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last update publish date: 2026-10-15 15:51:34

Um estalo de galho seco me tirou do transe. Virei a cabeça e vi Sofia se aproximando. Caralho, o que será agora? Ela parou ao meu lado e me olhou por um instante antes de falar.

— Você não vai comer? Já está ficando tarde e eu tomei a liberdade de cozinhar. Espero que não se importe.

Eu a encarei por alguns segundos antes de responder.

— Não precisava ter se dado ao trabalho...

— Não é trabalho algum. Me sinto útil fazendo o mínimo — Sofia disse, sua voz suave, mas sincera.

Cruzei os braços, ob
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    Naquela época, o clube dos patriarcas tentou abafar tudo. Disseram que era só um "desentendimento". Bando de homem podre querendo proteger outro homem podre. Não deixei barato, e hoje eles me devem respeito. Atendi na segunda vibração, com a voz firme.— Que foi? Espero que não esteja me ligando pra dizer que aquele velho decrépito vai sair impune.Do outro lado, a voz do advogado soou calma, mas carregada de tensão.— Senhor Montenegro... melhor o senhor se sentar. O processo deu um passo grande, mas não foi do jeito que esperávamos. Otávio... contratou um advogado novo. E esse sujeito é esperto, do tipo que joga sujo. Vamos precisar conversar. Urgente.Levei a mão ao rosto, respirando fundo, os dedos apertando a testa como se isso fosse me ajudar a não perder a paciência. Era só o que me faltava agora... Otávio saindo impune. Eu só protegi minha mulher. Só fiz o que qualquer homem decente faria. Tudo bem que ele quebrou umas costelas e levou uns pontos na cara, mas ele que provocou.

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    Não com um bebê crescendo na barriga, não com tudo o que já passou.— Você não tá atrasada em nada, andorinha... o mundo é que corre fora do compasso. Cada um tem seu tempo, e o seu tá começando agora.Ela abaixou os olhos, abraçando a si mesma devagar. A voz saiu baixinha, com uma pontinha de frustração embutida.— Eu me sinto atrasada... quando fui na cidade com a Isabella, vi umas mulheres mais novas e mais velhas que eu tão seguras de si. Com jeito de que sabem o que querem, de que podem ser o que quiserem... e eu aqui...— Você aqui o quê? — perguntei, inclinando um pouco o corpo pra frente, tentando encontrar os olhos dela.Ela me olhou, mas hesitou.— Eu aqui... não sei nem explicar. Me sinto travada, como se faltasse alguma coisa em mim. Sinto vergonha de dizer que não terminei os estudos. Parece que o mundo já correu tanto e eu fiquei parada...Soltei um suspiro pesado e me acomodei melhor na cadeira, apoiando o cotovelo no braço da poltrona. Observei ela, ali no meu colo, co

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    A vista pela janela do meu escritório era sempre a mesma, mas nesses dias... parecia me zombar. A neve que antes cobria tudo com força agora começava a ceder devagar, enchendo dia após dia, abrindo espaço pra terra aparecer de novo. Março tava logo ali, e eu sabia o que isso queria dizer: tempo de plantar, de preparar o solo, de arregaçar as mangas. Só que dessa vez, não ia ser eu o primeiro a pôr o pé no campo. Me corroía por dentro. Não trabalhar me deixava igual bicho preso em gaiola, com o corpo latejando de vontade e a cabeça fervilhando.A cadeira estalou quando me movi, impaciente, os olhos ainda cravados lá fora. Foi aí que escutei passos leves se aproximando. A porta rangeu suave, e minha andorinha entrou. Sofia. Tinha um brilho diferente nos olhos, aquele que só ela sabia carregar, como se a alma toda sorrisse. A barriga, já desenhando sob o vestido, parecia até mais bonita sob a luz do fim de tarde. E, antes que eu dissesse qualquer coisa, ela veio até mim e se sentou no me

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    Ele deu um leve zoom, com precisão, e apontou com a caneta, explicando com a calma de quem já viu centenas de corações baterem assim.— Aqui, ó. Esse movimento aqui... o bebê tá bem ativo, se mexendo bastante. Isso aqui é a barriguinha. O tamanho tá compatível com doze semanas. Já passamos dos três meses.Engoli seco, sem saber se era o medo, a alegria ou os dois juntos brigando dentro de mim. Só sei que meu coração tava batendo mais forte que tambor de festa. Ali tava meu filho... ou minha filha. Um pedaço de mim. Um milagre que nem o tempo, nem a morte, nem as dores da vida puderam impedir. E naquele instante, eu soube: o mundo inteiro podia parar, que ali dentro daquela sala tava tudo que eu mais amava.— E vai ser um baita de um bebê — disse o médico com um sorriso orgulhoso, olhando pra tela enquanto apontava com a caneta. — Já tá grandinho pro tempo estimado. Doze semanas e esse tamanho todo... vai ser um bebê grande.Minhas pernas bambearam na hora, como se tivessem virado barr

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    Capítulo 288RAFAEL MONTENEGROUm mês. Já fazia um mês desde que o mundo virou do avesso. Desde o infarto, desde a bomba que Sofia jogou no meu colo com aquele jeito doce, parecendo que nem sabia o estrago que fazia. Grávida. Ela tava grávida.Mas o pior — ou o melhor, vai saber — foi que quem ouviu primeiro foi o danado do Dmitri. A gente tava seguindo as duas, Sofia e a Isabella, escondido que nem moleque traquina. Elas fizeram o teste escondido, e o meu primo... bom, ele desmaiou quando soube. Caiu feito saco de batata de tanto susto. Até agora me pego rindo daquela cena.Hoje a gente voltou pra cidade. Eu vou ter minha consulta com o cardiologista, aquela coisa de velho que precisa cuidar do motor. E a Sofia... a Sofia vai ver o bebê. Um ultrassom pra saber como tá nosso peãozinho. Ou peonzinha. A verdade é que ninguém sabe ao certo de quantos meses ela tá, mas chutamos três. Agora é tirar a prova nos exames.Chegando no hospital, estacionei a caminhonete no canto de sempre, desli

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