FAZER LOGINOs portões de ferro se abriram com um rangido elegante — até o barulho parecia ter pedigree — e eu comecei a caminhar pela estradinha de pedras, ladeada por árvores tão grandes que pareciam saídas de um filme medieval. A mansão surgia à minha frente com toda a imponência de quem tinha sido construída apenas para intimidar visitantes pobres como eu. No centro do jardim, um chafariz esguichava água como se dissesse: bem-vinda à sua humilhação diária.
Subi a pequena varanda de madeira branca e mal levantei a mão para tocar a maçaneta dourada da porta quando ela se abriu sozinha — como se a casa tivesse sensores de vergonha alheia.
— Seja bem-vinda, senhorita Montgomery.
A voz vinha de um senhor que parecia ter saído de um catálogo de mordomos britânicos. Ele vestia um terno impecável e uma gravata borboleta azul-marinho, combinando perfeitamente com o bigode preto que parecia ter sido pintado com canetinha. O detalhe curioso? Seus cabelos eram completamente grisalhos, o que fazia o bigode parecer um acessório de carnaval colado em um rosto pálido e muito sério.
— Olá — sorri da forma mais educada possível, embora meu sutiã rosa ainda estivesse secando sob o casaco.
— O senhor Davis irá vê-la agora. Siga-me, por gentileza.
Ah, que ótimo, pensei enquanto o seguia. Depois da secretária dele me entrevistar por duas horas, me mandar quatro e-mails, uma planilha de horários e ainda me ligar exigindo que eu explicasse por que não tinha curso de primeiros socorros... agora ele quer me ver pessoalmente? Nossa, até que foi rápido. Só levou uma eternidade.
Atravessei uma sala que parecia uma mistura de museu com salão de baile — só faltava a Cinderela —, tropecei três vezes na escada que parecia não ter fim, e percorri um corredor interminável cheio de quadros de lutadores de boxe em posições tão intensas que eu quase entrei em guarda só de olhar.
Claro, o Sr. Davis era um lutador famoso. E, pelo tamanho da casa e quantidade de troféus brilhando em cada canto, claramente um que ganhava mais do que apenas hematomas. Nada me impressionava mais naquele ponto — exceto talvez o fato de eu ainda estar ali, viva, e prestes a cuidar de três versões mirins de alguém que provavelmente sabia aplicar um mata-leão desde os dois anos de idade.
Logo chegamos ao que, com 99% de certeza, era o escritório do Sr. Davis — e o 1% restante provavelmente estava em negação. O ambiente exalava um cheiro forte de uísque envelhecido misturado com o aroma amadeirado e denso de tabaco. Era como entrar em um filme noir, daqueles em que os personagens fumam charuto com a mesma naturalidade com que respiram.
As paredes estavam lotadas. Quadros e mais quadros de lutadores musculosos em poses vitoriosas, luvas autografadas em molduras douradas, cinturões reluzentes pendurados como troféus de guerra e prateleiras abarrotadas de prêmios que pareciam pesar mais do que eu com mochila nas costas.
No centro da sala, uma mesa gigantesca — e igualmente bagunçada — estava coberta de papéis, pastas, revistas esportivas e uma caneca com a frase "O Campeão Aqui Sou Eu". Sério. Nem precisei olhar duas vezes pra saber que ego não era um problema naquela casa.
Atrás da mesa, uma poltrona de couro preto, girada de costas. Tão clichê que só faltava a musiquinha de suspense ao fundo. Assim que o mordomo fechou a porta com um clique silencioso, a cadeira começou a girar lentamente. Eu juro, por um segundo achei que o Marlon Brando ia aparecer ali dizendo que faria uma oferta que eu não poderia recusar.
Mas não.
Quem apareceu foi o pai dos trigêmeos. O homem que confiaria três pequenas criaturas humanas à minha total (in)capacidade.
— Srta. Montgomery, sente-se — ele disse com a voz grave e calma, como quem está acostumado a dar ordens e vê-las serem obedecidas no ato.
E então eu vi.
Olhos cinzentos. Não qualquer cinza — aquele tom metálico e intenso, igual ao céu minutos antes de uma tempestade cair com tudo. Penetrantes. Aquele tipo de olhar que parece te atravessar e descobrir seus pecados de infância. Cabelos loiros escuros, ligeiramente bagunçados, caindo com um descuido milimetricamente calculado sobre a testa, como se ele tivesse saído de um ensaio fotográfico e não da sala de reuniões. A mandíbula marcada, com uma leve sombra de barba por fazer. Lábios finos, comprimidos um contra o outro em uma linha séria — e, claro, sexy. Porque o universo não tem dó de gente desgraçada com autoestima instável.
O homem era lindo. Lindo num nível que deveria ser proibido por lei, especialmente se você está suada, com café manchado na blusa, e usando um sutiã rosa visível por baixo do casaco.
Maldição.
Os trigêmeos provavelmente iam me matar. Mas não antes de o pai deles acabar com o resto da minha dignidade com apenas um olhar.
Me sentei na única cadeira disponível à frente da sua mesa — uma poltrona dura, nada acolhedora, que só reforçava a sensação de que eu estava prestes a ser julgada pelos meus crimes. Instantaneamente, me senti com doze anos de novo, quando a coordenadora me chamava na diretoria por pintar bigodes nos cartazes de campanha da escola.
Ele me observava com aquele olhar frio e analítico, como se estivesse tentando decidir se me jogava pela janela ou só me ignorava até eu desaparecer por vontade própria.
— De fato, eu fiquei meio confuso ao ver seu histórico de trabalho. — Sua voz era grave, pausada, cada palavra saía com um certo peso, como se estivesse narrando uma partida de xadrez entre dois gênios. — Como você pode ter superado as outras trinta mulheres na entrevista?
A pergunta era retórica. Eu sabia. E mesmo assim doeu um pouquinho.
— Mas, de algum jeito, a louca da minha ex-mulher te achou boa o suficiente pra cuidar dos meus filhos.
Ah, o romance moderno. Tão doce quanto um tijolo na cabeça.
Tentei manter uma expressão neutra, mas era impossível ignorar que, mesmo com a camisa social de manga longa cobrindo boa parte do corpo, dava pra ver perfeitamente o contorno dos músculos dos braços dele. Definidos. Muito definidos. E eu ali, me sentindo a pior das profissionais por estar descaradamente secando meu futuro chefe.
Mas vamos ser sinceros? O homem parecia ter saído direto de uma campanha da Calvin Klein versão “lutador de boxe executivo”.
Ele continuou:
— Enfim… meus filhos são três pequenos demônios disfarçados de crianças. Difíceis, teimosos, imprevisíveis. Eu duvido muito que você dure uma semana aqui. Então, vou te passar apenas o básico que você precisa saber…
Maravilha. Que injeção de confiança! A autoestima até quis fazer as malas e ir embora. Mas quer saber? Eu ouviria essa mesma frase em looping infinito se fosse dita por aquela voz rouca e carregada de arrogância. Literalmente, que me xingue mais, chefe bonitão.
Tentei manter a compostura, mas por dentro eu estava dividida entre a vontade de correr dali e o impulso de perguntar se ele já tinha alguém pra cuidar de mim também.
EllieO dia chegou.Todos estavam parados no centro da sala da mansão dos Davis. Ninguém parecia saber exatamente o que fazer com as próprias mãos. O silêncio era pesado demais para ser quebrado por qualquer coisa.Eu estava no meio deles, olhando de um rosto para o outro. Angel estava ao meu lado. Ou, pelo menos, deveria estar.Por alguns segundos, precisei me lembrar de que aquela não era a minha imagem refletida em algum espelho. Ela estava usando minhas roupas. Minha jaqueta. Minha calça. Até os cabelos estavam presos de um jeito que imitava o meu.Era estranho. Estranho demais.Angel tinha o meu rosto, mas não tinha o meu jeito de olhar. Não tinha as cicatrizes. Não tinha os anos de desconfiança gravados no corpo. Ainda assim, naquela noite, ela parecia assustadoramente igual a mim.Se alguém entrasse naquela sala sem saber quem éramos, provavelmente não conseguiria distinguir uma da outra.E era exatamente esse o objetivo.Thomas estava quieto. Quieto de verdade. O que, vindo de
AnabelleO grande dia se aproximava. O dia em que todo o plano seria posto em prática, e eu sentia o peso de cada minuto, como se o ar estivesse mais denso dentro da minha própria casa. Cada noite era mais curta que a anterior; cada despertar parecia me arrastar para um cansaço que não passava.No meio da madrugada, não consegui mais permanecer na cama. Levantei silenciosa, tentando não acordar Angel, que provavelmente sonhava com qualquer coisa que não fosse o caos da nossa família. A casa estava escura e silenciosa, exceto pelo som distante de algum relógio na sala.Caminhei pela cozinha, os passos leves sobre o piso frio, o coração batendo mais rápido do que deveria. No caminho, passei pelo escritório de Sebastian. Uma luz fraca escapava pelas frestas da porta entreaberta, e por algum impulso que não soube explicar, me aproximei. Respirei fundo antes de empurrar a porta levemente.E lá estava ele. Sebastian, sentado à sua mesa, com o rosto iluminado pelo brilho do monitor, a expres
Ellie— Mas então... — girei na cadeira, deixando o movimento me embalar, até parar com o corpo voltado para Dominic. Ele estava sentado na mesa do Diabo, bebendo seu refrigerante despreocupado. — É loucura minha, ou a Angel está caidinha por você?A cena foi melhor do que eu poderia esperar. Ele se engasgou na hora, tossindo como se tivesse acabado de aspirar veneno, os olhos arregalados, quase em pânico.— O quê? Caidinha por mim? — a voz saiu embargada, ele bateu o punho no peito tentando recuperar o ar. — Não! — deu uma risada nervosa. — Não viaja.— Aham… — prolonguei o som, deixando meu sorriso crescer enquanto girava de novo na cadeira, só para
CharlieO cheiro de ferrugem e óleo queimado impregnava o ferro-velho, e cada passo que eu dava fazia ecoar o barulho de sucata sendo esmagada debaixo do meu All Star. O Diabo, por outro lado, parecia desfilar como se estivesse em uma passarela, inspecionando carro por carro com um interesse quase... artístico.— Charlie, querido, seja menos emburrado — ele se encostou na carcaça de um sedã dos anos oitenta, cruzando os braços como se estivesse prestes a posar para uma pintura.— Diabo, querido, você está rodando esse lugar há duas horas e não decide qual porcaria de carro vai querer. — Cruzei os braços, tentando ignorar o latejar de dor na minha têmpora.Eu já estava cansado, irritado e com a paciência no limite. Meu trabalho no ginásio do pai não era exatamente o que eu sonhava quando decidi ser fisioterapeuta. Passava o dia cuidando de músculos estourados e egos ainda mais doloridos. Alguns daqueles lutadores tinham o talento único de me lembrar Thomas quando tinha sete anos: teimo
EllieSaí pela porta principal da mansão, sentindo o ar fresco da manhã tocar meu rosto, mas não cheguei a descer o primeiro degrau.Anabelle estava ali, sentada na varanda, as mãos apoiadas no colo, o olhar perdido em algum ponto distante do jardim. Nos últimos dias, eu havia notado algo diferente nela — um peso, talvez, ou um silêncio que parecia mais espesso que o normal.Eu não a conhecia de verdade. Entre todas as pessoas daquela casa, ela era a que eu menos tinha contato. E ainda assim, cada vez que me aproximava, havia um desconforto que crescia no fundo do estômago. Anabelle era, para todos ali, a minha mãe. Mas eu sabia a verdade. Biologicamente, eu era filha de Moora — ou Milla, como os Davis a conheciam.
Sebastian— Não é porque você é minha filha que eu vou pegar leve. — avisei, firme, encarando Ellie.— Eu notei. — Angel resmungou, mais para si do que para nós, se afastando do tatame com a garrafinha d’água em mãos.— Dê o seu melhor, Sebastian. — Ellie disse com um sorriso que parecia desafiador e calmo ao mesmo tempo.Naquele instante, alguma coisa dentro de mim travou.Foi como encarar um espelho torto — não daqueles que mostram o rosto, mas daqueles que escancaram a alma. Não havia dúvida: ali estava uma parte de mim. Algo que sempre soube que existia, mas nunca tive coragem de nomear.Ela não tinha meu rosto.Mas tinha meu fogo.Minha raiva contida.Minha impulsividade.Era como ver a versão mais crua e afiada de mim mesmo. Uma versão feminina. Mais voraz. E tão parecida comigo que doía.E o mais cruel de tudo? Ela nem sabia.Ela me olhava como se estivesse pronta para arrancar um pedaço de mim. Não piscava. Não sorria. Não dava sequer um passo em falso.Dei o primeiro passo, f







