FAZER LOGIN"Valentina"
Eu me arrastei pela calçada e parei em frente ao prédio que até o final do dia não existiria mais. Na fachada da loja onde o meu estúdio funcionava, o letreiro que eu tinha pago em suaves prestações estava apagado. Eu também estava apagada. Eu não tinha dormido um minuto sequer.
Depois que saí do escritório do Dante Montenegro eu fui direto a um advogado que me tirou todas as esperanças, ele foi categórico: “Menina, contra as Indústrias Montenegro não tem liminar que segure. O dinheiro deles fechou todas as portas.” Mesmo assim, esta manhã eu me enfiei nas salas burocráticas da prefeitura. Não adiantou. Tudo o que eu consegui foi um balde de água fria.
Eu tomei coragem e empurrei pela última vez a porta do estúdio, com os ombros caídos e os olhos ardendo. A Tati estava no centro da sala, cercada por caixas de papelão. Quando ela me viu, largou a fita adesiva e correu na minha direção.
- E aí, Tina? Conseguiu alguma coisa na prefeitura? Um prazo? Qualquer coisa?
Neguei com a cabeça, sentindo um nó doloroso apertar minha garganta.
- Nada, Tati. Nós fomos engolidas pelo sistema. O engravatado venceu... o dinheiro venceu. Sempre vence.
A Tati limpou uma lágrima que escorreu pelo seu rosto, mas respirou fundo e segurou minhas mãos com força.
- Não chora, Tina. Aquele mauricinho pode derrubar essas paredes, mas não vai derrubar a gente. Nós vamos encontrar outro lugar, um bairro mais barato, e vamos reabrir. Eu devolvi o dinheiro dos alunos, como você disse, sua conta está zerada, Tina, sinto muito. E eu também passei a noite empacotando tudo o que consegui tirar das paredes. Os neons, os colchonetes, as caixas de som… o cano do pole dance principal está ali no canto. Eu chamei o meu primo, ele tem uma caminhonete velha e está vindo para levar tudo para a garagem da minha casa até você se reestruturar.
- O que eu faria sem você, Tati? - Eu a abracei, engasgada, com as lágrimas picando os meus olhos, mas eu não chorei.
Olhei ao redor, vendo o meu sonho desmontado e guardado em caixas. Quando a caminhonete do primo dela encostou na calçada. Nós três começamos a carregar as caixas pesadas o mais rápido que podíamos. Não foi rápido o suficiente.
O ronco brutal de um motor estremeceu o asfalto. Um jipe preto com o logotipo das Indústrias Montenegro parou no meio-fio, escoltando um trator gigantesco. Logo um caminhão também encostou. Um homem de capacete branco e prancheta na mão desceu, olhando para nós com total indiferença.
- O prazo expirou às oito da manhã, senhoritas. Afastem-se da fachada. Vamos iniciar o isolamento para a demolição. - Ele avisou sem nos dar a menor importância, a voz mecânica e fria.
- Foda-se a porra do seu prazo! Ainda faltam três caixas e a barra de ferro! Você não vai demolir comigo lá dentro. - Eu gritei, correndo até a porta, mas dois operários foram mais rápidos que eu e me barraram, praticamente me arrastando para longe. - Três caixas, seu filho da puta!
O homem do capacete branco bufou, revirou os olhos e fez sinal para outros dois homens, eles entraram e saíram rapidamente, jogando as três caixas e a barra de ferro aos meus pés.
- Pronto, sua mal educada! Agora cai fora. - O homem de capacete branco gritou para mim e fez um sinal.
Eu assisti em um estado de choque misturado com ódio puro, o braço mecânico do trator avançar contra a parede lateral. O som do tijolo se esmigalhando e o meu letreiro de neon roxo ser esmagado pelo ferro, destruindo tudo o que eu tinha e a minha dignidade. Eu perdi o meu estúdio. Perdi a minha renda. Meu Deus, minha avó!
Em pânico, lembrando da ameaça do meu Tio Aroldo, eu me despedi da Tati e peguei o primeiro ônibus de volta para casa. Eu precisava proteger a minha avó. Mas quando empurrei a porta da frente eu sabia que tinha algo errado. Aquele silêncio não era normal. Meu tio estava sentado na cozinha, tomando café com uma calma que me irritou. A porta do quarto dos fundos estava escancarada. O quarto estava vazio.
- Onde ela está, Aroldo? - A minha voz saiu como um rosnado, naquele momento ele deixou de ser o meu tio. - Onde está a minha avó?
Eu bati a mão na mesa, fazendo a xícara pular e derramar um pouco de café. Ele nem se deu ao trabalho de me olhar nos olhos.
- Eu avisei, Valentina. Sexta feira era o limite. Mas como eu soube que você perdeu o estúdio e não trouxe o dinheiro da cuidadora, eu assinei os papéis. A ambulância da prefeitura veio buscar a mamãe há uma hora. Ela foi para o abrigo público do setor Leste.
- Seu monstro desgraçado! Ela é a sua mãe! - Eu berrei, avançando e empurrando o peito dele com tanta força que ele quase caiu da cadeira. - Eu vou encontrar a minha avó. E eu juro por Deus que você nunca mais vai colocar os olhos nela!
- Você vai é arrumar as suas coisas e sair da minha casa. Até amanhã eu te quero fora. Eu já te aturei até demais, agora eu preciso cuidar da minha família. - Ele se levantou, conseguindo ser mais arrogante do que o Dante Montenegro. - E quanto a minha mãe, você não pode fazer nada, eu sou o curador dela.
- Seu monstro! Eu te odeio, Aroldo!
- Pode me odiar à vontade... fora da minha casa!
Eu não ia me lamentar por ser expulsa, eu tinha coisa mais importante para me preocupar. Eu fui para o meu quarto e juntei o pouco que eu tinha o mais rápido possível. Eu não tinha muita coisa, apenas o suficiente para encher uma mala grande e uma caixa de papelão.
Duas horas depois eu saí correndo, pegando um táxi com os poucos trocados que restavam na minha bolsa. Enquanto o taxi se afastava da calçada eu olhava com tristeza para a casa onde eu havia crescido, a casa que eu achei que era minha, mas era só uma caridade que o meu tio nos fazia nos deixando morar lá, como ele dizia depois que meus pais morreram.
Eu respirei fundo, precisava organizar as minhas ideias. Primeiro eu veria a minha avó, pediria a ela para aguentar firme, seria por pouco tempo. Depois eu veria o resto. O trajeto até o abrigo público do Setor Leste pareceu durar uma eternidade. Quando o carro parou, o meu estômago revirou.
"Dante"Eu fechei a porta do meu escritório ainda tentando controlar as batidas frenéticas do meu coração. Eu estava queimando por dentro, o cheiro da Valentina no meu corpo me virando o juízo, o gosto dela impregnando a minha boca. A Valentina deixou as intenções dela escancaradas para mim com aquela mini camisola rosa enfeitando o seu corpo. Ela tinha poder demais sobre mim, já me deixava louco quando não queria me seduzir, agora que ela sabia que eu não corria nenhum risco, ela arrancaria a alma do meu corpo com as suas ideias boas demais.- Saiu para correr, Dante? - O Murilo perguntou atrás de mim. - Eu...? Por que? - Eu me virei devagar e vi o Murilo e o Fausto me encarando.- Sei lá... você está ofegante, despenteado, um pouco vermelho... - O Murilo comentou e eu passei a mão no cabelo, só então me dando conta do sorrisinho sacana dele para mim. - Você não me tirou do meu repouso a essa hora para ficar de gracinha, não é, Murilo? - Eu desviei o olhar e fui me sentar na minha
"Valentina"No fim do dia, tinha sido um ótimo dia, apesar do Aroldo e de toda a corja de encostados. Apesar de que, uma coisa ainda estava me incomodando, ou melhor, uma pessoa, específicamente a que atendia por Dante Montenegro e encheu os meus ouvidos de palavras bonitas essa manhã. Ele tinha falado muito, mas até aquele momento não tinha feito nada! O Dante Montenegro estava agindo de forma estranha, e aquilo estava começando a me fazer pensar. Ele havia retornado de Boston com a notícia de que não havia mais restrição física e, por tudo o que já havia acontecido entre nós, eu pensei que ele não esperaria mais nem um segundo para arrancar a minha roupa e extravasar todo o tesão reprimido. No entanto, ele continuava contido. Ele me cobria de mimos, me tratava como se eu fosse preciosa e estava sendo extremamente carinhoso, mas não fazia nenhuma gracinha. Não entrou no banheiro enquanto eu tomava banho de manhã e nem me agarrou enquanto eu trocava de roupa no closet. Tinha algo e
"Valentina"Um homem de cerca de um metro e setenta entrou no escritório, acompanhado de mais duas moças e uma quantidade meio grande de araras abarrotadas de vestidos de festa. O meu queixo caiu diante daquela visão e da agilidade com que as duas moças converteram o escritório em um verdadeiro camarim privado. - Sr. Montenegro, é realmente um privilégio atender ao seu chamado. - O homem cumprimentou efusivamente.- O seu privilégio será vestir a minha esposa e a amiga dela para o baile beneficente de amanhã, Pierre. - O Dante respondeu e me apresentou. - Esta é a Sra. Montenegro, aquela é a Srta. Santana. Faça delas as mulheres mais lindas da noite de amanhã.- Oh là là! Mas são duas déesses! - O homem encarou a mim e a Tati deliberadamente dos pés a cabeça.- É o que, meu filho? Do que você nos chamou? - A Tatiana ficou de pé e encarou o homem que deu uma risada divertida. - Pardon, chérie! - O homem se aproximou da Tati e deu dois beijinhos no vento, porque ele nem tocou o rosto
"Valentina"Apenas ouvir o nome do meu tio era suficiente para me deixar mal humorada. E quando o Murilo conectou o tablet à grande tela de televisão da parede, eu quis so'cá-la. Eu dei uma olhada para o Dante, ele estava nitidamente preocupado e sentindo um profundo desagrado que me fez estremecer, nada que vinha dos Camargo era bom, mas a nova mania deles de divulgar vídeos na internet era realmente enervante. A nova bomba estava escancarada na tela, e o problema do dia era o mais perverso golpe do Aroldo.No vídeo que já começava a viralizar nas páginas de fofoca da internet, o meu tio aparecia sentado em um escritório improvisado, limpando a testa e fazendo um teatro midiático deplorável. Ele usava os pequenos lapsos de memória e o histórico do AVC antigo da Vó Isabel para tentar me massacrar outra vez.“Eu não queria vir a público discutir os problemas da nossa família, meus amigos…” - O Aroldo mentia na gravação como se estivesse concorrendo a um prêmio, forçando uma voz chorosa
"Valentina"Depois que o Dante se retirou, o Otto e a Aurélia também sairam da mesa sem dizer uma palavra mais, mas só depois de se entreolharem e olharam para o ponto atrás de mim, meu segurança. Eles sabiam que o Fausto contaria qualquer coisa ao Dante e, naquele momento, não era conveniente para nenhum dos dois irritar ainda mais o meu marido. Eu terminei o meu almoço pacientemente, conversei um pouco com a D. Marta e depois eu fui atrás do Dante. Eu queria mais detalhes sobre como seria o tratamento dele e também queria saber qual era o novo problema que o mensageiro trouxe. Mas eu também queria saber da Tati.Eu dei uma leve batida na porta do escritório e abri. O Dante estava sentado atrás da imensa mesa de mogno, olhando para a tela do tablet com uma expressão de ódio mortal, enquanto o Murilo tamborilava os dedos sobre a mesa. Eu cruzei os braços sobre o peito, parei diante da mesa e fixei os meus olhos direto no Dante.- Certo, já sei que o advogado trouxe mais um problema.
"Valentina" Eu acordei cheia de energia, com a sensação de que as coisas estivessem finalmente começando a dar certo. Eu pensei em pular na barra de poledance, mas o Dante me segurou e me lembrou dos cuidados da fertilização. Ele estava todo carinho e atenção comigo. Tudo parecia melhor, ou quase tudo, porque as caras da Aurélia e do Otto não tinham conserto. Eles eram a personificação da inveja e do despeito. Mas eu não ligava para eles. Para mim o almoço de sexta feira tinha o gosto doce da nossa esperança naquele tratamento. O Dante e eu trocávamos pequenos sorrisos de contentamento e carinhos discretos ou nem tanto. Ele segurava a minha mão, eu levava um pouco da minha comida à boca dele, nós falávamos baixinho, ignorando completamente a presença dos outros dois azedos. Mas uma coisa me intrigava. Eu pensei que com a "liberação médica para atividades físicas", o Dante não fosse perder tempo e me agarraria assim que acordasse. Mas não foi isso que aconteceu. Ele continuava cont







