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#7 - Entre Olhares e Silêncios

Author: Tess Neville
last update publish date: 2025-03-26 08:12:37

《Sthephania》

Só quando vejo o carro dele e o sorriso satisfeito em seu rosto ao entrarmos, percebo o verdadeiro motivo de sua insistência em me dar uma carona. Que tipo de pessoa ele acha que sou? A irritação se instala em meu peito, me deixando inquieta.

Já sabia que Matteo estava indo muito bem na empresa onde trabalha. Mel havia comentado comigo. Soube que sua mãe conseguiu se demitir há alguns anos e, com o dinheiro que ele ganhou, comprou uma nova casa para elas. Mas Mel optou por continuar morando no meu apartamento—era mais próximo da universidade e ela gostava da independência.

Lembro do dia em que ela foi com Matteo comprar seu primeiro carro. Ela estava radiante, gravou um vídeo e me mandou, animada, mostrando o veículo escolhido. Eu fiquei feliz de verdade por ele. Na verdade, por todos. Matteo se saindo bem e fazendo o que gosta, Mel formada e prestes a inaugurar seu primeiro restaurante—um sonho que ela tinha desde que nos conhecemos—e dona Ashley finalmente se permitindo descansar. Ou quase isso, já que, pelo que ouvi, ela está empolgada em ajudar Mel na administração do restaurante.

Assim que entro no restaurante, sou recebida por um rosto familiar.

— Oi, querida! Há quanto tempo! Você continua linda — diz dona Ashley, abrindo um sorriso caloroso.

— Oi, dona Ashley. Muito obrigada. A senhora também está linda, como sempre — respondo, retribuindo o abraço afetuoso.

— Matteo não deve demorar a chegar. Acho que já está mais do que na hora de vocês conversarem. Eu sei o quanto se sacrificou pensando em mim e prometi não contar nada a ele, mas…

Sinto um aperto no peito.

— Eu tentei conversar com ele diversas vezes, mas ele não me ouviu — minha voz sai mais baixa. — E, antes de viajar, o peguei com… Bom, isso não vem ao caso. Já se passaram anos, dona Ashley. Agora é tarde demais. Não temos mais nada e é melhor continuar assim.

Ela suspira, parecendo relutante, mas assente.

— Tudo bem, querida. Eu respeito sua decisão.

— Onde está Mel? Quero ajudá-la a se arrumar.

— Venha, eu te levo.

Seguimos até o camarim improvisado nos fundos do restaurante. Ajudo Mel a terminar os últimos ajustes no visual antes de voltarmos ao salão. O local já está movimentado, clientes chegando e garçons indo e vindo com bandejas.

Meus olhos percorrem o espaço até encontrá-lo. Matteo está sentado em uma mesa no canto, conversando com dois amigos. Reconheço Felix, mas o outro rapaz é um estranho para mim.

— Diego não está nem disfarçando, está te devorando com os olhos — sussurra Mel, divertida. E imagino que esse seja o nome do desconhecido..

Reviro os olhos.

— Não exagere. Ele pode muito bem estar olhando para você.

— Não acho — ela ri, mordendo o lábio. — Felix não ficaria nada contente com isso.

Minha cabeça se vira rapidamente.

— Eu ouvi bem? — pergunto, surpresa.

— Ainda é recente — Mel confessa, mordiscando o canto do lábio. — E não contamos a Matteo ainda. Não sabemos como ele vai reagir.

Dou de ombros.

— Não acho que ele vá se opor. Felix é seu melhor amigo e um cara incrível.

— Eu sei, mas conhecendo Matteo… temo que ele não goste muito. Então, por enquanto, nada de comentários.

— Como quiser.

Uma pontada de culpa me atinge. Eu deveria contar a Mel sobre Matteo e eu… mas, antes que possa dizer qualquer coisa, dona Ashley chama sua atenção.

— Querida, precisam de você na cozinha.

Mel suspira e vai atender ao chamado. Eu a sigo, decidida a ajudá-la. Pego um avental e começo a colocá-lo.

— O que você pensa que está fazendo? — ela questiona.

— Ajudando.

— Nem pensar! Você é minha convidada e, além disso, não podemos desperdiçar esse visual. Por que não se junta à mesa dos meninos? Aproveita e dá uma chance para Diego.

Reviro os olhos novamente.

— Não diga bobagens. Vou ajudar e ponto final. Esqueceu que já fui garçonete em Londres?

— Você já o quê?

A voz masculina surge inesperadamente atrás de mim. Meu coração quase salta do peito.

Matteo.

Me viro devagar, encontrando seu olhar intenso.

— Phani trabalhou como garçonete em uma cafeteria em Londres — Mel responde, sem notar o clima tenso. — Já que seu pai não…

— Acho que tem algo queimando! — interrompo, desesperada.

Mel arregala os olhos e se volta para o fogão.

— Meu Deus!

Aproveito a distração para fugir. Pego um bloco de anotações e saio da cozinha o mais rápido que posso, mas Matteo me segue. Antes que eu perceba, ele me segura pelo braço e me puxa para dentro de um depósito.

— O que você pensa que está… — minha frase morre quando sou pressionada contra a parede.

Ele está tão perto que posso sentir seu cheiro, quente e amadeirado. Seu olhar prende o meu, e meu coração b**e descompassado. Tento manter a compostura, mas meu corpo me trai.

— Seu pai não te ajudou na faculdade? — Sua voz é baixa, carregada de algo que não consigo decifrar.

Engulo em seco.

— Por que isso te interessa? Não somos nada, Matteo. Isso não lhe diz respeito.

Tento afastá-lo, mas é inútil. Ele não cede.

— Vamos conversar quando tudo se acalmar — ele diz, ignorando minha resistência. — Vou te esperar. Na verdade, posso te levar para casa.

Meu peito aperta.

— Não temos nada para conversar. Você foi bem claro da última vez — minha voz treme levemente. — Eu não sou ninguém para você, apenas a amiguinha da sua irmã que você quer manter distância. Então, não finja que nada aconteceu.

O olhar dele se obscurece.

— Foi você quem me traiu com aquele… — Ele faz uma pausa.

Minhas mãos se fecham em punhos.

— Eu só quero que saiba que eu… — Ele suspira, apertando os lábios. — Esquece. Você está certa.

Ele se afasta, deixando um vazio estranho no lugar onde seu corpo antes me tocava. Aproveito a brecha e saio do depósito o mais rápido que posso.

No corredor, Wendy surge de repente, arqueando as sobrancelhas.

— Por que está toda corada e se abanando?

Tento me recompor.

— Não é nada. Eu só…

Ela sorri maliciosa e se vira para Matteo, que sai logo atrás de mim.

— Matteo, já deve ter visto que minha amiga voltou.

Ele me lança um olhar impaciente.

— Sim, eu vi.

A tensão entre nós é palpável, mas ele não diz mais nada.

— Tenho coisas para fazer. Foi bom te ver — ele diz antes de se afastar.

— Eu também tenho coisas para fazer — murmuro, escapando antes que Wendy comece a me bombardear com perguntas.

---

O restaurante está em pleno funcionamento, e tudo corre bem, apesar da correria. Eu ajudo onde posso—na recepção, anotando pedidos e até mesmo servindo mesas quando necessário. O salão está completamente lotado, o burburinho das conversas se mistura ao tilintar dos talheres e ao som abafado da música ambiente. O aroma das especiarias e dos pratos recém-preparados paira no ar, tornando o ambiente acolhedor, mas também eletrizante com a agitação dos funcionários indo de um lado para o outro.

Olho ao redor e solto um suspiro. Está claro que a equipe está sobrecarregada.

— Melyssa, você vai precisar de mais funcionários. Só os que contratou não estão dando conta — comento, desviando para não esbarrar em um garçom apressado.

— Eu sei, nem me fale — responde ela, focada em finalizar um dos pratos na bancada, o rosto demonstrando concentração e cansaço.

— Amanhã mesmo faço o anúncio das vagas. Pode deixar que cuido de tudo — diz Ashley, olhando para a filha, que apenas sorri em concordância.

Não posso negar que o ambiente é vibrante e envolvente, mas definitivamente não é a minha área. Meu mundo é a tecnologia, os softwares e os códigos, bem diferente dessa agitação de pedidos e clientes famintos. Ainda assim, fico feliz em estar aqui apoiando minha amiga nesse momento tão importante para ela.

Ashley volta sua atenção para mim novamente.

— Sei que já te exploramos bastante, mas consegue ajudar Felipas na recepção novamente?

Dou uma risada leve e aceno afirmativamente.

— É claro.

— Muito obrigada.

Deixo a cozinha e sigo para a recepção, sentindo a brisa ligeiramente mais fresca ao sair para o hall de entrada. Respiro fundo antes de voltar ao trabalho, lembrando-me de que, apesar do cansaço, estou aqui por uma boa razão: apoiar minha amiga em seu grande dia.

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