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Capítulo 81

Penulis: Dzel
last update Tanggal publikasi: 2026-09-06 18:38:39

Há um tipo de silêncio que precede a tempestade que nenhum radar consegue prever, mas que o peito de um homem criado na guerra reconhece à distância. Para o resto do morro, aquele sábado era apenas mais um dia de sol escaldante, música fraca saindo das vielas e o cheiro de comida caseira subindo pelas janelas da Rocinha. Para mim, no entanto, cada minuto que o relógio marcava no meu pulso parecia a contagem regressiva para a minha própria execução.

Decidi que os dois dias seguintes pertenceriam
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  • Uma médica para o morro   Capítulo 113

    A quinta-feira amanheceu sob um céu cinzento no Rio de Janeiro, com uma garoa fina que deixava as ruas da Zona Sul com aquele aspecto lavado. No apartamento do Leblon, a luz do sol entrava tímida pelas frestas da varanda. Na mesa da cozinha, o vapor do café recém-passado subia lento, misturando-se ao cheiro de pão quente.Maria Júlia estava sentada ao meu lado, vestindo o jaleco branco por cima da roupa normal, ajeitando a bolsa do posto sobre a cadeira. O Márcio Henrique engatinhava pelo tapete da sala, perseguindo um bloco de plástico colorido com risadinhas altas.Às sete horas em ponto, a tela do televisor ligado no canal de notícias da manhã mudou de tom. A vinheta urgente de jornalismo cortou a programação normal.Uma repórter em pé, usando capa de chuva amarela e microfone na mão, apareceu ao vivo na porta da Superintendência da Polícia Federal, na Praça Mauá. Ao fundo, viaturas pretas com sirenes ligadas e dezenas de agentes armados entravam e saíam do pátio sob a chuva fina.

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    O trajeto de volta do Centro para a divisa da Zona Sul com a entrada da montanha foi feito no mesmo tom sereno do táxi amarelo. Mas o silêncio que agora pairava entre a Maria Júlia e mim não trazia a angústia sufocante dos últimos dias. O nó no peito, aquele peso de carregar segredos e antecipar emboscadas como se o mundo fosse ruir a qualquer segundo, havia finalmente se desfeito.O motorista do táxi entrou pela travessa estreita que levava à oficina. Paguei a corrida com uma nota amassada do bolso e desci primeiro, oferecendo a mão para a Maju.A luz do meio-dia caía a pique sobre a calçada. O sol quente do Rio de Janeiro fazia o asfalto vaporizar um cheiro forte de mofo e poeira, mas ali, na fachada modesta com o letreiro desbotado da oficina, o ar parecia mais limpo. A grande porta de ferro de enrolar continuava aberta até a metade, deixando transparecer o chão de cimento queimado encardido de óleo.Assim que os meus pés pisaram na entrada do estabelecimento, ouvi o som familiar e

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    O ar-condicionado central do décimo oitavo andar do edifício na Avenida Rio Branco soprava um vento gelado que cheirava a papel novo e produto de limpeza caro. O silêncio dentro da sala de reuniões do Dr. Dantas era tão absoluto que o barulho abafado das buzinas lá embaixo, no miolo do Centro, parecia vir de outro mundo. As paredes cobertas de madeira escura e as estantes cheias de livros de direito contrastavam brutalmente com o chão de cimento e graxa da oficina do Seu Roberto, onde essa conversa começara vinte e quatro horas antes.O Dr. Dantas — um homem de cinquenta e poucos anos, cabelos grisalhos cortados no milímetro e um terno cinza-chumbo impecável — estava sentado do outro lado da mesa de vidro oval. Ele usava óculos de armação fina e passava a ponta do indicador pela tela do seu computador enquanto examinava os arquivos do pen drive que a Maria Júlia tirara da bolsa.Eu estava sentado na cadeira de couro ao lado da minha esposa. As minhas mãos repousavam sobre os joelhos.

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    O cheiro de álcool barato do aromatizador pendurado no retrovisor do táxi amarelo se misturava com o ar condicionado fraco que saía das canaletas do painel. Eram sete e quinze da manhã. O trânsito na saída da Zona Sul já começava a morder o asfalto, criando uma fila lenta de ônibus, carros de passeio e entregadores de moto costurando entre os faixas.Deixamos o SUV preto parado na garagem do prédio no Leblon, exatamente como a Maria Júlia tinha planejado. Qualquer olheiro da milícia que estivesse de plantão no quarteirão veria o carro grande imóvel sob a luz fraca do subsolo, acreditando que a gente ainda estava dentro do apartamento resolvendo problemas domésticos.Saímos a pé pela porta dos fundos da oficina do Seu Roberto, no meio do movimento da rua secundária. O meu sogro ficou na oficina com o Márcio Henrique no colo, escondido atrás da porta de enrolar meio aberta. O velho mecânico não disse uma única palavra quando a gente se despediu. Ele apenas me encarou com os olhos cerrad

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    O cheiro de café requentado e cigarro apagado tomava conta da sala pequena nos fundos de uma gráfica antiga, no meio de uma galeria comercial em Copacabana. O lugar estava parado no tempo, com paredes descascadas, calendários velhos na divisória de compensado e o barulho fraco dos carros passando lá fora na Nossa Senhora de Copacabana. Eram seis horas da manhã. O sol mal tinha saído no Rio de Janeiro, mas a gente já estava de pé, sentado ao redor de uma mesa de formica gasta.O Beto chegou sozinho, vestindo um casaco esportivo escuro para esconder o volume da pistola na cintura. Ele trouxe um envelope pardo debaixo do braço e uma cara de quem não dormia há pelo menos dois dias. Quando entrou e viu a Maria Júlia sentada do meu lado, com uma xícara de plástico nas mãos e o olhar atento, o meu antigo homem de confiança deu uma travada rápida antes de fechar a porta de alumínio com cuidado.— Bom dia, Dra. Maria Júlia. Fala, chefe — o Beto disse, puxando uma cadeira de ferro e sentando na

  • Uma médica para o morro   Capítulo 108

    O cheiro de feijão fresco temperado com alho e louro preenchia a sala de jantar no sobrado acima da oficina do Seu Roberto. Na mesa de madeira maciça, arranhada pelos anos e marcada por apoios de panelas quentes, pratos fundos e talheres simples estavam dispostos com o rigor de quem não aceita desperdício. O teto baixo de alvenaria abafava o barulho constante do trânsito na avenida principal, trazendo uma atmosfera quase irreal de calmaria familiar.Eu estava sentado na ponta, vestindo uma camisa polo e de braços cruzados sobre a mesa, observando a rotina daquela casa. Ao meu lado, Maria Júlia ajeitava a cadeirinha alta do Márcio Henrique, alimentando nosso filho com pequenas colheradas de papinha de legumes. No outro extremo, o Seu Roberto mastigava em silêncio, a postura rígida de quem ainda mantinha o olhar atento sobre cada movimento meu. Ele limpara a graxa das mãos antes de sentar, mas as marcas pretas sob as unhas continuavam ali, como a assinatura indelével de uma vida inteira

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