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CAPÍTULO 4

Author: Rafael Machado
Celina olhou o celular por instinto. Já tinha passado da meia-noite.

Ela falou com culpa:

— Amor, eu comprei um presente pra você. É aquele relógio que você tinha gostado. Experimenta.

Ela estendeu a sacola pequena. Dentro havia uma caixa.

Fernando levantou os olhos, deu uma olhada rápida e deixou o objeto sobre a mesa de centro.

— Não precisa. Eu não gosto de usar relógio.

Celina ficou irritada na hora.

— Dá pra você parar com essas indiretas? Você exagerou hoje. Você deixou o Xavier daquele jeito. Eu só consegui convencer ele a não chamar a polícia. Você tem que pedir desculpa pra ele!

Ao ouvir isso, Fernando riu de raiva.

— Eu pedir desculpa pra ele? Eu te digo, bater nele foi pouco. Se eu ver ele de novo, eu bato de novo. Manda ele chamar a polícia!

— Você... como pode ser assim?

Celina estava furiosa.

Fernando fez um gesto com a mão.

— Para de enrolar. A gente ficou junto sete anos. Tivemos dias bons. Eu sei que as pessoas mudam. Se você mudou de sentimento, me fala. Eu posso soltar e deixar você ir. Mas beber de braços cruzados com outro homem pelas minhas costas é me fazer de corno. Isso eu não aceito.

— Que absurdo você está falando?

Celina respondeu apressada:

— A gente está junto há tantos anos. Você não confia em mim? Que história é essa de corno? Que coisa nojenta. Eu e o Xavier somos só irmãos. Não é nada do que você pensa. Aquela coisa do brinde... eu posso explicar...

Fernando olhou para ela em silêncio.

— Então explica.

Celina mordeu levemente o lábio e disse:

— Amor, hoje era a festa. Todo mundo bebeu. O brinde de braços cruzados foi por causa da brincadeira dos outros. Eu só queria brindar com ele, mas quando levantei o copo, ele já passou o braço. Eu não fiz de propósito...

— Então você bebeu, não foi? — Fernando a interrompeu.

O rosto dela ficou tenso. Mesmo assim, assentiu:

— Eu tinha bebido um pouco. Não pensei direito e acabei bebendo… Mas eu te garanto, entre eu e ele é só relação de irmã e irmão. Nada do que você está imaginando. Eu sou sua esposa. Você tem que confiar em mim.

Ao ouvir a explicação da esposa, Fernando não se sentiu aliviado. Achou ainda mais ridículo.

Ele riu de si mesmo.

— Então você bebeu mesmo. A minha esposa, que eu amo, bebeu de braços cruzados com o irmãozinho dela. Que piada.

O rosto de Celina ficou pálido. Ela se aproximou, sentou ao lado dele e segurou o braço dele, disse:

— Amor, não fala assim. Eu realmente não fiz nada contra você. Eu só amo você.

Fernando balançou a cabeça.

— Antes disso, eu confiava em você sem reservas. Você não percebe que tem alguma coisa errada entre a gente?

Ele puxou o braço e olhou para ela.

Celina ficou surpresa.

— Que coisa errada? Não tem nada errado.

Na cabeça dela, casal brigar era normal. Briga hoje, amanhã faz as pazes. Nada demais.

Fernando falou com calma:

— Demite o seu irmão de consideração e corta contato com ele. Você consegue?

Celina arregalou os olhos.

— O que isso tem a ver com a gente? Eu já expliquei que não foi nada do que você está pensando. Eu e ele somos só irmãos.

Fernando massageou as têmporas, segurando a irritação.

— Quantas vezes?

— Quantas vezes o quê?

— Quantas vezes a gente já brigou por causa dele?

Fernando continuou:

— No fim de semana, a gente foi levar a Yasmin no parque. Ele ligou e você correu pra empresa. Afinal, quem é o chefe, ele ou você?

Celina explicou:

— Ele estava fazendo hora extra. Tinha coisa que eu precisava resolver…

Fernando seguiu:

— Ele queria procurar apartamento. O que isso tem a ver com você? A gente saiu junto e você me deixou sozinho no cinema pra ir ver casa com ele.

O rosto de Celina ficou constrangido.

— Ele é novo. Não conhece bem a cidade. Eu fiquei com medo de ele ser enganado.

Fernando riu com frieza e disse:

— Ele liga e você corre pra casa dele fazer comida. Também foi medo de ele ser enganado?

— Eu não... — Celina explicou apressada. — Ele estava com febre alta. Nem conseguia se levantar. Eu sou a irmã dele. Ir lá fazer uma sopa é tão errado assim? Amor, para com esse ciúme exagerado. Ele é praticamente um menino. Eu só ajudei dentro do que eu podia…

Ao ouvir isso, a raiva de Fernando finalmente explodiu.

Ele se levantou de repente, cerrou os dentes e falou palavra por palavra:

— E se ele quiser você, você também vai dar?

O silêncio caiu pesado.

Celina ficou paralisada.

Depois de alguns segundos, ela também se levantou, furiosa.

— Fernando, você enlouqueceu? Você tem coragem de falar isso? Você está me decepcionando.

— Eu estou ficando maluco por sua causa, porra!

Os olhos de Fernando estavam vermelhos.

— Você está doente. Você sabe que a presença dele está destruindo a nossa relação e mesmo assim continua. Então continua.

— Se você continuar com essa relação mal resolvida com ele, só tem um caminho pra gente…

— Divórcio!

Celina simplesmente não conseguia acreditar no que estava ouvindo.

Ela falou, incrédula:

— Por causa disso… você quer se divorciar de mim?

— Por causa disso? — Fernando riu frio. — Eu já falei tudo. Se você ainda se importa com essa casa, comigo e com a Yasmin, você sabe o que tem que fazer.

Celina também se irritou. O rosto ficou frio.

— Eu acho que quem precisa esfriar a cabeça é você. Eu não fiz nada errado. Por que eu que tenho que mudar?

Ela sempre foi assim.

Forte. Dominadora.

Fernando olhou para ela por um longo momento.

— Você sabe o que faz.

Depois de dizer isso, ele entrou no quarto de hóspedes.

Celina se jogou no sofá. O peito estava pesado. Pegou o maço de cigarro dele e acendeu um.

Nesse momento.

— O que está acontecendo aqui a essa hora?

Luna saiu do quarto de Yasmin, bocejando.

Celina levantou os olhos. Não pareceu surpresa.

— Mana, você está aqui. — Disse, sem energia.

— Estou.

Luna assentiu, sentou-se ao lado dela e perguntou:

— O que está acontecendo entre vocês?

Ela não gostava de Fernando, mas também não queria ver a irmã brigando. Quem acabava machucada era Yasmin.

Celina falou irritada:

— Ele surtou do nada e quer se divorciar de mim!

Luna arregalou os olhos.

— Ele tem coragem de se divorciar de você?

— Claro que não.

Celina respondeu com certeza.

— Ele só está com raiva. Amanhã já passa.
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