INICIAR SESIÓNApolo entrou no salão, a luz fraca da tarde destacando o brilho frio da máscara de ferro. Ele inspecionou o trabalho, o olhar de desprezo fixo em Natali.
-- O que você estava fazendo perto da janela? ele perguntou, a voz baixa e ameaçadora. -- Achei que tivesse dado ordens para limpar, não para ficar olhando para o céu. -- Eu... eu estava tentando abrir a janela para arejar o salão, Senhor, ela gaguejou, o cheiro de mofo e o medo se misturando em sua boca. Apolo se aproximou, o hálito de tabaco atingindo seu rosto. -- Você não está aqui para pensar, garota. Está aqui para obedecer. A luz é desnecessária. A escuridão combina melhor com este lugar e com a minha memória. Ele virou-se para sair, mas parou. -- Amanhã, você vai começar a limpar o jardim da frente. É um labirinto de ervas daninhas. Quero que ele seja arrancado até o chão. Nenhum vestígio de vida. -- Mas, Senhor, Natali ousou protestar, a imagem das rosas brancas do diário piscando em sua mente. -- Os jardineiros podem fazer isso. Tenho medo que possa destruir as flores. -- Os jardineiros plantam. Você destrói. Não quero nenhuma flor naquele jardim. É o seu trabalho agora, ele respondeu, sem emoção. -- E se eu encontrar um único broto, você vai se arrepender de ter nascido. Ele saiu, a porta batendo com um estrondo que ecoou pelo salão. Natali desabou no chão, a força a deixando. Ela não era mais apenas uma vítima. Ela era o objeto de uma vingança complexa, que ia muito além da dívida de seu pai. Ela era o instrumento da dor de Apolo, a sombra que ele usaria para apagar a luz que um dia existiu. Mas, em suas mãos, o diário sob o lençol era uma arma. Ela tinha uma parte da história dele. E talvez, apenas talvez, se ela conseguisse entender o monstro, ela encontraria uma maneira de sobreviver. No entanto, a ordem de destruir o jardim era um soco no estômago. O jardim que a noiva de Apolo queria, as rosas brancas... Era um ato de autodestruição, um desejo de enterrar a última esperança de felicidade. Natali não destruiria o jardim. Ela não seria o que Apolo queria que ela fosse: uma destrutora de esperanças. Ela seria a sombra que, discretamente, tentaria encontrar a luz. Ela levantou-se, limpou as lágrimas, e voltou ao trabalho. O Salão de Baile não podia esperar. Apolo a queria na escuridão, mas Natali estava determinada a levar um pouco de luz para o único lugar onde a memória de um amor perdido ainda residia. E ela se perguntou, enquanto esfregava o mármore frio: O que aconteceria se Apolo soubesse que ela não estava destruindo, mas sim, tentando salvar a memória que ele tanto prezava? Seria essa a sua libertação, ou a sua ruína final? O Salão de Baile era um fardo colossal de luto e poeira, mas Natali o enfrentou com uma determinação fria. Ela passou o resto do dia ali, movendo-se como um fantasma entre os lençóis brancos que cobriam as mobílias. O silêncio da casa era interrompido apenas pelo clique-clique da água sendo espremida do pano ou pelo raspar de suas solas no mármore. O trabalho era brutal. Seus braços doíam e suas costas protestavam a cada movimento de esfregar. Ela limpou os painéis de madeira, removeu as teias de aranha dos lustres pendentes e poliu o chão até que o reflexo da estátua de dançarina – o monumento de Apolo ao seu amor perdido – brilhasse palidamente. O diário estava seguro, escondido sob o lençol da banqueta. Ele era um calor secreto contra o frio opressor daquela casa. Enquanto trabalhava, ela pensava na noiva de Apolo e em como a beleza e a esperança tinham sido tragicamente ceifadas. A máscara de ferro, o desprezo, a crueldade... eram todas as manifestações de uma dor que Natali agora podia nomear. Não a justificava, mas a tornava compreensível. Apolo a estava punindo pela traição do pai, mas, no fundo, ele estava se punindo por não ter podido salvar a única pessoa que o amava. Quando Lucinha veio chamá-la para o jantar, já era tarde da noite. A governanta olhou para o salão transformado, seus olhos mostrando um misto de surpresa e preocupação. -- Você fez um trabalho milagroso, minha querida. O Salão de Baile não via luz há anos. Natali assentiu, exausta. Ela mal podia sentir os dedos. -- O Sr. Apolo viu? Lucinha balançou a cabeça. -- Não. Ele se tranca no escritório onde trabalha. Só vai a empresa somente duas vezes por semana.. Agora.. Venha, você precisa descansar. Amanhã será um dia difícil. Na manhã seguinte, o sol parecia mais cruel ao cair sobre o jardim frontal. Era, de fato, um labirinto, mas não de ervas daninhas. Sob a desordem, Natali podia distinguir o contorno de um projeto antigo: canteiros de rosas que lutavam para sobreviver, arbustos de jasmim que tentavam se agarrar às paredes, e até mesmo um pequeno arco de ferro que devia ter sustentado trepadeiras floridas. Era uma selva, mas uma selva que um dia abrigou o sonho de um jardim. A ordem de Apolo, repetida pelo segurança de rosto duro, era clara: arrancar tudo. Natali apanhou as ferramentas que lhe haviam sido dadas: um ancinho, uma pá, e um par de luvas de jardinagem velhas. Ela começou a trabalhar perto da entrada, mas em vez de arrancar as raízes, ela começou a podar e a limpar. Se Apolo quisesse a destruição total, ele a teria feito com um trator. Ele a havia enviado, a “destrutora de esperanças”, para fazer o trabalho à mão. Mas Natali não faria isso. Com as mãos firmes, ela removeu os galhos secos e mortos, deu forma aos arbustos de jasmim e, mais importante, desenterrou cuidadosamente as mudas de rosas que haviam caído sob as ervas daninhas. Ela não estava plantando, nem estava colhendo. Ela estava salvando. Ela estava seguindo a voz suave no diário de veludo vermelho: ele sonha com um jardim, rosas brancas, diz que elas são a antítese do ferro frio que ele usa. Ela se moveu metodicamente pelo jardim, o sol batendo forte em suas costas. Horas se passaram. O suor escorria em sua testa, sujando-a de terra, mas ela sentia uma satisfação estranha e secreta. O jardim começou a respirar. Os arbustos podados revelaram sua estrutura, e as rosas, embora ainda não florescidas, pareciam mais fortes. Natali trabalhou com a urgência de quem está em uma missão secreta, sabendo que a qualquer momento sua rebeldia silenciosa poderia ser descoberta. E foi. Um silêncio repentino pairou sobre o jardim. O barulho distante do tráfego parecia cessar. Natali sentiu o ar ficar frio, mesmo sob o sol. Ela não precisou se virar para saber quem estava ali. O cheiro de carvalho e tabaco, agora mesclado ao perfume da terra molhada, a alcançou. Ela continuou podando um arbusto de rosas particularmente resiliente, fingindo não ter notado a presença. -- O que você está fazendo? A voz de Apolo não era um grito, era um som baixo e perigoso, como o ranger de uma corrente de ferro. Natali largou a tesoura de poda no chão, virando-se lentamente. Apolo estava parado no topo da escada de mármore da entrada, imponente e escuro. A máscara de ferro parecia absorver toda a luz do dia, e seus olhos de obsidiana estavam fixos nela, ardendo com uma fúria que Natali já conhecia. -- Estou limpando o jardim, Senhor, ela respondeu, a voz surpreendentemente firme. Ele desceu os degraus lentamente, a cada passo se tornando mais ameaçador. Ele parou a poucos metros dela e olhou para o jardim. -- Eu ordenei que você destruísse. Que arrancasse cada vestígio de vida. E o que você fez? Você está podando. Você está cuidando desta desgraça. Ele chutou um pedaço de galho podado com o pé. Natali sabia que tinha que ser sincera, mas com um toque de inocência. -- As ervas daninhas já foram retiradas, Senhor. E estas não são ervas daninhas. São rosas e jasmins. -- E daí? Eu quero o jardim nu. Uma extensão de terra morta. Para que as lembranças não tenham onde se agarrar. Você me desobedeceu. A raiva dele era quase palpável, mais destrutiva do que qualquer tesoura de poda. Ele se aproximou ainda mais, Natali sentiu que ele iria levantar a voz, mas ele não o fez. -- O que a faz pensar que pode desafiar uma ordem minha? Você é minha propriedade. O que te deu o direito de tomar uma decisão, Natali? Natali olhou para ele, respirando fundo, o cheiro de terra e suor em seu corpo. Ela não podia mencionar o diário. -- Os arbustos estavam apenas doentes, Senhor. Não mortos. Se eu os tivesse arrancado, a terra seria apenas um buraco vazio, um atestado de destruição. O jardim está limpo agora, não está? Eu apenas economizei seu dinheiro com o replantio. E... e era um desperdício. Apolo soltou uma risada curta e sem humor, um som seco. Ele estava furioso, mas havia algo mais em seus olhos, um relance de algo que Natali não conseguia decifrar. -- Desperdício? O que você sabe sobre valor, Natali? Você, que é a mercadoria mais inútil que já tive em mãos? Ele gesticulou para as rosas podadas. -- Não me interessa a vida. Me interessa a obediência. E você falhou. Falhou em ser a sombra que eu pedi, falhou em ser a destruidora que eu ordenei. Ele estava a centímetros dela agora, a máscara de ferro refletindo o sol. -- Sua punição será proporcional à sua insolência. Não quero você na cozinha. Não quero você na sala de estar. Você vai ficar aqui, neste jardim, dia e noite, até que ele esteja como eu o quero: sem vida. E se eu encontrar uma única rosa branca florescida, você vai pagar. Ele virou-se abruptamente, subindo os degraus da escadaria. Apolo parou no topo, virando a cabeça o suficiente para que sua voz ecoasse, fria e final: -- Você terá o que seu pai tentou lhe tirar: a solidão. A partir de hoje, você dormirá neste jardim. Natali ficou parada, sentindo o peso da condenação. Dormir no jardim. Sob as estrelas frias, ao lado das rosas que ela tinha acabado de salvar. Era uma punição severa, mas estranhamente, não a mais temida. Ela se ajoelhou, o corpo exausto, e olhou para as plantas. Em vez de terra morta, havia vida. Ela a havia salvado. .Leonel tirou o pé da porta, mas não se moveu. Sua voz era baixa e firme, quase um pacto.— Ele não está aqui. E mesmo que estivesse, eu não permitiria outra cena como a de hoje. Eu sou Leonel Dias. Ele pode ser um monstro, mas tem medo de que o mundo, e especialmente eu, veja a extensão da sua monstruosidade. Você precisa comer. São ordens médicas, e você precisa de forças para o que ele a mandou fazer no jardim.Ravid, que estava quieto ao lado do pai, deu um passo à frente, seus grandes olhos fixos nela.— Natali, o tio Apolo se foi. Vem. Por favor. Eu prometo que vou sentar ao seu lado e te dou um pedacinho da minha comida. O abraço mágico só funciona se você ficar forte.A inocência de Ravid atingiu Natali como um golpe suave. A fome era uma dor incômoda, o frio da humilhação, uma agonia maior, mas a ternura do menino era uma necessidade da alma. Ela pensou nas ordens de Apolo: Mas para cumprir essa sentença de vida, ela precisava viver. Precisava de força.Ela olhou para o chão,
No outro lado da cidade, Afonso Maia parecia não acreditar no que estava acontecendo.-- O quê? Como meus negócios estão arruinados? Como minha pequena fábrica de doces está coberta de insetos?-- Papai, eu tenho certeza que isso tem a ver com Apolo Dias. Ele está revoltado com o que fizemos com ele. Até meus salões de beleza, foram cobertos de insetos, sem falar dos produtos de alto custo que foram trocados por produtos de qualidade inferior.Gotas de suor desciam sobre a testa careca de Afonso.-- Você tem razão, filha. Nós subestimemos Apolo Dias. Melina, precisa acalmá-lo. Ele está assim porque com certeza está louco por você. Passe uma noite com ele, apenas uma noite filha e ele vai se acalmar.Melina bateu os sapatos no piso desbotado da fábrica de doces com indignação.-- Não posso fazer isso. Tenho nojo daquele homem. Não consigo dormir com ele, pai. Por favor, não me peça isso.Afonso se aproximou de Melina, a carranca enfurecida.-- Eu sempre fiz de tudo por você, Melina. Es
O quarto foi devidamente arrumado. Leonel levou o filho e deu-lhe um banho e o colocou para dormir. Ravid estava com sono e cansado, adormeceu profundamente em cima da cama segurando o braço do pai.Leonel, como um pai cuidadoso, deixou vários travesseiros ao redor da cama para a segurança da criança. Logo depois, deixou o quarto e procurou Lucinha para conversar. Ele precisava de respostas e Lucinha com certeza, as tinha.-- Podemos conversar, Lucinha? -- Ele disse tentando ser discreto com a presença de outra empregada na cozinha.-- Sim, meu filho. Vamos até o jardim. . Eles deixam a cozinha em direção ao jardim que estava florescendo a cada dia.-- Estou surpreso. Esse jardim não tinha vida. Não dava para diferenciar as flores com os arbustos no chão.Leonel ficou admirado.-- É uma longa história, Sr Leonel.Lucinha contou a Leonel tudo que se tinha acontecido entre Natali e Apolo. Ele ficou horrorizado e cheio de ódio do irmão por tamanha crueldade.-- Como Apolo pode fazer uma
A voz de Apolo era um rugido baixo, mas que fez todos na cozinha congelarem.— O que está acontecendo aqui? — Apolo repetiu, a voz perigosa e fria, fazendo o menino Ravid se encolher no abraço de Natali. — Ravid! Afaste-se dessa mulher! Agora!O menino se assustou e soltou Natali, correndo para as pernas de seu pai, Leonel. Natali ergueu os olhos apenas para ver a fúria indisfarçável nos olhos de obsidiana de Apolo. Aquele olhar de desprezo e condenação era familiar, mas naquele instante, era carregado de uma violência inominável.Apolo deu um passo à frente, sua presença dominadora e ameaçadora preenchendo o espaço da cozinha. Ele não olhou para Leonel, apenas para Natali.— Para o seu quarto, Natali. Agora! E não se atreva a sair de lá até eu mandar!O tom era de ordem, de chicote estalando no ar. O calor do abraço de Ravid se dissipou imediatamente, substituído por um frio de gelar a alma. Natali, humilhada e subjugada, apenas abaixou a cabeça. Ela não ousou responder ou pedir expl
No dia seguinte, pela manhã, o grande portão de ferro da mansão de Apolo se abriu lentamente. Uma figura inesperada adentrou dirigindo um carro. No banco de trás estava o pequeno Ravid de seis anos de idade com seu olhar curioso a observar o ambiente.-- Papai, que casa grande -- comentou a criança com olhos arregalados de surpresa. -- É aqui que o meu tio mascarado mora mesmo?O homem de vinte e oito anos sorriu parando o veículo em frente a porta da mansão.-- Sim, filho. Você ainda não conhece o tio Apolo, mas hoje irá conhecer..A porta da casa se abriu, a maçaneta girando rapidamente. -- Bom dia, Sr. Leonel. O patrão está no escritório, ocupado com alguns assuntos da empresa. Mas disse que podia entrar e aguardar na sala.Lucinha havia sido enviada por Apolo. Na verdade, Leonel havia avisado trinta minutos antes que estava vindo fazer uma visita ao irmão. E é claro que isso deixou Apolo furioso.-- Pelo jeito as coisas não mudaram por aqui, Lucinha. Meu irmão ainda é o arrog
Quando Natali acordou não se lembrava de ter sido tirada do jardim. O frio e o esgotamento a haviam mergulhado em um torpor além do desmaio. Ela sentiu apenas o choque de uma nova superfície, menos hostil que a lama. Quando a consciência retornou, ela estava em uma banheira, a água morna e medicada, e mãos gentis a limpavam da sujeira da noite. Eram as mãos de Lucinha, cujos olhos estavam cheios de lágrimas silenciosas. — Natali, minha menina. Pensei que ele a tinha... — a governanta não terminou a frase, balançando a cabeça. — Mas o patrão ordenou que te levasse ao segundo andar. O banho, a limpeza, a sensação de roupas secas e macias — uma camisola de algodão limpa — eram gentilezas que Natali não esperava. O quarto para onde a levaram era vasto e banhado em luz matinal. As paredes, de um tom suave de creme, contrastavam com a mobília de cerejeira escura. Não era um calabouço. Era um quarto de hóspedes, com um tapete macio e uma cama que parecia engolir a luz. No entanto, Natali







