FAZER LOGIN"Valentina"
Eu abri a porta do pequeno quarto e vi minha avó, D. Isabel, sentada na cama, olhando pela janela. Ela estava magrinha, com os cabelos brancos presos em um coque frouxo. Quando me viu, os seus olhos castanhos brilharam e um sorriso doce surgiu em seu rosto cansado.
- Minha netinha linda... - Ela sussurrou, estendendo as mãos trêmulas.
Eu caminhei até ela e me ajoelhei ao lado da cama, enterrando o meu rosto em seu colo, sentindo o cheiro familiar de lavanda. No segundo em que seus dedos gentis tocaram os meus cabelos, as lágrimas que segurei o dia inteiro finalmente caíram, molhando o vestido dela. Ela acariciou meus cachos com suavidade.
- Tem sido muito difícil para você... desde que seus pais se foram. - A minha avó falou suavemente com aquela voz baixinha.
- Mas a senhora faz tudo ser melhor. - Eu respondi, porque era verdade, ela foi o conforto dos meus dias desde que os meus pais se foram.
- Vai ficar tudo bem, meu raio de sol. - Ela disse, com a sabedoria de quem já viveu demais. - Não se preocupe. Deixe que ele me leve para esse lugar, não vai ser tão ruim. Eu posso fazer amigos lá. E você vai viver a sua vida, ter um namorado, se casar, ser feliz longe desses três. Isso é tudo o que eu ainda espero da vida, querida, te ver feliz.
Eu ergui a cabeça, limpei as lágrimas, segurei as mãos dela e olhei no fundo dos seus olhos. Uma determinação cega e feroz tomou conta do meu peito. Eu não ia deixar aqueles monstros trancarem a única pessoa que me amava em um lugar que tratava gente como carcaças apodrecidas. Eu não ia deixar o meu estúdio virar poeira. Eu não perderia a pessoa que eu mais amava no mundo e o lugar que me fazia feliz.
- Nós vamos ser felizes juntas, vó! - Eu engoli o choro e dei um beijo em seu rosto, me levantei, dei o remédio a ela, a ajudei a se deitar e prometi voltar para jantar com ela. Quando ela pegou no sono, eu me levantei e saí do quarto. O tempo de chorar havia acabado. Agora era hora de ir para a guerra.
Tomei um banho rápido, soltei os meus cachos volumosos e vesti uma calça jeans escura que abraçava minhas coxas grossas e valorizava meus quadris largos, uma blusa preta justa que destacava meus seios fartos e joguei minha jaqueta de couro por cima. Calcei minhas botas pretas de cano curto e me olhei no espelho. Eu parecia pronta para a batalha. Peguei a pasta com a ordem de despejo assinada pelas Indústrias Montenegro e saí de casa determinada e batendo a porta só para a Marli e a Ágatha saberem que era melhor não mexerem comigo. Eu era uma sobrevivente, não desistia sem lutar.
Entrei no ônibus e cruzei a cidade em direção ao centro financeiro, no fundo do vale. O cenário mudou do charme boêmio e desgastado da Vertente Sul para a opulência brutalista e cinzenta dos arranha-céus espelhados da Vertente Norte. O ônibus parou dois quarteirões antes do meu destino e à medida que eu me aproximava, aquele gigante de vidro parecia querer me engolir. Até o ar ali parecia diferente, mais denso, como se eu respirasse concreto. As pessoas andavam apressadas com os olhos fixos nas telas dos celulares.
Parei na calçada da Torre Montenegro. Olhei para cima, para aquele monstro de vidro blindado que parecia rasgar o céu com a sua arrogância corporativa e gelada. Era uma estrutura moderna e impecável. O tipo de lugar projetado para fazer pessoas comuns se sentirem minúsculas.
Mas eu não me sentia minúscula. Eu me sentia furiosa. Apertei os papéis na minha mão até os nós dos meus dedos ficarem brancos. Eu não ia desistir! Aquele prediozinho não me intimidava.
Aquele tal de Dante Montenegro achava que podia passar o trator por cima da minha história, do meu sustento e da vida da minha avó sem ao menos olhar nos meus olhos? Ele achava que o dinheiro comprava o direito de ser um tipo de semi-deus destrutivo? Ele estava muito enganado. Aquele mauricinho de terno ia aprender hoje que nem todo mundo se curva ao dinheiro dele. Ele ia ter que me encarar.
Ajeitei a jaqueta de couro, ergui o queixo e caminhei em direção às enormes portas giratórias de vidro da entrada. Eu ia passar por cima daquela recepção de mármore, ia burlar a segurança se fosse preciso, mas eu ia colocar o dedo na cara daquele mauricinho de terno. Ele ia ter que me encarar de frente e ouvir o que eu tinha para dizer.
Eu parei no meio do saguão de mármore branco que parecia um monumento ao capitalismo selvagem. Três recepcionistas de coque perfeito e com uniformes impecáveis me encararam como se eu fosse um vírus no sistema deles. Eu era o elemento indesejado no território deles. Eu não ligava. Caminhei direto para as catracas eletrônicas.
- Pois não, senhorita? Crachá de identificação. - Um segurança que parecia um armário de terno barrou meu caminho.
- Vim falar com o Dante Montenegro. - Eu avisei, de queixo erguido.
- Imagino que a senhorita não tenha horário marcado. - O segurança me olhou de cima a baixo.
- Não tenho. Mas o Senhor Montenegro vai me atender. - Eu declarei sem me intimidar.
- O senhor Montenegro não atende sem agendamento. Peço que se retire ou…
Ele estendeu a mão para me segurar, me subestimando como todo mundo. Era a história da minha vida, sempre ser subestimada porque as pessoas me julgavam pelo meu corpo. Mas eu fui mais rápida que ele. Usei a flexibilidade e a rapidez que o pole dance me deu: agachei sob o braço dele em um movimento limpo, apoiei as duas mãos no topo da catraca de metal e impulsionei meu corpo, saltando por cima da barreira como um gato.
- Ei! Segura ela! - O homem gritou, o rádio apitando e um reboliço se formando no saguão enquanto eu corria em direção aos elevadores.
Dois outros seguranças correram na minha direção, mas eu me joguei dentro do elevador privativo que acabava de abrir a porta para um executivo. Eu entrei antes que fechasse, apertei o botão do último andar e mostrei o dedo do meio para os seguranças que batiam na porta do lado de fora tentando abrí-la.
- Acho que você não tem hora marcada. - O executivo no fundo riu e eu me virei.
- Na verdade, moço, o meu tempo se esgotou. - Eu respondi com um meio sorriso e ele riu mais.
- Você não é uma fã do Montenegro, é?
- Depende! E você?
- Ele paga o meu salario. Um bom salário.
- Aí é que está, ele quer tirar o meu.
Os olhos do homem brilharam com algum tipo de compreensão.
- Último andar. Saia do elevador, vire a direita e corra o mais rápido que puder até as portas duplas no fim do corredor. entre sem bater. Só não diga que eu te dei o mapa.
O elevador parou dois andares antes do último e o homem desceu sorrindo, se fazendo de desajeitado e impedindo que os dois seguranças ali conseguissem me pegar. Interessante! Talvez eu pudesse confiar na informação dele. Quando as portas se abriram eu já estava pronta para correr, a secretária loira na recepção levantou-se em choque ao me ver passar como um furacão.
- Senhorita, você não pode entrar assim! O senhor Montenegro está em uma reunião confidencial! - Ela gritou, correndo atrás de mim, os saltos estalando no piso de mármore.
- Azar o dele! - Eu berrei de volta, me virando para ver dois seguranças passarem por ela.
Eu corri até as portas duplas, segurei as maçanetas e empurrei as portas com toda a força, fazendo-as bater contra a parede com um estrondo violento e parando no meio da sala.
Ali estava ele. Só podia ser ele. Dante Montenegro estava sentado atrás da mesa. Nossos olhos se chocaram no mesmo segundo. Eu tinha feito uma entrada triunfal!
"Dante"Eu fechei a porta do meu escritório ainda tentando controlar as batidas frenéticas do meu coração. Eu estava queimando por dentro, o cheiro da Valentina no meu corpo me virando o juízo, o gosto dela impregnando a minha boca. A Valentina deixou as intenções dela escancaradas para mim com aquela mini camisola rosa enfeitando o seu corpo. Ela tinha poder demais sobre mim, já me deixava louco quando não queria me seduzir, agora que ela sabia que eu não corria nenhum risco, ela arrancaria a alma do meu corpo com as suas ideias boas demais.- Saiu para correr, Dante? - O Murilo perguntou atrás de mim. - Eu...? Por que? - Eu me virei devagar e vi o Murilo e o Fausto me encarando.- Sei lá... você está ofegante, despenteado, um pouco vermelho... - O Murilo comentou e eu passei a mão no cabelo, só então me dando conta do sorrisinho sacana dele para mim. - Você não me tirou do meu repouso a essa hora para ficar de gracinha, não é, Murilo? - Eu desviei o olhar e fui me sentar na minha
"Valentina"No fim do dia, tinha sido um ótimo dia, apesar do Aroldo e de toda a corja de encostados. Apesar de que, uma coisa ainda estava me incomodando, ou melhor, uma pessoa, específicamente a que atendia por Dante Montenegro e encheu os meus ouvidos de palavras bonitas essa manhã. Ele tinha falado muito, mas até aquele momento não tinha feito nada! O Dante Montenegro estava agindo de forma estranha, e aquilo estava começando a me fazer pensar. Ele havia retornado de Boston com a notícia de que não havia mais restrição física e, por tudo o que já havia acontecido entre nós, eu pensei que ele não esperaria mais nem um segundo para arrancar a minha roupa e extravasar todo o tesão reprimido. No entanto, ele continuava contido. Ele me cobria de mimos, me tratava como se eu fosse preciosa e estava sendo extremamente carinhoso, mas não fazia nenhuma gracinha. Não entrou no banheiro enquanto eu tomava banho de manhã e nem me agarrou enquanto eu trocava de roupa no closet. Tinha algo e
"Valentina"Um homem de cerca de um metro e setenta entrou no escritório, acompanhado de mais duas moças e uma quantidade meio grande de araras abarrotadas de vestidos de festa. O meu queixo caiu diante daquela visão e da agilidade com que as duas moças converteram o escritório em um verdadeiro camarim privado. - Sr. Montenegro, é realmente um privilégio atender ao seu chamado. - O homem cumprimentou efusivamente.- O seu privilégio será vestir a minha esposa e a amiga dela para o baile beneficente de amanhã, Pierre. - O Dante respondeu e me apresentou. - Esta é a Sra. Montenegro, aquela é a Srta. Santana. Faça delas as mulheres mais lindas da noite de amanhã.- Oh là là! Mas são duas déesses! - O homem encarou a mim e a Tati deliberadamente dos pés a cabeça.- É o que, meu filho? Do que você nos chamou? - A Tatiana ficou de pé e encarou o homem que deu uma risada divertida. - Pardon, chérie! - O homem se aproximou da Tati e deu dois beijinhos no vento, porque ele nem tocou o rosto
"Valentina"Apenas ouvir o nome do meu tio era suficiente para me deixar mal humorada. E quando o Murilo conectou o tablet à grande tela de televisão da parede, eu quis so'cá-la. Eu dei uma olhada para o Dante, ele estava nitidamente preocupado e sentindo um profundo desagrado que me fez estremecer, nada que vinha dos Camargo era bom, mas a nova mania deles de divulgar vídeos na internet era realmente enervante. A nova bomba estava escancarada na tela, e o problema do dia era o mais perverso golpe do Aroldo.No vídeo que já começava a viralizar nas páginas de fofoca da internet, o meu tio aparecia sentado em um escritório improvisado, limpando a testa e fazendo um teatro midiático deplorável. Ele usava os pequenos lapsos de memória e o histórico do AVC antigo da Vó Isabel para tentar me massacrar outra vez.“Eu não queria vir a público discutir os problemas da nossa família, meus amigos…” - O Aroldo mentia na gravação como se estivesse concorrendo a um prêmio, forçando uma voz chorosa
"Valentina"Depois que o Dante se retirou, o Otto e a Aurélia também sairam da mesa sem dizer uma palavra mais, mas só depois de se entreolharem e olharam para o ponto atrás de mim, meu segurança. Eles sabiam que o Fausto contaria qualquer coisa ao Dante e, naquele momento, não era conveniente para nenhum dos dois irritar ainda mais o meu marido. Eu terminei o meu almoço pacientemente, conversei um pouco com a D. Marta e depois eu fui atrás do Dante. Eu queria mais detalhes sobre como seria o tratamento dele e também queria saber qual era o novo problema que o mensageiro trouxe. Mas eu também queria saber da Tati.Eu dei uma leve batida na porta do escritório e abri. O Dante estava sentado atrás da imensa mesa de mogno, olhando para a tela do tablet com uma expressão de ódio mortal, enquanto o Murilo tamborilava os dedos sobre a mesa. Eu cruzei os braços sobre o peito, parei diante da mesa e fixei os meus olhos direto no Dante.- Certo, já sei que o advogado trouxe mais um problema.
"Valentina" Eu acordei cheia de energia, com a sensação de que as coisas estivessem finalmente começando a dar certo. Eu pensei em pular na barra de poledance, mas o Dante me segurou e me lembrou dos cuidados da fertilização. Ele estava todo carinho e atenção comigo. Tudo parecia melhor, ou quase tudo, porque as caras da Aurélia e do Otto não tinham conserto. Eles eram a personificação da inveja e do despeito. Mas eu não ligava para eles. Para mim o almoço de sexta feira tinha o gosto doce da nossa esperança naquele tratamento. O Dante e eu trocávamos pequenos sorrisos de contentamento e carinhos discretos ou nem tanto. Ele segurava a minha mão, eu levava um pouco da minha comida à boca dele, nós falávamos baixinho, ignorando completamente a presença dos outros dois azedos. Mas uma coisa me intrigava. Eu pensei que com a "liberação médica para atividades físicas", o Dante não fosse perder tempo e me agarraria assim que acordasse. Mas não foi isso que aconteceu. Ele continuava cont







