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CAPÍTULO 2

작가: Ouverney
last update 게시일: 2026-10-01 23:14:09

Dante nunca teve medo de perder Kiraz.

Talvez esse tivesse sido o maior erro da vida dele.

Naquela noite, sentado sozinho no escritório, mantinha os olhos fixos no telefone sobre a mesa.

O casamento deveria ter terminado havia horas.

Ele havia decidido não aparecer.

Não porque não amasse Kiraz.

Pelo menos era assim que justificava para si mesmo.

Havia negócios.

Problemas familiares.

Uma negociação que não poderia esperar.

E a certeza de que Kiraz compreenderia.

Ela sempre compreendia.

Ou ele sempre acreditou que compreendia.

Dante Soares era um homem difícil de impressionar.

Alto, elegante, de cabelos castanho-escuros sempre impecavelmente arrumados, olhos frios e atentos e traços firmes, ele carregava a segurança de quem havia crescido acreditando que quase tudo poderia ser resolvido com poder, dinheiro ou influência.

Não precisava elevar a voz para ser obedecido.

Na família Soares, sentimentos nunca foram prioridade.

Resultados eram.

Controle era.

Nome era.

E Dante havia aprendido tudo isso cedo demais.

Inclusive quando se tratava de Kiraz.

Ele a conhecia havia anos.

Conhecia a maneira como ela ria quando estava realmente feliz. Sabia que ela ficava inquieta quando precisava esperar por alguma coisa e que falava mais rápido quando estava nervosa.

Sabia que ela gostava de cappuccino, que sempre roubava o primeiro pedaço de sobremesa de quem estivesse sentado ao lado dela e que odiava quando alguém dizia que estava exagerando.

Também sabia que ela o amava.

Ou, pelo menos, acreditava saber.

E foi exatamente aí que tudo começou a dar errado.

Dante nunca precisou conquistá-la novamente.

Depois que Kiraz se apaixonou, ele passou a agir como se aquele amor fosse uma certeza.

Não precisava mandar flores.

Ela entenderia.

Não precisava aparecer em todos os eventos.

Ela saberia que estava ocupado.

Não precisava responder imediatamente.

Ela esperaria.

Não precisava perguntar se estava tudo bem.

Ela contaria quando quisesse.

Kiraz reclamava.

Dante ouvia.

E, na maioria das vezes, não fazia nada.

— Você vai continuar trabalhando enquanto eu estiver aqui? — ela perguntara certa noite, sentada no sofá do escritório dele.

Dante sequer havia levantado os olhos do computador.

— Preciso terminar isso.

— Você sempre precisa terminar alguma coisa.

— Porque sempre existe alguma coisa para terminar.

Ela ficou em silêncio por alguns segundos.

Depois perguntou:

— E eu?

Dante finalmente olhou para ela.

— O que tem você?

Kiraz sorriu, mas havia tristeza naquele sorriso.

— Nada.

Na época, Dante acreditou.

Esse era o problema.

Ele acreditava em todos os “nadas” dela.

Acreditava porque Kiraz sempre ficava.

Sempre perdoava.

Sempre voltava.

E, principalmente, porque nunca imaginou que um dia ela pudesse simplesmente desistir.

Naquela noite, porém, alguma coisa estava diferente.

Dante pegou o telefone.

Ligou.

Chamou uma vez.

Duas.

Três.

Ninguém atendeu.

Ele desligou.

Esperou alguns segundos.

Ligou novamente.

Dessa vez, alguém atendeu.

Dante endireitou-se na cadeira.

— Kiraz?

Silêncio.

A voz que respondeu não era a dela.

Mas era uma voz que ele conhecia.

Fria.

Calma.

Perfeitamente controlada.

— Quem está falando?

Dante ficou imóvel.

— Você sabe muito bem quem está falando. Agora me diga com quem estou falando.

Do outro lado, houve uma breve pausa.

— Você logo saberá.

Os olhos de Dante se estreitaram.

— Onde está Kiraz?

Silêncio.

— Eu perguntei onde ela está.

Nada.

Dante se levantou.

— Quem está falando?

A resposta veio tranquila, quase provocadora.

— Boa noite, Dante.

A ligação caiu.

Dante permaneceu parado.

O telefone ainda estava encostado no ouvido.

Vicente.

Não precisava de confirmação.

Reconheceria aquela voz em qualquer lugar.

Vicente Albuquerque.

Seu maior rival.

O homem que ele menos esperava encontrar naquela noite.

Dante baixou lentamente o telefone.

A primeira pergunta veio imediatamente.

Por que Vicente Albuquerque estava com Kiraz?

A segunda foi ainda pior.

E por que ele havia atendido o telefone dela?

Dante caminhou até a janela.

A cidade brilhava abaixo dele.

Pela primeira vez naquela noite, uma sensação desconfortável começou a substituir sua antiga certeza.

Ele sempre acreditara que Kiraz o esperaria.

Mas, se Vicente estava com ela...

Talvez alguma coisa tivesse acontecido enquanto ele não estava olhando.

E Dante odiava descobrir que havia perdido alguma coisa.

Principalmente quando essa coisa tinha o nome de Kiraz.

Na manhã seguinte, Kiraz acordou em uma casa que não conhecia.

Abriu os olhos devagar.

O teto era alto.

As cortinas claras deixavam entrar uma faixa de luz.

Por alguns segundos, não se lembrou de onde estava.

Então olhou para a própria mão.

A aliança.

O casamento.

Vicente.

Tudo voltou de uma vez.

Ela se sentou na cama.

A suíte era enorme, silenciosa e elegante demais para parecer real.

Sobre uma poltrona, havia uma roupa cuidadosamente dobrada.

Ao lado, um bilhete.

Kiraz pegou.

O café será servido às oito.

Ela franziu a testa.

Sem assinatura.

Sem explicação.

— Claro — murmurou. — Porque aparentemente eu me casei com um homem que deixa bilhetes como um mordomo.

Tomou banho, vestiu-se e desceu.

Vicente já estava à mesa.

Havia trocado o terno da noite anterior por uma camisa branca com as mangas dobradas até os antebraços e uma calça escura.

O cabelo ainda estava levemente desalinhado.

Era a primeira vez que Kiraz o via daquela maneira.

Ele levantou os olhos quando ela entrou.

— Dormiu bem?

Ela puxou a cadeira.

— Considerando que ontem eu fui abandonada no altar e algumas horas depois me casei com você, eu diria que dormi surpreendentemente bem.

Vicente continuou tomando café.

— Uma avaliação bastante objetiva.

— Estou tentando manter a sanidade.

— É uma boa estratégia.

Kiraz olhou para a mesa.

Havia frutas, pães, ovos, café, suco e alguns pratos preparados.

Ela apontou para tudo.

— Isso é sempre assim?

— Assim como?

— Organizado demais.

— Normalmente.

— Deve ser cansativo viver dentro da sua própria cabeça.

Vicente apoiou a xícara no pires.

— Provavelmente menos cansativo do que viver dentro da sua.

Kiraz abriu um sorriso.

— Você está começando a me irritar.

— Começando?

Ela riu pela primeira vez desde o casamento.

E Vicente percebeu.

Não comentou.

Kiraz pegou uma fatia de pão.

— Quais são as regras?

— Do acordo?

— Do nosso casamento.

Vicente recostou-se na cadeira.

— Não mentimos um para o outro quando a verdade for relevante.

— Interessante.

— Mantemos nossa vida profissional separada.

— Certo.

— Você terá liberdade para continuar trabalhando, sair, viajar e manter seus amigos.

Kiraz ergueu uma sobrancelha.

— E você?

— O mesmo.

— Então você não pretende controlar minha vida.

— Não.

— Nem exigir que eu me comporte como uma esposa perfeita?

— Kiraz, depois do que aconteceu ontem, seria bastante contraditório eu exigir perfeição de alguém.

Ela segurou o olhar dele.

— E quanto à nossa vida pessoal?

Vicente demorou um pouco para responder.

— Cada um respeita o espaço do outro.

— Isso significa quartos separados?

— Se for o que você quiser.

Kiraz observou o homem à sua frente.

Não havia pressão.

Não havia insistência.

Não havia sequer curiosidade excessiva.

Era quase irritante.

— Você realmente consegue tratar tudo como um negócio.

— Não tudo.

— O que não?

Vicente pegou novamente a xícara.

— Algumas coisas são importantes demais para serem tratadas como negócios.

Kiraz esperou uma explicação.

Ele não deu.

— Você faz isso de propósito, não faz?

— O quê?

— Responde de um jeito que parece que vai explicar alguma coisa e depois simplesmente me deixa com metade da resposta.

Vicente sorriu de leve.

— Talvez porque você faça perguntas que merecem mais tempo do que uma manhã.

Kiraz apoiou os cotovelos na mesa.

— Então teremos bastante tempo.

— Teremos.

Ela não percebeu a forma como ele disse aquilo.

Como se tivesse certeza.

Como se aquele casamento tivesse começado muito antes daquela assinatura.

Kiraz pegou o telefone.

Havia várias ligações perdidas.

Todas do mesmo número.

Dante.

Seu peito apertou.

Vicente percebeu a mudança em seu rosto.

Não perguntou.

Kiraz ficou alguns segundos olhando para a tela.

Então bloqueou o número.

Vicente apenas continuou tomando café.

— Você não vai perguntar quem era?

— Se você quiser que eu saiba, vai me contar.

Ela levantou os olhos.

— E se eu não contar?

— Continuará sendo sua decisão.

Kiraz respirou fundo.

Pela primeira vez em muito tempo, alguém não estava tentando arrancar dela uma resposta.

E, estranhamente, aquilo a fez querer falar.

Mas ainda não.

Do outro lado da cidade, Dante permanecia diante da janela do próprio escritório.

O telefone ainda estava em sua mão.

Ele havia passado a manhã inteira tentando localizar Kiraz.

Sem sucesso.

Não sabia onde ela estava.

Não sabia por que não respondia.

E não sabia o que Vicente Albuquerque estava fazendo ao lado dela.

Mas havia uma coisa que Dante ainda acreditava saber.

Kiraz o amava.

Sempre amara.

E, por isso, ele tinha certeza de que ela voltaria.

Afinal, ela sempre voltava.

O que Dante ainda não sabia era que, naquela manhã, Kiraz havia colocado uma aliança no dedo.

E o homem que estava ao lado dela não pretendia devolvê-la.

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