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Capítulo 4

Autor: Dzel
last update Data de publicação: 2026-08-03 21:08:21

O cheiro de café passado na hora inundava a pequena cozinha da casa dos meus pais. Sentada à mesa com tampo de fórmica gasto, encarei a xícara fumegante na minha frente. Meu pai, com a camisa de brim manchada de graxa pronta para mais um dia na oficina, passava manteiga no pão francês, enquanto minha mãe ajeitava o avental de costura.

— Mãe, pai… recebi uma ligação da agência hoje cedo. Consegui uma entrevista de emprego. Disse, tentando manter o tom de voz leve para esconder o nervosismo.

Minha mãe parou no meio do caminho, com o bule na mão, e um sorriso largo iluminou seu rosto cansado.

— Que bênção, minha filha! Em qual hospital? No Centro?

Apalpei a mesa, buscando coragem para soltar a bomba.

— Não é no Centro. É para a vaga de médica responsável pelo posto de saúde da comunidade… na Rocinha.

O silêncio que se seguiu foi devastador. O sorriso da minha mãe desapareceu instantaneamente, e o ruído da faca do meu pai batendo contra o prato ressoou como um tiro.

— Você ficou louca, Maria Júlia? meu pai levantou a voz, a testa franzida em vincos profundos de preocupação.

— Nós nos matamos de trabalhar a vida inteira para você estudar, tirar um diploma, e agora você quer se enfiar no meio de tiro e do perigo? Eu não aceito!

— Pai, por favor, me escuta! pedi, inclinando-me para a frente.

— É a única oportunidade que apareceu em seis meses! Eles estão pagando um salário excelente, acima do mercado. Não posso me dar ao luxo de recusar antes mesmo de ouvir a proposta.

— Dinheiro nenhum paga a sua vida, garota! ele esmurrou a mesa, fazendo as xícaras tremerem.

— Você acha que facção e tiro de fuzil são brincadeira?

— Seu pai tem razão, Maju, minha mãe interveio, com a voz embargada e os olhos cheios de lágrimas.

— A gente quer você em um lugar seguro, minha filha.

Senti meus próprios olhos queimarem. Olhei para as mãos calejadas do meu pai, lembrando de quantas noites ele passou acordado consertando carros para que nada me faltasse durante a faculdade.

— Eu sei do risco, mas eu preciso disso, falei suavemente, cobrindo a mão dele com a minha.

— É a minha chance de exercer a medicina, de ajudar quem realmente precisa e, finalmente, de conseguir pagar minhas contas e ajudar vocês.

Meu pai encarou nossas mãos unidas. O peito dele subiu e desceu em um suspiro longo e pesado. A raiva em seus olhos deu lugar a uma exaustão dolorosa.

— Eu só quero o melhor pra você, Maju... ele murmurou, a voz fraquejando.

— Se algo acontecer com você, meu mundo acaba. É só isso.

— Nada vai acontecer, pai. Eu prometo ter cuidado.

Duas horas depois, o Uber me deixou bem na entrada da comunidade. O motorista recusou-se terminantemente a subir um metro sequer, e eu tive que continuar a pé.

O impacto inicial foi imediato. Assim que cruzei a primeira viela, a atmosfera mudou drasticamente. A energia do asfalto ficou para trás. Pelas calçadas e esquinas, jovens usavam rádio comunicador na cintura e carregavam fuzis pendurados no peito com uma naturalidade assustadora. O pavor gelou minha espinha, mas mantive o queixo erguido e os passos firmes, apertando a bolsa contra o corpo.

Antes que eu pudesse decidir para onde ir, um homem alto, de cara fechada, se aproximou.

— Dra. Maria Júlia? perguntou em um tom de voz baixo, quase um murmúrio, mas imperativo.

— S-sim, sou eu — respondi, tentando disfarçar a gagueira.

— Sou o Beto. O chefe tá esperando. Vem comigo.

Caminhei escoltada por ele e por mais dois homens armados que mantinham conversas curtas e codificadas pelos rádios. O trajeto pelas vielas íngremes parecia um labirinto, até pararmos em frente a um prédio moderno que destoava completamente da arquitetura ao redor. Subimos de elevador até o último andar.

Beto bateu duas vezes na porta de madeira maciça e a abriu, fazendo um sinal para que eu entrasse.

O escritório era amplo, luxuoso e todo envidraçado, revelando uma vista panorâmica arrebatadora de toda a comunidade e do mar ao fundo. Atrás de uma imensa mesa de mogno, de costas para a porta e observando a paisagem, estava um homem de terno escuro sob medida.

— A médica chegou, chefe Beto avisou e se retirou, fechando a porta e nos deixando a sós.

O silêncio na sala era ensurdecedor. Meu coração batia tão forte no peito que parecia prestes a explodir.

Devagar, o homem virou-se. Ele deu um passo à frente, revelando o rosto esculpido, os olhos escuros e profundos e aquele mesmo meio sorriso perigoso e provocante. Ele não vestia a farda do crime; vestia a elegância do poder absoluto.

O desespero de surpresa roubou todo o ar dos meus pulmões. O sangue fugiu do meu rosto no mesmo instante em que a memória da noite anterior voltou como uma avalanche: as luzes da boate, as mãos dele na minha cintura e o toque daquela mesma boca na minha.

Dê a volta por cima, pensei, mas minha voz travou. Fiquei completamente sem reação, encarando o dono do morro , é exatamente o homem a quem eu tinha dado um perdido horas atrás.

— Você?

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