LOGINBeatriz não tentava esconder a aversão. Em seus olhos, não havia nenhum vestígio de apego.Gabriel sentiu um aperto tão forte no coração que mal conseguiu respirar.Então, lembrou da vizinha dizendo que o namorado de Beatriz tinha ajudado na mudança. O ciúme tomou conta dele.Sua voz saiu contida, mas carregada de uma agressividade que ele próprio não percebeu:— Está com tanta pressa de se divorciar porque gosta de outro? Rodrigo? Rafael? Ou... Marcelo?Um tapa interrompeu a pergunta.Beatriz tremia de raiva.— Você me traiu, engravidou outra e agora quer me acusar? Não tem vergonha?O rosto de Gabriel virou para o lado. Logo, as marcas dos dedos ficaram visíveis na pele.Ele parecia não sentir dor. Continuou parado, encarando Beatriz, que ainda tremia de indignação, enquanto um vazio gelado tomava seu peito.Toda a negligência e todo o sofrimento do passado tinham sido culpa dele.Após alguns segundos em silêncio, Gabriel avançou um passo.Sua altura e sua presença fizeram Beatriz se
Beatriz interrompeu com uma risada amarga.— Você não mede esforços pela Vanessa mesmo. Pena que eu não quero nada do que está oferecendo!Ela se virou, sem disposição para perder mais um segundo naquela conversa, mas Gabriel segurou seu pulso.— Calma. Me escuta.Ele tinha pensado muito nos últimos dias. Finalmente entendera que a promessa de cuidar de Vanessa não obrigava a casar com ela.Depois de refletir tantas vezes, tinha certeza de que não a amava. O que realmente causava tristeza e inquietação era a frieza de Beatriz, a distância que ela mantinha. Desde sua partida, o sofrimento só aumentava.Para Gabriel, seu erro tinha sido dormir com Vanessa depois de beber e deixar que ela engravidasse.Já decidira que, assim que aquele problema terminasse, explicaria tudo a Vanessa. Poderia oferecer cuidados e apoio financeiro sem casamento. Quanto à gravidez, respeitaria a escolha dela.Chegara até a pensar em tentar um recomeço com Beatriz.Gabriel encarou seus olhos, mais sério do
Beatriz ficou desolada.— Por que ninguém me contou?— Ela não deixou. Tinha medo de que esses problemas abalassem você. E se sente tão culpada pelo que aconteceu que diz não ter coragem de encarar você.Beatriz sentiu um nó na garganta, dividida entre o carinho e a tristeza.Alzira nunca tinha feito mal a ela. Pelo contrário: depois da morte de seus pais, fora Alzira quem oferecera afeto sem reservas e fizera Beatriz sentir outra vez o acolhimento de uma família.Ela pegou a bandeja.— Eu levo.Bateu de leve e entrou no quarto.As cortinas quase fechadas deixavam o ambiente na penumbra. Alzira estava deitada de costas para a porta e respondeu com uma voz fraca e irritada:— Já disse que não quero. De que adianta tomar remédio todo dia? Pode levar.Beatriz se aproximou da cama.— Assim não dá, vó. Precisa tomar os remédios direitinho para melhorar.Alzira ficou imóvel por um instante e se virou, sem acreditar.— O que você está fazendo aqui?Beatriz se sentou na beira da cama. Ao ver
Ele usava um avental com um ursinho de desenho animado, que não combinava em nada com sua imagem de sempre.Beatriz demorou um instante a reagir, ligeiramente constrangida.— Bom dia, Marcelo.Ele ergueu os olhos.— Bom dia.Na noite anterior, Marcelo ficou preocupado em deixar as duas sozinhas e acabou dormindo no sofá.Ele indicou uma tigela sobre a mesa.— Fiz uma sopa leve de legumes. Já está boa para tomar. Experimenta um pouco. Deve ajudar você a melhorar.— Obrigada.Beatriz se sentou e tomou a sopa. O calor desceu pela garganta, aliviando um pouco o mal-estar.Isadora saiu do quarto de hóspedes esfregando os olhos. Ao ver a mesa farta, arregalou os olhos de surpresa.— Marcelo, desde quando você cuida tão bem dos outros? Até fez o café da manhã! Meu Deus, só estou comendo uma coisa preparada por você graças à Beatriz!Ele ignorou a provocação e tirou o avental com movimentos ágeis e elegantes.Nesse momento, o celular sobre a mesa tocou. Marcelo atendeu, respondeu em poucas pal
Beatriz já estava bem bêbada, com os olhos úmidos e o olhar desfocado. Achou graça na conversa e respondeu sem pensar, a voz amolecida pelo álcool:— Já. Eu quero.Marcelo preparava a carne para as duas e tinha uma fatia presa na pinça. Ao ouvir a resposta, interrompeu o movimento.Beatriz pareceu considerar a ideia e perguntou, ainda embriagada:— Então, se eu casar com o Marcelo, a gente vira uma família? Vamos poder morar juntas?Isadora assentiu com entusiasmo.— Claro! A gente fica no mesmo quarto, e o Marcelo dorme com o Neve. Perfeito!Um sorriso bobo se abriu no rosto de Beatriz.— Que ideia boa.Ao lado delas, Marcelo não sabia se ria ou lamentava.As duas brindaram mais uma vez, empolgadas. Pouco depois, vencidas pela bebida, acabaram debruçadas sobre a mesa.Marcelo observou a cena e esfregou a testa, resignado. Primeiro, acomodou Isadora no quarto de hóspedes. Depois, ajudou Beatriz, que estava ainda mais bêbada, a subir até a suíte principal.Ele ajeitou Beatriz na cama
Naquela noite, Gabriel estacionou diante do prédio de Beatriz.Fumava com a janela aberta. A brasa do cigarro oscilava entre seus dedos, e várias bitucas já se acumulavam no cinzeiro.Ele sabia como era cruel pedir que Beatriz perdoasse quem tinha causado tanto sofrimento e assinasse uma declaração de acordo. Ela nem tinha se recuperado, e ele estava prestes a machucar outra vez.Em meio à fumaça, Gabriel mantinha a testa franzida e um olhar mais sombrio que a noite.Mas a imagem de Vanessa chorando diante do túmulo de Samuel insistia em voltar. Ele sentia que não havia outra escolha.Por fim, tomou uma decisão. Apagou o último cigarro com força, pegou o celular e ligou para o número que conhecia tão bem.Uma gravação informou que não era possível completar a chamada.Gabriel ficou parado por um instante, até se lembrar de que Beatriz já tinha bloqueado o número dele.A irritação e a angústia voltaram. Ele saiu do carro, subiu e bateu à porta conhecida, mas ninguém respondeu.A port







