MasukCapítulo 8: A Festa da Elite
(Ponto de vista do Vinícius) — Você tá me dizendo que a caipira te deu uma surra moral na frente da sua própria mãe? — Tom gargalhou, caindo para trás no sofá do camarote da boate. — Não foi uma surra moral, Tom. Ela só abriu a boca para falar besteira — respondi, virando o shot de tequila de uma vez só e sentindo o álcool queimar na garganta. — Cara, admite: ela te dobrou — Paulo provocou, girando um copo de gin. — A garota é linda, inteligente, peitou você na faculdade e ainda te fez passar vergonha no jantar. E você tá aí, com essa cara de bunda a semana inteira porque não consegue tirar o que ela disse da cabeça. — Eu não dou a mínima para o que ela diz — esbravejei, batendo o copo na mesa com mais força do que o necessário. — Ela é uma garota simples que teve sorte. Só isso. O problema era que Paulo tinha razão. Aquilo estava me corroendo por dentro. Toda vez que eu fechava os olhos, lembrava do sorriso irônico dela na mesa de jantar, do jeito como o queixo dela ficava erguido quando me enfrentava, do perfume leve que ela deixava por onde passava. Eu estava acostumado a mulheres que faziam de tudo para me agradar, que riam das minhas piadas sem graça e aceitavam meu silêncio em troca da minha presença. Mel não. Ela me olhava como se eu fosse um inseto incômodo. E isso me deixava completamente doente. A música da boate estava no volume máximo quando vi uma movimentação perto da entrada da área VIP. A porta de vidro fosco se abriu e três pessoas entraram. Entre elas, uma figura que fez meu copo parar na metade do caminho até a boca. Era Mel. Ela usava um vestido vermelho simples, ajustado ao corpo, de alças finas e decote reto. Não tinha nada de vulgar, mas a cor destacava a pele clara e as curvas sutis que até então viviam escondidas sob as roupas largas do dia a dia. Os cabelos estavam soltos, caindo em ondas perfeitas pelas costas. Ela nem parecia a garota do interior de vestido florido que chegou na minha casa com uma mala surrada. Ela parecia... uma mulher inalcançável. — Caramba... — Tom sussurrou ao meu lado, boquiaberto. — Aquela ali é a... — Nem termina essa frase — rosnei, levantando-me bruscamente do sofá. Mel tinha vindo acompanhada de duas colegas do curso de TI, mas não demorou dois minutos para que Gabriel — o idiota do time de basquete que eu tinha despachado na aula — surgisse do nada, sorridente, oferecendo uma bebida para ela. A raiva me subiu à cabeça como um vulcão em erupção. Sem pensar nas consequências ou no que meus amigos achariam, caminhei a passos largos na direção deles. A iluminação vermelha e azul da pista cortava a penumbra, mas eu só enxergava a mão de Gabriel se aproximando da cintura de Mel. — Chega de palhaçada por hoje, Gabriel — interrompi, me metendo exatamente entre os dois e empurrando o peito dele com a palma da mão, com força suficiente para fazê-lo dar dois passos para trás. — Ficou louco, Albuquerque? — Gabriel esbravejou, fechando os punhos. — Qual é o seu problema? — Meu problema é que você não sabe a hora de ir embora — respondi, a voz tão baixa e gélida que o cara vacilou no lugar. — A garota tá comigo. Vaza. Gabriel olhou para mim, olhou para a Mel e, vendo que a situação ia escalar para um cano de ferro, deu meia-volta e sumiu no meio da multidão da boate. Girei nos calcanhares para encarar Mel. Ela estava com as mãos na cintura, os olhos faiscando sob as luzes da festa, respirando fundo de pura indignação. — Quem você pensa que é para falar assim comigo e expulsar as pessoas do meu lado? — ela disparou, tentando falar alto por causa da música, dando um passo para perto de mim. — Quem eu penso que sou? — cheguei mais perto, diminuindo a distância entre nós até poder sentir o calor da pele dela, encarando aquela boca vermelha que me tirava do sério. — Sou o cara que não vai deixar você virar motivo de piada na mão daqueles idiotas. — Eu não preciso da sua proteção, Vinícius! Não sou seu troféu e nem sua propriedade! — ela rebateu, cravando o dedo no meu peito. — Você é um mimado que não suporta ver ninguém feliz se não for sob o seu controle! A proximidade era perigosa. O cheiro dela, o vestido, a ousadia de encostar o dedo no meu peito no meio de todo mundo. Minha mão subiu involuntariamente e segurou o pulso dela com firmeza, mas sem machucar, trazendo-a alguns centímetros mais para perto. — Você acha mesmo que eu me importo com o seu controle, Melanie? — murmurei bem perto do ouvido dela, vendo-a arfar de surpresa com o toque brando. — Você me irrita. Você estraga o meu dia toda vez que abre a boca. E, para a minha infelicidade... você tá bonita demais nesse vestido. O olhar dela travou no meu. Por um segundo inteiro, a raiva no rosto dela deu lugar a um choque puro. A respiração dela acelerou, e eu vi o peito dela subir e descer rapidamente contra o meu. A guerra ainda não tinha terminado, mas as regras tinham acabado de mudar.Capítulo — O lugar que eu escolhi Mel Eu sempre achei que, quando chegasse o dia da minha formatura, sentiria alguma coisa grandiosa. Imaginei que acordaria sabendo exatamente o que aquele momento significava, que lembraria de cada dificuldade e que conseguiria colocar em palavras tudo o que tinha acontecido desde o primeiro dia de faculdade. Mas, naquela manhã, enquanto me arrumava diante do espelho, tudo parecia mais simples. Eu estava feliz. E também estava nervosa. Talvez porque terminar a faculdade não significasse que eu tinha chegado ao fim de alguma coisa. Na verdade, significava que uma nova fase estava começando. Olhei para o vestido que tinha escolhido e sorri. Mel: — Então é isso. Dona Ana apareceu atrás de mim. Dona Ana: — É isso o quê? Mel: — Eu terminei. Ela sorriu. Dona Ana: — Terminou uma etapa. Não a sua história. Virei para ela. Mel: — Você sempre tem uma resposta pronta? Dona Ana: — Depois de tantos anos cuidando de você, alguma co
Capítulo — Antes do próximo começo Mel Os últimos meses passaram mais rápido do que eu gostaria. Entre a faculdade, o trabalho e as consultas de Helena, os dias pareciam sempre cheios. Quando eu finalmente tinha um momento para respirar, alguma outra coisa já estava acontecendo. Ainda assim, havia uma diferença importante. Eu não estava mais tentando sobreviver à rotina. Eu estava vivendo. Na faculdade, as coisas também estavam chegando ao fim. Os professores começaram a falar sobre as últimas avaliações, os trabalhos finais e a cerimônia que se aproximava. Eu ainda não conseguia acreditar que estava tão perto de terminar. Naquela tarde, saí da aula acompanhada de Helena. Ela já estava com uma barriga que começava a aparecer, embora ainda não fosse tão grande quanto ela imaginava que estaria naquela altura. Helena: — Eu ainda não me acostumei. Mel: — Com o quê? Helena: — Com as pessoas olhando para a minha barriga. Mel: — Elas estão olhando porque agora dá
Capítulo — O meu lugar Mel Começar naquela empresa foi diferente de tudo que eu tinha imaginado. Nos primeiros dias, eu cheguei antes do horário, conferi minhas anotações mais vezes do que precisava e tentei prestar atenção em cada detalhe. Eu queria mostrar que merecia aquela oportunidade, mas também estava consciente de que ninguém esperava que eu soubesse tudo de imediato. Ainda assim, o medo de errar estava presente. No terceiro dia, depois de passar quase duas horas trabalhando em uma parte do projeto, percebi que havia escolhido um caminho que não funcionaria. Fiquei olhando para a tela, frustrada. Uma das pessoas da equipe percebeu. Colega: — Algum problema? Mel: — Acho que fui pelo caminho errado. Colega: — E você percebeu sozinha? Mel: — Sim. Colega: — Então já resolveu metade do problema. Olhei para ela, surpresa. Colega: — Aqui ninguém espera que você nunca erre. A gente espera que você saiba identificar o erro e tentar outra solução. Aquilo me
Capítulo — O que vem depois Mel Na semana seguinte, minha rotina ficou ainda mais corrida. Entre as aulas da faculdade, os trabalhos e os preparativos para conhecer pessoalmente a equipe da empresa, eu mal tive tempo de perceber que os dias estavam passando. Talvez fosse justamente isso que eu precisava naquele momento: ter coisas para fazer que não envolvessem ficar pensando em todas as possibilidades que o futuro poderia trazer. Na terça-feira, saí da última aula e encontrei Vinícius esperando por mim do lado de fora. Ele estava encostado no carro, mexendo no celular, e levantou os olhos assim que me viu. Vinícius: — Finalmente. Mel: — Você está me esperando há quanto tempo? Vinícius: — Tempo suficiente para concluir que estudantes universitários gostam de sofrer. Mel: — Você nunca estudou o suficiente para descobrir isso. Vinícius colocou a mão no peito, fingindo estar ofendido. Vinícius: — Isso foi desnecessário. Mel: — Foi verdadeiro. Ele abriu a porta do carro para
Capítulo — O próximo passo Mel Na quinta-feira, acordei mais cedo do que precisava. Não porque tivesse alguma coisa urgente para fazer, mas porque meu cérebro decidiu que aquele era o melhor dia para lembrar de todas as possibilidades de dar errado. Fiquei alguns minutos olhando para o guarda-roupa, tentando decidir o que vestir para a segunda conversa com a empresa. Eu sabia que não precisava parecer outra pessoa para impressioná-los, mas também não queria aparecer com a primeira roupa que encontrasse. Depois de trocar de roupa duas vezes, finalmente escolhi algo simples e confortável. Quando desci, encontrei Dona Ana na cozinha. Dona Ana: — Você está nervosa. Mel: — Está tão óbvio assim? Dona Ana: — Você trocou de roupa duas vezes. Mel: — Como sabe? Dona Ana: — Eu conheço você. Sentei-me à mesa e aceitei a xícara de café que ela colocou na minha frente. Dona Ana: — Não pense nessa conversa como se fosse uma prova. Mel: — Estou tentando. Dona Ana: — Você
Capítulo — Quando a vida começa a se encaixar Mel Nos dias que se seguiram à conversa com a empresa, eu tentei não pensar demais no assunto. Era mais fácil falar do que fazer, porque toda vez que o celular vibrava, eu imediatamente procurava uma mensagem ou um e-mail que pudesse trazer alguma novidade. Eu sabia que precisava ter paciência, mas nunca fui exatamente boa nessa parte. Naquela manhã, eu estava sentada à mesa do café quando meu celular vibrou outra vez. Peguei o aparelho tentando agir com naturalidade, embora Helena estivesse do outro lado da mesa e já tivesse percebido a minha reação. Helena: — Se você continuar olhando para esse celular desse jeito, ele vai acabar pedindo uma ordem de restrição. Mel: — Estou esperando uma resposta. Helena: — Eu sei. Você olha para ele a cada trinta segundos desde ontem. Mel: — Não é para tanto. Helena: — É exatamente para tanto. Dona Ana, que estava preparando café, olhou para nós duas e soltou uma risada. Dona Ana: — Vocês dua







