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Capítulo 2

Author: Cláu
last update publish date: 2026-09-19 21:15:30

Meu corpo inteiro gelou.

— Os anciões? — repeti quase sem voz.

Kael continuava olhando para a escuridão atrás das árvores, completamente alerta. Cada músculo do seu corpo estava rígido, pronto para atacar ao menor sinal de ameaça. A chuva escorria lentamente por sua pele enquanto o vento agitava os fios negros do seu cabelo, transformando-o em algo ainda mais perigoso naquela floresta escura, mas não era apenas perigoso.

Era assustadoramente lindo e percebi isso no pior momento possível.

Meu estômago se revirou imediatamente.

O que havia de errado comigo? Talvez eu estivesse enlouquecendo.

Talvez toda aquela situação tivesse quebrado alguma coisa dentro da minha cabeça, porque não fazia sentido meu coração acelerar daquele jeito justamente agora.

Não depois do que descobri, não depois da palavra que ouvi sair da boca da sua loba diante da alcateia inteira.

Companheira.

Aquela palavra ainda parecia errada dentro de mim, proibida e muito pesada.

Meu peito apertou novamente, Kael virou o rosto lentamente na minha direção.

— Você precisa sair daqui.

A firmeza na voz dele me arrancou dos pensamentos imediatamente.

— Não vou fugir.

— Selene.

— Não! — dei um passo para trás. — Passei a vida inteira sem entender nada! Sem saber o motivo de você me tratar daquele jeito! E agora que finalmente as respostas começaram a aparecer você quer que eu simplesmente corra?!

Os olhos dourados dele se fecharam por um instante, como se estivesse perdendo a pouca paciência que ainda tinha.

— Isso não é um jogo.

— Então me explica!

O trovão cortou o céu acima de nós.

A chuva aumentou ainda mais, forte o suficiente para dificultar minha visão, mas eu não desviei os olhos dele nem por um segundo.

Kael respirou fundo, uma vez, duas, como alguém tentando desesperadamente manter o controle.

Então finalmente falou.

— Você não entende o que aconteceu naquela clareira.

— Então me faz entender!

A mandíbula dele travou imediatamente, os olhos dourados desceram por um segundo até minha boca antes de subir novamente, foi rápido. Muito rápido, mas suficiente para fazer algo estranho estremecer dentro do meu peito.

Algo quente, algo vivo...Meu coração começou a bater ainda mais forte.

Droga.

Kael percebeu, ele sempre percebia tudo relacionado a mim.

O rosto dele endureceu imediatamente.

— O vínculo já começou.

Meu corpo congelou.

— O quê?

A voz saiu mais baixa do que eu pretendia, Kael desviou os olhos como se tivesse raiva de si mesmo por dizer aquilo em voz alta.

— Companheiros destinados sentem um ao outro, emoçõe, presença, desejo e dor.

Meu estômago afundou violentamente.

Desejo.

A palavra ecoou dentro da minha cabeça de forma cruel.

— Não — balancei a cabeça imediatamente. — Não. Isso não faz sentido.

— Você acha que eu não sei disso?

A brutalidade na voz dele me fez encará-lo outra vez, Kael parecia à beira de perder o controle. Havia algo feroz em seus olhos agora.

Algo perigosamente instável.

Ele passou a mão molhada pelo rosto e soltou uma respiração pesada antes de continuar:

— Passei anos tentando impedir isso.

Meu peito apertou.

— Você já sabia…

Silêncio.

O silêncio foi resposta suficiente.

Senti o ar desaparecer dos meus pulmões.

— Desde quando?

Kael demorou alguns segundos para responder.

A chuva continuava caindo entre nós, pesada e fria, mas eu mal sentia, porque algo pior estava se formando dentro de mim, medo, não dele, mas da verdade.

— Desde o dia em que você nasceu.

Meu coração falhou uma batida, fiquei imóvel, sem conseguir respirar direito.

Fiquei imóvel.

— O quê…?

Os olhos dele finalmente encontraram os meus novamente, e havia tanta culpa ali que quase doeu olhar.

— Eu ouvi meu lobo pela primeira vez quando segurei você no colo ainda bebê.

O mundo pareceu inclinar sob meus pés.

— Não…

— Eu não entendia na época, era criança também. Só sabia que algo dentro de mim reagia à sua presença de um jeito diferente. Conforme fui crescendo… piorou.

Minha garganta queimava.

Kael desviou os olhos outra vez.

— Quando você fazia sete anos eu já não conseguia ficar perto de você por muito tempo.

As memórias vieram imediatamente, as mudanças, o afastamento, o jeito como ele começou a me evitar.

Meu peito apertou tanto que doeu fisicamente.

— Então todos esses anos…

— Foram uma tentativa desesperada de proteger você.

A dor na voz dele quase me destruiu.

Eu queria odiá-lo, eu queria gritar, queria dizer que ele arruinou minha vida, mas parte de mim conseguia enxergar algo terrível naquela situação.

Kael sofreu tanto quanto eu, talvez mais, porque enquanto eu cresci sem respostas, ele cresceu carregando uma verdade impossível sozinho.

O vento soprou forte entre as árvores, e então ouvi outro uivo, mais perto dessa vez.

Kael ficou rígido imediatamente, seus olhos dourados brilharam intensamente.

— Eles estão caçando você agora.

Meu sangue gelou.

— Por quê?

Ele me encarou em silêncio.

E o modo como hesitou antes de responder fez meu estômago afundar.

— Porque a profecia começou.

Aquelas palavras atravessaram meu peito como gelo.

— Que profecia?

Kael abriu a boca, mas outro som ecoou pela floresta antes que pudesse responder.

Passos, muitos passos rápidos.

Meu coração disparou, Kael me puxou imediatamente para trás dele, o gesto foi tão automático que percebi tarde demais o quanto aquilo parecia natural para ele.

Me proteger, sempre me proteger, mesmo quando fingia não querer.

As árvores começaram a balançar violentamente, sombras surgiram entre a chuva.

Cinco homens apareceram lentamente entre a floresta usando mantos negros da ordem dos anciões. O mais velho deles caminhava à frente, apoiando-se numa bengala de madeira escura entalhada com símbolos antigos da lua.

Ancião Theron.

Meu corpo inteiro endureceu, os olhos dele pousaram diretamente em mim.

Sem calor, sem compaixão, como se eu fosse um problema, uma ameaça.

Kael deu um passo à frente imediatamente, rosnando baixo.

O som vibrou pela floresta inteira, meu coração disparou.

Nunca o vi daquele jeito, nem mesmo nos treinos da alcateia.

Os homens atrás de Theron recuaram discretamente, todos tinham medo de Kael, e naquele momento eu finalmente entendi por quê.

Havia algo monstruoso nele quando estava assim, algo primitivo, letal.

Theron suspirou lentamente antes de falar:

— Afaste-se dela, Kael.

A mandíbula dele endureceu.

— Não.

A resposta saiu imediata, fria, perigosa. Os olhos do ancião estreitaram-se.

— A ligação já aconteceu, a garota precisa ser levada.

Meu coração afundou.

— Levada pra onde? — perguntei antes que pudesse me impedir.

Theron olhou para mim lentamente e o desconforto percorreu minha pele inteira.

— Há verdades que precisam ser reveladas, criança.

Kael soltou um rosnado feroz.

— Você não vai tocar nela.

O vento explodiu ao nosso redor, a tensão ficou sufocante imediatamente.

Theron apoiou as duas mãos sobre a bengala.

— Você sabe o que ela é.

Silêncio.

Meu coração começou a bater ainda mais rápido.

O quê?

O que eu era?

Olhei imediatamente para Kael, mas ele continuava encarando os anciões com os olhos perigosamente dourados.

— Ela não pertence a vocês.

Theron inclinou levemente a cabeça.

— Ela pertence à profecia.

Meu corpo inteiro arrepiou, aquilo estava começando a me assustar de verdade.

— Parem de falar como se eu não estivesse aqui! — explodi finalmente. — Alguém pode me explicar o que está acontecendo?!

Os olhos do ancião vieram para mim novamente, epela primeira vez vi algo diferente neles.

Pena.

— A lua finalmente despertou você, Selene.

Meu estômago apertou.

— Eu não entendo…

Theron abriu a boca, mas Kael falou primeiro.

— Não.

A voz dele saiu mortal, fria o suficiente para fazer até a chuva parecer menor.

— Ela não vai ouvir isso de você.

Os homens atrás do ancião ficaram tensos imediatamente.

Theron suspirou, cansado, como se aquilo fosse inevitável.

— Você realmente acredita que consegue protegê-la do destino?

Kael ficou em silêncio e aquele silêncio respondeu tudo.

Porque não.

Nem ele acreditava nisso, meu coração apertou ao perceber.

Theron então voltou os olhos diretamente para mim.

— Há centenas de anos nasceu uma criança durante uma Lua de Sangue. Dizem que ela carregava o poder da própria deusa dentro da alma. Um poder capaz de unir alcateias… ou destruí-las completamente.

O vento soprou violentamente, eu mal conseguia respirar.

— Essa criança ficou conhecida como Filha da Lua.

Meu corpo inteiro congelou.

Não.

Não podia ser.

Theron continuou.

— A profecia dizia que ela retornaria. E quando retornasse… seria ligada ao Alfa marcado pela morte.

Lentamente, muito lentamente os olhos dele foram até Kael.

Meu coração disparou tão forte que doeu.

— O vínculo entre vocês desperta uma antiga guerra.

Silêncio.

O mundo pareceu pequeno demais de repente, pesado demais.

Kael virou levemente o rosto para mim e pela primeira vez desde aquela noite… vi medo real em seus olhos.

Não medo por ele, mas por mim.

Theron ergueu a bengala lentamente.

— Venha conosco, Selene.

Kael avançou imediatamente.

O rosnado que saiu dele não parecia humano, os homens atrás do ancião deram vários passos para trás.

A floresta inteira pareceu estremecer e eu senti a presença então eu senti a presença do lobo dele.

Gigantesco, violento, desesperado.

Meu coração começou a acelerar tanto que achei que fosse desmaiar, porque parte de mim não estava assustada, parte de mim queria se aproximar dele.

Aquilo me aterrorizou ainda mais, Kael virou parcialmente o rosto para mim sem tirar os olhos dos anciões.

— Corre.

— O quê?

— AGORA!

Tudo aconteceu rápido demais, um dos homens avançou, Kael atacou primeiro.

O som dos ossos quebrando ecoou pela floresta antes mesmo que eu conseguisse reagir.

Gritei.

O homem foi arremessado contra uma árvore com violência brutal, Kael não parecia mais humano, os olhos dourados brilhavam intensamente.

Presas surgiram, as mãos tremiam enquanto garras começavam a aparecer lentamente.

Meu Deus.

Theron gritou alguma coisa em uma língua antiga.

Os outros homens avançaram, Kael rugiu e o som atravessou meu corpo inteiro.

Puro poder, pura fúria.

Então alguém segurou meu braço, virei-me assustada. Era uma mulher encapuzada, eu não a tinha visto chegar.

Os olhos azuis dela encontraram os meus rapidamente.

— Se quiser sobreviver, venha comigo.

Meu coração disparou.

— Quem é você?!

Ela apertou meu braço.

— Não temos tempo.

Atrás de mim ouvi outro rugido de Kael, violento, descontrolado.

Olhei rapidamente para trás e senti meu sangue congelar, os olhos dele estavam completamente negros agora.

Não dourados, negros como a própria morte. E naquele instante eu soube, algo muito pior do que o destino estava despertando dentro de Kael Valemont.

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