido nenhum.— Faz, sim.— É uma camiseta preta.— Exatamente.Peguei a toalha e joguei na direção dele.Murilo desviou, gargalhando.— Você está nervoso!— Não estou.— Caio, eu já vi você entrar em campo numa final com cinquenta mil pessoas gritando seu nome e você estava mais tranquilo do que agora.Abri o armário.— É só um café.— Claro.Ele se levantou.— E eu só jogo futebol nos fins de s
AMANDANão consegui dormir.Mesmo depois de chegar ao apartamento da minha mãe, tomar um banho quente e garantir três vezes que ela realmente estava bem, o sono simplesmente não veio.Meu corpo estava exausto.Minha mente, não.Enquanto minha mãe dormia no quarto ao lado, fiquei sentada na varanda com uma caneca de chá já frio entre as mãos.A cidade estava silenciosa.Pela primeira vez em meses, eu me permiti pensar no futuro.E foi exatamente esse o problema.Porque, até então, eu vivia um dia de cada vez.Escondia a gravidez.Trabalhava.Voltava para casa.Ia às consultas.Repetia tudo outra vez.Agora...Caio fazia parte da minha rotina.E isso mudava completamente as regras.Levei a mão à barriga.O bebê deu um movimento tão leve que, por um instante, achei que fosse apenas impressão.Sorri automaticamente.— Você escolheu uma hora curiosa para aparecer...Murmurei.As lágrimas vieram sem que eu percebesse.— Seu pai é um idiota...Ri baixinho.— Um idiota bonito.Gentil.Engraça
CAIOFiquei parado no corredor enquanto Amanda entrava no quarto da mãe.A porta permaneceu entreaberta.Não o suficiente para ouvir a conversa.Só o bastante para enxergar, de vez em quando, o sorriso aliviado das duas.Respirei fundo.Pela primeira vez desde que ela entrou correndo no meu carro, senti meu peito aliviar.A mãe dela estava bem.Era isso que importava.Uma enfermeira passou ao meu lado empurrando uma maca, e aproveitei para me afastar um pouco da porta. Não queria que Amanda pensasse que eu estava tentando escutar alguma coisa.Encostei na parede do corredor e tirei o celular do bolso.Havia mais de vinte mensagens.O treinador perguntando como tinha sido a ação beneficente.Murilo enviando uma foto minha cercado pelas crianças com a legenda:"Papai do ano."Revirei os olhos e ri sozinho.Digitei uma única resposta."Idiota."A resposta chegou quase instantaneamente."Leva a fisioterapeuta para jantar logo e para de enrolar."Balancei a cabeça.Aquele cara realmente nã
AMANDAMeu coração parecia querer escapar pela garganta.Eu mal conseguia prender o cinto de segurança.As mãos tremiam tanto que precisei tentar duas vezes.Caio percebeu.Sem dizer nada, inclinou-se na minha direção.— Posso?Assenti.Ele puxou o cinto com cuidado e o encaixou no fecho antes de fechar a porta do carro.Um gesto simples.Mas feito com tanta delicadeza que meus olhos arderam.Ele deu a volta pelo capô, entrou no banco do motorista e ligou o carro.— Para onde?Respirei fundo.— Hospital Santa Helena.Assim que saímos do estacionamento, peguei o celular e liguei para minha mãe.Chamou.Chamou de novo.Nada.Minha ansiedade aumentou.— Atende...Murmurei.Caio olhou rapidamente para mim antes de voltar a atenção para a rua.— Ela mora sozinha?Assenti.— Desde que meu pai morreu.— O que aconteceu?Balancei a cabeça.— Não sei direito.Ela só disse que estava passando mal.A ligação caiu.Meu peito apertou.— Ela parecia assustada.Caio aumentou um pouco a velocidade, s







