LOGIN"Dante"
Eu passei o dia ruminando o meu diagnóstico e afinando o meu plano. Eu havia mandado a secretária desmarcar todas as reuniões e só estava esperando o Murilo com os documentos que pedi.
Eu estava mergulhado no silêncio da minha sala e da minha solidão, encarando os relatórios de despejo daquele pequeno edifício na minha mesa, mas sem vê-lo realmente, tentando processar a velocidade com que o meu mundo havia tombado, mais rapido do que eu tombaria aquele pequeno prédio e o transformaria num imponente prédio de escritórios com tudo o que a modernidade permitia.
Que triste coincidência, em menos de um ano aquele prédio e eu não seríamos nem lembrança nessa cidade. Mas a minha contemplação silenciosa do futuro foi interrompida por um estrondo violento que reverberou pelas paredes. As portas duplas sa minha sala foram empurradas com tanta força que bateram contra os batentes de gesso. Era como se uma manada estivesse invadindo o meu escritório.
Talvez eu até já esperasse por aquilo. Eu fiquei imóvel na minha cadeira de couro, com os dedos entrelaçados sobre o tampo de madeira, esperando ver o meu primo Otto ou a minha madrasta invadindo a sala com os papéis da minha interdição ou bradando que havia convocado o Conselho. Mas o que passou por aquela porta foi algo completamente diferente.
Um furacão. Um furacão de vastos cabelos negros. Vestida de negro. Por um segundo eu pensei que estava sonhando e o anjo doido da morte tivesse vindo me buscar. Seria uma viagem louca, mas ele não me levaria facilmente, afinal, nosso encontro tinha data marcada e ela não seria antecipada. Mas então eu pisquei saindo do transe.
Uma mulher parou bem no centro da minha sala, ofegante, com os cabelos cacheados volumosos e selvagens caindo pelos ombros e os olhos castanhos faiscando puro ódio. Ela vestia uma jaqueta de couro preta, uma blusa justa que destacava seios fartos e uma calça jeans que abraçava seu corpo generoso.
Ela exalava uma energia tão crua, magnética e imponente que a minha sala presidencial, minimalista e fria, pareceu encolher. Meu pulso acelerou. Mas não era por causa do tumor. Era o efeito daquela mulher. O aviso do Dr. Hércules piscou em alerta na minha mente. Eu respirei fundo, tentando controlar a minha pulsação.
A minha secretária surgiu atrás da minha invasora, ao lado de dois seguranças, com o coque desfeito e o rosto vermelho de pânico.
- Sr. Montenegro, me desculpe! Ela saltou a catraca, os seguranças não conseguiram detê-la...
- Está tudo bem, Andreia. Saiam e feche a porta. - Eu ordenei, sem desviar os olhos da intrusa. Minha voz soou com o refinamento frio de sempre.
A secretária saiu e as portas se fecharam, nos deixando a sós.
A mulher deu três passos firmes na minha direção. O salto de suas botas pretas estalava no piso de mármore como tiros. Ela arrancou uma pasta de plástico debaixo do braço e a jogou com força em cima da minha mesa, bem em cima dos meus relatórios. Ela me encarava sem medo ou respeito algum.
- Você é o Dante Montenegro? - Ela disparou. A voz era firme e carregada de uma audácia que ninguém nunca ousou usar comigo.
- Sou. - Eu respondi, me recostando na cadeira e medindo a minha visitante milimetricamente. - E a senhorita seria a vândala que acabou de danificar o patrimônio da minha empresa. - Eu apontei para o gesso rachado onde as portas bateram.
- Vândalo é você, seu mauricinho de merda! - Ela esbravejou, colocando as duas mãos espalmadas na minha mesa e se inclinando na minha direção, me dando uma vista privilegiada dos seus seios prontos para pular do decote. O perfume dela, uma mistura de amêndoa doce, cacau e suor, invadiu o meu espaço. - Que porra de direito você acha que tem para lacrar o meu estúdio de pole dance? Nós temos um contrato de aluguel vigente naquela merda de prédio! Você não pode simplesmente assinar um papel do topo do seu castelinho de vidro e passar o trator por cima da vida das pessoas!
Arregalei levemente os olhos, fascinado. Olhei para a pasta. Valentina Torres. A inquilina teimosa. A dona da "espelunca de dança" que eu estava prestes a despejar. A mulher que vinha me infernizando com notificações judiciais e insultos por escrito que deixariam uma prostituta ruborizada. E para quem eu não tinha dado a mínima importância... até agora.
- Senhorita Torres, peço que modere o seu vocabulário. - Eu sugeri, alisando a minha gravata com uma calma irônica que eu sabia que a irritaria. - Está lidando com o CEO das Indústrias Montenegro, não com um dos seus frequentadores de boate. O projeto de modernização do centro do vale é legal e necessário. O prédio antigo será demolido.
- Moderar o cacete! - Ela gritou, o rosto corando de fúria, os seios fartos subindo e descendo com a respiração acelerada. Era um belo espetáculo! - Você não sabe nada da minha vida, seu engravatado egoísta. Aquele estúdio é o meu sustento. É de onde eu tiro cada centavo para pagar os remédios e a cuidadora da minha avó doente! Se você fechar aquela porta, você está condenando uma idosa a um depósito humano, porque é para lá que o cretino do filho dela vai mandá-la! Você tem dinheiro para comprar a cidade inteira, mas não tem um pingo de vergonha na cara ou de compaixão?
Ela continuou berrando, gesticulando com os braços, falando palavrões que fariam a minha madrasta desmaiar de horror. Falando de uma idosa e um filho mais cretino que eu. Mas, conforme as palavras desbocadas saíam da boca da Valentina, a minha mente, antes focada na raiva, começou a traçar e a recalcular a rota em velocidade máxima.
Olhei para as curvas imponentes dela. Para a jaqueta de couro. Para os cachos selvagens. Olhei para a audácia dela de invadir o último andar da Torre Montenegro e colocar o dedo na minha cara sem temer as consequências. Ela não estava ali por dinheiro; estava ali por uma causa. Ela era fogo puro. Resistência. Inabalável. Ela não se intimidava com nada.
As palavras que eu mesmo disse ao Murilo mais cedo ecoaram na minha cabeça: “Eu preciso de uma esposa que seja o completo oposto do que eles aceitam. Alguém que choque o sistema puritano deles…”
"Dante"Eu encarei o Hércules. Ele estava com os ombros caídos e a expressão derrotado, mas acima de tudo, os olhos dele estavam apagados, algo havia deixado de brilhar neles. Eu senti algo que eu não sabia explicar, mas eu tinha a obrigação de pará-lo, porque eu sabia melhor que ninguém que ele não pararia antes de considerar que tinha deixado tudo organizado. Era o que eu estava fazendo quando pensei que ia morrer, preparando a minha transição. Mas, no caso do Hércules, esse tempo que ele julgava que tinha, poderia ser tempo suficiente para um erro irremediável. E por mais que me incomodasse dizer a ele que ele precisava parar, essa era a coisa certa a fazer.- Você vai assinar a sua aposentadoria e se afastar da presidência deste hospital antes do anoitecer, Hércules. - Eu decretei com a minha voz mais severa, eu não estava dando escolha a ele, eu não podia dar. - Você nomeará um médico como diretor e responsável interino pela neurologia e deixará que ele termine de treinar o seu a
"Dante"Era bastante desconcertante encarar aquele homem, um médico respeitado, se debatendo em desespero e medo. Por longos meses eu acreditei que esperava a morte, assim como ele, e eu fiz de tudo para continuar sendo quem eu era até o fim, por isso eu compreendia o que ele sentia e como era difícil enfrentar o pânico de perder a funcionalidade humana. Felizmente para mim que aquele diagnóstico era uma fraude, ao contrário do Hércules.No entanto, por mais que eu compreendesse e sentisse uma profunda solidariedade por ele, os segredos do Hércules eram pesados demais para serem sustentados por mais tempo e não havia margem para concessões. Ele não podia continuar exercendo a medicina. E, além disso, ele precisava me contar tudo o que sabia sobre o falso diagnóstico que me deu. - Hércules, você sabe que eu compreendo exatamente a agonia de lutar contra o tempo. - Eu pronunciei devagar, mantendo o tom firme, mas conciliador. - Mas a minha solidariedade ao seu desespero de homem doente
"Dante"A recepção do consultório do Hércules Medina foi projetada para acalmar os pacientes que aguardavam, oferecendo conforto total e acolhimento, além de deixar claro que o médico que atendia ali era bem sucedido e competente. O brilho do mogno polido combinava com as poltronas off-white macias e as luzes indiretas criavam um clima relaxante. Porém, eu continuava tenso. Não houve nenhuma dificuldade na recepção. Assim que eu me apresentei ela sorriu e interfonou para o médico. Eu sabia que o Hércules não poderia se recusar a me atender, porque ele nunca havia recusado antes e ele certamente sabia que, nas circunstâncias atuais, me recusar despertaria suspeitas. - Os senhores podem entrar. - A secretária anunciou colocando o fone no gancho. Eu me apressei em direção ao consultório.O Hércules estava sentado atrás da sua imensa mesa diretora, cercado de papéis e com uma aparência preocupada. No entanto, a nossa visita não parecia tê-lo surpreendido. Ele se levantou para nos oferec
"Dante"Eu observei o Murilo afundando na cadeira enquanto puxava a gravata. Eu ia ajudá-lo, mas não podia negar que ver como a Tatiana o desconcertava era bem interessante e divertido. Ele jurava que os dois eram apenas amigos, sem benefícios e sem terceiras intenções, mas ele estava na miséria com o tratamento frio da Tatiana.- Eu pensei que ela poderia gostar da surpresa. Me diz, Dante, como eu resolvo isso? - O Murilo perguntou, se afundando mais na cadeira.- O problema das surpresas, meu caro, é que elas dão margem para enganos. - Eu declarei. - Mas sairmos para jantar hoje é uma ótima ideia. - Eu concordei. - E sabe o que mais funciona para se desculpar com as mulheres? Flores! Não só para se desculpar, mas...- Você acabou de dizer que elas não são como as mulheres que conhecemos antes, acha mesmo que ela vai gostar de receber flores? - A minha mãe sempre dizia que não há mulher no mundo que resista ao encanto de uma flor. Ela costumava estar certa. - Eu dei de ombros e o Mu
"Dante"A imagem do Murilo jogado na minha cadeira executiva com a gravata afrouxada me dava vontade de rir. Meu amigo de infância e braço direito parecia estar num dia ruim, passando os dedos pelos cabelos desalinhados e bufando de frustração. Essa novidade era interessante, o Murilo sempre agia de forma racional e extremamente calma, sempre pensando antes de agir. E agora, o advogado mais brilhante e implacável de Vale das Vertentes havia sido completamente arrancado da sua calma habitual por uma mulher.- O que eu fiz de errado, Dante? A Morena mal olha na minha cara. E veio trabalhar hoje vestindo uma calça legging amarelo limão, top de academia e tênis esportivo! Eu precisei colocar o meu paletó sobre os ombros dela e exigir que ela não saísse da minha sala, porque ela causou um alvoroço entre os homens desse escritório. Eu precisei pedir a Aline que não deixasse ninguém entrar na minha sala, porque eu já estava parecendo guichê de informações, saía um entrava outro com qualquer
"Valentina"Eu olhei para a Tatiana por um minuto e tive uma ideia. Eu não ia deixar a minha amiga passando essa saia justa.- Sabe o que eu acho, Tati? Eu acho que talvez o Dornelles não tenha pensado nisso. Mas eu estou pensando, não é ruim você trabalhar com as suas roupas, porque assim, quando tiver que ir pro estúdio, não precisa ficar trocando de roupa. - Eu sugeri e ela deu uma risada.- Imagina, eu trabalhando de legging e top todos os dias?! O Dornelles tem um chilique. Aliás, já teve hoje. E vai ter outro amanhã, porque eu vou vir vestida assim até ele me deixar usar o uniforme da empresa. - A tati afirmou, completamente decidida. - Tati, você agora é minha sócia, nós temos um estúdio lindo e que vai receber essas madames, não podemos passar recibo de bregas. - Eu comentei. - Sabe de uma coisa, o Montenegro vai patrocinar o seu novo guarda roupa. - Eu declarei.- De jeito nenhum! Tina, é seu marido e vocês dois se entendem, mas das minhas roupas cuido eu.- Tati, deixa de s







