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Capítulo 04

作者: Liora Z
A fechadura do meu jardim no telhado foi arrombada.

Lá dentro, meu estúdio de vidro ensolarado estava em ruínas.

Cada uma das pinturas que preparei para a Bienal de Arte da América do Norte no mês seguinte estava cortada; as telas pendiam em tiras.

Na parede, pichado em letras vermelhas gigantes: “VADIA, CAIA FORA”.

Fiquei parada no meio do meu estúdio, tremendo.

Aquelas pinturas não valiam apenas mais de um milhão de dólares. Elas representavam um ano da minha vida, de noites sem dormir e trabalho incansável.

Eram o meu passaporte, minha única chance de fazer meu próprio nome como artista, longe da sombra da minha família.

Agora, estavam todas destruídas.

Peguei o celular e liguei para a linha de emergência do prédio.

Depois de vários toques, alguém finalmente atendeu.

[Alessia: Aqui é a Alessia, da cobertura. Minha fechadura foi arrombada e minha propriedade foi destruída. Mandem alguém subir. Agora.]

A pessoa do outro lado disse:

[Assistente: Ah. Entendi. Estamos com falta de pessoal. Enviaremos alguém para dar uma olhada em uma hora.]

[Alessia: Uma hora?]

Esbravejei.

[Alessia: Meu apartamento foi invadido, meu trabalho foi destruído, e essa é a sua resposta?]

[Alessia: Ei, estamos ocupados aqui embaixo. Apenas espere. Vamos até aí quando for possível.]

Ele desligou.

Encarei o celular, com o peito ardendo em chamas.

Esperei quase uma hora até que um segurança finalmente apareceu, caminhando sem pressa.

— Caramba. Realmente acabaram com este lugar.

— O que a administração vai fazer a respeito disso?

Ele ergueu as mãos.

— Isso? Isso está fora do nosso controle. Não é um crime violento, então os policiais só vão fazer você preencher um formulário. Você está por conta própria.

— Por conta própria? — minha voz se elevou. — Eu pago dezenas de milhares de dólares em taxas de condomínio por ano. Meu estúdio é invadido, minhas pinturas são destruídas, e você me diz que não é problema seu?

Ele me lançou um olhar irritado.

— Moça, somos a segurança, não o FBI. Não lidamos com esse tipo de coisa. Você irritou alguém, agora resolva isso.

Antes que eu pudesse responder, uma risada estridente veio de trás de mim.

— Ora, ora, se não é a nossa vizinha da cobertura. O que aconteceu com as suas pinturas?

Eu me virei. Era a Brenda.

Ela apontou para a tinta vermelha na parede e deu gargalhadas.

— “Vadia, caia fora”. Nossa, quem fez isso não mediu as palavras! Hahaha!

— Brenda. Foi você quem fez isso?

— Não se atreva a me acusar. Eu não sei arrombar fechaduras. Mas...

Ela arrastou a palavra, me olhando de cima a baixo.

— Isso é culpa sua, não é? Por que alguém destruiria a sua arte e mais nada?

Ignorei-a e me virei para o guarda.

— Quero ver as imagens de segurança.

O rosto do guarda ficou tenso.

— Er... a câmera do telhado quebrou há alguns dias. Não tivemos a chance de consertá-la ainda.

Encarei-o bem nos olhos.

— Quebrou? Que coincidência.

Os olhos dele se desviaram nervosamente em direção à Brenda.

Brenda limpou a garganta discretamente.

Ele voltou a olhar para mim, com a voz subitamente firme.

— É, está quebrada. Você sabe como é com eletrônicos, eles falham do nada. Não há nada que possamos fazer.

Tudo se encaixou perfeitamente.

Era óbvio. A administração estava de conluio com a Brenda. Eles desligaram as câmeras para que ela pudesse fazer o que quisesse.

Brenda exibia um sorriso largo.

— A câmera está quebrada? Ah, que pena. Não há como encontrar provas. Que situação difícil.

Ela deu um passo à frente, com os olhos cheios de malícia.

— Mas eu ouvi algumas coisas. Uma jovem, completamente sozinha em uma cobertura, com dinheiro vindo de sabe-se lá de onde. As pessoas estão ligando os pontos. Suas pinturas são destruídas hoje... talvez a esposa do seu patrocinador finalmente tenha lhe feito uma visita. Tenha lhe dado um pequeno aviso. Acontece, não é? Essas pinturas porcas estão arruinadas, e daí? Agora há espaço para a minha festa amanhã. Se quer saber a minha opinião, você colheu o que plantou. Quando se faz o papel de amante, recebe-se o que merece.

Encarei o rosto retorcido dela, peguei o meu celular e comecei a gravar, apontando a câmera para os dois.

— Gravei cada palavra que você acabou de dizer. Calúnia, invasão de domicílio, destruição de propriedade. Espere notícias do meu advogado.

Virei-me para o guarda.

— E você. Eu te pago dezenas de milhares por ano. Minha casa é invadida, e você me diz que não é problema seu e que a câmera “por acaso” estava quebrada. Também tenho isso gravado. Pode esperar ser incluído no processo.

O rosto de Brenda empalideceu, depois ficou vermelho de raiva. Ela avançou, tentando arrancar o celular da minha mão.

— Quem diabos você pensa que é? Está me ameaçando?

Ela tentou alcançar o meu cabelo.

Tentei dar um passo atrás, mas o guarda segurou meu braço, seu aperto como uma morsa, prendendo-me no lugar.

Brenda avançou. A palma da mão dela estalou contra o meu rosto.

— Sua vadiazinha que dorme com os outros para chegar ao topo! Acha que pode lutar contra mim? Estou te dizendo, neste prédio, eu dito as regras! Ninguém em Chicago mexe com o meu marido! Uma palavra dele e você está morta!

Minha bochecha ardia. Pude sentir o gosto de sangue na boca.

O ar ficou estático.

Virei a cabeça lentamente e limpei o sangue do canto do lábio com o polegar.

Um advogado. Eu ia ligar para um advogado. Vi o quão estúpido aquilo era agora.

Não se processam animais. Não se racionaliza com a raiva. Apenas se sacrifica.

Eles tinham cruzado uma linha. A linha. A linha do meu pai. O jogo limpo não estava apenas sendo deixado de lado. Estava sendo incinerado.

Cuspi um bocado de sangue no chão e tirei o celular do bolso.

Ao ver o meu aparelho, Brenda não recuou. Ela riu.

— Chamando reforços? Acha que estou com medo? Meu marido pode convidar o secretário de segurança para tomar um café. Você pode denunciar isso para o próprio Deus, e não vai te adiantar de nada!

O guarda deu o seu palpite.

— Sra. Ricci, eu a aconselharia a não transformar isso em algo maior do que já é. O vereador Mark e suas conexões com o submundo... eles não são pessoas com quem você queira mexer. Você é uma mulher completamente sozinha. Para que arrumar confusão? Apenas peça desculpas à Brenda, e tudo isso desaparece. Se continuar insistindo, você será a única a se machucar.

Brenda cruzou os braços, com o queixo erguido.

— Ouviu isso? Vou te dar uma última chance. Ajoelhe-se, peça desculpas e entregue a chave. Posso considerar deixar isso passar. Caso contrário...

Ela estreitou os olhos, com um sorriso cruel nos lábios.

— Meu marido faz uma ligação para o Romano da Zona Sul, e você nunca mais trabalhará em Chicago. Acredita em mim?

Romano? Aquele Romano? O capo da Zona Sul que beijou o anel do meu pai no último Natal? Um chefe de rua. Um capanga glorificado. E essa piranha estava usando o nome dele como um trunfo contra mim?

Olhei para ela, com um sorriso lento e frio se espalhando pelos meus lábios. O tipo de sorriso que meu pai exibia antes de mandar apagar a existência de um homem. Bem na frente deles, disquei um número que eu não chamava há anos.

— Diga ao Romano que ele tem vinte minutos para trazer a bunda dele até a cobertura do The Ivy. Ele vai saber onde é. Diga para ele trazer o grupo dele e arrastar o vereador Mark junto. E diga que se ele não estiver de joelhos, lambendo o sangue deste chão em exatamente vinte minutos... ele não viverá para ver outro amanhecer em Chicago.

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