MasukO tempo parecia diferente ali dentro.
Lívia não sabia dizer quanto havia passado desde que a porta se fechou. Minutos? Horas? Seu corpo ainda estava tenso, como se a qualquer momento alguém fosse entrar gritando, mandando, machucando. Mas nada acontecia. O silêncio permanecia. Ela ainda estava no chão quando ouviu batidas leves na porta. Três toques suaves. Diferentes. — Posso entrar, querida? A voz era feminina. Calma. Gentil. Lívia demorou um segundo para responder. — S-sim… A porta se abriu devagar. Uma senhora entrou, carregando uma maleta e uma bandeja de primeiros socorros. Seus cabelos eram grisalhos, presos em um coque simples, e o rosto tinha marcas do tempo… mas também uma expressão acolhedora que Lívia não reconhecia. Não estava acostumada com aquilo. — Olá — a mulher sorriu de leve. — Meu nome é Teresa . Sou a governanta da casa.Lívia piscou, um pouco sem reação.
— Eu… sou Lívia. — Eu sei — Teresa respondeu, com delicadeza. — O senhor Matteo me pediu para cuidar de você. Aquilo a surpreendeu. Matteo. Ele tinha mandado alguém cuidar dela. Antes que pudesse pensar mais sobre isso, Dona Teresa já se aproximava, colocando a bandeja sobre a mesa. — Vamos começar pelo mais grave — disse, com um tom prático, mas ainda gentil. Seus olhos caíram na mão de Lívia. O caco de vidro ainda estava ali. Cravado. O sangue seco ao redor deixava a cena ainda mais dolorosa. — Vai arder um pouco, minha querida… — avisou. Lívia engoliu seco. Sentou-se devagar na cama, estendendo a mão com hesitação. Dona Teresa colocou luvas, pegou uma gaze, limpou o excesso de sangue com cuidado. Apesar da dor, havia algo… diferente. Ela não era brusca. Não era cruel. Era cuidadosa. Lívia observava cada movimento. — A senhora… já fez isso antes, né? — perguntou, com a voz baixa. Teresa sorriu de canto. — Algumas vezes. — A senhora fez enfermagem? — Não — ela negou suavemente. — Apenas virei uma espécie de quebra-galho. Lívia franziu levemente a testa. — Como assim? — O senhor Matteo… e os homens dele — ela disse, escolhendo as palavras — acabam se ferindo com frequência no trabalho. Então eu aprendi a cuidar. Lívia ficou em silêncio por um segundo. Pensando. — O trabalho deles é… cobrar dívidas? A pergunta saiu antes que ela pudesse se conter. Dona Teresa parou por um instante. Seus olhos subiram até os de Lívia. E, então… ela se calou. — Acho que não estou autorizada a falar muito sobre isso — disse, por fim. — Você deve descobrir em breve. “Em breve.” A palavra ecoou na mente de Lívia. Seu coração apertou. — Em breve? — ela repetiu. — Quanto tempo eu vou ficar aqui? Dona Teresa não respondeu. Continuou limpando o ferimento, como se não tivesse ouvido. O silêncio voltou. Pesado. Inquietante. Lívia respirou fundo. — Você não vai me perguntar como eu consegui esse ferimento? A pergunta saiu mais amarga do que ela pretendia. Teresa não respondeu de imediato. Apenas posicionou melhor a mão dela. E, sem aviso— Puxou o caco de vidro. Lívia gritou. A dor veio como uma explosão, atravessando seu corpo inteiro. Seus dedos se contraíram, suas pernas enrijeceram, e as lágrimas vieram instantaneamente. A porta se abriu de repente. Matteo apareceu. Rápido. Imponente. Seus olhos foram direto para Lívia. — O que aconteceu? Dona Teresa se virou com calma. — Está tudo bem, senhor — disse. — Só removi o vidro. Doeu um pouco, mas ela vai ficar bem. O olhar de Matteo permaneceu sobre Lívia por mais alguns segundos. Analisando. Avaliando. Ela ainda respirava com dificuldade, os olhos marejados, o corpo tenso. Mas assentiu levemente. Ele também assentiu. Sem dizer mais nada… Foi embora. A porta se fechou novamente. O silêncio voltou. Mas dessa vez… diferente. Mais pesado. Dona Teresa voltou a trabalhar no ferimento, agora aplicando um antisséptico. — Tente não fazer muitas perguntas — ela disse, em um sussurro. Lívia olhou para ela. — O quê? — Nesta casa… há coisas que só o senhor Matteo pode responder. E ele não gosta nem um pouco de curiosos. Lívia engoliu seco. Assentiu. Sua mente começou a girar. Ela foi dada como pagamento de uma dívida. Arrancada de tudo que conhecia. Jogada em um lugar que não entendia. Com pessoas que não conhecia. Mas, pela primeira vez… Alguém estava cuidando dela. De verdade. Dona Teresa terminou de enfaixar sua mão. Depois passou para os outros ferimentos — alguns mais leves, outros antigos demais para serem tratados de imediato. — Você está muito magrinha… — comentou, com um leve pesar na voz. — E, pelo seu aspecto… eu diria que está anêmica. Lívia não respondeu. Apenas desviou o olhar. — Vou trazer algo para você comer — Teresa disse, se levantando. — Seu corpo precisa de força. Ela caminhou até a porta, mas parou antes de sair. — Tome um banho, querida. Vai te fazer bem. Lívia olhou para si mesma. Para o sangue. Para a sujeira. — Em breve, vão trazer roupas para você — completou. E então saiu. Sozinha novamente. Lívia olhou ao redor. Tudo ainda parecia estranho. Irreal. Mas, ao levantar devagar e caminhar até o banheiro… Ela percebeu algo. Pela primeira vez em muito tempo… Ela não estava sendo machucada. Apenas… cuidada. Mas isso não significava que estava segura. Porque, no fundo… Ela sabia. As feridas do corpo podiam até cicatrizar. Mas as de dentro… Essas levavam muito mais tempo. Ou talvez… Nunca cicatrizassem.--- Alguns minutos depois, a curiosidade venceu o medo. — Posso perguntar uma coisa? — Pode perguntar o que quiser. — Por que eu nunca soube de nada? Meu pai nunca falou sobre a família da minha mãe. Minha avó também não. Nunca ouvi o nome Vasconcelos na minha casa. Victor respirou fundo. A pergunta era inevitável, e ele sabia que chegara o momento de explicar pelo menos uma parte da história. — Pelo que conseguimos reunir até agora, acredito que seu pai e sua avó paterna realmente não soubessem de suas origens maternas. Sua mãe nunca contou a eles quem era sua família. E, se ela queria construir uma vida longe de nós, talvez tenha preferido deixar tudo para trás. — Mas por quê? Ela não gostava da família dela? Victor soltou o ar lentamente. — A história é um pouco mais complicada do que isso. Ele apoiou um braço no encosto do banco e começou a falar. — Minha mãe e meu pai sempre tiveram uma ideia muito específica sobre o futuro dos filhos. Queriam que nos casássemos com p
Lívia já havia lido o resultado do exame de DNA tantas vezes que começava a reconhecer cada palavra sem precisar olhar para o papel. Ainda assim, continuava segurando as duas folhas como se, a qualquer momento, elas pudessem mudar. Na primeira, estava a confirmação de que Victor Vasconcelos era seu tio materno. Na segunda, a confirmação de sua gravidez. Dois pedaços de papel. Duas verdades capazes de mudar completamente sua vida. Ela estava grávida de Matteo. E era descendente de uma das famílias mafiosas mais influentes da cidade, uma família que, por ironia do destino, era inimiga mortal do homem que ainda ocupava boa parte de seus pensamentos. Lívia fechou os olhos e encostou a cabeça na parede. Era informação demais para uma pessoa que, poucos dias antes, acreditava que seu maior problema seria encontrar um lugar seguro para dormir. Agora, além de fugir de Matteo, precisava descobrir como viver com uma gravidez inesperada e com uma família que, segundo Victor, a procurara
A porta se abriu novamente pouco depois do meio-dia. Valentina entrou carregando uma bandeja com um sanduíche, frutas cortadas e uma xícara de café. Estava impecável, como sempre, com os cabelos arrumados e uma expressão de preocupação cuidadosamente dosada. — Matteo, você precisa comer alguma coisa. Ele sequer levantou os olhos dos relatórios. — Obrigado. Deixe aí. Ela colocou a bandeja sobre a mesa e observou a quantidade de papéis espalhados, os mapas abertos e os telefones que não paravam de tocar. — Você não dormiu direito, dormiu? — Não o suficiente. — E comeu? — Valentina. O aviso foi seco. Ela suspirou, mas não pareceu ofendida. Conhecia o temperamento dele havia anos. Sabia que, quando Matteo se fechava daquela maneira, qualquer pergunta poderia ser interpretada como uma provocação. Em vez de insistir, contornou a cadeira e ficou atrás dele. — Você está tenso demais. Antes que ele pudesse responder, pousou as mãos sobre seus ombros. Os músculos dele estavam ríg
O relógio na parede marcava pouco depois das dez da manhã quando Matteo percebeu que já não fazia ideia de quantas xícaras de café havia tomado. Uma. Cinco. Dez. Não importava. O café esfriava sobre a mesa, os cigarros se acumulavam no cinzeiro e os relatórios espalhados pelo escritório continuavam sem receber mais do que alguns segundos de sua atenção. Havia mais de trinta e seis horas que seus homens procuravam por Lívia. Trinta e seis horas desde que abrira a porta daquele quarto e descobrira que a mulher que deveria estar trancada ali havia desaparecido como se nunca tivesse existido. Nenhum rastro. Nenhuma testemunha confiável. Nenhuma informação que não terminasse em um beco sem saída. As câmeras de segurança, que deveriam registrar cada movimento dentro da propriedade, haviam parado de funcionar justamente no período em que Lívia supostamente escapara. Não apenas as da ala residencial, mas também as que cobriam parte dos corredores e dos acessos secundários. A falha era
Ela piscou. Uma vez. Duas. A frase parecia ter sido pronunciada em outro idioma. — O quê? — Você está grávida. O exame confirmou. Lívia ficou olhando para ele, esperando que completasse a explicação com alguma ressalva, algum engano, qualquer coisa que tornasse aquelas palavras menos reais. Mas Victor permaneceu em silêncio. — Não... — murmurou ela. A mão foi involuntariamente até o próprio ventre. — Não, isso não pode estar certo. — O resultado é claro. Precisaremos fazer uma avaliação obstétrica para confirmar o tempo de gestação e verificar como você está, mas o teste deu positivo. Achei que talvez já tivesse conhecimento da gestação, pois o hormônio responsável pela gravidez está bem alto. — Eu não sabia... A voz dela se partiu. De repente, todas as coisas que já estavam desmoronando ganharam um peso insuportável. Estava fugindo de um homem que amava e temia ao mesmo tempo. Não tinha casa, dinheiro suficiente e nem segurança. Estava em um hospital pertencente à famí
--- O celular vibrou dentro da mochila. Lívia se virou depressa, puxou a bolsa para perto e retirou o aparelho que Maria lhe dera. Havia várias mensagens acumuladas. Maria: Lívia, por que você não está respondendo? Maria: Amiga, estou ficando preocupada. Maria: Me responde, por favor. Maria: Aconteceu alguma coisa? Lívia sentiu uma pontada de culpa. Maria arriscara tudo para ajudá-la a fugir, e ela não queria que a amiga imaginasse o pior. Digitou com os dedos ainda um pouco trêmulos. Lívia: Desculpa. Tive um contratempo. Encontrei o Vinícius no caminho, mas estou bem. A resposta veio quase imediatamente. Maria: COMO ASSIM?! Maria: ELE FEZ ALGUMA COISA COM VOCÊ? Lívia: Tentou me levar para um lugar horrível. Um homem apareceu e me defendeu. Depois eu passei mal e desmaiei. Ele me trouxe para um hospital. Maria: Que homem? Qual é o nome dele? Em que hospital você está? Você se machucou? Está sentindo alguma coisa? Lívia quase sorriu diante da avalanche de perguntas. Lív







