LOGINA floresta parecia viva naquela noite, eu conseguia sentir isso.
O vento atravessava as árvores como um sussurro sombrio, fazendo os galhos estremecerem acima da minha cabeça enquanto eu corria sem direção entre a escuridão, minhas pernas doíam, meu peito queimava. O vestido branco da cerimônia arrastava-se pela terra húmida, rasgando nos espinhos e prendendo-se às raízes grossas espalhadas pelo chão da floresta Black Moon, mas eu não conseguia parar, porque toda vez que fechava os olhos, eu ouvia aquela palavra novamente. "Companheira." Minha garganta apertou. Não. Aquilo não podia ser real, não podia. Kael era meu irmão. Meu irmão. Passei os braços ao redor do próprio corpo enquanto cambaleava por entre as árvores, tentando controlar a respiração irregular, minha mente parecia presa dentro de uma tempestade, as imagens da clareira continuavam voltando repetidamente, como facas atravessando minha cabeça. Os olhos dourados dele, o rugido do seu lobo, o horror no rosto dos anciões. O silêncio, principalmente o silêncio. Nunca esquecerei aquele silêncio, era como se o mundo inteiro tivesse parado de respirar junto comigo. Tropecei em uma raiz e caí de joelhos na terra molhada, a dor atravessou minhas pernas, mas mal senti. Meu corpo inteiro estava dormente demais para isso. As árvores balançavam violentamente acima de mim enquanto gotas frias começavam a cair do céu. Chuva. Perfeito. A própria lua parecia chorar comigo, soltei uma risada fraca e desesperada antes de cobrir o rosto com as mãos. O que eu deveria fazer agora? Voltar para a alcateia? Encarar aquelas pessoas depois do que aconteceu? Depois de todos terem ouvido? Meu estômago se revirou, eu já era motivo de vergonha antes, agora seria pior, muito pior. A garota sem loba, sem aberração, a irmã destinada ao próprio irmão. As lágrimas começaram a escapar pelos meus dedos antes que eu percebesse. Eu odiava chorar, odiava parecer fraca, mas naquela noite tudo dentro de mim parecia desmoronar. Passei anos tentando entender por que Kael me odiava e agora finalmente sabia. Porque ele sabia, talvez não desde o começo… mas sabia. Meu coração apertou ao lembrar do olhar dele durante todos aqueles anos. A distância, a frieza, o modo como evitava me tocar. Como se estivesse constantemente lutando contra si mesmo. Não era ódio, era medo. Meu peito queimou ainda mais com aquela percepção. Levantei lentamente, apoiando a mão no tronco de uma árvore, quando um estalo ecoou atrás de mim. Meu corpo inteiro congelou, o cheiro veio primeiro. Pinheiro. Chuva. E aquele aroma selvagem e perigosamente familiar que sempre fazia meu coração acelerar sem minha permissão. Kael. Fechei os olhos imediatamente. Não. Eu não queria olhar para ele, não queria vê-lo, porque tinha medo do que encontraria naquele rosto. Ou pior… Do que sentiria. Os passos pesados se aproximaram devagar atrás de mim, silenciosos para qualquer humano e ensurdecedores para mim. Meu coração batia tão forte que parecia querer rasgar meu peito. Então a voz dele atravessou a chuva. — Você não deveria estar sozinha na floresta. Rouca, baixa... Arrepios subiram pela minha pele inteira, durante anos eu sonhei em ouvir preocupação na voz dele novamente, mas não daquela forma, não depois daquilo. Engoli em seco e continuei olhando para frente. — Vá embora. Silêncio. A chuva aumentou entre nós. Eu conseguia ouvir sua respiração pesada atrás de mim, controlada à força. Como se estivesse lutando para manter algo preso e então — Selene… — Não me chama assim! — virei-me bruscamente, sentindo a dor explodir dentro do peito. — Não depois do que aconteceu! Os olhos dourados dele encontraram os meus imediatamente, e pela primeira vez em anos… eu vi Kael quebrar de verdade. Ele parecia destruído. A chuva escorria pelos fios negros do seu cabelo, deslizando pela pele marcada do rosto e desaparecendo sob a camisa escura grudada em seu corpo. Kael sempre foi assustadoramente bonito, mas naquela noite havia algo diferente nele. Algo mais bruto, mais selvagem, como se sua loba estivesse perigosamente próxima da superfície. Os olhos dourados brilhavam intensamente na escuridão, fixos em mim. Sempre em mim. — Você acha que eu queria isso? — ele perguntou baixinho. Minha garganta fechou, porque não havia raiva em sua voz, só dor, uma dor absurda, quase insuportável. — Você mentiu pra mim a vida inteira — sussurrei. O maxilar dele travou. — Eu tentei proteger você. — Me protegendo de quê?! Ele não respondeu, apenas desviou os olhos por um segundo. E aquilo foi suficiente para aumentar ainda mais o vazio dentro de mim. — Eles estavam certos sobre mim esse tempo todo? — minha voz falhou. — Eu sou algum tipo de erro? Kael ergueu os olhos imediatamente e o modo como ele me olhou fez meu coração parar.l, intenso, violento, quase furioso. — Nunca diga isso outra vez. A força na voz dele me assustou, me fazendo dar um passo para trás instintivamente. Os olhos dourados percorreram meu rosto rapidamente e ele fechou os punhos como se odiasse o fato de ter me assustado. Então desviou o olhar, outra vez, sempre desviando e fugindo. O vento soprou forte entre nós, a chuva colava meu vestido na pele enquanto o frio começava finalmente a atravessar meu corpo, mas eu mal conseguia sentir. Porque algo pior queimava dentro de mim. A pergunta que eu nunca tive coragem de fazer. Até agora. — Você me odeia? O silêncio caiu imediatamente. Kael ficou imóvel. Tão imóvel que parecia uma estátua esculpida na própria escuridão da floresta. Então ele soltou uma risada fraca, mas não havia humor nela. Só sofrimento. — Se eu odiar você, talvez isso me torne menos monstruoso. Meu coração afundou. — Então é verdade… — Não. — Ele deu um passo na minha direção. — Não coloca palavras na minha boca. Recuei imediatamente e aquilo pareceu destruí-lo por dentro. Os músculos do maxilar dele endureceram. A respiração ficou mais pesada. — Você tem medo de mim agora — ele murmurou. Não era uma pergunta, era constatação. Olhei diretamente para ele e percebi algo terrível naquele instante. Eu não tinha medo dele, talvez devesse, talvez qualquer pessoa normal teria. Mas meu corpo nunca aprendeu a temer Kael, nem quando ele se tornou o guerreiro mais mortal da alcateia, nem quando todos começaram a evitá-lo, e nem quando seus olhos brilhavam daquele jeito animalesco. Meu coração sempre correu na direção dele. Mesmo quando ele me destruía. — Eu não sei o que sentir — admiti com sinceridade. Os olhos dele suavizaram por um segundo, só por um mero segundo. Então algo mudou, Kael ficou rígido imediatamente, seu rosto perdeu a pouca cor que ainda tinha e ele virou a cabeça lentamente para a floresta atrás de nós. Escutando. Meu corpo inteiro arrepiou. — O quê? — perguntei baixo. Ele não respondeu. O vento trouxe um cheiro metálico. Sangue. Muito sangue. Kael fechou os olhos por um instante, como se estivesse amaldiçoando alguma coisa internamente. Então segurou meu braço, ebo simples toque dele quase fez meu corpo inteiro incendiar. A reação foi tão intensa que nós dois congelamos, os olhos dourados encontraram os meus. Choque atravessou o rosto dele, porque ele sentiu também, minha respiração falhou. Algo estranho percorreu minha pele inteira naquele instante. Uma corrente quente, viva, pulsando diretamente no lugar onde ele me tocava. O vínculo. Meu Deus. Aquilo era o vínculo. Kael soltou meu braço imediatamente como se tivesse sido queimado. Mas já era tarde, eu senti e ele também. A tensão explodiu entre nós tão forte que mal consegui respirar, então um uivo cortou a floresta. Longo, sombrio, perigoso. Kael virou-se imediatamente, seus olhos ficaram ainda mais dourados, mais animalescos. — Eles estão vindo — ele disse. Meu coração disparou. — Quem? Ele me encarou por dois segundos. E pela primeira vez desde que o conhecia… vi medo real nos olhos de Kael Valemont. — Os anciões.— Minha filha voltou para casa.A voz atravessou a montanha e chegou até nós com uma clareza impossível. Não era uma voz distante, não parecia ter vindo da aldeia abaixo. Era como se tivesse sido pronunciada dentro da minha própria cabeça.Fiquei paralisada.A mulher continuava diante da casa de Alaric.O vestido branco movia-se suavemente com o vento. Os cabelos dourados caíam sobre os ombros, exatamente como eu me lembrava dos retratos que tinha visto escondida quando era criança. O rosto era delicado, quase sereno, e os olhos tinham aquele mesmo azul luminoso que eu carregava.Não podia ser outra pessoa.Era ela.Era Lyanna.Minha mãe.A mulher que todos disseram ter morrido quando eu nasci. A mulher cujo túmulo eu nunca tinha visitado porque Alaric sempre dizia que os restos dela tinham sido enterrados longe de Black Moon.A mulher que eu tinha passado dezoito anos imaginando apenas através
— Filha.A palavra atravessou o templo como um sopro vindo de um lugar que não pertencia ao mundo dos vivos.Fiquei imóvel.Kael apertou a minha mão.O contacto deveria ter-me tranquilizado, mas naquele momento até a presença dele parecia distante. Eu só conseguia olhar para o chão onde Darius tinha desaparecido. A rachadura havia fechado completamente. Não havia sangue, marcas ou qualquer vestígio de que alguém tivesse sido arrastado para dentro dela.Nada.Apenas as pedras negras e o símbolo circular que continuava brilhando sob os nossos pés.— O que foi isso? — perguntei.Ninguém respondeu.Olhei para Lucien, ele estava pálido. Foi a primeira vez que o vi realmente assustado, não preocupado, não surpreso.Assustado.— Lucien?Ele não tirava os olhos do chão.— Não deveria ter acontecido.Kael soltou a minha mão e aproximou-se dele.— O que não deveria ter acontecido?Lucien continuou em silêncio.— Responda.— Ela não deveria ter chamado por Selene.— Quem?Lucien levantou lentame
O mundo desapareceu debaixo dos meus pés. Não houve tempo para gritar, correr ou sequer procurar Kael. Num segundo, eu estava diante dele, vendo o sangue escuro escorrer pelo seu peito e as sombras se espalharem pelo chão como criaturas vivas, no seguinte, uma explosão de luz e escuridão atravessou a floresta inteira, tão violenta que senti o meu corpo ser arrancado do lugar. Árvores foram partidas ao meio, pedras levantaram-se do chão e o ar pareceu rasgar-se ao nosso redor. Ouvi vozes, ouvi alguém chamar o meu nome, ouvi Kael gritar alguma coisa que não consegui entender, mas tudo ficou distante, como se eu estivesse afundando num lago profundo. Tentei estender a mão na direção dele. Os meus dedos encontraram apenas o vazio. Então veio o silêncio. Um silêncio tão absoluto que, durante alguns segundos, não soube se ainda estava viva. Abri os olhos devagar, o céu estava diferente. Não havia árvores acima de mim, nem a lua de sangue, nem as nuvens pesadas que cobriam Black Moon na
Meu coração disparou tão forte que chegou a doer.O vento voltou a soprar violentamente entre as árvores enquanto aqueles homens permaneciam diante de nós como sombras vivas saídas de algum pesadelo. Todos eram altos, vestidos inteiramente de preto, com olhos negros iguais aos de Kael quando perdia o controle da corrupção. Mas havia uma diferença, os olhos deles não pareciam lutar contra a escuridão, pareciam aceitá-la. Meu corpo inteiro arrepiou.Kael deu um passo à frente imediatamente, posicionando-se completamente diante de mim. As sombras negras subiam lentamente por seus braços outra vez, vibrando como fumaça viva ao redor do corpo dele.Os homens sorriram, como se aquilo os divertisse.O que estava à frente inclinou levemente a cabeça ao observar Kael.— Faz anos desde a última vez que vi um descendente puro da linhagem Valemont.A voz dele era grave e estranhamente calma, perigosa.Kael não respondeu.Os músculos do maxilar dele estavam rígidos demais.Lucien permanecia imóvel
Eu deveria ter me afastado, talvez qualquer pessoa normal teria feito isso.Talvez qualquer garota sensata teria corrido no instante em que Kael disse aquelas palavras, no instante em que Lucien revelou que a escuridão dentro dele poderia me destruir também. Talvez eu devesse estar apavorada com tudo aquilo, com o vínculo, com a profecia, com o monstro escondido sob a pele do homem que passei a vida inteira tentando entender, mas eu não conseguia sair dali.Porque Kael estava olhando para mim como alguém prestes a perder a única coisa que ainda o mantinha vivo, e aquilo destruiu qualquer força que eu tinha para ir embora.A chuva havia parado completamente agora. Restava apenas o cheiro de terra molhada, sangue e madeira quebrada espalhado pela floresta escura. Os guerreiros permaneciam afastados, tensos, assustados demais para se aproximarem novamente. Theron observava tudo com os olhos estreitos, claramente tentando decidir qual seria seu próximo movimento.Mas naquele momento, nada
O silêncio caiu sobre a floresta como uma maldição, nem o mesmo vento ousava soprar.Meu corpo inteiro ficou rígido enquanto aquela voz ecoava entre as árvores escuras. Havia algo profundamente errado nela, não era alta. Não era monstruosa como os rugidos de Kael. Pelo contrário, era calma, controlada.E talvez fosse exatamente isso que a tornava tão assustadora, porque monstros que gritam podem perder o controle, mas monstros silenciosos não.Meu coração começou a bater mais rápido quando percebi uma coisa terrível, até Kael parecia muito tenso.A mão dele ainda tocava meu rosto, quente e enorme contra minha pele fria pela chuva, mas os dedos endureceram instantaneamente.Os olhos dourados fixaram-se além de mim, mortais, predatórios.Lentamente virei a cabeça, e o vi.Uma figura masculina surgiu entre as árvores como se a própria escuridão estivesse abrindo espaço para sua passagem. Ele usava um sobretudo negro longo que se misturava perfeitamente à noite, e seus passos eram lentos,







