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CAPÍTULO 4 (Narrado por Rafael)

last update publish date: 2026-08-26 19:38:19

Eu tenho 21 anos. Meu irmão Lucas tem apenas 20. Para o nosso pai, Antônio Capeball, a idade é só um número — o que realmente conta é manter o nome da família respeitado, os negócios firmes e tudo sob controle.

A cerimônia não aconteceu numa igreja comum: foi feita num salão da minha casa, adaptado especialmente para a ocasião, onde o pastor iria realizar o casamento. O silêncio ali ficou tão pesado que parecia sufocar. Eu estava de pé, de terno preto, mãos enfiadas nos bolsos, mantendo apenas um sorriso de canto — frio, vazio, uma máscara para esconder todo o caos que queimava por dentro.

Marina estava parada diante do pastor, pálida como a neve, os lábios entreabertos, sem conseguir emitir um som sequer. Eu sabia o que se passava na cabeça dela: medo, vergonha, a dúvida cruel se devia contar tudo ou calar para sempre,ou talvez com medo de mim falar. A cada segundo que ela demorava, meu coração disparava mais. Se ela gaguejasse, se desabasse ali mesmo, o mundo da nossa família viraria de cabeça para baixo.

E a minha mãe iria desconfiar mais de mim ainda.

Foi nessa hora que ouvi passos firmes e apressados vindo da entrada. Duas figuras apareceram, imponentes e sem nenhum sinal de emoção: eram os pais da Marina.

O Sr. Alfredo vinha à frente, postura ereta, rosto fechado, olhar afiado que enxergava apenas negócios e status. Ao lado dele, Dona Elza, vestida com roupas de bom corte, cabeça bem erguida, com o ar de quem não estava ali para celebrar o amor, mas para garantir que o acordo entre as famílias fosse cumprido. Marina e seu pais como será que eles viveram, parece que o que vale pra eles poder , parece com os meus,influência e vantagens, tudo junto— nada mais serve.

Perceberam na hora a hesitação da filha. Caminharam devagar até a primeira fileira, e o pai lançou-lhe um olhar severo, um sinal mudo e claro: não atrapalhe. A mãe se inclinou um pouco, com a voz baixa e cortante, eu observando,só para que ela ouvisse:

— Fale logo, Marina. Não nos faça passar vergonha na frente de todos.

Ela estremeceu toda. Seus olhos correram desesperados: primeiro para os pais, que a pressionavam; depois para mim, e ali eu vi todo o medo e a raiva contida; e por fim para Lucas, que esperava com uma calma que já começava a parecer estranha demais.

O pastor repetiu a pergunta, com tom calmo mas insistente:

— Então, minha filha, aceita Lucas como seu legítimo marido, para amá-lo e respeitá-lo por todos os dias da sua vida?

Eu continuei olhando para ela, mantendo o mesmo sorriso. Não era por maldade — era a única forma que eu tinha de dizer: agora não tem mais volta, é esse caminho ou a ruína de todos.

Ela fechou os olhos com força, como se quisesse apagar a noite anterior da memória. Quando os abriu, havia ali uma decisão amarga, forçada, mas já tomada.

A voz dela saiu fraca, trêmula, mas audível por todo o salão:

— Sim… eu aceito.

No mesmo instante, um suspiro de alívio percorreu os convidados. Lucas abriu um sorriso largo, deu um passo à frente e segurou a mão dela com firmeza. Os pais da Marina trocaram um olhar de aprovação, satisfeitos que o acordo estava fechado.

Já eu… apertei tanto os punhos dentro dos bolsos que senti que as unhas encravaram na pele. Aquele "sim" não foi uma promessa de felicidade — foi o momento em que nós dois selamos uma mentira e enterramos um segredo que agora ia morar entre nós, pesado e escuro, para o resto das nossas vidas.

Depois da cerimônia, começou a festa, com música alta e sorrisos que pareciam sinceros para quem olhava de fora. O salão estava todo decorado com flores e luzes que deixavam tudo brilhante, mas para mim aquele lugar parecia apenas uma prisão enfeitada.

Minha mãe, Dona Luciana, andava de um lado para o outro como quem comanda o seu próprio reino. Estava um pouco nervosa, afinal era o casamento de Lucas — e por incrível que pareça, naquele dia eu quase me alegrava de vê-la assim. Ela cumprimentava convidados importantes, recebia os parabéns e conferia cada detalhe com aquele instinto aguçado que tinha. Para ela, essa união era mais uma vitória para o nosso nome. Ao lado dela, Antônio Capeball permanecia mais calado, de postura ereta e olhar que não perdia nada — analisava cada rosto, cada aperto de mão, cada palavra trocada. Tinha um brilho maior nos olhos quando olhava para Lucas, seu filho preferido, mas de vez em quando me lançava um olhar firme, como um aviso silencioso:

— Rafael, depois tenho que conversar com você.

Não demorou muito e chegaram também pra festa Senhor Alfredo e Dona Elza, os pais da Marina. Entraram com ar de muita importância, roupas caras,e olhar que só parava em quem tinha influência. Eu não sabia o que se passava na cabeça deles, nem o que Marina realmente pensava, mas dava para perceber claramente: Que eram uns pais frios.

E olhando direito o vestido de dona Elza está sujo de terra,fico calado amanhã estará na boca do povo.

Quando a dupla cumprimentaram senhor Antônio meu pai, os sorrisos e as palavras soavam mais como o fechamento de um negócio do que como alegria por uma união.

— Que essa aliança seja longa e proveitosa para todos nós — disse Alfredo, com voz medida.

Antônio concordou apertando sua mão:

— Com certeza. É o melhor para as duas famílias.

E lá estava Lucas, no centro de tudo, agindo como o noivo perfeito. Levava Marina para cumprimentar cada convidado, segurava sua cintura, beijava sua testa, olhava nos olhos dela com uma ternura que parecia verdadeira. Mas eu o conhecia desde pequeno — conheço cada gesto, cada tom de voz — e percebia o que ninguém mais via: aquele sorriso era calculado, cada movimento tinha um objetivo, nada ali era por acaso.

Depois de um tempo, ele deixou Marina conversando com as mães e veio até mim, puxando-me devagar para um canto mais afastado, onde a música cobria qualquer conversa. No instante em que nos afastamos, a sua expressão mudou de uma vez: sumiu toda a doçura, apareceu um brilho frio e vitorioso nos olhos.

— Tudo correndo como deveria, não é mesmo, irmão? — perguntou ele, com voz baixa e cheia de ironia.

Eu apertei o maxilar para segurar a raiva e a culpa que subiam pelo peito:

— O que você quer dizer com isso? Você está aprontando algo, Lucas?

Ele deu uma risada curta, sem nenhuma alegria, e bateu de leve no meu ombro — aquele toque que parecia amigável, mas que agora parecia mais um lembrete:

— Nada demais. Apenas que os erros acontecem, não é? Agora ela é minha mulher, e você também é da família. Por que está tão assustado?

Senti um frio subir pela espinha. Será que ele sabia tudo? Não foi só confusão, não foi só bebida… Será que nada tinha sido coincidência?

— Você armou tudo isso, não foi? — perguntei quase num sussurro.

Ele apenas sustentou aquele olhar de superioridade e deu um meio sorriso cruel:

— Armar? Não sei o que você está falando. Mas vamos deixar claro: agora nós dois temos o mesmo interesse — manter o nome Capeball limpo, não é mesmo? Você não quer ver tudo o que construiu desabar, eu não quero perder a minha posição. E ela? Agora não tem mais para onde correr. É minha.

Só consegui ficar em silêncio, antes que eu pudesse responder ele já mudou de máscara: voltou a ser o noivo mais feliz, deu-me uma batida mais forte no ombro e gritou alto o suficiente para quem passasse ouvir:

— Vamos lá, irmão! É o meu casamento, sorria um pouco! Não está feliz por mim?

E voltou para o meio da festa, rindo e conversando com todos, deixando-me ali parado, com a cabeça girando. Olhei ao redor: meus pais satisfeitos, os pais da Marina fechando negócios, os convidados brindando… e só eu entendia que aquela festa não era uma comemoração — era apenas o começo de um jogo sujo, onde Lucas já tinha feito a primeira jogada e nós dois, eu e Marina, já estávamos presos na sua armadilha.

Ainda olhei para Marina do outro lado do salão. Ela me olhou de volta, assustada e perdida, sem saber exatamente o que tínhamos acabado de conversar. E ali percebi: a partir daquele dia, nada mais seria igual. Nós três viveríamos de aparências, escondendo um segredo que poderia destruir tudo a qualquer momento. Mas eu não iria me entregar assim tão fácil — mesmo que, nesse momento, pareço que sou um bom perdedor.

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