Mag-log inAMANDA
Assim que a porta do elevador se abriu, tudo o que eu queria era chegar ao apartamento antes que as lágrimas finalmente me alcançassem.
Passei o caminho inteiro do estacionamento até ali tentando manter a postura.
Respirando fundo.
Repetindo para mim mesma que tinha feito a coisa certa.
Que era o melhor para todo mundo.
Principalmente para o bebê.
Mas bastou girar a chave na fechadura para toda aquela força desaparecer.
A porta se fechou atrás de mim com um clique baixo.
Joguei a bolsa sobre o sofá.
As chaves caíram na bancada da cozinha.
E minhas pernas simplesmente desistiram de me sustentar.
Escorreguei até o chão.
As costas encostadas na porta.
As lágrimas vieram sem qualquer esforço.
Silenciosas.
Pesadas.
Incontroláveis.
Levei as duas mãos ao rosto.
— Eu sinto muito...
Não sabia exatamente para quem estava pedindo desculpas.
Para Caio.
Para meu filho.
Ou para mim mesma.
Talvez para os três.
O apartamento parecia ainda menor naquela noite.
O silêncio, que normalmente me trazia paz depois de um dia inteiro atendendo atletas, agora parecia sufocante.
Respirei fundo diversas vezes, tentando controlar o choro.
Não adiantava.
Toda vez que fechava os olhos, via a expressão de Caio quando perguntou:
"O bebê é meu?"
Eu nunca tinha visto tanto medo nos olhos de alguém.
E, estranhamente, também havia esperança.
Era isso que mais doía.
Porque durante meses imaginei que, se um dia ele descobrisse, encontraria desprezo.
Raiva.
Acusações.
Não aquela mistura de insegurança e expectativa.
Ele queria saber.
De verdade.
E eu...
Eu olhei para ele e menti.
Depois de alguns minutos consegui me levantar.
Fui até o banheiro.
Lavei o rosto.
O espelho refletia exatamente como eu me sentia.
Cansada.
Os olhos vermelhos.
Alguns fios de cabelo escapando do coque.
A gravidez começava a aparecer cada vez mais.
Já não era possível esconder completamente a barriga.
Passei a mão devagar sobre ela.
— Acho que a mamãe fez uma bagunça enorme hoje...
Como se entendesse minha voz, senti um movimento suave.
Parei imediatamente.
Sorri entre as lágrimas.
— Você resolveu conversar comigo?
Outro movimento.
Pequeno.
Delicado.
Mas suficiente para fazer meu coração apertar.
Era incrível como um gesto tão simples conseguia mudar completamente meu humor.
Meses atrás eu mal conseguia acreditar naquele teste positivo.
Agora bastava um chute para que todo o resto deixasse de importar por alguns segundos.
— Eu prometo que estou tentando acertar...
Sussurrei.
— Mesmo quando parece que estou fazendo tudo errado.
Passei a palma da mão lentamente sobre a barriga.
Meu obstetra dizia que, naquela fase, o bebê já reagia à voz da mãe.
Então comecei a conversar.
Como fazia todas as noites.
Contei sobre o primeiro dia no clube.
Sobre os jogadores.
Sobre a estrutura do CT.
Sobre o quanto tinha ficado feliz quando recebeu aquela proposta de trabalho.
Até chegar na parte que eu evitava.
— E hoje nós encontramos seu pai...
Minha voz falhou.
A palavra ainda parecia estranha.
Pai.
Caio ainda nem imaginava que realmente era um.
E, se dependesse de mim, continuaria sem saber por algum tempo.
Fechei os olhos.
A culpa voltou imediatamente.
Quando descobri a gravidez, minha primeira reação foi ligar para minha mãe.
Ela atendeu na segunda chamada.
Bastou ouvir minha voz para perguntar:
— O que aconteceu?
Eu nem consegui responder.
Só chorei.
Ela pegou o primeiro voo para me ver.
Dois dias depois estava sentada na minha cozinha enquanto eu segurava a xícara de café sem coragem de beber.
— Você vai contar para ele?
A pergunta veio naturalmente.
Eu sabia que viria.
Mas não estava preparada.
— Não sei.
Minha mãe ficou em silêncio.
Sempre foi assim.
Ela nunca tentava decidir por mim.
Esperava que eu chegasse às minhas próprias conclusões.
— Você gostou dele?
Sorri sem humor.
— Esse é o problema.
Ela entendeu imediatamente.
Porque teria sido muito mais fácil se Caio tivesse sido apenas um jogador arrogante.
Um homem qualquer.
Mas não foi.
Naquela noite ele me ouviu falar da minha residência, da morte do meu pai, do medo que eu tinha de nunca ser boa o bastante na profissão.
Em troca, contou sobre a pressão de ser o garoto-prodígio do futebol desde os dezesseis anos.
Sobre a culpa de quase nunca conseguir passar tempo com a família.
Sobre o medo constante de decepcionar milhões de pessoas.
Quando amanheceu, nós já sabíamos muito um do outro.
Mais do que duas pessoas deveriam saber depois de apenas algumas horas.
Talvez tenha sido exatamente esse o problema.
Não foi apenas uma noite.
Foi uma conexão.
E conexões deixam marcas.
Meu celular vibrou sobre a bancada da cozinha, arrancando-me das lembranças.
Mãe.
Sorri de leve antes de atender.
— Oi.
— Eu estava esperando sua ligação.
Olhei para o relógio.
Já passava das oito da noite.
— Desculpa.
O dia foi...
Nem consegui terminar.
Minha mãe completou por mim.
— Você encontrou o Caio.
Fechei os olhos.
— Encontrei.
Houve alguns segundos de silêncio.
— Como ele reagiu?
Encostei na bancada.
— Ele desconfiou.
— Da gravidez?
— Sim.
— E perguntou?
As lágrimas voltaram.
— Perguntou.
Minha mãe respirou fundo do outro lado da linha.
— E o que você respondeu?
Demorei alguns segundos.
Porque, mesmo depois de tudo, dizer em voz alta ainda parecia errado.
— Eu disse que o bebê não era dele.
O silêncio que veio em seguida pareceu interminável.
Minha mãe nunca levantava a voz.
Nunca julgava.
Mas aquele silêncio dizia muito.
Mais do que qualquer bronca.
— Filha...
— Eu sei.
— Tem certeza de que foi a decisão certa?
Olhei novamente para minha barriga.
Não.
Eu não tinha certeza de mais nada.
Só tinha medo.
Medo da imprensa descobrir.
Medo de virar manchete.
Medo de perder o emprego recém-conquistado.
Medo de que Caio assumisse a responsabilidade apenas por obrigação.
Medo de vê-lo preso a uma vida que talvez nunca tivesse escolhido.
— Eu precisava protegê-lo.
— Proteger quem?
A pergunta da minha mãe me fez congelar.
— O bebê.
— Ou você?
Engoli em seco.
Porque, pela primeira vez, percebi que talvez as duas coisas estivessem misturadas.
Talvez eu também estivesse tentando proteger meu próprio coração.
Depois que desliguei o telefone, continuei parada na cozinha por um longo tempo.
As palavras da minha mãe não saíam da minha cabeça.
"Você está protegendo quem?"
Até então, eu tinha certeza absoluta da resposta.
Meu filho.
Sempre meu filho.
Mas, quanto mais pensava, mais difícil ficava separar uma coisa da outra.
Será que eu também estava tentando me proteger?
Fechei os olhos.
A resposta apareceu imediatamente.
Sim.
Eu estava.
Porque, desde a manhã em que deixei o quarto daquele hotel, eu tinha medo de descobrir que Caio Ferraz era igual a todos os homens que entraram e saíram da minha vida.
Homens que prometiam muito.
E desapareciam quando a situação deixava de ser conveniente.
Meu pai tinha sido o primeiro.
Não porque abandonou minha mãe.
Muito pelo contrário.
Ele morreu cedo demais.
Eu tinha apenas dezessete anos quando um infarto levou o homem que parecia capaz de resolver qualquer problema do mundo.
Depois dele, vi minha mãe trabalhar em dois empregos para pagar minha faculdade.
Vi contas acumuladas sobre a mesa.
Vi o orgulho dela impedir que aceitasse ajuda de qualquer pessoa.
Foi ali que aprendi uma das maiores lições da minha vida.
Nunca dependa de ninguém.
Construa a sua própria segurança.
Porque pessoas vão embora.
Dinheiro acaba.
Promessas mudam.
Você é a única pessoa que realmente permanece.
Durante anos vivi exatamente assim.
Estudando.
Trabalhando.
Economizando.
Construindo uma carreira da qual pudesse me orgulhar.
Até conhecer Caio.
E perceber que bastaram algumas horas para ele bagunçar todas as certezas que eu levei anos construindo.
Naquela noite quase não consegui dormir.
Sempre que fechava os olhos, lembrava da expressão dele no estacionamento.
Não foi alívio.
Muito menos felicidade.
Foi... decepção.
Uma decepção silenciosa.
Como se ele tivesse perdido alguma coisa importante.
Mas por quê?
Não fazia sentido.
Nós nunca tivemos um relacionamento.
Nunca fizemos promessas.
Nunca falamos sobre futuro.
Então por que ele parecia tão abalado?
Rolei na cama pela décima vez.
Peguei o celular.
Duas e quarenta e sete da manhã.
Ótimo.
Daqui a poucas horas eu precisaria estar no centro de treinamento.
Respirei fundo.
— Dorme, Amanda...
Sussurrei para mim mesma.
O bebê se mexeu novamente.
Sorri sem perceber.
— Você também resolveu perder o sono?
Passei a mão pela barriga.
A médica dizia que conversar com o bebê ajudava a criar vínculo.
Eu conversava o tempo inteiro.
No carro.
No banho.
Enquanto preparava o jantar.
Às vezes até durante o expediente, quando estava sozinha na sala de fisioterapia.
Era estranho.
Mas, ao mesmo tempo, fazia aquele pequeno ser parecer ainda mais real.
— Amanhã a mamãe vai trabalhar bastante.
Outro movimento.
Ri baixinho.
— Espero que você goste de futebol, porque acho que vai passar muitos meses dentro daquele CT.
E essa era uma verdade muito mais difícil de admitir.
CAIOEu sempre achei que, quando algo realmente importante acontecesse na minha vida, eu saberia exatamente o que fazer. Dentro de campo, estava acostumado a tomar decisões em segundos, a encontrar soluções sob pressão e a seguir em frente mesmo quando tudo parecia dar errado. Fora dele, porém, eu estava descobrindo que não existia treinamento capaz de me preparar para a notícia que Amanda havia me dado.Eu seria pai.Desde que deixei a cafeteria, aquela frase não saía da minha cabeça. Eu havia passado meses pensando na mulher que tinha ido embora do meu quarto em São Paulo sem me dar a chance de entender o que aquela noite tinha significado para ela, e agora eu tinha acabado de descobrir que, enquanto eu tentava encontrar uma explicação para sua partida, Amanda enfrentava sozinha uma mudança que transformaria nossas vidas para sempre.Não sabia o que me incomodava mais: imaginar tudo o que ela havia vivido sem mim ou perceber que, durante meses, eu estivera perto dela sem desconfiar
AMANDADurante meses, imaginei inúmeras maneiras de contar a Caio que ele seria pai. Em algumas, ele ficava furioso, em outras, simplesmente ia embora e em todas elas, eu terminava sozinha. Nenhuma delas se parecia com o homem que estava sentado diante de mim naquele momento.Caio me observava em silêncio enquanto eu segurava a xícara de chá entre as mãos.— Você não precisa ter medo de me contar.Senti meu peito apertar.— Eu sei.— Seja o que for, você pode falar comigo.Uma lágrima escapou antes que eu pudesse impedir.— E se for uma coisa que mude tudo?Caio não hesitou.— Então a gente lida com isso.Quase ri porque ele não fazia ideia do quanto aquelas palavras significavam. Porque o que eu contaria mudaria tudo. Mudaria a vida dele e a minha também.— Você fala como se fosse simples.— Não acho que seja simples se não já teria falado. — Ele estendeu a mão sobre a mesa. — Só... acho que você não deveria enfrentar sozinha.Olhei para a mão dele e depois para o rosto que eu havia
CAIOEu tinha convidado Amanda para tomar um café.Um café.Duas pessoas sentadas em uma mesa, provavelmente bebendo alguma coisa e conversando.Simples.Então por que eu estava no vestiário, depois do treino, trocando de camiseta pela terceira vez?— Essa também está ruim.Parei.Olhei para Murilo, sentado no banco do outro lado do vestiário.— Ninguém pediu sua opinião.— Mas você precisa dela.— Não preciso.Ele analisou minha camiseta preta como se fosse um especialista em moda.— Essa aí parece que você está se esforçando para parecer que não se esforçou.Franzi a testa.— Isso não faz sentido nenhum.— Faz, sim.— É uma camiseta preta.— Exatamente.Peguei a toalha e joguei na direção dele.Murilo desviou, gargalhando.— Você está nervoso!— Não estou.— Caio, eu já vi você entrar em campo numa final com cinquenta mil pessoas gritando seu nome e você estava mais tranquilo do que agora.Abri o armário.— É só um café.— Claro.Ele se levantou.— E eu só jogo futebol nos fins de s
AMANDANão consegui dormir.Mesmo depois de chegar ao apartamento da minha mãe, tomar um banho quente e garantir três vezes que ela realmente estava bem, o sono simplesmente não veio.Meu corpo estava exausto.Minha mente, não.Enquanto minha mãe dormia no quarto ao lado, fiquei sentada na varanda com uma caneca de chá já frio entre as mãos.A cidade estava silenciosa.Pela primeira vez em meses, eu me permiti pensar no futuro.E foi exatamente esse o problema.Porque, até então, eu vivia um dia de cada vez.Escondia a gravidez.Trabalhava.Voltava para casa.Ia às consultas.Repetia tudo outra vez.Agora...Caio fazia parte da minha rotina.E isso mudava completamente as regras.Levei a mão à barriga.O bebê deu um movimento tão leve que, por um instante, achei que fosse apenas impressão.Sorri automaticamente.— Você escolheu uma hora curiosa para aparecer...Murmurei.As lágrimas vieram sem que eu percebesse.— Seu pai é um idiota...Ri baixinho.— Um idiota bonito.Gentil.Engraça
CAIOFiquei parado no corredor enquanto Amanda entrava no quarto da mãe.A porta permaneceu entreaberta.Não o suficiente para ouvir a conversa.Só o bastante para enxergar, de vez em quando, o sorriso aliviado das duas.Respirei fundo.Pela primeira vez desde que ela entrou correndo no meu carro, senti meu peito aliviar.A mãe dela estava bem.Era isso que importava.Uma enfermeira passou ao meu lado empurrando uma maca, e aproveitei para me afastar um pouco da porta. Não queria que Amanda pensasse que eu estava tentando escutar alguma coisa.Encostei na parede do corredor e tirei o celular do bolso.Havia mais de vinte mensagens.O treinador perguntando como tinha sido a ação beneficente.Murilo enviando uma foto minha cercado pelas crianças com a legenda:"Papai do ano."Revirei os olhos e ri sozinho.Digitei uma única resposta."Idiota."A resposta chegou quase instantaneamente."Leva a fisioterapeuta para jantar logo e para de enrolar."Balancei a cabeça.Aquele cara realmente nã
AMANDAMeu coração parecia querer escapar pela garganta.Eu mal conseguia prender o cinto de segurança.As mãos tremiam tanto que precisei tentar duas vezes.Caio percebeu.Sem dizer nada, inclinou-se na minha direção.— Posso?Assenti.Ele puxou o cinto com cuidado e o encaixou no fecho antes de fechar a porta do carro.Um gesto simples.Mas feito com tanta delicadeza que meus olhos arderam.Ele deu a volta pelo capô, entrou no banco do motorista e ligou o carro.— Para onde?Respirei fundo.— Hospital Santa Helena.Assim que saímos do estacionamento, peguei o celular e liguei para minha mãe.Chamou.Chamou de novo.Nada.Minha ansiedade aumentou.— Atende...Murmurei.Caio olhou rapidamente para mim antes de voltar a atenção para a rua.— Ela mora sozinha?Assenti.— Desde que meu pai morreu.— O que aconteceu?Balancei a cabeça.— Não sei direito.Ela só disse que estava passando mal.A ligação caiu.Meu peito apertou.— Ela parecia assustada.Caio aumentou um pouco a velocidade, s







