로그인Kiraz passou a manhã tentando entender como sua vida havia mudado tão depressa.
Na noite anterior, ela ainda era uma mulher abandonada diante de um altar. Agora era esposa de Vicente Albuquerque. O pior era que ninguém sabia. Ela caminhava pela sala principal da mansão, observando os detalhes ao redor. Tudo naquela casa parecia ter sido pensado para impressionar. O piso de mármore claro refletia a luz que entrava pelas enormes janelas. Havia obras de arte nas paredes, móveis antigos cuidadosamente restaurados e um jardim interno que podia ser visto através das portas de vidro. No entanto, nada parecia realmente vivido. Era bonito. Perfeito. Frio. — Você está procurando alguma coisa? Kiraz virou-se. Vicente estava parado na entrada da biblioteca. — Estou tentando descobrir onde uma pessoa normal conseguiria viver dentro dessa casa. — Não existe nenhum cômodo assim. Ela sorriu. — Pelo menos você reconhece. Vicente entrou na biblioteca. As paredes eram tomadas por estantes de madeira escura, cheias de livros. Uma escada pequena levava ao segundo andar. Kiraz passou os dedos pela lombada de alguns livros. — Você leu tudo isso? — Uma parte. — E a outra? — Está esperando que eu tenha tempo. — Você realmente acha que vai ter tempo para ler depois de se casar comigo? Vicente parou. — Pelo contrato, você não deveria ocupar todo o meu tempo. Kiraz virou-se lentamente. — Pelo contrato? — Foi você quem pediu regras. — E você está levando isso a sério demais. — Você preferiria que eu não levasse? Ela abriu a boca para responder, mas desistiu. Era irritante. Vicente sempre conseguia transformar uma provocação em uma pergunta que a obrigava a pensar. Kiraz voltou a olhar os livros. — Quanto tempo você demorou para preparar tudo? — O quê? — O casamento. Vicente ficou em silêncio por alguns segundos. — Algumas coisas estavam preparadas antes. Ela se virou. — Antes de eu aceitar? — Sim. — Então você já esperava que eu dissesse sim. — Não. — Mas preparou tudo. — Eu prefiro estar preparado para aquilo que quero. Kiraz estreitou os olhos. — E se eu tivesse recusado? — Eu teria perdido uma boa oportunidade. — De se casar comigo? — De descobrir quanto tempo você levaria para mudar de ideia. Ela riu, incrédula. — Você é convencido. — Sou realista. — Existe uma diferença. — Eu sei. Convencimento depende da opinião dos outros. Realismo depende dos fatos. Kiraz cruzou os braços. — E qual é o fato que faz você acreditar que eu mudaria de ideia? Vicente sustentou seu olhar. — Você ainda está aqui. A resposta a deixou sem palavras. Ele passou por ela e seguiu até uma das estantes. Kiraz ficou alguns segundos parada. Odiava quando ele fazia aquilo. Não porque estivesse errado. Mas porque quase sempre estava. Pouco depois do meio-dia, Kiraz recebeu uma mensagem de Cecília. Você está viva? Ela sorriu. Fisicamente. A resposta veio quase imediatamente. E emocionalmente? Kiraz olhou para Vicente, que estava sentado do outro lado da sala, lendo alguns documentos. Ainda investigando. Cecília enviou uma sequência de mensagens. Você realmente casou com ele? Sim. Secretamente? Sim. Com Vicente Albuquerque? Kiraz respirou fundo. Cecília, quantos homens chamados Vicente Albuquerque você conhece? A resposta demorou alguns segundos. Meu Deus. Kiraz começou a rir. Vicente levantou os olhos. — Algum problema? — Nenhum. — Você está rindo. — Eu sei. — Então existe algum problema. Kiraz bloqueou a tela do telefone. — Minha amiga descobriu que eu me casei com você. — Isso foi rápido. — Eu não contei. — Então ela é inteligente. — Ou me conhece bem demais. Vicente voltou aos documentos. — Provavelmente as duas coisas. Kiraz observou-o por alguns segundos. — Você não está preocupado? — Com o quê? — Que alguém descubra. — Eu estaria preocupado se não tivéssemos tomado cuidado. — E nossas famílias? — Não saberão até que seja necessário. — Você tem certeza de que consegue esconder um casamento de duas famílias inteiras? Vicente ergueu os olhos. — Consigo esconder empresas inteiras de pessoas muito mais interessadas do que nossas famílias. — Isso não respondeu. — Respondeu exatamente. Kiraz sentou-se na poltrona diante dele. — Por que você precisa tanto desse casamento? Vicente fechou lentamente a pasta. — Já conversamos sobre isso. — Não conversamos. Você disse que existe uma condição relacionada à sucessão. — E existe. — Mas não explicou qual. — Ainda não é necessário. — Para você. — Para nós dois. Kiraz inclinou a cabeça. — Você percebe que está me pedindo confiança enquanto esconde metade das informações? — Não estou pedindo confiança. — Então o que está pedindo? Vicente a encarou. — Tempo. Ela ficou em silêncio. — Quanto? — O suficiente. — Essa é uma resposta muito conveniente. — Eu sei. — Você gosta de ser irritante? — Não particularmente. — Então por que faz isso? Vicente se recostou na cadeira. — Porque você continua fazendo perguntas para as quais ainda não está preparada para ouvir a resposta. Kiraz sentiu um arrepio. — Você fala como se me conhecesse melhor do que conhece. — Talvez eu conheça algumas partes. — Algumas? — O suficiente para saber que você não aceita respostas incompletas. Ela sorriu de lado. — Finalmente concordamos em alguma coisa. No fim da tarde, Vicente precisou sair. Kiraz ficou sozinha na mansão. Pela primeira vez, teve a sensação de que aquela casa escondia mais coisas do que aparentava. Caminhou pelo corredor principal. Passou pela sala de música. Pela varanda. Pelo jardim interno. Até encontrar uma porta fechada no final de um corredor. Ela tocou na maçaneta. Trancada. Kiraz franziu a testa. Tentou novamente. Nada. — Eu não faria isso. Ela se virou rapidamente. Vicente estava alguns metros atrás. — Você voltou cedo. — Voltei. Kiraz apontou para a porta. — O que tem aqui? — Uma sala. — Eu percebi que é uma sala. Perguntei o que tem dentro. — Coisas particulares. — Da família? — Sim. — Então por que você deixou a porta tão acessível? — Porque portas existem para separar espaços, não para desafiar curiosidade. Kiraz cruzou os braços. — Isso foi uma crítica? — Foi um aviso. — Você sempre fala assim? — Assim como? — Como se cada frase tivesse uma segunda intenção. Vicente aproximou-se. Parou diante dela. — Talvez você esteja procurando uma segunda intenção onde existe apenas uma porta trancada. Kiraz ergueu o rosto para encará-lo. — E talvez você esteja muito acostumado a esconder coisas. Por alguns segundos, nenhum dos dois desviou o olhar. Então Vicente pegou a chave do bolso. Kiraz observou. Ele não abriu a porta. Apenas passou por ela. — Algumas coisas precisam permanecer fechadas. Ela o acompanhou com os olhos. — Até quando? Vicente parou no fim do corredor. Olhou para trás. — Até que seja a hora certa de abrir. E foi embora. Kiraz ficou sozinha. A porta continuou fechada. Naquela mesma noite, Dante estava sentado diante de uma pilha de documentos que não havia conseguido ler. Sua atenção estava em outro lugar. Kiraz. Ele havia ligado mais vezes. Nada. Mandado mensagens. Nenhuma resposta. Tentado descobrir onde ela estava. Nada. Dante nunca havia experimentado aquilo. Não porque Kiraz nunca tivesse se afastado. Ela já havia ficado brava. Já havia passado dias sem falar com ele. Mas sempre voltava. Sempre. Ele abriu uma fotografia antiga que estava sobre a mesa. Kiraz sorria ao lado dele. Ela estava usando um vestido vermelho. Dante lembrava daquele dia. Lembrava também do que ela havia dito. “Eu quero ficar com você, mesmo quando tudo ficar difícil.” Ele acreditara. Talvez ainda acreditasse. Pegou o telefone novamente. Dessa vez, não ligou. Apenas escreveu: Precisamos conversar. Ficou olhando para a mensagem. Depois enviou. Em outro ponto da cidade, o telefone de Kiraz vibrou. Ela olhou para a tela. Dante. Por alguns segundos, seu dedo ficou sobre a mensagem. Ela poderia responder. Poderia perguntar por que ele não apareceu. Poderia exigir uma explicação. Poderia perguntar onde ele estava quando ela passou horas sozinha naquela igreja. Mas não fez nada. Bloqueou o telefone. E deixou-o sobre a mesa. — Não vou voltar — sussurrou para si mesma. Atrás dela, Vicente apareceu na porta. Ele havia ouvido. Não comentou. Apenas observou Kiraz por alguns segundos. Ela não percebeu. E, pela primeira vez desde que haviam assinado aquele acordo, Vicente pareceu compreender que aquela história seria muito mais complicada do que havia previsto. Porque uma coisa era ter Kiraz como esposa. Outra, completamente diferente, seria vê-la deixar de amar Dante Soares. E Vicente sabia que algumas mudanças não aconteciam por força de um contrato. Aconteciam lentamente. Quase sem que a pessoa percebesse. Ele fechou a porta atrás de si. E deixou Kiraz sozinha com a própria decisão.Capítulo — Quando o mundo souberÀs duas e quarenta da tarde, a sala de imprensa já estava praticamente preparada.O espaço escolhido pela equipe de comunicação de Vicente ocupava o auditório principal da sede da empresa, no alto de um edifício envidraçado que dominava parte do centro financeiro da cidade. Pelas paredes de vidro, era possível observar o movimento dos carros nas avenidas, o reflexo dos prédios vizinhos e o céu claro que começava a perder a intensidade do meio-dia.Lá dentro, porém, toda a atenção estava concentrada no palco.O painel com o nome da empresa ocupava a parede central. À direita, uma tela exibia as primeiras imagens do novo empreendimento imobiliário: construções baixas, madeira, vegetação abundante, caminhos de areia clara e pequenas estruturas distribuídas ao longo da costa. O projeto havia sido concebido para oferecer uma experiência de vila à beira-mar, com bangalôs, cafés, restaurantes e espaços de convivência integrados à paisagem.As primeiras fileir
Naquela noite, nenhum dos dois dormiu direito.Kiraz entrou no quarto, fechou a porta e permaneceu alguns segundos encostada nela.O silêncio do ambiente parecia diferente.Ela já havia tomado banho, trocado de roupa, prendido parte dos cabelos ainda úmidos e organizado algumas coisas sobre a penteadeira. Tudo estava no lugar.Menos seus pensamentos.Ela se sentou na beirada da cama.Por alguns segundos, tentou pensar apenas no dia seguinte.A coletiva.A família.O anúncio.As perguntas que certamente surgiriam.O casamento que, até então, existia apenas dentro de uma pequena bolha protegida dos olhos do mundo.Mas seus pensamentos insistiam em voltar para o escritório.Para o momento em que Vicente havia lido o cartão.Kiraz fechou os olhos.Ela tinha visto.Não precisava que ele dissesse.A mudança havia acontecido diante dela.A mão apertando o papel.Os nós dos dedos embranquecendo.A mandíbula rígida.Aquele olhar que não era exatamente raiva, mas também estava muito distante da
Dante ainda estava parado diante da mesa de Kiraz.Os olhos continuavam presos à mão dela.Ao anel.Era pequeno.Discreto. Elegante.E, justamente por isso, parecia ainda mais difícil acreditar nele.Dante tentou afastar o olhar, mas não conseguiu.Talvez fosse uma encenação.Era a primeira explicação que sua mente conseguia encontrar.Talvez Kiraz tivesse colocado aquele anel justamente para fazê-lo parar. Talvez tivesse sido uma decisão tomada no impulso, uma forma de estabelecer uma barreira que ela sabia que ele não conseguiria ignorar.Talvez Vicente tivesse comprado aquilo apenas para sustentar uma aparência.Um casamento.Uma história conveniente.Uma maneira de encerrar perguntas.Dante agarrou-se a essas possibilidades como alguém que se recusa a aceitar a porta fechada diante de si.Porque, se aquilo fosse realmente um casamento, então significava que ele havia perdido Kiraz.Não apenas perdido a oportunidade de recuperá-la.Perdido a mulher que, por tanto tempo, ele acredi
A manhã avançava na empresa de Kiraz com a normalidade possível.Reuniões.Documentos.Telefonemas.Pessoas entrando e saindo de sua sala.O trabalho não tinha diminuído apenas porque sua vida pessoal parecia ter decidido concentrar acontecimentos demais em um único período.Kiraz estava inclinada sobre alguns relatórios quando sua secretária apareceu.— Kiraz, chegou uma entrega para você.Dante entrou na sala de Kiraz sem saber que aquele dia seria diferente de todos os outros.Tinha ido até ali porque precisava vê-la.Não sabia exatamente o que esperava encontrar.Talvez a mesma mulher que, apesar de tudo, ainda guardava algum espaço para ele. Talvez uma brecha em alguma conversa. Talvez apenas um olhar que confirmasse aquilo que ele insistia em acreditar: que a história dos dois ainda não tinha terminado completamente.Então viu as flores.O buquê estava sobre a mesa.Não era pequeno.Era cuidadosamente montado, elegante, com rosas em tons claros, flores brancas de pétalas delicad
A noite estava fresca quando o carro de Vicente entrou pelo portão da casa de seus pais.Kiraz observou a fachada pela janela.A casa era grande, mas não tinha a imponência fria que ela esperava. Havia árvores antigas ao redor do jardim, vasos de flores espalhados perto da entrada e pequenas luminárias iluminando o caminho até a porta. As janelas do térreo deixavam escapar uma luz quente, e, de algum lugar, vinha o aroma de comida recém-preparada.Ela respirou fundo.Vicente percebeu.— Você está nervosa.— Um pouco.— Não precisa.— Você fala isso porque está chegando na casa dos seus pais. Eu estou entrando pela primeira vez na casa dos meus sogros.Ele desligou o motor e virou o rosto para ela.— Minha mãe não está esperando uma apresentação formal.— Eu sei.— Ela quer conhecê-la.Kiraz sorriu.— Isso me deixa mais nervosa ainda.— Por quê?— Porque quando alguém quer realmente conhecer a gente, não adianta escolher uma roupa bonita e responder educadamente às perguntas. Em algum
A noite já havia tomado conta da casa dos pais de Kiraz quando os dois finalmente se despediram. As luzes do jardim permaneciam acesas, espalhando pequenos círculos dourados pelo caminho de pedras. O ar estava fresco, e uma brisa leve fazia as folhas das árvores se movimentarem acima deles. Da cozinha ainda vinha um cheiro discreto de café e canela, lembrança do jantar que havia terminado alguns minutos antes. Kiraz estava junto à porta, abraçada à mãe. — Agora eu realmente vou — disse, rindo. Catarina segurou os braços da filha antes de soltá-la. — Você falou isso há cinco minutos. — Porque você continua arranjando assunto. — Sou sua mãe. Tenho esse direito. — Direito a cinco minutos extras? — No mínimo. Kiraz riu. — Está bem. Mas agora eu vou mesmo. Catarina ajeitou uma mecha do cabelo da filha. — Me avisa quando chegar. — Mãe, é tarde. Você não precisa ficar esperando. — Eu não disse que vou ficar esperando acordada. Disse para me avisar. — Está bem. — E se estive







