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Capítulo 7: A derrota final

Autor: Maria Anita
last update Data de publicação: 2026-07-17 11:28:54

"Valentina"

Eu me arrastei pela calçada e parei em frente ao prédio que até o final do dia não existiria mais. Na fachada da loja onde o meu estúdio funcionava, o letreiro que eu tinha pago em suaves prestações estava apagado. Eu também estava apagada. Eu não tinha dormido um minuto sequer.

Depois que saí do escritório do Dante Montenegro eu fui direto a um advogado que me tirou todas as esperanças, ele foi categórico: “Menina, contra as Indústrias Montenegro não tem liminar que segure. O dinheiro deles fechou todas as portas.” Mesmo assim, esta manhã eu me enfiei nas salas burocráticas da prefeitura. Não adiantou. Tudo o que eu consegui foi um balde de água fria.

Eu tomei coragem e empurrei pela última vez a porta do estúdio, com os ombros caídos e os olhos ardendo. A Tati estava no centro da sala, cercada por caixas de papelão. Quando ela me viu, largou a fita adesiva e correu na minha direção.

- E aí, Tina? Conseguiu alguma coisa na prefeitura? Um prazo? Qualquer coisa?

Neguei com a cabeça, sentindo um nó doloroso apertar minha garganta.

- Nada, Tati. Nós fomos engolidas pelo sistema. O engravatado venceu... o dinheiro venceu. Sempre vence.

A Tati limpou uma lágrima que escorreu pelo seu rosto, mas respirou fundo e segurou minhas mãos com força.

- Não chora, Tina. Aquele mauricinho pode derrubar essas paredes, mas não vai derrubar a gente. Nós vamos encontrar outro lugar, um bairro mais barato, e vamos reabrir. Eu devolvi o dinheiro dos alunos, como você disse, sua conta está zerada, Tina, sinto muito. E eu também passei a noite empacotando tudo o que consegui tirar das paredes. Os neons, os colchonetes, as caixas de som… o cano do pole dance principal está ali no canto. Eu chamei o meu primo, ele tem uma caminhonete velha e está vindo para levar tudo para a garagem da minha casa até você se reestruturar.

- O que eu faria sem você, Tati? - Eu a abracei, engasgada, com as lágrimas picando os meus olhos, mas eu não chorei.

Olhei ao redor, vendo o meu sonho desmontado e guardado em caixas. Quando a caminhonete do primo dela encostou na calçada. Nós três começamos a carregar as caixas pesadas o mais rápido que podíamos. Não foi rápido o suficiente.

O ronco brutal de um motor estremeceu o asfalto. Um jipe preto com o logotipo das Indústrias Montenegro parou no meio-fio, escoltando um trator gigantesco. Logo um caminhão também encostou. Um homem de capacete branco e prancheta na mão desceu, olhando para nós com total indiferença.

- O prazo expirou às oito da manhã, senhoritas. Afastem-se da fachada. Vamos iniciar o isolamento para a demolição. - Ele avisou sem nos dar a menor importância, a voz mecânica e fria.

- Foda-se a porra do seu prazo! Ainda faltam três caixas e a barra de ferro! Você não vai demolir comigo lá dentro. - Eu gritei, correndo até a porta, mas dois operários foram mais rápidos que eu e me barraram, praticamente me arrastando para longe. - Três caixas, seu filho da puta!

O homem do capacete branco bufou, revirou os olhos e fez sinal para outros dois homens, eles entraram e saíram rapidamente, jogando as três caixas e a barra de ferro aos meus pés.

- Pronto, sua mal educada! Agora cai fora. - O homem de capacete branco gritou para mim e fez um sinal.

Eu assisti em um estado de choque misturado com ódio puro, o braço mecânico do trator avançar contra a parede lateral. O som do tijolo se esmigalhando e o meu letreiro de neon roxo ser esmagado pelo ferro, destruindo tudo o que eu tinha e a minha dignidade. Eu perdi o meu estúdio. Perdi a minha renda. Meu Deus, minha avó!

Em pânico, lembrando da ameaça do meu Tio Aroldo, eu me despedi da Tati e peguei o primeiro ônibus de volta para casa. Eu precisava proteger a minha avó. Mas quando empurrei a porta da frente eu sabia que tinha algo errado. Aquele silêncio não era normal. Meu tio estava sentado na cozinha, tomando café com uma calma que me irritou. A porta do quarto dos fundos estava escancarada. O quarto estava vazio.

- Onde ela está, Aroldo? - A minha voz saiu como um rosnado, naquele momento ele deixou de ser o meu tio. - Onde está a minha avó?

Eu bati a mão na mesa, fazendo a xícara pular e derramar um pouco de café. Ele nem se deu ao trabalho de me olhar nos olhos.

- Eu avisei, Valentina. Sexta feira era o limite. Mas como eu soube que você perdeu o estúdio e não trouxe o dinheiro da cuidadora, eu assinei os papéis. A ambulância da prefeitura veio buscar a mamãe há uma hora. Ela foi para o abrigo público do setor Leste.

- Seu monstro desgraçado! Ela é a sua mãe! - Eu berrei, avançando e empurrando o peito dele com tanta força que ele quase caiu da cadeira. - Eu vou encontrar a minha avó. E eu juro por Deus que você nunca mais vai colocar os olhos nela!

- Você vai é arrumar as suas coisas e sair da minha casa. Até amanhã eu te quero fora. Eu já te aturei até demais, agora eu preciso cuidar da minha família. - Ele se levantou, conseguindo ser mais arrogante do que o Dante Montenegro. - E quanto a minha mãe, você não pode fazer nada, eu sou o curador dela.

- Seu monstro! Eu te odeio, Aroldo!

- Pode me odiar à vontade... fora da minha casa!

Eu não ia me lamentar por ser expulsa, eu tinha coisa mais importante para me preocupar. Eu fui para o meu quarto e juntei o pouco que eu tinha o mais rápido possível. Eu não tinha muita coisa, apenas o suficiente para encher uma mala grande e uma caixa de papelão.

Duas horas depois eu saí correndo, pegando um táxi com os poucos trocados que restavam na minha bolsa. Enquanto o taxi se afastava da calçada eu olhava com tristeza para a casa onde eu havia crescido, a casa que eu achei que era minha, mas era só uma caridade que o meu tio nos fazia nos deixando morar lá, como ele dizia depois que meus pais morreram.

Eu respirei fundo, precisava organizar as minhas ideias. Primeiro eu veria a minha avó, pediria a ela para aguentar firme, seria por pouco tempo. Depois eu veria o resto. O trajeto até o abrigo público do Setor Leste pareceu durar uma eternidade. Quando o carro parou, o meu estômago revirou.

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