Se connecterAutora: Edivania Rios
História ambientada na década de 2000 Protagonistas: Raquel e Leandro Jesus! Estou com tanto medo. O senhor Joaquim está furioso comigo. Daqui de cima eu vi o filho dele entrando no carro, ainda de roupão de dormir, e saindo para a rua daquele jeito. Será que não tem vergonha nenhuma? Agora ouço barulho no corredor — é ele! O som dos seus sapatos batendo forte no chão, a porta se abrindo. Senhor meu Deus, tenha dó de mim. — Hoje você não vai comer nada, sua prostituta! — gritou ele. — Deu para outro o que eu queria, e a sua vida vai ser assim a partir de agora: sem nenhum valor, igual a sua honra. Não quero mais te tocar, mas preciso de você por enquanto para fechar algumas sociedades. Pelo menos a sua beleza tem que servir para alguma coisa. Diz logo: quem foi o idiota que te comeu? — Eu não conheço — respondi, olhando para ele rapidamente e depois baixando o olhar. Estou sentada na cama, com as mãos juntas no colo, apertando as unhas uma na outra de nervosismo. — Como alguém entrega assim para um desconhecido? — rosnou ele. — Dá uma vontade enorme de bater na sua cara de novo, mas não posso! Sábado eu preciso de você: linda, arrumada e inteira. E assim ele saiu. Ufa! Que alívio. Mas não consigo esquecer: o Leandro me olhou com tanto ódio mais cedo, quando descobriu que eu era a mulher do seu pai. Parece que ele odiou saber que eu seria a madrasta dele. Mais tarde… Fiquei das seis da manhã até as onze horas sem comer nada. Olho da janela e vejo ele lá embaixo, ainda com o mesmo roupão, conversando com uma moça. Sinto muito, Leandro, penso. Foi no desespero que eu te usei, mas eu gostei muito de você. Poxa vida! Será que eu não fui nem um pouco importante para ele? Agora ele está aí rindo com aquela garota, como se nada tivesse acontecido entre a gente. Tive que me afastar da janela — uma raiva subiu em mim quando vi ele beijando a moça. Aquilo me machucou, e eu sei que não devia doer, ele não é meu, não é nada meu. Não tenho tempo para me preocupar com o tal Leandro. Agora tenho que enfrentar a realidade da minha vida — a outra realidade, mais cruel, mais complicada. Tudo está muito frustrante para mim. Ajeitei o que a vida me ofereceu, juntei o cabelo e fiz um rabo de cavalo. A empregada bateu na porta, me chamando para almoçar. Não perdi a oportunidade, tentei parecer animada. — Tudo bem, qual é o seu nome? — perguntei. — Martha — respondeu ela. — Nome lindo. Na verdade eu estou apavorada: aquele velho uma hora me põe de castigo, outra hora me trata como se nada tivesse acontecido, ninguém entende ele. — Diz que já vou — falei. Assim que ela saiu, eu quase vomitei. Sinceramente, é a angústia sem fim que eu sempre vivi. Nunca conheci a felicidade. Gostei do menino, mas ele nunca será meu — é filho do meu marido, e pelo jeito que ele me olhou, com aquele olhar tão severo, ele me odeia. Onde fui me meter! Vesti um vestido simples, como sempre uso, e quando fui entrar na sala, esbarrei em Leandro. Ele tinha um celular na mão, que caiu no chão. Ele se agachou rápido, me lançou um olhar duro, fechou a cara e recolheu as peças. Ainda agachado, ele encaixou a bateria no aparelho e ficou ali — eu esperei um pingo de atenção, mas nada. O tal marido apareceu logo em seguida, me deu o braço e me levou até a mesa. Apresentou-me para quatro casais — e a moça que estava com Leandro também estava sentada ali. Agora entendi por que estou aqui: sou apenas a amostra, a esposa do bandido. Ele mesmo chamou o filho de bandido, então é isso que ele é. Leandro não voltou para a mesa. A namorada dele estava lá, com certeza era a namorada. Fui apresentada para todos, almoçamos em silêncio e voltei para o meu quarto. Fui até a janela e vi Leandro e a menina brincando, jogando água um no outro, cheios de sorrisos, uma alegria que doía de ver. Por que eu nasci? Por que não posso ser igual às outras jovens, namorar quem eu quiser? Senti uma pontada forte de decepção no peito. Mais tarde… Leandro estava passando pelo corredor e eu não resisti: puxei ele pelo braço. — O que você quer de mim, madrasta? — perguntou ele seco. — Eu não sou sua madrasta! — Ah, não? Aquele velho feio ali é o meu pai, não sabia? Você jogou sujo, garota. Agora eu estou enfiado até o pescoço nesse seu jogo. Se eu contar a verdade, você sabe muito bem que eu tenho “costas quentes”, não vai acontecer nada comigo — mas com você… até tenho dó. Por isso é melhor fingir que nada aconteceu. Vai ser bom para nós dois. Agora me desculpe, estou atrasado. Eu segurei forte na mão dele, mas ele se soltou — eu soltei, sem querer soltar. Fechei a porta e comecei a chorar muito. Nunca senti nada assim antes. Não posso ser refém de mim mesma, não posso morrer. Lutei até hoje, vivi tantas humilhações para agora morrer de amor por um garoto. Chegou o sábado… Chegaram vários vestidos lindos para eu escolher. Quem sabe Leandro me ache bonita, quem sabe até me convide para alguma coisa… Ele não ficou em casa esses dias, deve ter passado todo esse tempo na casa da namorada. Como eu posso querer isso? Depois de arrumada, fui levada até a sala pela empregada. — Vamos? — chamou Joaquim. — A sua família toda vai? — perguntei, querendo saber se ele viria. — Só tenho o Leandro de filho — resmungou ele. — Aquele filho de bandido não queria vir, para me desafiar como sempre, mas eu obriguei. Ele vai com a gente. Dei um sorriso por dentro. Hoje eu vou vê-lo. Leandro entrou na sala. Ele estava sozinho, sem a namorada, e os meus olhos se encheram de alegria. Eu nem conheço direito esse garoto e já morro de amores por ele. Levantei o braço discretamente, fazendo o sinal da cruz, pedindo a Deus proteção — não faço ideia do que esse homem está aprontando. Fui de braços dados com Joaquim, e Leandro vinha atrás. Parecia inquieto, mas não falava nada. — O que foi, Leandro? Fala logo! — provocou o pai. — Te conheço bem, seu peste, está morrendo de vontade de soltar os seus venenos. — É, velho — respondeu ele baixo —, dessa vez o senhor errou. Não quero falar nada. Chegamos a um restaurante muito chique. Vi pessoas conversando com Joaquim, falando de mais dinheiro, de terras do governo que ele quer roubar, de pedras preciosas que quer extrair de áreas proibidas. — Sabe, senhor Juan — dizia ele —, posso te ajudar com isso, mas fica cinquenta por cento para cada um. — Aceito! — respondeu o outro homem. Depois ele bateu no ombro do filho e disse: — Esse aqui é o meu menino, o meu orgulho! E esta é a minha bela esposa, o nome dela é Raquel Slaviero. Olhei para Leandro, e ele baixou o olhar. — Com licença — disse ele, e saiu da mesa. Esperei um pouco e depois falei que precisava ir ao banheiro — ele me permitiu. Fui procurar ele e o encontrei na sacada, olhando para baixo. Toquei no seu ombro. — Nunca mais faça isso! — ele se assustou. — Entenda logo, menina: aquilo foi apenas um momento. Não posso ficar com o que é do meu pai, eu tenho caráter. Não sou homem de brincar com os sentimentos de ninguém. — Não tem cara de bom menino não — respondi, tentando disfarçar — e além disso, não sabia que assustava tão fácil. Ele ajeitou a camisa, fechou a cara e olhou firme nos meus olhos. — Você está brincando com a morte, não tem dignidade, menina? Não mexa com o que está quieto. Vão chegar momentos em que eu não vou poder te ajudar. E só estou falando isso porque fui eu que tirei a sua virgindade, fui eu que provei o que o meu pai não provou — mas me deixa em paz, moça. É o melhor para nós dois. — Aquela menina é sua namorada? — perguntei. Ele olhou para todos os lados. — Qual? Não vejo ninguém aqui. Agora volta para a mesa, por favor. Preciso ficar aqui um pouco. Aquela rebeldia toda do Leandro… pelo que eu ouvia os traficantes falarem, meninos da idade dele são assim mesmo, irresponsáveis. Voltei para a mesa. Joaquim me olhou com um brilho mau nos olhos. — Com licença, amigos — disse ele —, vou conversar rapidamente com a minha esposa. Me segurou forte pelos braços, me levou para um canto escondido e me sacudiu duas vezes, sem me dar chance de falar. — Onde você estava? — perguntou de novo, histérico. Eu até o entendia: ele não quer ser motivo de piada entre os amigos. — Estava no banheiro — respondi tremendo de medo. — Não vou te trair mais, aprendi a lição. Se ele soubesse que o filho dele é tudo o que eu consigo enxergar… — Você não me convence mais — rosnou ele. — Você matou toda a confiança que eu poderia ter em você. Não tenho escolha a não ser aceitar essa desconfiança. Mas nesse momento, não me importo — eu só quero correr atrás de Leandro. O jantar acabou e Leandro não voltou mais. — Vamos embora — reclamou o velho. — Leandro outra vez aprontando, esse menino não tem jeito. Por isso que eu não queria ser pai, e agora que até gostei da ideia ele vive fazendo coisas erradas para me contrariar. Eu só fico ouvindo ele reclamar do filho. — Quando o senhor chegar, com certeza ele já vai estar em casa — falei para acalmá-lo. Ele começou a rir. — Já vou ligar para os meus advogados para apagar de todos os jornais o que esse menino vai aprontar essa noite. Prostitutas, roubos, drogas… é tudo isso que ele faz para me enlouquecer e acabar com as minhas parcerias. Chegamos em casa. — Pode ir para o seu quarto, prostituta — ordenou ele. Tenho pena de mim mesma, às vezes raiva, às vezes só queria deixar de existir. Como a minha vida é sempre a mesma história, só mudam os donos? Virei de costas para ele e fui em direção ao meu quarto, esse quarto horrível. Tranquei todas as fechaduras — é a minha única chance de evitar que ele chegue perto de mim. Sei que não vai durar muito, mas se as coisas ficarem difíceis demais… eu fujo.Acordei decidido. De uma forma que não sentia há muito tempo. Pela primeira vez em semanas não havia dúvida pairando no ar, não havia indecisão me puxando pra trás, não havia justificativa nenhuma pra adiar. O momento era aquele.O papel continuava sobre a mesa, amassado de tanto que eu tinha lido e relido. A tinta já parecia quase desbotada de tanto olhar.Galpão 17.Distrito Industrial.Era tudo. Nada mais. Sem nome, sem explicação, sem assinatura. E aquilo bastava. Bastava pra me fazer levantar, lavar o rosto, respirar fundo e seguir.Saí cedo. A cidade ainda despertava devagar, como quem abre os olhos com preguiça. As ruas estavam mais vazias que o normal, com aquele ar úmido de manhã cedo, poucos carros passando, poucas pessoas na calçada. Passei na padaria de sempre, aquela que já conhece meus gostos. Comprei um café forte e fumegante e um pão com manteiga quentinho. Sentei na mesa perto da janela, do jeito que gosto.Precisava organizar meus pensamentos antes de dar qualquer pa
Acordei antes de Bella.Algo muito raro. Muito, muito raro mesmo. Normalmente ela conseguia transformar qualquer manhã tranquila numa verdadeira competição olímpica de barulho, pulo e voz alta — parecia que o sol não podia nascer sem que ela já estivesse correndo pelos cantos, cantando, chamando, fazendo da casa um lugar cheio de vida. Mas hoje ,nesse dia… não. O silêncio vinha antes do Aquele telefonema de Leandro me deixou pior, não porque ele sumiu.Isso é do feitio dele,as vezes não conheço ele direito, não sei se ele some por medo ou querendo resolver as coisas.Fui até a cozinha devagar, na ponta dos pés, como se não quisesse que o dia me notasse ainda. Coloquei água para ferver. O som da água enchendo a chaleira foi a primeira coisa que ouvi, suave, familiar. Abri a janela e o ar fresco da manhã entrou devagar, trazendo o cheiro de grama molhada e café de longe.Na casa da frente, uma mulher regava as plantas com calma, o jato d’água brilhando no sol que começava a aparecer. Um
Autora: Edivânia RiosHistória ambientada no ano de 2001Fiquei parado na esquina por vários minutos, sem me mexer, pensando se eu ia ou não.Segurando o papel entre os dedos. O vento soprou leve, levando folhas secas pela calçada, mas eu nem prestei atenção. O endereço continuava ali, escrito à mão, simples, direto, sem explicação, sem assinatura, sem nenhuma palavra a mais. Apenas um endereço. Nada mais.Dobrei o papel devagar, com cuidado, e guardei no bolso da calça, apertando com a palma da mão contra o tecido. Fiquei parado mais um instante, olhando a rua, as pessoas passando, os carros seguindo… e então comecei a andar. Mas não na direção do galpão. Ainda não. Precisava pensar primeiro. Respirar. Organizar a cabeça. Porque eu já cometi muitos erros na vida, e a maioria deles aconteceu justamente quando agi sem pensar, guiado só pela raiva ou pela vontade de descobrir tudo de uma vez.O problema é que eu nunca fui muito paciente. Quando queria respostas, corria atrás delas, sem m
ConsequênciasAutora: Edivânia RiosHistória ambientada no ano de 2001Acordei com a Bella cantando. E não era uma música só, dessas que a gente aprende no rádio e repete sem parar. Era pior. Ela estava misturando três músicas diferentes ao mesmo tempo, trocando as letras, inventando estrofes inteiras, cantando no tom que bem entendia — feliz, alta, sem a menor vergonha de nada.— Bella — chamei, sem abrir os olhos direito.Ela continuou, como se não tivesse ouvido.— Bella — repeti, mais alto.Nada. A voz dela só ficava mais animada.— BELLA!A porta do quarto se abriu de leve e ela apareceu ali, sorrindo de orelha a orelha.— Bom dia, mãe!Sentei na cama, fingindo indignação:— Você sabe que canta mal, não sabe?Ela cruzou os braços, ofendida:— Isso é inveja.— Claro que é — sorri.— É porque eu tenho talento mesmo sou artista — afirmou,ela, agora Bela colocou na cabeça que é artista.Joguei o travesseiro nela. Ela desviou ágil e começou a rir — aquela risada gostosa, que enchia a
Autora: Edivânia RiosHistória ambientada no ano de 2001Eu vi Bela me olhando,eu fingir que não a vi, fui deitar...Durante a noite não consegui dormi. De jeito nenhum. Tentei. Deitei, fechei os olhos, contei até cem, respirei devagar… mas a mente não parava. Levantei, fui até a cozinha, voltei para a cama. Acendi a televisão, passei os canais, desliguei de novo. Nada funcionava. O envelope continuava ali, sobre a mesa da sala, visível de qualquer canto do cômodo. Parecia-me observar. Me vigiar. Toda vez que eu passava por ele, os olhos desciam sozinhos para a frase, lendo de novo, como se pudesse mudar de alguma forma:"Pare de procurar respostas sobre sua mãe antes que Bella pague o preço."Era impossível ignorar. Se a ameaça fosse contra mim, talvez eu até conseguisse deixar de lado, fingir que não vi. Mas não era. Era ela. A Bela. Uma criança que não tinha nada a ver com isso. Nada. Ela não escolheu nenhum dos lados. Não fez mal a ninguém. Só queria saber de brinquedos, de filmes
ConsequênciasEu estava na cozinha, com o café fumegando na mesa, quando a Bela apareceu ali na porta, com uma das minhas revistas nas mãos, aberta no meio, os olhinhos brilhando de curiosidade.— Mãe.— Hm? — respondi, sem tirar os olhos da xícara.— Você sabia que a Mônica ideia o Cebolinha?ela bate nele sempre com o coelhinho azul.Olhei para ela por cima da borda da xícara, segurando o riso:— Como é que você observa essas coisas, hein?— Está aqui, ó bem grande! — apontou o dedinho para a página.— E por que você está lvendo essa revista de gente grande? — perguntei, secando a mão no avental.— Pesquisa ,mas o que Cebolinha e Mônica está fazendo na revista de gente grande?— Disse ela, com a seriedade de uma professora.— Eu não queria acabar com sua fantasia, mas a turma da Mônica e mais velha do que eu e você?__ Mas você é velha mamãe? É mais velha que o papai?__ Seu pai é mais velho que eu pouca coisa.__ Não acledito!__Entao tá ficando aí bobinha.Bela ficou séria, endire







