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Epílogo. A beleza da fera

Autor: mahribbs
last update Fecha de publicación: 2026-09-28 05:07:13

O quarto deles ficava entre os dois corredores.

Nem nos aposentos antigos de Gabriel, onde a solidão havia aprendido a dormir ao lado da máscara, nem no quarto de Clara, preparado para uma esposa que chegara a Monteluz sem saber se a porta seria proteção ou cárcere. Era um quarto diferente, aberto havia pouco tempo, antes reservado a visitas importantes que nunca vinham e a móveis cobertos por lençóis brancos.

Dona Beatriz coordenara a mudança com uma solenidade quase religiosa.
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  • Vendida à Fera de Monteluz   Epílogo. A beleza da fera

    O quarto deles ficava entre os dois corredores.Nem nos aposentos antigos de Gabriel, onde a solidão havia aprendido a dormir ao lado da máscara, nem no quarto de Clara, preparado para uma esposa que chegara a Monteluz sem saber se a porta seria proteção ou cárcere. Era um quarto diferente, aberto havia pouco tempo, antes reservado a visitas importantes que nunca vinham e a móveis cobertos por lençóis brancos.Dona Beatriz coordenara a mudança com uma solenidade quase religiosa.Dissera que não era adequado que marido e esposa vivessem atravessando corredores como conspiradores, agora que toda a província já sabia que o casamento deles era, para horror geral, real. Inês chorara ao dobrar os vestidos de Clara. Gabriel carregara alguns livros sozinho, sem máscara, e passara tempo demais decidindo onde colocar a poltrona junto à janela. Clara o acusara de transformar uma escolha doméstica em questão de Estado. Ele respondera que a posição de uma poltrona determinava a qu

  • Vendida à Fera de Monteluz   50. O jardim restaurado

    Monteluz começou a respirar devagar.Não de uma vez. Casas antigas não abandonam seus fantasmas com facilidade, e Monteluz carregava mais mortos do que retratos. Mas havia mudanças pequenas, persistentes, como ar entrando por frestas que antes permaneciam fechadas.As janelas da ala leste passaram a ser abertas pela manhã.O salão principal, antes condenado ao silêncio, já não parecia um mausoléu depois do baile. Dona Beatriz ordenou que as flores murchas fossem retiradas, que os lustres permanecessem limpos e que os móveis não voltassem a ser cobertos. Quando Inês perguntou, com cautela, se isso significava que outros eventos poderiam acontecer um dia, a governanta respondeu que não havia necessidade de transformar uma exceção histórica em carnaval.Mas não mandou cobrir os móveis.Isso, em Monteluz, era quase uma declaração de esperança.Silas Freire fora preso em uma das propriedades usadas para esconder documentos, ou talvez apenas detido até decidi

  • Vendida à Fera de Monteluz   49. A queda de Teodoro

    A expulsão de Teodoro não terminou quando as portas de Monteluz se fecharam atrás dele.Essa foi a primeira coisa que Clara entendeu.O baile continuou por algum tempo, porque a sociedade tinha o talento perverso de reorganizar a própria curiosidade em aparência de civilidade. A música voltou, as taças foram erguidas, os convidados fingiram conversar sobre flores, restauração, clima, cavalos e política local, enquanto o escândalo recém-dito circulava entre eles como vinho derramado por baixo da mesa.Mas nada estava igual.Quando o último convidado partiu, já perto da madrugada, Monteluz ficou em um silêncio diferente.Não o silêncio antigo, de casa morta. Um silêncio depois da batalha.Dona Beatriz aguardava no salão menor.Clara percebeu, pelo rosto dela, que a noite ainda não acabara.Gabriel também.Ele estava sem máscara. Permanecera assim até o último convidado deixar a propriedade. Agora, diante apenas de Clara, Beatriz e Estevão,

  • Vendida à Fera de Monteluz   48. Sem máscara

    O salão de Monteluz silenciou antes mesmo que Gabriel chegasse ao último degrau.Não de uma vez.Primeiro houve uma falha na música, pequena o bastante para que os violinistas tentassem corrigi-la no compasso seguinte. Depois, uma senhora deixou a taça suspensa a meio caminho da boca. Um homem, que ria perto da mesa de bebidas, interrompeu a própria frase sem perceber. Os leques pararam. Os olhos subiram. As conversas morreram em pequenos cortes, como velas apagadas uma a uma.Clara sentiu tudo isso pelo braço de Gabriel.Não precisou olhar para ele para saber que sentira também.O corpo dele estava rígido ao seu lado, não por hesitação, mas por uma disciplina quase brutal. Cada passo até o salão parecia exigir que Gabriel atravessasse, mais uma vez, o corredor em chamas de sua própria memória. Mas ele não parou. Não levou a mão ao rosto. Não procurou a máscara ausente. Apenas desceu com Clara, o rosto marcado exposto à luz dos lustres, às flores, aos convid

  • Vendida à Fera de Monteluz   47. O toque que acalma

    Gabriel a olhou por um longo momento.Pela primeira vez, Clara teve a impressão de que ele pensava na aparência dela e não na dele.Não havia máscara entre os dois. Não havia salão ainda. Não havia convidados, sussurros, Teodoro, escândalo ou verdade pública esperando do outro lado da porta. Por alguns instantes, existia apenas o quarto de Gabriel, a luz baixa das velas, o vestido verde que Clara escolhera para não parecer inocente nem arrependida, e o olhar do marido descendo por ela com uma intensidade que a fez esquecer a própria coragem.Os olhos escuros dele correram de seus cabelos ao colo, ao desenho do vestido, à cintura, à curva das mãos pousadas diante do corpo. Clara viu de maneira óbvia demais como a respiração dele mudou. Como o medo que o atravessava desde que colocara a máscara na gaveta pareceu, por um instante, transformar-se em algo mais visceral.Mais quente.Mais perigoso.Não perigoso para ela.Nunca para ela.Mas perigoso

  • Vendida à Fera de Monteluz   46. A escolha de Clara

    Clara contou tudo no gabinete.Não no quarto, onde a verdade poderia se confundir com confissão íntima demais. Não no jardim, onde a luz aberta tornaria sua vergonha mais exposta do que sua coragem. Escolheu o gabinete porque fora ali que tantos papéis haviam decidido vidas antes. Dívidas, contratos, arrendamentos, cláusulas, nomes assinados por mãos desesperadas.Era justo que a verdade entrasse naquele cômodo de frente.Gabriel estava sem máscara quando ela entrou.Isso quase a fez desistir.Não por medo dele, mas pelo rosto descoberto. Pela confiança que havia ali, ainda recente, ainda frágil, ainda grande demais para o peso do que ela trazia nas mãos. A carta de Silas. A lista de Joaquim. O papel encontrado no muro, com a marca da casa de jogos e as iniciais de Teodoro. Tudo dobrado com cuidado, como se a ordem pudesse diminuir a violência do conteúdo.Gabriel ergueu os olhos dos documentos.Viu os papéis.Depois viu Clara.A expressã

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