로그인"Valentina"
A pele da minha coxa ardia contra o metal da barra vertical, mas aquela dor era o meu combustível. Subi mais um metro, inverti o corpo e travei o quadril, deixando que a gravidade testasse a força do meu abdômen. Com os meus cabelos cacheados soltos caindo em direção ao chão e as luzes de neon roxo do estúdio refletindo nos espelhos, eu não via imperfeições no meu reflexo. Minhas coxas eram grossas, meus quadris largos, meus seios fartos e as minhas curvas reais foram definidas com anos de treino. Ali, no topo do pole dance, eu não era a órfã que vivia de favor. Eu era a porra de uma deusa sexy e linda.
Finalizei a sequência com um deslize suave, tocando o piso de madeira clara com as minhas botas de salto plataforma de vinil. Respirei fundo, limpando o suor da testa com as costas da mão e sentindo a satisfação de completar a minha rotina de treino.
Antes que eu pudesse alcançar minha garrafa de água, a porta da sala de ensaios foi aberta com um estrondo. A Tati entrou correndo, com os olhos esbugalhados e um papel nas mãos.
- Tina, deu merda. Deu muita merda! - Ela gritou, a voz trêmula cortando a música alta.
- O que foi, Tati? Que agitação é essa? - Eu perguntei, caminhando até ela.
- A fiscalização da prefeitura acabou de lacrar a fachada. Eles trouxeram uma ordem de despejo imediata e uma notificação de demolição. - Ela me estendeu o papel, as mãos tremendo. - Tem o logotipo daquela holding gigante. O prédio vai abaixo, Tina. E nós temos que sair agora. Acabou. Fim. Já era.
Eu peguei o documento, meus olhos focando no cabeçalho em letras douradas e arrogantes: Indústrias Montenegro. Abaixo, a assinatura digital do CEO, um tal de Dante Montenegro. Com certeza um idiota que não enxerga nada além do próprio umbigo.
- Mas que caralho! - O palavrão saltou da minha boca, ecoando pelas paredes do estúdio que eu levei anos para construir. Esse lugar era o meu sonho tirado do papel e era mais, era a minha fonte de renda e eu precisava muito dessa renda. - Esse engravatado acha que é dono do mundo? Nós temos um contrato de aluguel vigente, esse palhaço de terno não pode simplesmente passar por cima da gente como se fôssemos lixo!
- Eles têm o dinheiro, Tina. E o dinheiro manda no Vale das Vertentes, você sabe. - A Tati lamentou, os olhos marejados. - Os alunos que estavam chegando já foram embora, mas os que pagaram aulas adiantado querem o dinheiro de volta.
- O dinheiro dele que vá para a puta que pariu. Eu não vou entregar o meu suor para um mauricinho sem lutar. - Eu saí andando em direção a recepção enquanto falava. - A demolição está marcada para amanhã, então eu ainda tenho hoje para resolver. Diga aos alunos que amanhã daremos retorno para todos.
Peguei a pasta com os documentos do estúdio, sentindo o sangue ferver. Mas a raiva precisou ser guardada em um compartimento fechado quando olhei para o relógio. Já passava da hora do remédio da minha avó. Eu precisava voltar para casa, ou melhor, para o ninho de cobras onde eu passava as noites.
Vinte minutos depois, empurrei a porta da casa que um dia foi feliz, quando os meus pais estavam vivos e morávamos aqui. O cheiro do perfume enjoativo da minha tia invadiu o meu nariz. A Marli estava deitada no sofá da sala, lixando as unhas enquanto assistia a um programa de fofocas na TV.
- Olha aí, chegou a dançarina de boate. - A Marli destilou o veneno sem tirar os olhos da TV. - Vá tomar um banho, Valentina, você está fedendo. E essa roupa? Que modos são esses?
Passei direto, ignorando a jararaca, eu já estava acostumada com as ofensas da esposa do meu tio. Mas como eu disse, essa casa era um ninho de cobras e eu dei de cara com a Agatha no corredor. Minha prima patricinha segurava três sacolas de grife de um shopping de luxo. Ela me mediu de cima a baixo, com um sorriso cínico nos lábios perfeitamente pintados de batom caro.
- Ei! Cuidado com as minhas sacolas. Não quero que as suas roupas vulgares as sujem. - Ela reclamou e afastou as sacolas de mim o máximo possível. - Sabe, prima, eu realmente tenho vergonha de você... gorda, vulgar e ganha a vida rebolando num cano de ferro. Meu pai deveria te proibir de fazer isso.
- Olha só, Agatha, eu estou pouco me fodendo se você tem vergonha ou não, mas se você abrir a boca de novo para falar do meu trabalho, eu juro que enfio esse seu salto agulha nesse seu rabo magrelo. - Eu respondi, parando bem na frente dela. Minha postura imponente e meus quadris largos a fizeram dar um passo atrás, o sorriso sumindo do rosto fútil.
Antes que a discussão prosseguisse, meu Tio Aroldo saiu da cozinha. Ele não parecia o homem que deveria ter me protegido quando fiquei órfã aos dez anos. Parecia apenas um parasita cansado e careca. Ele jogou um calhamaço de contas sobre a mesa de jantar.
- Chega de show, Valentina. As contas da cuidadora da sua avó venceram ontem. E a farmácia não vai mais liberar os remédios de graça. Ao invés de maltratar a sua prima, que só diz as verdades que você precisa ouvir, você deveria se preocupar em trazer dinheiro para casa. - Meu tio falou impiedosamente.
- Eu sei que venceram, tio. Eu ia pagar hoje, mas as Indústrias Montenegro lacraram o meu estúdio. Eu vou resolver isso, só preciso de alguns dias...
- Eu não tenho alguns dias! - Ele esbravejou, batendo a mão na mesa. - A crise apertou. Eu e a Marli não vamos gastar mais nenhum centavo sustentando uma velha caduca que nem nos reconhece mais. Você garantiu que se eu a deixasse ficar, você cuidaria dela.
- Ela é a sua mãe! - Eu falei com uma decepção explícita na voz.
- Exatamente! E se você não trouxer o dinheiro do mês até sexta-feira, eu assino os papéis e jogo a minha mãe num asilo público na periferia. E você sabe muito bem como são aqueles depósitos de indigentes.
Meu coração deu um tranco, como se parasse abruptamente por dois segundos. O ar faltou nos meus pulmões. Olhei para o meu tio com um misto de nojo e puro ódio. Como ele podia falar em fazer aquilo com a própria mãe? Enquanto ele gastava com o luxo da Ágatha e se negava a dar qualquer migalha para a própria mãe, eu me matava de dançar para bancar o mínimo de dignidade para a minha avó, a única pessoa que me ofereceu afeto depois que meus pais morreram.
Eu não respondi. Não valia a pena. Eu conhecia o discurso que viria, o bom e velho "se não fosse por mim você estaria na rua", "você está aqui de favor", entre outras coisas do gênero. Eu já estava cansada e se eu respondesse, acabaria na cadeia por agressão.
Passei por ele e caminhei a passos firmes até o quartinho dos fundos, o único canto daquela casa que exalava amor.
"Tatiana"O percurso até a casa do Murilo foi em total silêncio. Eu olhava para ele pelo canto dos olhos e percebia a sua tensão pelo maxilar trincado, as expirações longas, os dedos tamborilando no volante. Ele parecia desconfortável em sua própria pele e eu nunca o tinha visto assim antes. O silêncio entre nós também era novidade e era pesado, sufocante, mas não seria eu a primeira a falar. Eu nem sabia exatamente o que dizer, afinal eu ainda sentia o constrangimento, ainda sentia o peso da humilhação e sentia, sobretudo, uma tristeza enchendo o meu coração.Nós entramos no apartamento, aquele lugar que já era tão familiar, e ele continuou sem dizer nada. Ele passou por mim deixando o rastro do seu perfume e tirou o paletó e a gravata, jogando sobre o encosto da poltrona, abriu três botões da camisa, revelando não só um pouco mais de pele, mas o fino cordão de ouro com o crucifixo minimalista que ele nunca tirava. Depois, desapareceu em direção à cozinha dobrando as mangas da camisa
"Valentina"A Aurélia bufou e se sentou. O Dante me olhava segurando o riso. Ele sempre parecia observar as minhas interações com a Aurélia como se torcesse para que eu irritasse um pouco mais a madrasta. - Primo, nós estamos passando por uma turbulência em família, mas será que a sua esposa precisa mesmo tornar tudo ainda mais desconfortável? A Tia Aurélia merece respeito. - O Otto saiu em defesa da perua como sempre.- Otto, preste atenção em uma coisa: a minha esposa pode fazer o que bem entender. Eu não me importo nem um pouco com o desconforto de vocês. - O Dante encarou o primo. - Entendeu, encostado? - Eu lancei um olhar desafiador para o Otto. - Agora fica caladinho e aguarde a sua vez. Como eu ia dizendo, perua, eu tive o grande prazer de conhecer a Constança Dornelles hoje. Lembra dela?A Aurélia que estava olhando para o prato e remexendo nele de má vontade com o garfo, levantou os olhos imediatamente para mim. Eu podia jurar que havia um certo pânico naquele olhar. - Mu
"Valentina"Eu pisquei duas vezes, assimilando as novas informações que o Dante me dava. Para mim parecia impossível que aquela senhora fina e elegante partisse para um barraco daquela proporção, ainda que fosse por uma causa muito nobre.- A Constança deu uma sur'ra na Aurélia? - Eu perguntei e o Dante fez que sim. - Aquela mulher "chiquerésima" que saiu daqui se engalfinhou com a perua fútil num estacionamento e ainda levou a melhor? - O Dante confirmou bem humorado. - Não, meu lindo, isso não me parece possível. Isso é sério mesmo?- Seu lindo? - O Dante perguntou com um sorriso todo convencido, me apertando ainda mais em seus braços, suas mãos deslizando por todos os lados no meu corpo. - Gostei. Acho que vou querer ouvir isso mais vezes.- Talvez, se você tirasse a calça, chicletinho, eu pudesse te chamar de muitas coisas que você vai gostar ainda mais. - Eu falei manhosa e ele deu aquela gargalhada que ia direto no meu coração. - Você é tão pouco sutil quanto a Constança, meu a
"Valentina"A pergunta do Murilo pegou a Tati de surpresa e a desarmou completamente. As palavras pareciam ter ficado presas na garganta dela e os dois se encararam pelo que pareceu tempo demais. Ao redor deles, nós assistíamos quase sem respirar, esperando o desenrolar daquela cena como quem espera o capítulo da novela.- Eu estou bastante curiosa com o que ela vai dizer, porque até agora ela também deixou todo mundo falar que eles são namorados. Ela até chamou a Constancinha de sogra. - Eu comentei baixinho para o Dante que estava ao meu lado.- Encrenca, não incentiva a Constança. - O Dante avisou com um meio sorriso. - Você costumava ser meu amigo, Murilo. - A Tati falou engasgada, as lágrimas chegando aos olhos outra vez. - Mas aí se tornou o meu chefe e passou a ter zero cuidado com os meus sentimentos. E quer saber o que nós somos agora? Dois estranhos. - Estranhos porra nenhuma! - O Murilo resmungou. - Quer saber, mãe, pode ficar aqui com a Valentina. Eu vou resolver meus pr
"Valentina"O estrondo metálico da porta de ferro do estúdio sendo escancarada contra a parede reverberou pelo estúdio. O Dante e o Murilo entraram a passos largos. O Murilo parecia não ter tido tempo de se arrumar, mas a seriedade no seu rosto fazia parecer que ele estava indo para a guerra.- Mãe, posso saber o que a senhora está fazendo aqui? - Ele atravessou o estúdio e parou bem em frente a mãe, sua voz saindo como um trovão.- Ora, Murilinho, eu vim conhecer a minha nora, porque se dependesse de você, você me despacharia para a Sibéria só para não me apresentá-la. - A Constança falou naturalmente. Era óbvio que o filho não a assustava, nem mesmo quando parecia completamente enfurecido.- Eu deveria mesmo ter feito isso! - Ele concordou sem suavizar a voz ou o olhar. - Mãe, as coisas já estão difíceis o suficiente entre a Tatiana e eu para você aparecer na frente dela dando as suas opiniões.- Olha que interessante, ele sabe quem é a nora. - Eu comentei e o Dante me encarou como
"Valentina"Enquanto a Tati contava os problemas com o Murilo, a Constança e a Márcia ouviam atentamente, fazendo perguntas e manifestando apoio a Tati. E como a Constança perguntava! Com aquele jeitinho espaçoso, ela estava arrancando tudo o que queria da Tatiana e talvez agora ela soubesse mais do Murilo do que ele gostaria. Quando a Tati terminou a Constança estava com a mão sobre o coração.- Mas o Murilinho foi muito insensível! - A Constança declarou. - Você está certa, Tati, nós precisamos ensinar ao Murilinho que não é assim que ele trata a futura mãe dos filhos dele! - Calma aí, Constança. - A Tati, já bem mais à vontade, tentou conter a euforia da mãe do Murilo. - Seu filho e eu não somos...- Ah, minha filha, vocês são! Pode acreditar no que eu digo com a voz da experiência, vocês são um casal, e só estão desperdiçando energia e tempo negando isso. - A Constança afirmou cheia de si. - Agora, preste atenção no conselho que eu vou te dar. Faça o Murilinho se ajoelhar aos seu







