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capítulo 5

Author: Any L.
last update publish date: 2026-09-01 19:02:05

Katy Nunes

O restinho da tarde de segunda-feira na agência passou em um piscar de olhos. Assim que saí da sala da Márcia com as instruções de Ian Parker, reuni Fernando para colocar tudo em ordem. Meu secretário ruivo não perdeu tempo: acionou a equipe de governança para a limpeza pesada da sala ao lado e entrou em contato com o Recursos Humanos para abrir o processo seletivo de secretária executiva com urgência. Com as ordens encaminhadas, concentrei-me no resto das minhas planilhas financeiras até o final do expediente.

Assim que cruzei a porta de casa, o cansaço acumulado desabou sobre mim. Minhas pernas pediam descanso e minha mente precisava desesperadamente desligar. Estacionei o carro, subi para o meu apartamento e joguei os sapatos de salto no canto do quarto sem o menor cuidado.

Fui direto para o banheiro. Liguei a torneira da banheira de imersão e voltei à cozinha para buscar uma garrafa de vinho e uma taça. Não estava com paciência para formalidades: servi uma dose generosa e bebi ali mesmo, em pé, sentindo o líquido gelado descer pela garganta enquanto a água morna preenchia o espaço de porcelana. Tirando a roupa de trabalho, joguei tudo sobre a cadeira, prendi o cabelo negro em um laço no topo da cabeça e mergulhei na água.

Com o corpo submerso e a taça na mão, deixei meus pensamentos vagarem livremente até Ian Parker. Agora que eu sabia seu nome, seu sobrenome e o aroma do seu perfume amadeirado, a imagem dele parecia viva demais na minha memória. Lembrar daquele olhar azul e da voz grave pronunciando meu nome despertou uma sensação intensa que há muito tempo eu não experimentava.

Aquela noite acabou sendo uma mistura de vinho, pensamentos inconvenientes e uma atração que eu definitivamente não queria admitir tão cedo.

Quando finalmente saí da banheira, a vergonha bateu forte.

“Putz, Katy... você passou a noite inteira pensando no novo sócio”, pensei, afundando o rosto na toalha.

“Como é que eu vou olhar na cara dele amanhã?”

Fui até o quarto, vesti um pijama leve de seda azul e, poucos minutos depois, uma fome de leão me atingiu. Abri a geladeira e dei de cara com o vazio absoluto.

— Merda, eu preciso de um mercado com urgência — murmurei para mim mesma, notando que o relógio já marcava duas horas da manhã.

Sem paciência para trocar de roupa, joguei um roupão por cima do pijama e desci as escadas com a chave da casa da minha mãe. Entrei de fininho no apartamento dela e fiz a verdadeira “limpa” nos armários e na geladeira: peguei fatias de bolo, suco e duas caixas de chocolate.

Ao sair pelo corredor de serviço com os braços cheios de comida, uma voz vinda da escuridão perto da escada de emergência quase me fez saltar da pele:

— Hey, moça... isso são modos de andar pelos corredores a esta hora?

— Júlio! Quer me matar de coração? — exclamei, levando a mão ao peito. — O que você está fazendo na escada e perto da piscina a uma hora dessas?

— Gosto de nadar e respirar um pouco no silêncio da madrugada... — Júlio riu fraco, encostando-se no corrimão e me analisando. — Mas e você? Assaltando a geladeira alheia?

— É o que tem para hoje, já que ainda não fiz compras. Peguei esse resto de bolo e suco... quer subir e comer comigo?

— Acho melhor não, amanhã acordamos cedo, senhorita! — Júlio deu um passo à frente, com um sorriso sacana nos lábios. — E Katy... da próxima vez que for roubar comida de pijama, pelo menos fecha o roupão.

Olhei para baixo e me dei conta do desastre: meu roupão estava completamente aberto nas laterais, deixando o pijama de seda azul justo e à mostra.

Subi a escada de emergência correndo, o rosto queimando de vergonha. Entrei no meu apartamento, devorei o bolo no sofá e apaguei ali mesmo, abraçada com as caixas de chocolate.

Na manhã de terça-feira, o “efeito Ian” ainda me perseguia. Acordei com o pescoço um pouco dolorido pelo mau jeito no sofá, mas tomei um banho revigorante para espantar a preguiça, escolhi um conjunto impecável e elegante: uma camisa transpassada de seda azul-bebê com amarração delicada na cintura, combinada com uma calça de alfaiataria branca de cintura alta e corte reto. Nos pés, sandálias de salto fino no mesmo tom de azul-bebê. Coloquei os brincos de pedra azul em formato de flor, o colar com o pingente de gota e peguei minha bolsa tiracolo branca matelassada com alça de corrente dourada. Olhei-me no espelho, pronta para o combate corporativo.

Cheguei ao oitavo andar confiante. O cheiro de móveis novos e produtos de limpeza indicava que a sala ao lado já estava pronta. Fernando me recebeu com o dever cumprido:

— Bom dia, Katy! A sala do Senhor Parker está impecável, a higienização foi concluída e os currículos dos candidatos a secretário já estão na mesa dele.

— Excelente trabalho, Fernando.

Passei o dia dividida entre planilhas e relatórios, mas meus olhos teimavam em checar a porta do escritório ao lado. Nada de Ian durante toda a manhã e o início da tarde. A ausência dele parecia muito mais perturbadora do que sua própria presença.

Somente no final do expediente, por volta das sete da noite, quando o andar já estava em total silêncio e eu me preparava para sair, a porta de vidro fosco ao lado se abriu.

Ian Parker saiu de lá, sem paletó, com a camisa social branca ligeiramente desabotoada no colarinho e as mangas dobradas até os antebraços. Nossos olhares se chocaram no corredor quase escuro.

— Senhorita Nunes — disse ele, com aquela voz grave ressoando no espaço vazio. — Impressionante a sua eficiência com a minha sala. E vejo que trouxe a delicadeza dos tons claros para o escritório hoje.

Senti meu coração dar um salto no peito, mas me mantive firme, ajeitando a alça da minha bolsa branca no ombro.

— Apenas cumprindo meu trabalho, Senhor Parker.

Ele se aproximou com passos lentos, deixando seu perfume amadeirado tomar conta do ar entre nós. Parou a poucos centímetros de mim, analisando-me de cima a baixo com uma intensidade perigosa, pausando os olhos azuis no nó da seda na minha cintura.

— Um trabalho impecável, Katy — sussurrou ele, inclinando-se ligeiramente. — Esse tom de azul combina perfeitamente com a sua determinação. Tenha uma boa noite. Nos vemos amanhã cedo.

Virei-me e caminhei até o elevador com os saltos azul-bebê estalando no piso, tentando disfarçar as pernas bambas e a certeza de que meus dias naquela agência jamais voltariam a ser tranquilos.

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