Masuk
POV JADE:
Hoje completam seis anos da morte da minha mãe.
O número ecoa na minha cabeça como algo pesado... impossível de ignorar. Seis anos. Tempo suficiente para que muita gente siga em frente. Tempo suficiente para que o mundo esqueça.
Mas não eu.
Nunca eu.
O cemitério está silencioso demais para uma terça-feira. Ou talvez seja só a forma como o frio parece engolir os sons ao redor. O céu está encoberto, cinza, e o vento de início de maio corta meu rosto como um aviso: o inverno está chegando.
Eu aperto o cachecol ao redor do pescoço, mais por hábito do que por necessidade, e caminho entre as lápides até encontrá-la. Sempre encontro. Como se alguma parte de mim soubesse exatamente onde ela está, mesmo de olhos fechados.
Paro diante da pedra simples, já um pouco desgastada pelo tempo. Passo os dedos sobre o nome dela, limpando uma poeira invisível, como se isso pudesse fazer alguma diferença.
Engulo seco.
Ainda dói.
Ajoelho devagar, apoiando o buquê de rosas brancas sobre a lápide. As preferidas dela. Sempre foram.
– Oi, mãe...
Minha voz sai mais baixa do que eu esperava. Quase um sussurro. Como se falar alto aqui fosse errado. Como se alguém pudesse ouvir.
Respiro fundo, tentando organizar os pensamentos que nunca parecem se organizar de verdade quando estou aqui.
– Sinto muito...
As palavras escapam antes que eu consiga segurá-las.
– Sinto muito pelo que aconteceu. Eu... – paro, pressionando os lábios. – Eu sei que não foi assim que a senhora queria que as coisas terminassem.
O vento sopra mais forte, bagunçando meus cabelos. Fecho os olhos por um segundo. Ainda consigo lembrar da voz dela. Do jeito que me chamava. Do jeito que sorria.
– Eu não consegui sair de lá ainda – confesso, mais baixo. – Eu sei que prometi... sei que a senhora queria que eu fosse embora, que eu tivesse uma vida melhor... mas...
Minha garganta aperta.
– Eu estou tentando.
Minhas mãos se fecham no tecido do meu casaco.
– Eu juro que estou tentando.
Abro os olhos novamente, encarando o nome gravado na pedra.
– Nunca o deixei encostar em mim.
Dessa vez, minha voz é firme. Quase desafiadora.
– Nem uma vez.
O vento leva minhas palavras, mas eu continuo.
– Eu estudo, mãe. Faço faculdade de moda. Estou quase terminando... só mais seis meses. Eu também vendo algumas peças... não é muito, mas ajuda.
Uma pausa.
– Eu vou conseguir sair de lá.
Digo isso como se fosse uma promessa. Como se repetir muitas vezes pudesse transformar em verdade.
– E quando eu sair... – respiro fundo – eu vou embora dessa cidade. Para bem longe. Para um lugar onde ele nunca me encontre.
O silêncio pesa.
– Talvez eu não volte mais aqui...
A confissão dói mais do que eu esperava.
– Mas eu prometo que não vou te esquecer. Nunca. Eu vou... – minha voz falha por um instante – eu vou até a praia todos os anos. Uma praia bonita. E vou jogar uma rosa branca no mar.
Engulo em seco.
– Eu sei que esse era o seu sonho.
O vento sopra novamente, mais suave agora, como um carinho que não existe.
Me levanto devagar, ajeitando o cachecol.
– Eu te amo.
Minhas mãos tremem levemente.
– Promete que não esquece de mim?
Fecho os olhos por um segundo.
– Porque eu nunca vou esquecer de você.
O dia passa e a noite cai rápido demais.
Quando volto para casa, o mundo já parece diferente – mais escuro, mais pesado. Sempre é assim.
São onze horas quando me deito.
Meu quarto é pequeno, apertado, mas é o único lugar onde consigo respirar. Ou pelo menos fingir que consigo.
A porta está trancada.
Sempre está.
A cômoda está empurrada contra ela.
Sempre está.
Eu conto mentalmente a distância entre a cama e a janela, entre a janela e a porta. Rotas de fuga que nunca usei, mas que preciso saber.
Sempre conto.
Fecho os olhos, mas não durmo.
Eu nunca durmo de verdade.
Então eu ouço.
O barulho da chave girando na fechadura da porta da frente.
Meu corpo inteiro enrijece antes mesmo do som terminar.
Passos. Pesados. Arrastados. Lentos.
O cheiro vem antes dele – álcool, suor, algo podre que parece impregnado na pele.
Sérgio.
Minha respiração fica rasa.
Os passos se aproximam.
Cada som ecoa dentro do meu peito como uma contagem regressiva.
Até que param.
Bem diante da minha porta.
Um segundo de silêncio.
Dois.
Então...
– Abre essa porta, vadia!
O grito explode no corredor, fazendo meu corpo inteiro se contrair.
Eu não respondo de imediato.
Aprendi que silêncio, às vezes, é melhor.
– Onde está meu dinheiro?
Minha garganta está seca.
– Está em cima da mesa... na cozinha – respondo, controlando a voz.
Silêncio.
Por um momento, penso que ele vai embora.
Mas eu sei melhor.
– Você sabe o que eu quero, Jade.
Meu estômago revira.
– Você está bêbado – digo, mais firme do que me sinto. – Só pega o dinheiro e me deixa em paz.
O primeiro soco na porta vem forte.
Depois outro.
E outro.
A madeira treme sob o impacto.
Eu fecho os olhos com força, contando mentalmente.
Um.
Dois.
Três.
Os chutes vêm logo depois, violentos, desordenados. A cômoda range, mas segura.
Sempre segura.
Eu não me movo. Não faço som. Nem respiro direito. Porque eu sei, se ele perceber medo, ele insiste. Se ele cansar, ele vai embora.
É sempre assim.
Sempre.
Lembro-me perfeitamente, uma semana depois da morte da minha mãe.
É impossível não lembrar.
O cheiro de álcool.
A voz arrastada.
– Essa casa é minha.
Eu parada no meio da sala, sem saber para onde ir.
– Você vai começar a pagar por ficar aqui.
O jeito que ele disse aquilo.
Calmo demais.
Errado demais.
O toque no meu rosto.
Gelado.
Nojento.
– Todos os dias... e todas as noites.
O mundo girou.
Meu corpo reagiu antes da minha mente.
Eu corri.
Corri sem olhar para trás. Sem saber para onde ir. Só precisava sair. Só precisava respirar.
– Se contar pra alguém, eu te mato!
A voz dele ecoava atrás de mim.
Mas eu não parei.
Eu só parei quando esbarrei em alguém.
Uma mulher. Olhos atentos. Expressão firme.
– Ei, calma! O que aconteceu?
Danielle.
Dani.
Eu não contei tudo naquele dia.
Mas contei o suficiente.
E ela ficou.
Ela não virou as costas.
Não disse que era problema meu.
Ela me ouviu.
E isso... já foi mais do que qualquer outra pessoa fez.
O barulho para de repente, me arrancando das memórias.
Como sempre.
Silêncio.
Fico imóvel por mais alguns minutos.
Cinco.
Dez.
Só então permito que meu corpo relaxe um pouco.
Mas não completamente.
Nunca completamente.
Me encolho na cama, puxando o cobertor até o queixo.
O sono vem devagar.
Pesado.
E mesmo quando vem... não é descanso.
O despertador toca às seis da manhã. Eu já estou acordada.
Levanto antes dele. Sempre antes dele.
Escovo os dentes rápido. Lavo o rosto. Troco de roupa. Pego minha mochila. Abro a porta com cuidado, empurrando a cômoda devagar, evitando qualquer ruído. Espio o corredor.
Silêncio.
A sala.
Ele está jogado no sofá, dormindo. Há uma garrafa caída no chão. Desvio, andando na ponta dos pés. Cada passo calculado. Cada movimento pensado. Até a porta. Até a liberdade, mesmo que temporária.
O ar da manhã b**e no meu rosto assim que saio.
Respiro fundo.
E então começo a andar. Passo por quarteirões conhecidos. Uma rota decorada, segura.
A padaria onde sempre tomo café já está aberta quando chego. O cheiro de café fresco me envolve assim que entro. Me sento no mesmo lugar de sempre. Peço o mesmo de sempre. E quando o mundo finalmente parece um pouco menos sufocante... Eu puxo meu caderno e começo a desenhar.
Vestidos.
Tecidos.
Cortes.
Um outro mundo. Uma outra vida. A vida que eu ainda vou ter.
Desenho até dar a hora de ir para meu trabalho no café.
POV GUSTAVO:Acordo antes do despertador, como sempre.Não é novidade. Minha rotina raramente depende de um alarme, mas hoje há alguma coisa diferente na forma como meus pensamentos chegam antes mesmo de eu abrir os olhos. A conversa da noite anterior retorna inteira.Eu disse a ela que não precisava decidir ainda, que poderia ficar com o contrato, ler com calma, procurar um advogado, alterar o que quisesse ou simplesmente jogar tudo fora.Eu realmente quis dizer aquilo.E acho que essa é a parte mais surpreendente.Meses atrás, eu teria preparado uma solução e esperado que o mundo se ajustasse a ela. Agora, percebo que existe uma diferença enorme entre oferecer uma escolha e tentar conduzi-la até a resposta que eu quero.Levanto-me, tomo banho e desço. A casa ainda está silenciosa. Berenice já está na cozinha, como sempre, e me olha por cima do ombro enquanto prepara o café.– Bom dia, Gustavo.– Bom dia, Berê.Ela coloca uma xícara sobre a mesa.– Dormiu bem?Paro por um instante.–
POV JADE:Abro o envelope devagar. Retiro as folhas e passo os olhos pelas primeiras cláusulas. Reconheço algumas coisas, mas outras foram modificadas. Há termos relacionados à minha permanência na casa, à minha autonomia financeira, à minha participação na empresa. Leio uma vez. Depois outra.Levanto os olhos.– Você mudou muita coisa.– Algumas.– Por quê?Gustavo sustenta meu olhar.– Porque o contrato antigo foi feito quando eu ainda acreditava que sabia exatamente o que estava fazendo.Não sei o que responder.Volto os olhos para as folhas.– E agora?Ele permanece em silêncio por alguns segundos.– Agora eu sei que não sei.A honestidade me pega desprevenida.Passo o polegar pela borda do papel.– Você quer que eu assine?– Quero que você leia.– Não foi o que perguntei.Ele respira fundo.– Não.Meu coração acelera.– Não?– Não quero que você assine porque acha que me deve alguma coisa.A frase me faz baixar lentamente o documento.Gustavo mantém os olhos nos meus.– Nem porqu
POV JADE:O restante da tarde passa mais rápido do que eu esperava. A verdade é que depois da conversa com Gustavo, eu encontrei uma desculpa perfeita para me esconder no trabalho.Volto às fotografias de Tóquio, reorganizo minhas anotações, começo a desenvolver algumas das ideias que discutimos e, quando percebo, já estou olhando para a tela do computador há tempo demais. O fato é que não consigo me concentrar completamente. Até onde vai o nosso contrato? E, principalmente, até onde eu quero que vá?Quando finalmente encerro o trabalho, já passa das sete. Fecho o notebook, reúno minhas coisas e permaneço alguns segundos sentada, olhando para a mesa vazia. Tóquio parece ter acontecido há muito mais tempo. Talvez porque eu tenha voltado diferente. Não sei exatamente em que momento isso aconteceu. Talvez tenha sido caminhando pelas ruas de Shibuya sem precisar olhar para trás a cada poucos passos. Talvez tenha sido entrando sozinha em uma loja e tentando explicar em um péssimo inglês o
POV JADE:O olhar dele permanece preso ao meu por um instante, mas ao invés de seguir com suas provocações, ele pigarreia discretamente.– Enfim... – ele pega novamente uma das fotografias sobre a mesa. – Quero voltar àquela ideia da sobreposição.A mudança é tão deliberada que quase sorrio.– Está fugindo do assunto?– Estou falando de trabalho.– Conveniente.– Muito.Ele aponta para a fotografia, e eu me aproximo para acompanhar.– Se fizermos isso em camadas mais leves, conseguimos manter o movimento sem deixar a peça pesada. Talvez uma base mais estruturada e uma segunda camada quase translúcida.Inclino o rosto, analisando a imagem.– Eu pensei nisso, mas não queria que parecesse uma reprodução literal.– Não vai parecer.– Como tem certeza?Ele olha para mim.– Porque você não trabalha assim.A frase me faz ficar em silêncio por um instante. Gustavo volta a atenção para a fotografia, como se não tivesse acabado de dizer nada demais.– Podemos trazer a referência sem copiar a or
POV JADE:Passamos quase duas horas analisando referências, tecidos, cortes, fotografias e anotações na sala de reuniões, junto de Guilherme. Ele me faz perguntas o tempo inteiro, algumas técnicas, outras mais provocativas, tentando entender o que chamou minha atenção nos mercados japoneses.Eu mostro minhas anotações, explico algumas combinações que imaginei, falo sobre como determinados elementos tradicionais poderiam ser reinterpretados sem transformar a coleção em uma caricatura da cultura japonesa. Aos poucos, esqueço o nervosismo. É ali que me sinto segura: quando estou falando de moda, quando posso transformar aquilo que vejo em possibilidades.Quando termino de explicar uma proposta de coleção cápsula inspirada na sobreposição de peças tradicionais e silhuetas urbanas, Guilherme permanece alguns segundos em silêncio.– Você sabe que isso pode virar uma coleção inteira, não sabe?– Eu pensei nisso.– E sabe quem vai querer ouvir? – Melissa pergunta.Mas antes que eu possa respo
POV JADE:A voz me faz parar.Olho para o corredor.Gustavo está parado diante de mim.Meu coração simplesmente para.Ele veste um terno escuro impecável, a gravata perfeitamente alinhada, os cabelos penteados para trás. Parece exatamente o homem que deixei uma semana atrás.Mas para mim não é, porque agora sei como ele sorri quando está relaxado, como fica quando está preocupado. Sei de coisas sobre sua infância, que sua mãe tentou ensiná-lo japonês. Sei que ele me escreve todas as noites. E, pior, sei que senti falta dele.Gustavo caminha em minha direção.Melissa olha de mim para ele e sorri discretamente, retirando a bolsa de minhas mãos.– Vou levar nossas coisas para a sala.Ela desaparece antes que eu consiga impedi-la.Ficamos sozinhos.Por alguns segundos, nenhum de nós diz nada.Gustavo para diante de mim, mais perto do que seria necessário. Seus olhos percorrem meu rosto como se estivesse confirmando alguma coisa.– Bem-vinda de volta – ele diz finalmente e minha garganta f







