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Cap 2 Júlia - Medo.

Penulis: Sol Costa
last update Tanggal publikasi: 2026-04-01 04:17:30

Em pouco tempo estávamos parados em frente a uma barraquinha que vende fast food e que fica ao lado do hospital sendo observados pelo atendente enquanto o doutor me pergunta:

—Então Júlia, o que vai querer?

Eu não queria me aproveitar e para piorar estava cheia de vergonha, então escolhi o lanche mais barato que encontrei no cardápio.

—Tem certeza que quer esse? Acho que devia experimentar o que eu gosto, ele é muito mais saboroso. Quer saber, me dá 2 números 7 com bastante molho verde e 2 sucos de laranjas com bastante gelo, por favor.

O doutor faz o nosso pedido e em seguida me faz sentar em uma das mesinhas ficando de frente pra mim, o que me deixa bem tímida. Em seguida ele começa uma conversa para me deixar à vontade:

—Então Júlia, o que faz quando não está visitando a sua mãe?

—Não tenho feito nada, senhor.

—Como assim nada? Não estuda, não faz um curso?

—Não.

Respondi envergonhada, abaixando a cabeça pensando no que ele pensaria.

—Mas porquê?

—Não tive um responsável para renovar a minha matrícula na escola e não temos dinheiro para cursos extracurriculares no momento.

Ele me olha como se começasse a entender a situação, mas continua perguntando:

—E por acaso deseja retornar de onde parou quando puder?

—Com certeza! Fiquei muito triste por não poder eu mesma fazer a matrícula, mas assim que minha mãe sair do hospital ou eu tiver a idade irei retornar aos estudos.

Respondi esperançosa recebendo um olhar diferente que eu não soube identificar e em seguida mais uma pergunta curiosa:

—E quem fica contigo em casa?

Sua pergunta me deixa em conflito pois nunca conversei sobre isso com ninguém sob orientação da minha mãe, mas por algum motivo que eu não sei explicar me senti segura o suficiente para dividir com ele.

—Ninguém, eu fico sozinha desde que minha mãe precisou ficar internada.

—E quem faz as compras, paga as contas, faz comida?

—Eu…

Respondi sem graça, afinal sei que teoricamente isso não deveria acontecer. Minha mãe me alertou para que eu não divulgasse a ninguém sobre essa situação pois poderiam facilmente chamar o conselho tutelar para me levarem para algum abrigo.

—Está dizendo que desde que sua mãe ficou internada está vivendo sozinha e cuidando de tudo?

—Sim, senhor…

Senti que ele ficou chocado, mas não teve tempo de falar porque o atendente chegou com os nossos pedidos fazendo a minha fome aumentar e meu estômago roncar alto ao sentir o cheiro gostoso que exala do sanduíche. O doutor escuta, e eu fico mais uma vez envergonhada mas ele se compadece de mim e brinca:

—Acho melhor a gente começar a comer logo, antes que seu estômago queira comer o meu sanduíche também.

Nem acreditei quando dei a primeira mordida e senti o sabor do sanduíche se espalhando na minha língua, fazia tempo que eu não comia algo tão saboroso e desse tipo então fechei os olhos enquanto mastigo para apreciar o momento, tentando guardar na memória a sensação pois não faço ideia de quando terei outra oportunidade. Ao engolir a primeira mordida abri os olhos e encontrei o doutor me olhando com um sorriso singelo nos lábios que me fez perguntar:

—O que foi?

—Você sujou o canto da boca.

Mais do que depressa peguei o guardanapo e me limpei, voltando a perguntar:

—E agora?

—Está limpa. Mas me diga, sabe cozinhar?

Nós embarcamos em uma conversa leve onde ele me fez algumas perguntas, mostrando curiosidade sobre a nossa vida até que seu celular tocou interrompendo o nosso assunto:

—Um momento, Júlia.

Foquei em terminar o melhor lanche que eu comia em muito tempo enquanto via o semblante dele mudar diante dos meus olhos.

******

Ligação On

—Pois não…

—O quê?

—Estou indo agora…

Ligação Off

******

Em segundos seu rosto sereno e calmo mudou para preocupado e aflito enquanto ouvia o que era dito do outro lado da linha me deixando saber que algo muito sério acontecia.

Assim que encerrou a ligação focou sua atenção em mim, anunciando o meu maior medo:

—Temos que voltar… É a sua mãe…

No mesmo momento meu cérebro ficou atento, mas meu corpo congelou. Eu já tinha presenciado uma crise hoje e não queria presenciar outra. Vê-la sofrendo daquele jeito dói demais em mim e só me faz perceber que eu não posso ajudá-la.

Inerte, ainda olhava para ele que prontamente se pôs de pé, segurou a minha mão e me puxou para entrar. Juntos, deixamos tudo para trás e corremos sabendo que a vida da minha mãe depende disso. Passamos pelas pessoas de forma afoita, batendo em algumas pelo meio do caminho, passando pelos corredores que parecem ser maiores e sem fim. A sensação que eu tive é que chegaríamos do outro lado do mundo mas não chegaríamos até ela e quando chegamos enfim na porta do quarto dela, ele parou, me parou, segurou meus braços perto do ombro e falou olhando dentro dos meus olhos:

—Espera aqui fora Júlia, eu vou entrar e vou fazer o que for possível para ajudá-la. Prometo!

Seu rosto estava sério e mostrava toda a sua preocupação e a urgência que deveria agir. Tudo o que eu pude fazer foi me apegar a sua promessa, crendo que mais uma vez ele sabia o que iria fazer e que nos ajudaria então concordei com a cabeça porque não tive forças para pronunciar as palavras. E assim ele se foi, entrou no quarto me deixando do corredor, imóvel e sem saber o que fazer enquanto ouvia os gritos da minha mãe, o falatório e a movimentação dos enfermeiros e o doutor que já entrou querendo saber o que eles tinham feito.

Angustiada, com medo e sem saber o que fazer, fiz a única coisa que era possível. Levantei meus olhos para cima e clamei a Deus, o único que poderia me ouvir e que posso contar:

‘Senhor, tenha misericórdia de nós! Abençoa aos mãos do doutor Mário e preserva a vida da minha mãe. Ela é tudo o que me resta, por favor, não me deixe sozinha neste mundo!’

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