MasukJá haviam se passado três dias.
Três dias desde que Lívia foi levada para aquela casa. E, desde então, o mundo dela se resumia àquele quarto. As únicas pessoas que via eram Dona Teresa… e uma das empregadas que entrava em silêncio, sempre nos mesmos horários, deixando refeições e vitaminas sobre a mesa. Ninguém mais. Nenhuma explicação. Nenhuma resposta. Só espera. E silêncio. Naquela manhã, Teresa veio como de costume, trazendo sua maleta. — Vamos dar uma olhada em você, querida — disse, com suavidade. Lívia se sentou na cama, estendendo a mão enfaixada. A senhora analisou com atenção. — Os ferimentos mais leves estão cicatrizando muito bem… — comentou. — Mas esse corte aqui ainda vai levar alguns dias. Lívia assentiu em silêncio. Quando Teresa saiu, o quarto voltou a ficar quieto. Pesado. Ela respirou fundo… e se levantou. Se colocou diante do espelho. Por um momento… apenas se encarou. Havia hematomas espalhados pelo corpo. Principalmente no tronco. Roxos. Amarelados. Alguns ainda recentes. Outros já antigos demais. Ela perdeu as contas de quantas vezes teve as costelas quebradas. Chutes. Pauladas. Dor. Seus olhos desceram lentamente pelo próprio reflexo. Apesar de tudo… Ela ainda era bonita. Cabelos escuros, longos, ondulados. Pele macia. Quase intacta no rosto. Porque aquela era a única parte que ela conseguia proteger. Sempre. Seu olhar endureceu por um segundo. Então desviou. Subiu na balança ao lado da cama. O número apareceu. Ela arregalou levemente os olhos. Cinco quilos. Em três dias. — Ainda faltam vinte… — murmurou para si mesma. Suspirou. Estava entediada. Presa. Sem nada para fazer. Sem saber o que pensar. Ou sentir. Decidiu tomar um banho. Talvez a água levasse embora tudo que fosse um pouco daquele peso. Minutos depois, saiu do banheiro, o corpo ainda úmido, enrolada apenas na toalha. E então— Parou. O coração disparou. Havia um homem dentro do quarto. Desconhecido. Alto. Loiro. O olhar dele percorreu o corpo dela sem pudor algum. Lívia segurou a toalha com força, os dedos ficando brancos. — Ora, ora… — ele sorriu, de forma nojenta. — O que temos aqui? Um brinquedinho perfeito… Ela deu um passo para trás. — Quem é você? — perguntou, tensa. — O que está fazendo aqui? Ele avançou. Calmo. Como se estivesse no controle. — Steve — respondeu. — Um grande amigo do Matteo. O nome fez o estômago dela revirar. — Ouvi dizer que ele trouxe uma gatinha abandonada pra cá… — continuou. — Eu precisava ver com meus próprios olhos. Ele se aproximou mais. Muito mais. — Se afasta de mim! — ela disse, firme. Mas ele não parou. Até que— A encurralou contra a parede. Lívia sentiu o pânico subir pelo corpo. Sua respiração ficou irregular. Ele estava perto demais. O cheiro. O olhar. As palavras. Suas mãos tremiam enquanto segurava a toalha. — Fica quietinha… — ele murmurava coisas nojentas, próximas demais do ouvido dela. — Socorro! — ela tentou gritar. Mas ele tampou sua boca. O desespero tomou conta. E então— A porta se abriu. De repente. Matteo. Seu olhar foi direto para os dois. Frio. Perigoso. — O que está acontecendo aqui? Steve se afastou imediatamente, como se nada tivesse acontecido. — Calma — disse, levantando as mãos. — Eu só estava conversando… ela que começou a se oferecer, tirando a toalha, se jogando pra cima de mim— — NÃO! — Lívia avançou um passo, desesperada. — Isso é mentira! Seus olhos estavam marejados. — Eu saí do banho e ele já estava aqui! Ele… ele falou coisas… tentou— Ela engoliu o choro. — Por favor… acredita em mim… O silêncio caiu no quarto. Pesado. Matteo ajustou o suspensório devagar. Respirou fundo. — Steve — disse, por fim. — Vamos conversar. O loiro sorriu de canto. Antes de sair, lançou uma piscadela para Lívia. Como se já soubesse o final daquilo. Como se fosse sair ileso. E talvez não fosse bem assim...--- Alguns minutos depois, a curiosidade venceu o medo. — Posso perguntar uma coisa? — Pode perguntar o que quiser. — Por que eu nunca soube de nada? Meu pai nunca falou sobre a família da minha mãe. Minha avó também não. Nunca ouvi o nome Vasconcelos na minha casa. Victor respirou fundo. A pergunta era inevitável, e ele sabia que chegara o momento de explicar pelo menos uma parte da história. — Pelo que conseguimos reunir até agora, acredito que seu pai e sua avó paterna realmente não soubessem de suas origens maternas. Sua mãe nunca contou a eles quem era sua família. E, se ela queria construir uma vida longe de nós, talvez tenha preferido deixar tudo para trás. — Mas por quê? Ela não gostava da família dela? Victor soltou o ar lentamente. — A história é um pouco mais complicada do que isso. Ele apoiou um braço no encosto do banco e começou a falar. — Minha mãe e meu pai sempre tiveram uma ideia muito específica sobre o futuro dos filhos. Queriam que nos casássemos com p
Lívia já havia lido o resultado do exame de DNA tantas vezes que começava a reconhecer cada palavra sem precisar olhar para o papel. Ainda assim, continuava segurando as duas folhas como se, a qualquer momento, elas pudessem mudar. Na primeira, estava a confirmação de que Victor Vasconcelos era seu tio materno. Na segunda, a confirmação de sua gravidez. Dois pedaços de papel. Duas verdades capazes de mudar completamente sua vida. Ela estava grávida de Matteo. E era descendente de uma das famílias mafiosas mais influentes da cidade, uma família que, por ironia do destino, era inimiga mortal do homem que ainda ocupava boa parte de seus pensamentos. Lívia fechou os olhos e encostou a cabeça na parede. Era informação demais para uma pessoa que, poucos dias antes, acreditava que seu maior problema seria encontrar um lugar seguro para dormir. Agora, além de fugir de Matteo, precisava descobrir como viver com uma gravidez inesperada e com uma família que, segundo Victor, a procurara
A porta se abriu novamente pouco depois do meio-dia. Valentina entrou carregando uma bandeja com um sanduíche, frutas cortadas e uma xícara de café. Estava impecável, como sempre, com os cabelos arrumados e uma expressão de preocupação cuidadosamente dosada. — Matteo, você precisa comer alguma coisa. Ele sequer levantou os olhos dos relatórios. — Obrigado. Deixe aí. Ela colocou a bandeja sobre a mesa e observou a quantidade de papéis espalhados, os mapas abertos e os telefones que não paravam de tocar. — Você não dormiu direito, dormiu? — Não o suficiente. — E comeu? — Valentina. O aviso foi seco. Ela suspirou, mas não pareceu ofendida. Conhecia o temperamento dele havia anos. Sabia que, quando Matteo se fechava daquela maneira, qualquer pergunta poderia ser interpretada como uma provocação. Em vez de insistir, contornou a cadeira e ficou atrás dele. — Você está tenso demais. Antes que ele pudesse responder, pousou as mãos sobre seus ombros. Os músculos dele estavam ríg
O relógio na parede marcava pouco depois das dez da manhã quando Matteo percebeu que já não fazia ideia de quantas xícaras de café havia tomado. Uma. Cinco. Dez. Não importava. O café esfriava sobre a mesa, os cigarros se acumulavam no cinzeiro e os relatórios espalhados pelo escritório continuavam sem receber mais do que alguns segundos de sua atenção. Havia mais de trinta e seis horas que seus homens procuravam por Lívia. Trinta e seis horas desde que abrira a porta daquele quarto e descobrira que a mulher que deveria estar trancada ali havia desaparecido como se nunca tivesse existido. Nenhum rastro. Nenhuma testemunha confiável. Nenhuma informação que não terminasse em um beco sem saída. As câmeras de segurança, que deveriam registrar cada movimento dentro da propriedade, haviam parado de funcionar justamente no período em que Lívia supostamente escapara. Não apenas as da ala residencial, mas também as que cobriam parte dos corredores e dos acessos secundários. A falha era
Ela piscou. Uma vez. Duas. A frase parecia ter sido pronunciada em outro idioma. — O quê? — Você está grávida. O exame confirmou. Lívia ficou olhando para ele, esperando que completasse a explicação com alguma ressalva, algum engano, qualquer coisa que tornasse aquelas palavras menos reais. Mas Victor permaneceu em silêncio. — Não... — murmurou ela. A mão foi involuntariamente até o próprio ventre. — Não, isso não pode estar certo. — O resultado é claro. Precisaremos fazer uma avaliação obstétrica para confirmar o tempo de gestação e verificar como você está, mas o teste deu positivo. Achei que talvez já tivesse conhecimento da gestação, pois o hormônio responsável pela gravidez está bem alto. — Eu não sabia... A voz dela se partiu. De repente, todas as coisas que já estavam desmoronando ganharam um peso insuportável. Estava fugindo de um homem que amava e temia ao mesmo tempo. Não tinha casa, dinheiro suficiente e nem segurança. Estava em um hospital pertencente à famí
--- O celular vibrou dentro da mochila. Lívia se virou depressa, puxou a bolsa para perto e retirou o aparelho que Maria lhe dera. Havia várias mensagens acumuladas. Maria: Lívia, por que você não está respondendo? Maria: Amiga, estou ficando preocupada. Maria: Me responde, por favor. Maria: Aconteceu alguma coisa? Lívia sentiu uma pontada de culpa. Maria arriscara tudo para ajudá-la a fugir, e ela não queria que a amiga imaginasse o pior. Digitou com os dedos ainda um pouco trêmulos. Lívia: Desculpa. Tive um contratempo. Encontrei o Vinícius no caminho, mas estou bem. A resposta veio quase imediatamente. Maria: COMO ASSIM?! Maria: ELE FEZ ALGUMA COISA COM VOCÊ? Lívia: Tentou me levar para um lugar horrível. Um homem apareceu e me defendeu. Depois eu passei mal e desmaiei. Ele me trouxe para um hospital. Maria: Que homem? Qual é o nome dele? Em que hospital você está? Você se machucou? Está sentindo alguma coisa? Lívia quase sorriu diante da avalanche de perguntas. Lív







