FAZER LOGINA terça-feira amanheceu com aquele ar puro e fresco que só o Rio de Janeiro entrega depois de um dia de chuva limpa. Quando abri as cortinas do nosso quarto, a luz dourada das seis da manhã já banhava as telhas do novo anexo de funilaria. Lá embaixo, o silêncio da travessa durou pouco: antes mesmo do relógio marcar seis e meia, ouvi o barulho ritmado da vassoura de piaçava varrendo o piso de concreto do pátio.Era o Kauã.Olhei pela janela do escritório do segundo andar e vi o garoto trabalhando com um sorriso de orelha a orelha, vestindo o macacão azul do *Sementes do Asfalto* impecavelmente limpo. Depois do recado firme que o Marcos deu no morro, a sombra do Ruan tinha se dissipado por completo. O pavor que apagava o olhar do Kauã deu lugar a uma sede de aprender que contagiava todo mundo no galpão.Desci as escadas ajeitando meu rabo de cavalo loiro, vestindo uma calça jeans confortável e a minha polo escura do projeto. Quando pisei no pátio, o meu pai já estava no balcão do escrit
O resto da tarde no galpão pareceu carregar uma chumbo invisível. O Kauã tentou continuar na bancada, mas a chave de fenda escorregava das mãos trêmulas dele a cada dez minutos. Ver o medo estampado no rosto daquele garoto fez o meu sangue ferver, mas no olhar do Marcos eu via algo diferente: não era raiva cega, era a determinação fria de um homem que sabia exatamente o tamanho da sombra que espreitava no portão.Às seis da tarde, quando os alunos foram dispensados e o silêncio baixou sobre o piso de concreto, o Kauã ficou por último. Ele estava encolhido no banco da recepção, com a mochila no colo e os olhos vermelhos de quem tinha segurado o choro o dia todo.— Kauã, você não vai voltar para o barraco sozinho hoje — disse eu, entregando a ele um copo de suco bem gelado. — A Dona Sebastiana já tá sabendo que você vai jantar com a gente aqui em cima. O meu pai foi buscar ela de carro.O garoto levantou os olhos, marejados de gratidão.— O Ruan tá diferente, Dra. Maju... — murmurou o m
A segunda-feira começou com aquele movimento bonito que enchia meu peito de orgulho. O novo anexo de funilaria e pintura parecia um coração pulsante nos fundos do galpão: os compressores modernos roncam baixo, o cheiro de tinta ecológica e metal limpo tomava o ar, e os quarenta alunos da nova turma dividiam-se entre as bancadas computadorizadas e os motores de teste.Eu estava no escritório do segundo andar, com a janela aberta para o pátio. Do meu ângulo, via o Marcos no centro de tudo, vestindo o macacão escuro com as mangas dobradas até os cotovelos. Ele explicava o manuseio da trena a laser para o Kauã, que absorvia cada instrução com os olhos brilhando. O garoto tinha um talento raro, uma precisão de quem aprendeu a respeitar a ferramenta.Foi por volta das dez da manhã que a atmosfera na travessa mudou.Eu estava descendo as escadas com a prancheta de frequência quando vi o Kauã travar no meio do pátio. O garoto segurava uma chave de fenda e, de repente, as mãos dele começaram a
O sábado amanheceu com aquele cheiro gostoso de rabanada e café recém-passado que invadia a casa toda. Do segundo andar, dava para ouvir o chiado macio da manteiga na frigideira e o som do rádio de pilha do meu pai tocando um chorinho antigo. Com as obras do anexo oficialmente concluídas e os equipamentos computadorizados acomodados no novo galpão de funilaria, o ar na nossa cozinha era de puro alívio e celebração.Sentamos todos ao redor da mesa redonda de madeira: eu, o Marcos, o meu pai e o pequeno Márcio Henrique, que já tentava alcançar a travessa de açúcar para melaço nos dedos antes da hora.— Sabe, pai... — comecei, rindo e limpando a bochecha do meu filho com o guardanapo —, ontem o pessoal da coordenação do posto de saúde me perguntou de onde veio essa minha força para a área de enfermagem e cuidar dos outros. Eu respondi orgulhosa que puxei a coragem do meu pai. Um homem que passou a vida inteira com a mão na graxa da oficina, mas que teve que virar parteiro de emergência n
A sexta-feira amanheceu com um céu limpo e aquele calor gostoso de fim de tarde antecipado que faz o Rio de Janeiro parecer mais vivo. Do segundo andar da nossa casa, o som que vinha dos fundos não era mais o estalo das picaretas na terra nem o ronco pesado da retroescavadeira, mas o bater ritmado das colheres de pedreiro arrematando os últimos retoques de massa nas colunas do novo anexo.Tirei o meu avental da cozinha, ajeitei o cabelo loiro num rabo de cavalo alto e desci para o pátio segurando uma prancheta com o cronograma de entrega do dia.Quando cheguei ao terreno dos fundos, parei por alguns segundos só para admirar o cenário. As paredes de tijolo baiano estavam completamente erguidas, com o contorno da grande porta de correr industrial já definido e a estrutura de ferro do telhado alto devidamente fixada. O mestre Tonho estava no topo de um andaime baixinho, passando a desempenadeira na última viga do teto.— Terminamos a alvenaria na risca do prazo, Dra. Maju! — gritou o vel
A segunda-feira despertou o bairro com aquela energia bonita de quem sabe para onde está indo. Depois do fim de semana restaurador em Penedo e do jantar abençoado em família no domingo, acordei antes do sol nascer. Olhei para o lado e vi o Marcos ainda dormindo sereno. Passei a mão suavemente pelos cabelos curtos dele e me levantei sem fazer barulho.Quando abri a janela da cozinha, o ar fresco da manhã trouxe o cheiro de café novo que o meu pai já tinha passado lá embaixo. Vesti minha calça jeans surrada, uma camiseta polo escura com a marca do *Sementes do Asfalto* e ajeitei meu cabelo loiro mel num rabo de cavalo prático. Quando desci as escadas, a oficina já estava operando na sua rotação máxima.No terreno dos fundos, o mestre Tonho e a equipe de pedreiros trabalhavam a todo vapor. As paredes de tijolo baiano do anexo de funilaria e pintura ecológica já tinham ultrapassado a altura dos ombros, e a estrutura de ferro para o novo telhado isolado começava a ser montada. O progresso







