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Capítulo 3: Pronta para o confronto

Autor: Maria Anita
last update Data de publicação: 2026-07-17 11:27:12

"Valentina"

Eu abri a porta do pequeno quarto e vi minha avó, D. Isabel, sentada na cama, olhando pela janela. Ela estava magrinha, com os cabelos brancos presos em um coque frouxo. Quando me viu, os seus olhos castanhos brilharam e um sorriso doce surgiu em seu rosto cansado.

- Minha netinha linda... - Ela sussurrou, estendendo as mãos trêmulas.

Eu caminhei até ela e me ajoelhei ao lado da cama, enterrando o meu rosto em seu colo, sentindo o cheiro familiar de lavanda. No segundo em que seus dedos gentis tocaram os meus cabelos, as lágrimas que segurei o dia inteiro finalmente caíram, molhando o vestido dela. Ela acariciou meus cachos com suavidade.

- Tem sido muito difícil para você... desde que seus pais se foram. - A minha avó falou suavemente com aquela voz baixinha.

- Mas a senhora faz tudo ser melhor. - Eu respondi, porque era verdade, ela foi o conforto dos meus dias desde que os meus pais se foram.

- Vai ficar tudo bem, meu raio de sol. - Ela disse, com a sabedoria de quem já viveu demais. - Não se preocupe. Deixe que ele me leve para esse lugar, não vai ser tão ruim. Eu posso fazer amigos lá. E você vai viver a sua vida, ter um namorado, se casar, ser feliz longe desses três. Isso é tudo o que eu ainda espero da vida, querida, te ver feliz.

Eu ergui a cabeça, limpei as lágrimas, segurei as mãos dela e olhei no fundo dos seus olhos. Uma determinação cega e feroz tomou conta do meu peito. Eu não ia deixar aqueles monstros trancarem a única pessoa que me amava em um lugar que tratava gente como carcaças apodrecidas. Eu não ia deixar o meu estúdio virar poeira. Eu não perderia a pessoa que eu mais amava no mundo e o lugar que me fazia feliz.

- Nós vamos ser felizes juntas, vó! - Eu engoli o choro e dei um beijo em seu rosto, me levantei, dei o remédio a ela, a ajudei a se deitar e prometi voltar para jantar com ela. Quando ela pegou no sono, eu me levantei e saí do quarto. O tempo de chorar havia acabado. Agora era hora de ir para a guerra.

Tomei um banho rápido, soltei os meus cachos volumosos e vesti uma calça jeans escura que abraçava minhas coxas grossas e valorizava meus quadris largos, uma blusa preta justa que destacava meus seios fartos e joguei minha jaqueta de couro por cima. Calcei minhas botas pretas de cano curto e me olhei no espelho. Eu parecia pronta para a batalha. Peguei a pasta com a ordem de despejo assinada pelas Indústrias Montenegro e saí de casa determinada e batendo a porta só para a Marli e a Ágatha saberem que era melhor não mexerem comigo. Eu era uma sobrevivente, não desistia sem lutar.

Entrei no ônibus e cruzei a cidade em direção ao centro financeiro, no fundo do vale. O cenário mudou do charme boêmio e desgastado da Vertente Sul para a opulência brutalista e cinzenta dos arranha-céus espelhados da Vertente Norte. O ônibus parou dois quarteirões antes do meu destino e à medida que eu me aproximava, aquele gigante de vidro parecia querer me engolir. Até o ar ali parecia diferente, mais denso, como se eu respirasse concreto. As pessoas andavam apressadas com os olhos fixos nas telas dos celulares.

Parei na calçada da Torre Montenegro. Olhei para cima, para aquele monstro de vidro blindado que parecia rasgar o céu com a sua arrogância corporativa e gelada. Era uma estrutura moderna e impecável. O tipo de lugar projetado para fazer pessoas comuns se sentirem minúsculas.

Mas eu não me sentia minúscula. Eu me sentia furiosa. Apertei os papéis na minha mão até os nós dos meus dedos ficarem brancos. Eu não ia desistir! Aquele prediozinho não me intimidava.

Aquele tal de Dante Montenegro achava que podia passar o trator por cima da minha história, do meu sustento e da vida da minha avó sem ao menos olhar nos meus olhos? Ele achava que o dinheiro comprava o direito de ser um tipo de semi-deus destrutivo? Ele estava muito enganado. Aquele mauricinho de terno ia aprender hoje que nem todo mundo se curva ao dinheiro dele. Ele ia ter que me encarar.

Ajeitei a jaqueta de couro, ergui o queixo e caminhei em direção às enormes portas giratórias de vidro da entrada. Eu ia passar por cima daquela recepção de mármore, ia burlar a segurança se fosse preciso, mas eu ia colocar o dedo na cara daquele mauricinho de terno. Ele ia ter que me encarar de frente e ouvir o que eu tinha para dizer.

Eu parei no meio do saguão de mármore branco que parecia um monumento ao capitalismo selvagem. Três recepcionistas de coque perfeito e com uniformes impecáveis me encararam como se eu fosse um vírus no sistema deles. Eu era o elemento indesejado no território deles. Eu não ligava. Caminhei direto para as catracas eletrônicas.

- Pois não, senhorita? Crachá de identificação. - Um segurança que parecia um armário de terno barrou meu caminho.

- Vim falar com o Dante Montenegro. - Eu avisei, de queixo erguido.

- Imagino que a senhorita não tenha horário marcado. - O segurança me olhou de cima a baixo.

- Não tenho. Mas o Senhor Montenegro vai me atender. - Eu declarei sem me intimidar.

- O senhor Montenegro não atende sem agendamento. Peço que se retire ou…

Ele estendeu a mão para me segurar, me subestimando como todo mundo. Era a história da minha vida, sempre ser subestimada porque as pessoas me julgavam pelo meu corpo. Mas eu fui mais rápida que ele. Usei a flexibilidade e a rapidez que o pole dance me deu: agachei sob o braço dele em um movimento limpo, apoiei as duas mãos no topo da catraca de metal e impulsionei meu corpo, saltando por cima da barreira como um gato.

- Ei! Segura ela! - O homem gritou, o rádio apitando e um reboliço se formando no saguão enquanto eu corria em direção aos elevadores.

Dois outros seguranças correram na minha direção, mas eu me joguei dentro do elevador privativo que acabava de abrir a porta para um executivo. Eu entrei antes que fechasse, apertei o botão do último andar e mostrei o dedo do meio para os seguranças que batiam na porta do lado de fora tentando abrí-la.

- Acho que você não tem hora marcada. - O executivo no fundo riu e eu me virei.

- Na verdade, moço, o meu tempo se esgotou. - Eu respondi com um meio sorriso e ele riu mais.

- Você não é uma fã do Montenegro, é?

- Depende! E você?

- Ele paga o meu salario. Um bom salário.

- Aí é que está, ele quer tirar o meu.

Os olhos do homem brilharam com algum tipo de compreensão.

- Último andar. Saia do elevador, vire a direita e corra o mais rápido que puder até as portas duplas no fim do corredor. entre sem bater. Só não diga que eu te dei o mapa.

O elevador parou dois andares antes do último e o homem desceu sorrindo, se fazendo de desajeitado e impedindo que os dois seguranças ali conseguissem me pegar. Interessante! Talvez eu pudesse confiar na informação dele. Quando as portas se abriram eu já estava pronta para correr, a secretária loira na recepção levantou-se em choque ao me ver passar como um furacão.

- Senhorita, você não pode entrar assim! O senhor Montenegro está em uma reunião confidencial! - Ela gritou, correndo atrás de mim, os saltos estalando no piso de mármore.

- Azar o dele! - Eu berrei de volta, me virando para ver dois seguranças passarem por ela.

Eu corri até as portas duplas, segurei as maçanetas e empurrei as portas com toda a força, fazendo-as bater contra a parede com um estrondo violento e parando no meio da sala.

Ali estava ele. Só podia ser ele. Dante Montenegro estava sentado atrás da mesa. Nossos olhos se chocaram no mesmo segundo. Eu tinha feito uma entrada triunfal!

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