Jéssica encarou Laura, que desviava o olhar, sentindo uma vontade irresistível de rir diante daquela cena patética.
Ficava claro que a tal da senhorita Rosana já havia assumido o posto de dona da casa há muito tempo.
— Senhorita Jéssica, o que faz por aqui? — Indagou Laura, disfarçando o constrangimento com um sorriso amarelo.
Ignorando a menção velada à nova moradora, Jéssica respondeu com uma serenidade cortante:
— Vim apenas pegar as minhas coisas e já vou embora.
A empregada espiou o interior da mansão, mas manteve o corpo bloqueando a passagem de forma defensiva.
— O senhor Lucas ainda não voltou.
A mensagem implícita era bem clara. Pessoas de fora não eram bem-vindas ali. O tom de voz áspero não lembrava em nada a deferência com que havia recebido Rosana minutos antes. Empregados de famílias ricas possuíam um talento nato para ler nas entrelinhas do poder e, entre Jéssica e a nova namorada, Laura sabia muito bem a quem devia bajular.
Encarando o braço estendido que a impedia de passar, Jéssica deixou escapar um riso desdenhoso.
— Se eu não tirar os meus pertences daqui, a sua querida senhorita Rosana não vai se sentir incomodada?
Após hesitar por um instante, Laura abaixou o braço e apontou para a direção do quarto de despejo.
— Não precisa subir. O senhor Lucas mandou guardar tudo ali.
Jéssica interrompeu os próprios passos, erguendo o olhar em direção ao topo da escadaria. Na curva do corrimão, havia uma fotografia emoldurada do casal.
"Então essa é a famosa Rosana. Até que ela é bonita", pensou ela, avaliando a imagem.
Sem demonstrar qualquer emoção, ela deu as costas e caminhou até o quartinho escuro. Todos os seus pertences haviam sido enfiados de qualquer jeito dentro de uma caixa de papelão velha.
Durante os quatro anos de relacionamento com Lucas, mesmo sem nunca ter passado a noite ali, ela havia se dedicado a decorar aquele lugar como se fosse o seu próprio lar, investindo tempo, esforço e dinheiro. Só agora percebia que tudo não passava de uma ilusão solitária, pois ninguém naquela casa jamais a considerou parte da família.
Assim que recolheu a caixa e se preparou para sair, a voz da empregada a interrompeu mais uma vez.
— Ainda tem aquela caixa com os presentes que o senhor Lucas te deu. Você não vai levar? Ele disse que estava tudo bem você ficar com eles...
— Não quero. Pode jogar no lixo ou fazer o que achar melhor. — Respondeu, sem olhar para trás.
Eram apenas bugigangas sem valor dadas para enganar bobos, mas que, no passado, ela havia guardado como se fossem tesouros valiosos. Dito isso, virou as costas e atravessou a porta.
Sem perder tempo, Laura sacou o celular e ligou para o patrão.
— Senhor Lucas, a senhorita Jéssica esteve aqui para recolher as coisas dela.
— Ela levou tudo? Eu sabia que ela não conseguiria abrir mão dessas coisas. Com certeza foi só uma desculpa esfarrapada para tentar me ver. — Debochou Lucas, soltando uma risada carregada de arrogância do outro lado da linha.
A empregada pigarreou, um tanto sem graça:
— Então, senhor Lucas... Ela não levou tudo. Aquela caixa com os presentinhos que o senhor deu, a senhorita Jéssica mandou jogar no lixo.
A risada de Lucas morreu de súbito no saguão espelhado do prédio comercial onde se encontrava. Soltando um bufo irritado, ele desligou o telefone na cara da funcionária.
— Logo você querendo se fazer de difícil, Jéssica? Que piada.
Ele se recusava a acreditar que ela pudesse ser tão ingênua a ponto de achar que esse teatrinho seria capaz de despertar a sua falsa memória. Nada no mundo o faria mudar de ideia.
Imerso em seus pensamentos, ele foi trazido de volta à realidade por um par de mãos delicadas que pousaram em seus ombros.
— Era a Jéssica de novo, amor? Ela não cansa de rastejar atrás de você? Sinceramente, eu sinto vergonha alheia de ver uma mulher agindo com tanta falta de amor-próprio. — Comentou a mulher, com a voz aveludada, cheia de um charme manhoso.
Lucas sorriu e puxou a mulher pela cintura fina, acariciando suas curvas com intimidade.
— Ela nunca chegaria aos seus pés. Vamos subir logo, o pessoal já está esperando.
— Pode ir na frente, vou dar uma passada no banheiro primeiro. — Disse ela, mantendo um sorriso doce até as portas do elevador se fecharem. No instante em que ficou sozinha, a doçura desapareceu, dando lugar a um brilho frio e calculista no olhar.
— Então você acha que pode me atrapalhar, Jéssica... — Murmurou a mulher.
...
No caminho de volta, Jéssica aproveitou para comprar um celular novo. Assim que reinstalou o WhatsApp, uma notificação de amizade saltou na tela. A pessoa do outro lado teve o cuidado de deixar os status abertos para que ela visse as últimas postagens, e cada foto ali parecia ter sido escolhida a dedo para atingi-la em cheio.
O mural contava a história perfeita do homem que ela tanto amou caindo de amores por outra mulher, indo dos primeiros flertes a um romance arrebatador, culminando em uma adoração absoluta. Havia até a foto de uma árvore de Natal luxuosa e repleta de presentes caros, um nível de atenção e cuidado que Jéssica jamais havia recebido em quatro anos de namoro.
A imagem a fez lembrar da caixa de lembrancinhas baratas que havia largado na mansão. Lucas sempre repetia o discurso de que o sentimento importava mais do que qualquer valor material. Que grande mentira. O dinheiro de um homem estava em exata sintonia com o lugar onde residia o seu coração.
O muro de indiferença que ela havia erguido ao longo do dia começou a ruir, dando espaço a um incômodo doloroso. Pegou-se pensando no que estaria fazendo enquanto Lucas se deitava com outra pessoa. A resposta era cruel, pois ela estava quebrando a cabeça, tentando descobrir como agradá-lo, porque ele havia sumido sem motivo.
Rindo da própria estupidez, sentiu pena de si mesma. Estava prestes a bloquear o contato quando a mensagem de apresentação do perfil chamou a sua atenção.
[Você não quer saber o verdadeiro motivo pelo qual ele deixou de te amar?]
Estava claro que ela queria. Qualquer pessoa descartada da noite para o dia como um lixo precisava de respostas para conseguir seguir em frente. Se não a amava mais, por que todo aquele teatro desnecessário?
Movida por essa faísca de curiosidade, ela aceitou a solicitação de amizade.
A resposta da outra mulher foi curta e direta: [Me encontre no Bar Sky Lounge.]
...
O Bar Sky Lounge ficava no terraço de um dos prédios mais imponentes de Oeiras, famoso por seus jardins suspensos e por ser o refúgio noturno preferido da alta sociedade brasileira. De lá, os playboys e patricinhas bebiam seus drinks caros enquanto admiravam o mar de luzes da cidade estendido a seus pés, sentindo-se os donos do mundo.
Assim que pisou no local, Jéssica avistou Lucas encostado no guarda-corpo de vidro, a poucos metros de distância. O vento noturno bagunçava os cabelos dele, conferindo-lhe aquele ar despojado e charmoso que sempre fazia o coração dela acelerar no passado.
Antes mesmo de se aproximar do grupo, as vozes conhecidas chegaram aos seus ouvidos.
— Cara, você pegou pesado demais dessa vez. Bater o carro de propósito foi muita loucura. Você sabia o que estava fazendo, mas a coitada da Jéssica estava às cegas. Não teve medo de machucar a garota pra valer? — Perguntou um dos rapazes.
— Não foi pra tanto. — Respondeu Lucas, tomando um gole da sua bebida com uma tranquilidade irritante. — No máximo, ela levaria alguns arranhões. Eu precisava calar a boca dela de algum jeito, a garota estava me enchendo a paciência com essa história de assumir o namoro em público.
— E ela engoliu direitinho essa sua história de amnésia? — Outro amigo indagou.
Ao invés de responder, Lucas apenas girou o uísque no copo de cristal e soltou uma risadinha de escárnio. O silêncio dele foi o suficiente para que todos na roda de amigos entendessem o recado.
— Pelo amor de Deus, todo mundo aqui sabe como a Jéssica é obcecada. A garota é igual a chiclete grudado no sapato, você tenta arrancar e ela não solta. — Zombou um deles.
— Aposto que nessa hora ela está chorando as pitangas, tentando bolar um plano mirabolante para fazer o nosso amigo recuperar as memórias perdidas.
— Temos que tirar o chapéu pra você, Lucas. Conseguir deixar uma mulher adestrada desse jeito não é pra qualquer um.
Lucas virou o resto da bebida de uma vez e abriu um sorriso vitorioso.
— A Jéssica é uma garota obediente, leva jeito para cuidar da casa, mas com a condição financeira da família dela hoje em dia, o máximo que posso oferecer é o posto de amante em segredo. Quando eu me casar com a Rosana, invento que recuperei a memória, e ela vai ficar tão emocionada que vai aceitar qualquer coisa. Só não deixem a Rosana ouvir isso. Ela é inocente e tem pavio curto, me deu um trabalho enorme para acalmar a fera.
O rosto de Lucas exibia a prepotência de alguém que acreditava ter o controle absoluto sobre o destino de todos ao seu redor. Seus amigos levantaram os copos, brindando àquela estratégia doentia em total cumplicidade.
Ouvir aquelas palavras foi como levar um soco no estômago, mas, após o tremor inicial em seu olhar, uma frieza protetora tomou conta de Jéssica. No fundo de sua alma, ela já suspeitava de algo parecido.
Desde que a família Moura havia declarado falência, o seu status social havia despencado, tornando-a indigna de estar ao lado de alguém tão influente.
O que ela havia subestimado era a total falta de caráter do ex-namorado. O famoso herdeiro da família Pereira não estava disposto a abrir mão de nada; queria as duas mulheres rendidas aos seus pés.
O fato de ter escutado aquela confissão da própria boca de Lucas era a pá de cal que faltava para enterrar de vez aquele relacionamento. Se ele havia perdido a memória de verdade ou não, já não fazia a menor diferença para o desfecho daquela história.
— Lucas! — Uma voz doce cortou a música ambiente, acompanhada pela aproximação de uma figura elegante que grudou no braço de Lucas.
Era a encarnação viva da tal garota inocente que ele acabara de descrever, a mesma mulher da fotografia na curva da escada, Rosana Xavier.
A chegada dela foi recebida com festa pela roda de amigos.
— Olha só quem chegou! A dona da noite. Estávamos só esperando por você, Rosana. O Lucas preparou uma surpresa inesquecível para te deixar feliz.
— Sério? Que surpresa? — Os olhos de Rosana brilharam de expectativa enquanto se deixava conduzir por Lucas até o ponto central do terraço.
No instante em que os olhares dos dois se cruzaram, uma explosão de cores iluminou o céu escuro, cobrindo a cidade com um espetáculo grandioso de fogos de artifício.
Sob a luz dos fogos, Lucas inclinou a cabeça e a beijou com devoção. Rosana fingiu um rubor de timidez antes de fechar os olhos e corresponder ao toque. Pareciam a cena de um filme de romance, um casal perfeito enquadrado por uma chuva de faíscas brilhantes.
Ao interromperem o beijo, Lucas acariciou o rosto dela com uma ternura de dar inveja, murmurando em tom de promessa:
— Vou gritar para o mundo inteiro ouvir que você é a minha namorada.
Radiante, Rosana concordou com a cabeça. O grupo ao redor explodiu em assobios e aplausos calorosos, entoando um coro animado:
— Beija de novo! Beija de novo!
Ouvir aquele coro a atingiu de forma brutal. A última vez que aqueles mesmos amigos gritaram aquilo, foi para celebrar o amor entre ela e Lucas.
Uma onda sufocante de humilhação e nojo subiu por sua garganta diante da constatação de ter sido manipulada de forma tão vil. Reprimindo a amargura, forçou um sorriso torto e se preparou para ir embora. Mas, antes que pudesse dar o primeiro passo, sentiu um calafrio percorrer sua espinha.
No segundo seguinte, o grito estridente de Rosana rasgou a música do bar:
— Jéssica!
Todos os olhares do terraço convergiram para a mulher no canto, pregando seus pés no chão. Sem lhe dar chance de defesa, as lágrimas de Rosana começaram a jorrar num drama impecável.
— Jéssica, sei o quanto isso está sendo difícil pra você engolir, mas o Lucas perdeu a memória! O médico foi bem claro dizendo que ele precisa de paz. Por favor, para de perseguir a gente! Se quiser culpar alguém, a culpa é toda minha por não ter conseguido evitar me apaixonar por ele.
Em meio ao choro teatral, os olhos de Rosana brilharam com um veneno letal. Havia um escárnio oculto naquela encenação, zombando do fato de que Jéssica agora sabia da verdade, e deixando claro que jamais a considerou uma adversária à sua altura.
Percebendo a armadilha doentia em que havia se metido, Jéssica ergueu o aparelho celular, pronta para desmascarar a rival:
— Foi você mesma que...
Antes que terminasse a frase, Lucas avançou em sua direção, furioso, arrancou o celular de sua mão e o atirou contra o chão, estilhaçando o aparelho em dezenas de pedaços.
— Jéssica! Eu não acredito que você teve a audácia de me seguir até aqui!