LOGINKaty Nunes
O som estridente dos meus saltos no piso de mármore do saguão do prédio parecia acompanhar a aceleração do meu próprio coração. Saí da agência sentindo o ar fresco da noite bater no meu rosto, mas a sensação do olhar azul e penetrante de Ian Parker ainda queimava na minha pele. Para espantar a tensão e resolver o problema crônico da minha geladeira deserta, parei no supermercado a caminho de casa. Percorri os corredores abastecendo o carrinho com o essencial para a semana — produtos de higiene, itens para o café da manhã, frutas, massas — e aproveitei para pegar alguns queijos, torradas e duas garrafas de vinho. Enquanto esperava na fila do caixa, peguei o celular e mandei uma mensagem de áudio para a Ana: — Ana, emergência de amiga! Preciso de você no meu apartamento hoje. Sei que é terça-feira, mas fiz compras, temos vinho e uma fofoca corporativa inacreditável. Vem logo! Não demorou nem dois minutos para a tela acender com a resposta rápida: — Fofoca em dia de semana? Me dá vinte minutos para sair do hospital. Já estou indo cuidar de você e abrir esse vinho! Ana era minha força da natureza particular e incrivelmente protetora comigo. Médica residente com uma rotina insana de plantões, ela sempre arranjava um jeito de estar presente. Era dona de um sorriso contagiante e de uma postura desinibida. Embora fosse superprotetora com meu bem-estar emocional, mantinha uma vida amorosa bem livre e sem amarras. Se havia alguém no mundo capaz de colocar minha cabeça no lugar — e me defender de qualquer perigo —, era ela. Quando cheguei ao meu prédio, guardei as compras principais na geladeira e comecei a arrumar as torradas e queijos na bancada da cozinha. Antes mesmo de eu terminar de abrir a primeira garrafa de vinho, a campainha tocou. — Cheguei, minha linda! — anunciou Ana assim que abri a porta, já me dando um abraço apertado antes de tirar os sapatos e jogar a bolsa no sofá. — Deixa eu te olhar... Você está com uma cara de quem passou o dia pisando em ovos! O que aconteceu? — Calma, doutora — respondi, rindo, entregando uma taça cheia para ela. — Senta aqui primeiro. Como foi a sua escala no hospital hoje antes de eu despejar tudo em você? — Ah, o de sempre! Três emergências, duas suturas perfeitas e um médico residente da ortopedia tentando me convencer a namorar — Ana piscou, dando um gole no vinho. — Ele é um gato, mas jurou que queria algo sério. Tive que cair fora! Você me conhece, Katy: meu foco agora é a residência e minha liberdade. O único compromisso fixo que eu aceito é com o meu estetoscópio. Mas não mude de assunto! O que está acontecendo na agência que te deixou tão agitada? Respirei fundo, sentindo o rosto esquentar só de puxar pela memória. — Lembra da nossa comemoração na sexta-feira à noite? Quando a gente e o Júlio fomos ao bar festejar a conquista do meu primeiro emprego? — Lembro, claro! — Ana respondeu imediatamente, rindo. — Você voltou do banheiro com uma cara de choque. — Pois é... Naquela sexta eu esbarrei em um homem lindo no corredor, saindo do banheiro, e o cômico da situação é que, na reunião geral de ontem, a diretoria apresentou o acionista majoritário da agência. O homem que passou a acompanhar mais diretamente a gestão é exatamente aquele cara do bar. O nome dele é Ian Parker. Os olhos de Ana se arregalaram em choque absoluto. A taça quase travou no meio do caminho até a boca. — Para tudo! Esse homem do bar é o acionista majoritário da agência onde você acabou de começar a trabalhar? Katy, isso é inacreditável! E como ele agiu quando te viu? Ele tentou usar o esbarrão para te diminuir no seu primeiro emprego? Se ele tiver sido um babaca, eu vou lá agora! — Não, Ana, calma! — ri da reação protetora dela, sentindo o coração aquecer. — Na reunião ele foi superprofissional, só deu uma alfinetada sutil sobre atenção nos corredores. Mas hoje, no final do expediente, quando o andar já estava vazio, ele saiu da sala dele e veio falar comigo a sós. — E o que ele disse? — perguntou ela, semicerrando os olhos, examinando minha reação com o instinto de melhor amiga afiado. — Elogiou a organização que fiz para a sala nova dele, olhou para essa minha roupa e disse que esse tom de azul combinava com a minha determinação. Ele falou tão perto, Ana... com aquela voz grave, que minhas pernas quase fraquejaram. Ana deu um suspiro longo, misturando a preocupação de amiga com uma risada contida. — Ai, Katy... Você sabe o quanto eu sou protetora com você. É o seu primeiro emprego, você estudou tanto para estar aí e não quero ninguém atrapalhando sua carreira ou jogando com seus sentimentos. Esse Ian Parker soa como um perigo ambulante: poderoso, charmoso e seu chefe direto. Mas, olhando para o seu rosto agora... você ficou balançada, não ficou? Baixei os olhos para a minha taça, dando um sorriso tímido. — Fiquei. Muito mais do que eu gostaria de admitir. — Então escuta a sua médica e melhor amiga — Ana segurou minha mão com carinho. — Mantenha o profissionalismo impecável no trabalho para se resguardar, mas não se prive de sentir as coisas. Se esse homem tentar qualquer jogada desleal com você, ele vai se ver comigo e com o Júlio. Mas se ele for um cara de verdade... bem, aproveita o frio na barriga, porque você merece esse momento! Passamos o resto da noite conversando e rindo. Com a proteção e o carinho da Ana, a tensão acumulada durante o dia foi se dissolvendo. Quando ela foi embora, por volta das onze da noite, recolhi as taças com a certeza de que a quarta-feira seria um desafio, mas eu estava pronta para enfrentar a agência e Ian Parker de cabeça erguida.Ian Parker O ambiente na agência estava intenso. A auditoria avançava a passos largos na sala de conferências e o ritmo de trabalho do andar diretivo exigia a minha atenção total. Eu revisava uma série de contratos de patrocínio que precisavam da minha assinatura antes do final do dia quando o meu telefone pessoal vibrou sobre a mesa de madeira nobre. Olhei para a tela e vi o nome da Ana piscar. Atendi no primeiro toque, esperando ouvir que as duas tinham finalizado o almoço e que a Katy já estava a caminho da empresa. — Ana? Deu tudo certo por aí? A Katy almoçou direitinho? — Oi, Ian... Sim, ela almoçou — a voz da Ana veio acompanhada pelo ruído característico do trânsito e pelo som abafado de um rádio ao fundo. — Eu estou em um táxi agora, indo direto para o hospital. Surgiu uma emergência grave no pronto-socorro, um caso de trauma complexo, e me chamaram às pressas. — Entendo. Obrigado por ter acompanhado ela — respondi, relaxando a postura na cadeira. — Onde a Katy está
Katy Nunes — Quer ir embora agora, amiga? — Ana perguntou baixo, os olhos cheios de preocupação enquanto segurava minha mão ainda fria. — Se você quiser, eu peço a conta e a gente sai daqui agora mesmo. Respirei fundo, tentando desacelerar os batimentos do meu coração. O turbilhão de hormônios do primeiro trimestre tornava tudo três vezes mais intenso: a raiva, o susto e uma tristeza profunda por ver alguém que fez parte da minha vida inteira se transformar naquela figura rancorosa. Uma lágrima teimosa ameaçou escapar do canto do meu olho, mas pisquei rápido para contê-la. — Não... eu preciso comer — respondi, passando a mão devagar pelo peito. — Se eu não comer, o Ian vai perceber na hora que aconteceu alguma coisa. E por causa dos bebês também, não posso ficar de estômago vazio depois desse estresse. — Isso mesmo. Foca em você e nos bebês — Ana concordou, ajeitando o meu prato para mais perto. — Esquece aquele imbecil. Come um pouco. Peguei o garfo e tentei forçar a comid
katy Nunes Senti minhas mãos tremerem levemente sobre o colo, mas forcei o corpo a se manter ereto na cadeira. A amargura nos olhos do Júlio era quase palpável, transformando o homem que um dia foi o meu melhor amigo em um estranho rancoroso. — Você fala como se eu tivesse te traído, Júlio — respondi, mantendo o tom de voz firme, encarando-o nos olhos. — Se a nossa amizade de uma vida inteira significava alguma coisa para você, você deveria estar feliz por mim. Um amigo de verdade torce pela felicidade do outro, independente de qualquer coisa! Ele deu um riso seco e debochado, balando a cabeça enquanto dava mais um gole na bebida. — Feliz? — retrucou Júlio, inclinando o corpo sobre a mesa e baixando o tom para cuspir as palavras: — Feliz por ver você se iludindo desse jeito, Katy? Me economize. Você realmente acha que eu vou bater palma para essa palhaçada? — Júlio, me respeita! — levantei o queixo, sentindo a raiva começar a dominar o incômodo. — Respeitar o quê? A verda
Katy Nunes Eu já estava no meio do caminho para a agência quando o meu celular começou a tocar. Atendi pelo viva-voz do carro e a voz da Ana ressoou no alto-falante: — Katy, pode encostar o carro na próxima esquina! Você não vai voltar para o trabalho de jeito nenhum sem almoçar. O Ian já me ligou, me deu uma bronca e me encarregou pessoalmente de te alimentar! — O Ian e esse instinto protetor... mas no fundo, o meu estômago realmente já está reclamando. Dobrei aqui em Ipanema. Vamos em um bistrô? Enquanto caminhávamos para uma mesa ao fundo do salão, Julien nos acompanhou apenas para se despedir. — Meninas, eu adoraria me juntar a vocês, mas preciso mesmo voltar para o atelier — explicou Julien, ajustando a alça da câmera. — A equipe de produção já está me esperando para retomar as fotos da nova coleção. Katy, mais uma vez, você estava radiante. Ana, te vejo mais tarde? — Claro, meu amor. Bom trabalho! — disse Ana, dando-lhe um selinho carinhoso e um abraço antes que ele
Ian Parker O dia estava agitado. Passei a primeira parte da tarde circulando entre as salas do andar diretivo. Na sala de conferência principal, deixei a equipe de auditoria interna trabalhando com as planilhas dos últimos trimestres e, em seguida, passei na sala de projetos para resolver os entraves da reforma da nossa casa nova. O engenheiro responsável tentava me justificar um atraso na entrega da suíte master por causa da importação de um mármore italiano. — Não vamos esperar lote nenhum, engenheiro — resolvi a questão em dois minutos, mantendo o tom calmo e prático. — O nosso cronograma não será alterado. Eu não quero a Katy estressada com obras ou poeira quando nos mudarmos. Substitua o material hoje mesmo por uma opção equivalente que já esteja disponível a pronta entrega no mercado nacional. Quero o mesmo acabamento impecável, mas sem atrasos. Entendido? — Perfeito, senhor Parker. Faço a substituição agora mesmo — respondeu ele, aliviado com a solução rápida. Deixei
Katy Nunes — Já entendi tudo — disse a estilista, caminhando até a última capa protetora. — Você é uma mulher refinada, nobre e essencialmente sóbria, Katy. Você não precisa de glitter ou bordados pesados para chamar a atenção. A sua beleza é natural e clássica. O que você precisa é da maestria do corte e da nobreza dos tecidos. Tenho uma peça final que criei pensando exatamente nessa dualidade. Ela puxou o zíper da última capa e meus olhos se舆arregalaram imediatamente. Entrei no provador com a ajuda da assistente. Assim que deslizei as pernas e o quadril pelo tecido encorpado e nobre da zibelina, senti a estrutura do vestido se ajustar perfeitamente às minhas curvas. Quando a assistente terminou de abotoar os delicados botões encapados que subiam pelas minhas costas, um arrepio intenso percorreu minha espinha do pescoço até os pés. Caminhei devagar até o salão principal e subi calmamente no pedestal de madeira. O vestido trazia um decote ombro a ombro perfeitamente estrutu







